Blood Queen
7 Capítulo 7
Esperei até que todos do castelos fossem dormir para ir à biblioteca. Caminhei silenciosamente até ela não levei nenhuma vela, pois não queria chamar a atenção. Fui pelo caminho mais curto e cheguei rápido. Fazia frio ali e pude ver a neve caindo pelas enormes janelas do corredor e da própria biblioteca. Por sorte havia pegado uns fósforos na cozinha e pude acender algumas tochas presas à parede e então comecei a procurar. Comecei pelas prateleiras que ficavam no meio. Precisei de uma escada para alcançar as partes mais altas.
Procurei. Procurei.
Nada.
Alguns livros tinha os títulos bem interessantes, mas eu não poderia me distrair. Quando terminei de procurar em uma prateleira percebi que já iria amanhecer.
Droga.
Eu iria demorar meses até olhar tudo aquilo, pois eu tinha passado uma noite e só havia conseguido olhar em uma prateleira.
Praguejei enquanto apagava as tochas e depois voltei para meu quarto. Eu tinha que achar uma maneira mais fácil e rápida, pois meus olhos estavam doente de tantos nomes de livros que eu havia lido.
Depois do almoço a Sra. Mellyn me dispensou e eu estava indo ao meu quarto para dormir um pouco quando vi Jansen passar no final do corredor. Ele empunhava uma espada.
—Jansen. — Chamei.
Ele voltou e apareceu de novo.
—Sim? — Disse ele abrindo um sorriso.
—Vai haver alguma batalha? — Perguntei olhando para a espada e caminhando em sua direção.
Ele olhou para a espada, sorriu e voltou seu olhar para mim. — Sim e não. Sam me chamou para treinar e como ele raramente faz isso não hesitei, pena que não poderei ficar muito tempo, pois tenho uma reunião chata.
—Será que eu posso assistir? Ficarei quieta. — Eu disse animada. E realmente estava, pois eu queria ver se eles realmente sabiam lutar, principalmente Sam.
—É claro. Vamos. — Disse ele oferendo o braço.
Eu o segurei e caminhamos em direção à sala de treinamentos. No dia anterior, Gustav havia me mostrado onde ficava, eu até me interessei em fazer uns treinamentos noturnos, mas não tinha tempo para isso. Eu precisa encontrar os livros.
Quando chegamos à sala de treinamentos Sam já estava lá. A sala tinha paredes altas e as armas ficavam em prateleiras o centro era livre. Haviam janelas como na biblioteca e elas também davam para o mar.
—O que faz aqui? -Sam perguntou surpreso a me ver.
—Vim ver vocês treinarem. — Respondi inocentemente.
Ele não pareceu gostar. Eu caminhei até perto das janelas, subi três degraus e estava num patamar mais alto e me sentei no chão.
—Quero que me mostre o que você andou praticando. — Jansen disse a Sam enquanto rodava a espada na mão.
Observei quando Sam atacou e Jansen se defendeu. Outro ataque e defesa. Jansen não estava atacando, talvez tenha percebido que o amigo estava sob constante apreensão comigo ali no castelo e deixou que descarregasse isso durante o treino. Sam atacava bem, mas eram ataques previsíveis e Jansen sempre conseguia se defender, porém suas defesas eram ruins e ele sempre deixava pontos importantes sem defesa.
Eles ficaram nesse ataque e defesa por uma hora até que Jansen parou.
—Tenho que ir Sam. — Informou Jansen enquanto guardava sua espada.
—Tudo bem. Amanhã continuamos? — Sam estava ofegante.
—Sim e amanhã não tenho reunião, assim podemos treinar por mais tempo. — Jansen se virou até me encontrar. — O que achou Charlotte?
—Adorei. É violento, mas ao mesmo tempo empolgante.
—Que bom. Venha quando quiser.
Sorri e assenti.
—Até breve amigos. — Anunciou Jansen enquanto saia da sala.
