Blood Queen
5 Capítulo 5
Vesti meu vestido cinza e peguei minha mala. Quando desci vi a carruagem de Sam parada da porta da estalagem. Entreguei a chave do quarto para uma jovem de cabelos cacheados que avaliava as próprias unhas. A mocinha sorriu levemente e sai antes que ela perguntasse algo.
Sentei-me ao lado de Sam num pequeno banco. Ele parecia ainda tremer e olhava fixamente para a estrada. Seguimos em direção ao castelo.
—Já pensou no que dirá para seus familiares? — Perguntei enquanto arrumava minha saia.
—Você dirá que é minha prima, que nos falamos há pouco tempo por cartas e que você só apareceu agora porque cuidava de sua mãe doente. E também diga que sabia onde me encontrar porque meus pais lhe disseram. -Disparou Sam ainda olhando para a estrada.
Estávamos passando pelo bosque.
—Certo. — Eu disse, mas na verdade queria perguntar como ele havia pensado em algo assim tão rápido.
—Eu não moro com meus familiares, são amigos. — A voz dele parecia distante.
—Informação importante.
—Pra quê? Para mata-los? — Sam praticamente gritou e dessa vez olhou para mim.
—Também, — respondi calmamente. — mas se não me dissesse iria fingir ficar feliz ao ver seus pais. Meus tios temporários.
Sam olhava a estrada agora e suspirava pesadamente.
O castelo estava próximo e pude notar o belo jardim na entrada e enormes escadarias. O castelo era grande e majestoso, mas não tinha o encanto do castelo élfico. Seguimos para os fundos do castelo. Havia uma movimentação maior ali. Criados entravam e saiam do castelo carregando malas e cocheiros seguiam para os estábulos.
Sam parou a carruagem e desceu. Fiz o mesmo e o segui para dentro do castelo. Entramos num hall largo e quente e com quadros pendurados na parede. Ele seguiu em frente e entrou numa porta à direita. Era a cozinha. Era grande e fervilhava de pessoas, panelas e caldeirões de diversos tamanhos fumegavam sobre dois fogões que ficavam num canto. Fiquei parada perto da porta e segurando minha mala.
Sam apareceu ao lado de uma mulher baixa e de cabelos encaracolados, ele tinha olhos verdes como Gustav.
—Tia, quero lhe apresentar a Charlotte. — Disse Sam gesticulando para mim. A mulher arregalou os olhos e sorriu. — Ela não é minha namorada. Ela é minha prima.
O sorriso da mulher desapareceu e sua face se transformou em espanto. Ela deu um passo em minha direção.
—Por que só apareceu agora? -A voz dela era doce e trêmula.
—Minha mãe era muito doente, não poderia sair e deixa-la sozinha. Ela veio a falecer há pouco tempo. — Desviei o olhar para o chão de pedra. — Então resolvi cumprir o que havia prometido aos pais de Sam.
—Você os conheceu? — Perguntou a mulher segurando as próprias mãos com força.
—Sim. Eu os vi uma única vez e me disseram onde encontraria Sam.
—Por que fizeram isso? Abandonaram um bebê.
—Eu não sei.
Olhei para Sam e vi o sofrimento que aquela mentira lhe estava causando. Ele encontrou o meu olhar.
—Tia, será que ela pode ficar por um tempo aqui? — Perguntou ele fingindo um tom animador que não pareceu real.
— É claro que pode. — Ela olhou para ele. — Mas depois teremos que conversar e você deve avisar o rei sobre a estadia dela.
Ele assentiu.
A mulher tocou meu braço. — Venha. Vou lhe arrumar um quarto.
Seguimos por alguns corredores e subimos escadas até ela parar num corredor e entrar numa porta.
—Aqui está bom? — Perguntou ela assim que entrei.
O quarto não era grande. Havia uma cama com dossel e uma lareira pequena. Havia também uma pequena sacada que estava com as portas fechadas por causa do inverno. Na parede da cabeceira da cama estava uma porta de madeira que a mulher disse ser o closet e a sala de banho. Havia um pequeno candelabro dourado pendendo do teto e as paredes eram pintadas de branco e bege.
Coloquei minha mala sobre a cama.
—Está ótimo! Isso é quase maior do que minha antiga casa.