Assim que ele saiu eu desci e fui até uma mesa cheia de armas.
—Não toque nisso. — Advertiu Sam atrás de mim.
—Não tocar em quê? — Eu peguei uma faca e me virei. — Nisso?
Sam arregalou os olhos.
Eu sorri e me voltei para a mesa. Soltei a faca e peguei dois bastões de madeira.
—Pegue isto. — Eu disse entregando um bastão a Sam. Eu caminhei até o centro do salão.
—Não vou lutar com você. — Anunciou ele ainda perto da mesa de armas.
—Está com medo? Isso é só um bastão, não vai mata-lo. — Sam segurou firme o bastão e caminhou até o centro ficando de frente pra mim, porém numa distancia aceitável. — Você precisa aprender a se defender melhor, antes de um bom ataque vem uma boa defesa.
Eu caminhei até mais perto dele e ataquei em um ponto em que ele defendia bem. Ele me atacou de volta, porém eu o golpeei nas costelas da direita. Sam gemeu e deu um passo para trás. Ataquei de novo e ele levantou o bastão para se defender, mas eu rodopiei e parei nas suas costas e bati com o bastão na base de seu pescoço perto do ombro esquerdo.
Ele se virou para me encontrar, porém eu passei o bastão pelas suas pernas e ele caiu de joelhos, eu bati a ponta do bastão no meio de suas costas e ele caiu de cara do chão e o bastão que ele segurava estava rolando par longe de seu alcance.
Afastei-me para olhá-lo. Eu poderia sentir seu sangue fervilhar de ódio.
—Antes de começar a me xingar. — Eu disse. — Quero que saiba que o que acabei de fazer foi apenas para lhe ajudar. — Ele se levantou e me fuzilou. — Cada ponto em que lhe bati com o bastão, é um ponto vulnerável e que em uma batalha se você for acertado com uma espada, sua chance de sobreviver é zero. — Caminhei até a mesa onde eu tinha apanhado o bastão e o coloquei novamente sobre a mesa. — Esses hematomas será para que você se lembre de treinar suas defesas.
—Por que fez isso? — Perguntou ele ainda me olhando com ódio.
—Porque caso eu entre em uma luta com você, não quero vencer tão fácil. — Eu disse e sai da sala antes que ele tentasse atirar uma faca em minha direção. Mas eu também não sabia o verdadeiro motivo por ter ajudo Sam. Só agi por instinto, eu acho.
Eu tinha que sair logo daquele castelo, pois estava me deixando envolver com aquelas pessoas. Primeiro Vikhy com sua história e agora ajudando Sam a treinar. Eu não poderia me deixar envolver e senti medo ao imaginar o que aconteceria se eu ficasse por muito mais tempo ali.
Já fazia uma semana desde que eu havia chegado naquele castelo e todas as noites eu ai para aquela maldita biblioteca e sempre volta pouco antes do dia amanhecer e sem encontrar nada. Eu já havia conhecido os monarcas e a família de Gustav já me tratava como se realmente eu fosse prima de Sam. Por algum motivo eu não estava mais aguentando suportar aquela mentira, as pessoas me tratavam tão bem que às vezes me esquecia o que eu realmente era.
Eu me encostei-me ao vidro congelado da porta da sacada de meu quarto. Eu precisava pensar em como achar aqueles livros e rápido, pois cada dia que passava meu coração se apertava mais e de uma forma que eu nunca tinha sentido. Viver ali estava me deixando fraca, não fisicamente afinal minhas bochechas estavam coradas como há muito tempo não ficavam e eu também havia ganhado peso, mas eu estava fraca emocionalmente e mentalmente. Ficar longe de meu pai era horrível e ficar num lugar onde as pessoas se divertiam mesmo no inverno não era agradável. Não para mim.
Batidas na porta de meu quarto me tiraram dos pensamentos.
—Charlotte? — Chamou Gustav do outro lado da porta.
Eu sai de perto da porta de vidro e fui até a porta de entrada. Abri.
—Olá. — Eu disse ao abrir a porta.
—Está ocupada?
—Não. Por quê?
—É que... bom... eu e os rapazes vamos tomar um vinho numa sala lá em cima. Eu estava pensando se você, talvez quisesse ir. — Disse ele um pouco desajeitado.
—Aceito. — Talvez me embriagar um pouco ajudaria a esquecer do que estava acontecendo e o que aconteceria se eu não pensasse em algo para conseguir o livro e sair dali o quanto antes.
Eu fechei a porta e segui Gustav até o último andar do castelo. Quando entramos na sala, Sam e Jansen estavam jogados em sofás que ficavam no centro da sala. A sala era quente e o piso era todo de carpete bege. Havia uma enorme vidraça que tinha vista para uma sacada que estava coberta de neve. Haviam pequenos candelabros pendendo do teto. Atrás dos sofás estava à lareira e em meio aos sofás que ficavam em um nível um pouco mais baixo que o restante da sala, estava duas garrafas de vinho.
Jansen se sentou no sofá a me ver, já Sam continuou como se nem me visse.
—Olá. — Cumprimentei educadamente.
—É bom vê-la. Aceita? — Disse Jansen apontando para uma taça vazia sobre a mesa.
Assenti e me sentei ao seu lado. Gustav já havia enchido sua taça e a tomava tranquilamente enquanto se recostada no sofá ao lado de Sam.
—Não sabia que estavam recrutando novos membros para o nosso momento. — Comentou Sam preguiçosamente e sem dar o trabalho de me olhar.
—Nosso momento? — Perguntei surpresa.
—Costumamos vir aqui pelo menos duas vezes no mês para beber e jogar conversa fora. — Respondeu Jansen educadamente.
—Eu posso me retirar. — Eu disse, mas sem fazer menção de me levantar.
—Não ligue para que Sam diz. -Comentou Gustav.
Sam apenas levantou uma sobrancelha e me olhou. Eu tomei um gole do vinho.
—Ontem à noite vi você saindo da biblioteca. — Eu quase engasguei quando Gustav disse aquilo.
—Você pode visitar a biblioteca durante o dia. — Disse Jansen.
Sam me olhava de um jeito estranho.
Engoli em seco.
—É que ontem perdi o sono e resolvi ir à biblioteca para ler um pouco. — Respondi por fim.
—Você disse que irá embora em breve. Quando pensa em fazer isso? — Disse Sam mudando de assunto e chamando a atenção de Gustav e Jansen.
—Em poucos dias, ainda não tenho uma data exata. — Respondi e dei outro gole no vinho.
—Mas você acabou de chegar. — Reclamou Gustav.
—Sim, mas eu não vim para ficar por muito tempo mesmo. Apenas estava cumprindo a promessa que fiz aos pais de Sam. — Vi que ele se encolheu um pouco. — Mas eu pretendo conhecer Wydder. Passei toda minha vida em uma aldeia minúscula e ouvindo histórias. Agora eu quero conhecer reinos e saber se tudo o que ouvi realmente é verdade.
—No seu lugar eu faria o mesmo. — Comentou Jansen. — Wydder tem lugares encantadores.
Eu sabia que tinha. Eu já tinha visto lugares incríveis que a floresta Gwyrltt escondia.
—Só espero que venha nos visitar de vez enquanto. — Disse Gustav.
—Eu virei. — Eu precisava mudar de assunto. — Por que vocês não convidam a Vikhy para beber com vocês?
Sam se engasgou e deve que se sentar. Gustav o ajudou. Jansen gargalhou e eu não entendi nada.
—Digamos que ela não é uma pessoa interessante. — Respondeu Jansen ainda sorrindo.
Sam já havia se recuperado.
—Ela é Sam já tiveram um romance e que não terminou muito bem. — Disse Gustav.
Olhei para Sam que se demorava para tomar o vinho.