A mulher deu um meio sorriso.
—Eu quero ajudar. Sam me disse que hoje haverá um baile e eu já tive experiência em servir comidas em bailes. — Eu realmente já havia trabalhado em alguns bailes, mas o desfecho era sempre sangrento. Esse seria diferente. Apenas teria que fingir ser uma jovem camponesa pobre e disposta a alegrar a vida de seu primo.
—Toda ajuda é bem vinda. Bom, vamos até a cozinha.
Assenti e segui a mulher.
Passei o resto do dia cortando legumes e sorrindo quando a mulher me apresentava para algum criado. Eles pareciam ficar felizes ao saber que Sam havia encontrado algum familiar. Fui dispensada para tomar banho e me trocar. Eu iria ficar no salão de festas fazendo a reposição na mesa de salgados. Segurei-me para não abraçar a tia de Sam quando ela distribuiu as tarefas para cada um na cozinha. Ela havia me entregado um vestido verde jade de chiffon. Era simples, de mangas longas e a saia não era rodada.
Vesti-me rápido e prendi uma parte do cabelo com pentes dourados. Abri a porta e dei de cara com Sam. Ele me olhou de cima a baixo. Notei que ele não estava sozinho.
—Esta é sua prima Sam? — Perguntou seu acompanhante. Ele tinha a mesma altura de Sam, cabelos negros e olhos castanhos. Tinha ombros largos e vestia um casaco verde escuro com bordados dourados e notei uma espada com cabo ornamentado que estava repousando ao lado esquerdo. Era o príncipe.
Sam apenas assentiu.
—Príncipe Jansen de Andrya. -Disse ele pegando minha mão e dando um leve beijo.
—É um prazer conhece-lo, príncipe. — Eu disse fazendo uma reverência e sorrindo timidamente.
—Me chame apenas de Jansen.
—Como preferir.
—Bom, agora que conheceu minha prima pode seguir para o salão. -Disse Sam um pouco incomodado.
—Está com ciúmes Sam? — Provocou o príncipe.
Sam revirou os olhos. — É claro que não. Apenas não quero que o rei coloque a culpa em mim por atrasar sua chegada ao salão.
O príncipe sorriu e olhou para mim. — Te vejo no salão. E saiu.
—Então o príncipe de Andrya é seu amigo, interessante. — Eu disse sorrindo enquanto começa a caminhar em direção a cozinha.
Sam me segurou pelo braço. -Você prometeu que não mataria ninguém. -Disse ele entre dentes.
Olhei para a mão dele em meu braço e voltei a encontrar seu olhar. — Nunca mais me toque. -Puxei meu braço e me afastei de Sam. — Eu cumpro com minhas promessas. Não abra a boca e ninguém morre. — Eu segui para a cozinha, dessa fez ninguém me interrompeu.
Quando cheguei ao hall de quadros e ia abrir a porta da cozinha, Vikhy me interrompeu. Ela era criada do castelo, uma bela jovem de cabelos amarelos e olhos verdes. Ela tinha ficado ao meu lado enquanto cortava legumes mais cedo e não tinha parado de tagarelar sobre como estava ansiosa pelo baile, principalmente para ver os jovens nobres. Ela também vestia um vestido verde igual ao meu, seu cabelo estava preso em um coque alto.
—Onde você pensa que vai desse jeito? — Brincou ela enquanto se aproximava de mim.
—Na cozinha. Tenho que ajudar a levar os alimentos para o salão. — Não tinha entendido sua pergunta.
—Isso eu sei. Eu estou falando que você precisa de cores nesse rosto. -Ela segurou minha mão e me puxou para o corredor. — Ainda está cedo. E vou aproveitar para lhe maquiar.
Eu engoli em seco.
Seguimos pelo corredor e viramos e esquerda depois subimos um pavimento, mais corredor e chegamos ao quarto dela. Era igual ao meu, porém no lugar da cama de dossel estava uma beliche. Ela dividia o quarto com a irmã mais nova, alegara. Ao lado da lareira estava uma penteadeira cheia de cosméticos. Ela me arrastou até a banqueta que ficava sob a penteadeira e me sentei.
Ela começou a passar cremes e blush, rímel e coloriu meus lábios de rosa.