—Já faz um tempo. Foi logo quando ela chegou e foi algo rápido. — Disse Sam por fim.
—Mas parece que para ela não foi algo rápido. — Brincou Jansen.
—Aquela garota é maluca. — Comentou Sam.
—O que ela fez? — Eu não conseguia imaginar o que Vikhy poderia ter feito.
—Depois que terminei com ela, aquela louca tentou se jogar daquela sacada. — Respondeu Sam e apontou para a sacada além das vidraças.
Sorri ao pensar na cena e nunca me passaria na cabeça algo do tipo. -Coitada.
—É cada maluca que me aparece. — Disse Sam e tomou um gole de vinho. Eu o fuzilei.
—Pode ser maluca, mas é muito bonita. — Comentou Gustav sorrindo.
—E você Gustav? Tem mais sorte que Sam? — Perguntei em tom de brincadeira.
Sam e Jansen gargalharam e ele fingiu ficar sério. — É claro que tenho. As donzelas adoram um homem de olhos verdes.
Sorri. — Deve ser por isso que mal te vi no baile de inverno.
—Exatamente. Eu sou irresistível. Não é mesmo? — Ele deu uma piscadela para mim.
Eu apenas bebi meu vinho. Gustav era bonito e divertido.
—E você? — Perguntou Jansen.
—Eu o quê? — Me fiz de desentendida.
—Já teve muitos romances?
—Não. — Sorri e senti minhas bochechas corarem, pois era verdade. Conseguia contar nos dedos quantos rapazes já havia beijado afinal flertar com alguém quando seu pai vive na sua sombra não é nada fácil. — Minha aldeia era muito pequena e os poucos rapazes que tinha, em sua maioria, já estavam comprometidos e também nunca liguei pra isso.
—Que belo exemplo de prima. — Brincou Sam.
—Voltando ao assunto de Vikhy, — eu disse e me arrependi — Vocês sabem da história dela, não é mesmo? — Eu não tinha noção do motivo daquele assunto ter ficado em minha mente.
—Sim, mas mesmo ela tendo sofrido em Singart isso não é motivo para tentar se matar e também ficar me perseguindo. -Respondeu Sam.
—Perseguindo? — É eles tinham razão, Vikhy era maluca apenas de não parecer.
—Pois é, parece que não é só o Gustav que é irresistível. — Disse Sam abrindo um sorriso.
—Charlotte, não vai perguntar a Jansen sobre sua vida amorosa? — Questionou Gustav.
—Não, depois que vi como as moças o disputavam por causa de uma dança com ele durante o baile, não tenho duvidas que ele já tenha tido vários romances.
—Ai é que você se engana. — Comentou Jansen. — Eu não sou assim. — Ele estava com um tom irônico na voz.
Eu apenas sorri e fingi acreditar.
Eu observei uma pintura que ficava pendurada na parede atrás do sofá onde Gustav estava e sob a pintura estava um aparador. A pintura remetia a planícies verdes e castelos magníficos com trepadeiras nas paredes e muitas flores ornamentavam as laterais da pintura.
—Bela pintura, não acha? — Comentou Jansen ao perceber que eu a olhava.
—Sim, é linda. São os castelos das fadas?
—Não. — Respondeu ele sorrindo. — Essa pintura foi um presente do rei élfico.
Meu estômago gelou.
—Você conhece o reino élfico? — Perguntei um pouco tensa.
—Sim. Eu tinha uns seis anos não me lembro muito daquele lugar.
—Eu me lembro de que eu e Sam choramos aos pés do rei para nos deixar ir junto, mas não deu muito certo. — Comentou Gustav.
—Tenho curiosidade de conhecer aquele reino. — Disse Sam.
—Vocês costumam viajar juntos? — Perguntei mudando de assunto. Eu não queria que falassem sobre o reino élfico e muito menos daquele rei. E desde quando um rei élfico presenteava um reino humano?
—Às vezes. Quando nos deixam ir. — Respondeu Gustav.
—Ele ainda é ressentido por causa da visita as terras élficas que ele não pode ir. — Comentou Jansen sarcasticamente.
Eu sorri.
Passamos um bom tempo conversando e nos embriagando. Até mesmo Sam parecia ter esquecido que eu já havia colocado uma faca em sua garganta. Eu deixe que aquelas conversas bobas me divertissem e me distraíssem.
Jansen se ofereceu para me acompanhar até meu quarto visto que eu estava tonta aceitei. Esperei na porta enquanto ele conversava com Sam e Gustav e depois ele me acompanhou.
—Essa noite foi divertida, não é mesmo? — Perguntou Jansen.
—Sim. É muito legal ver como vocês três se dão bem. — Respondi.
—Sam ficou muito feliz em saber que tem uma prima como você.
—Como assim?
—Ah, é que você não é como essas garotas que só pensam em arranjar um marido rico para sustenta-las.
Sorri. — Nisso você tem razão.
—Você está ficando convencida demais, acho que deve parar de andar com Gustav. — Brincou Jansen.
Paramos em frente à porta de meu quarto Jansen se virou para ficar de frente comigo. Ele estava perto demais.
—Eu também fiquei feliz em conhecê-la. — Disse ele apoiando uma das mãos na parede atrás de mim e se aproximando ainda mais.
Eu me escorei na parede e o encarei. Jansen continuou se aproximando e quando seus lábios estavam próximos dos meus eu virei o rosto. Ele sorriu e deu um beijo em minha bochecha e se afastou um pouco, mas sua mão continuava na parede.
—Agora você está devendo duas moedas de prata para Sam e Gustav. — Eu disse sorrindo.
—Isso é trapaça. Não vale. — Reclamou ele dando um passo para trás e retirando a mão da parede.
Era isso que Sam e Gustav estavam falando enquanto eu esperava a porta, eles apostaram que Jansen não iria me beijar.
—Eu custo tão pouco assim? Duas moedas? — Franzi a testa e cruzei os braços.
—É o que tínhamos no bolso. — Explicou Jansen.
—Da próxima vez, apostem mais alto. — Brinquei. — Obrigada por me acompanhar. — Eu disse abrindo a porta de meu quarto e dando as costas a Jansen.
—Boa noite. — Disse ele enquanto eu fechava a porta.
Caminhei até a lareira e pus mais lenha e me deitei na cama. Graças ao sangue élfico que também corria em minhas veias, eu não estava bêbada, para conseguir tal feito precisaria de muitas garrafas de vinho. Concentrei-me em lembrar-se das conversas tolas que tive com os garotos, pois não queria pensar em meu pai e nas centenas de exemplares que ainda tinha que ler. Eu fechei os olhos e deixei que o sono me embalasse.
Na manhã seguinte enquanto ia para a cozinha ouvi conversas vindas do corredor de quadros. Diminui a velocidade de minha caminhada e consegui ouvir com mais clareza. Eram as vozes da rainha e da Sra. Mellyn. Eu parei para ouvir sobre o que estavam falando.
—Tem certeza disso? — Perguntou a Sra. Mellyn, ela parecia preocupada.
—Infelizmente. Um mensageiro acabou de sair daqui e nos trouxe essa notícia. — Respondeu a rainha apreensiva.
—Só de pensar que aquele rei e seus lambe-botas estarão sob o mesmo teto que nós me enoja.
—Pelo mesmo temos uma semana para nos preparar para a sua chegada. Nessas horas eu queria ser uma criada para não ter que ficar olhando e sorrindo para aquele povo de Singart.
Eu senti o chão se abrir. O rei de Singart estaria ali em uma semana. Não, não. Ele me conhecia, já vira meu rosto. Eu não conseguiria encontrar aqueles livros em uma semana.
Ouvi as duas mulheres sorrindo e voltei a ouvi-las.
—Leya, — Sussurrou a rainha. — Quero lhe pedir algo. — Sua voz era fria e toda a brincadeira havia sumido.
—Pode dizer. — Respondeu a Sra. Mellyn no mesmo tom que a rainha.
—Sei que posso parecer desconfiada demais, mas gostaria que não contasse a ninguém sobre isso. Apenas conte aos criados um dia antes. E... gostaria que ficasse de olho na Vikhy.
—Como quiser. Eu ficaria de olho naquela garota mesmo que não me pedisse. Depois o que ela vez com Sam, infelizmente não consigo ter plena confiança dela.
—Que bom. Muito obrigada minha amiga. Agora vou deixa-la trabalhar.
Minha cabeça estava fervilhando. Eu tinha que achar um modo que sair daquele castelo antes que o rei de Singart voltasse e acabasse com minhas esperanças de salvar meu pai. E Vikhy? Eu também tinha que tomar cuidado com ela. Talvez eu não fosse a única a mentir sobre o que realmente era, mas pelo menos o que acontecia dentro daquele castelo não me interessava.
Continuei minha caminhada até a cozinha. Depois de tomar o café eu comecei a lavar algumas louças. Eu estava começando a odiar aquilo. Nada de interessante acontecia naquele reino e mesmo se acontecesse eu estaria na cozinha. Tudo bem que ali era um reino bom e de iguais, mas era tedioso. Mesmo assim a ideia de morar ali depois da liberdade de meu pai ainda estava em minha mente. Isso se conseguisse achar os outros três conjuradores. Concentrei-me para não quebrar nada enquanto pensava que aquele rei nojento estaria ali. Eu já havia feito muitos serviços para ele. Certa vez ele me colocou em uma emboscada sem nenhuma arma e eu tinha que lutar com quatro brutamontes. Eu consegui sair viva, mas isso me custou a minha discrição, pois tive que mostrar meu rosto e graças aquilo agora ele me conhecia. Mas eu tinha dado o troco. Depois de me fazer lutar e mostrar meu rosto eu soquei a cara daquele rei e fugi, mas depois de um tempo ele precisou de meus serviços e teve que se colocar de joelhos para que eu pudesse aceitar. Sorri ao me lembrar da cena. Eu aceitava suas ofertas de serviços, pois ele pagava bem e como em minha vida o dinheiro era escasso não tinha como negar. Já ele se humilhava a pedir meus serviços, pois todos da sua corte não passavam de borra-botas e não queriam sujar suas mãos.
Voltei minha atenção às louças e depois para a porta. Sam, Gustav e Jansen entraram na cozinha e se sentaram para tomar o café da manhã. Eu estranhei, pois Jansen não tomava o café na cozinha e os outros não terem ido à cidade.
—Até que enfim resolveram levantar. — Disse a Sra. Mellyn.
—Estamos acabados. — Resmungou Gustav.
—Muito bonito. Enchem a cara e depois ficam ai parecendo que foram pisoteados por uma tropa. — A Sra. Mellyn os olhava com reprovação.
—Somos jovens tia. — Disse Jansen. Eu tinha ouvido bem? Jansen chamou a Sra. Mellyn de tia?
—Charlotte traga uma faca para mim. — Ordenou a mulher.
Peguei uma faca limpa e fui até a mesa onde a mãe de Gustav estava.
—Charlotte? O que faz aqui? — Estranhou Sam.
—Estou ajudando na cozinha como faço todos os dias. — Droga. Eu tinha me esquecido como tinha bebido naquela noite.
—Não está sentindo nada? — Exclamou Gustav. Agora os três me encaravam.
—Só uma dor de cabeça.
—Temos que aprender com você. Afinal beber é ótimo, mas no dia seguinte é terrível. — Jansen parecia bem mal.
Sorri e voltei a lavar as louças. Senti o olhar de Sam em minhas costas. Ele estava desconfiado.
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