—Pronto! Está radiante. — Disse ela saindo da frente do espelho para que eu pudesse me ver.
Sim, eu estava radiante. Havia décadas desde que eu não me maquiava ou alguém fizesse isso por mim. Enquanto me admirava no espelho pensei que poderia ter uma vida diferente da que eu e meu pai levávamos. Talvez depois que ele estivesse livre possamos viver ali naquele reino. Olhei para Vikhy que sorria como uma criança que acabara de ganhar doce. Uma amiga. Nunca ninguém havia me feito algo sem esperar algo em troca, mas ela acabara de fazer mesmo não sabendo nada sobre mim.
—Obrigada. — Fui sincera.
—Certo, agora temos que ir se não a Sra. Mellyn ira descontar todo o seu nervosismo desse baile em nós.
Nós voltamos para a cozinha que já fervilhava de criados vestidos de verde, as mulher com vestidos idênticos ao meu e os homens de calça preta, um casaco verde escuro e sob ele uma camisa branca.
Peguei uma bandeja de trouxinhas de carne e segui pela porta vai e vem que não parava quieta. Segui por um corredor longo e ao final subi uma escadaria larga e cheguei ao salão. Estava todo ornamentado de verde e dourado. O piso era de mármore bege e o teto alto havia pinturas em forma de arabescos e dele pendia vários lustres enormes de cristal e ouro. Em ambos os lados do salão havia janelas que iam até o teto, em algumas as cortinas verdes estavam fechadas. Ao lado direito da porta e mais para o fundo ficava em um patamar com duas cadeiras douradas. Para o rei e a rainha. Do lado esquerdo, na entrada do salão, uma escadaria que era divida em duas subia até a porta de acesso ao salão. Estava quente ali e apenas criados caminhavam de um lado para o outra dando os últimos toques. Tudo tinha que estar devidamente arrumado para quando os nobres chegassem.
A mesa de salgados ficava logo ao lado esquerdo de onde eu tinha chegado. Sorte.
Depois de ir e vir da cozinha carregando bandejas e subindo aquela escada minhas pernas doíam e agradeci por estar usando minha velhas botas.
O salão já começava a encher de nobres. As mulher com seus vestidos requintados e os homens em seus ternos de cores sóbrias. Havia uma pequena orquestra que ficada do lado esquerdo do patamar real e eles entoavam músicas alegres e antigas.
Quando a família real entrou no salão todos que estavam ali fizera uma pequena reverência, inclusive eu, pois tinha que entrar no personagem. O rei vestia verde e a rainha um belo vestido vermelho. O príncipe estava com a mesma roupa que quando havíamos nos encontrado, agora sobre sua cabeça estava uma coroa, não tão ornamentado e rica como de seu pai, o rei. Eles seguiram para o patamar e ocuparam suas cadeiras.
Algumas pessoas dançavam, outras apenas ficavam conversando, os criados passavam servindo vinho. Observei o príncipe dançando com algumas belas jovens, algumas não conseguiam esperara a vez para dançar com o ele e praticamente arrancavam a sua parceira de dança para lhe tomar o lugar. O príncipe apenas dava uma pequena revência. Sai do salão e fui até a cozinha buscar uma bandeja de salgados e quando retornei ao salão, Jansen estava na mesa de salgados. Pus a bandeja sobre ela e retornei ao meu posto na ponta da mesa e perto da porta.
—Está maquiagem ficou bem em você. — Elogiou ele ao pegar um bolinho de carne e se aproximar de mim.
—Obrigada. — Agradeci sorrindo timidamente.
—Você deve achar que aqui nesse reino somos exploradores, não é mesmo.
—Exploradores!?
—Sim, mal chegou e está tento que trabalhar.
—Que isso. Gosto de ajudar. — Eu peguei uma trouxinha de carne e levei a boca. — E está sendo um prazer ficar neste posto.
Ele sorriu.
Percebi que algumas jovens não estavam muito contentes ao ver o príncipe conversando comigo.
—Ai está você! — Alguém praticamente gritou ao dizer e me virei para a escadaria do corredor e pude ver Gustav subindo as escadas apressado.
Ele veio ao meu encontro de braços abertos e me abraçou fortemente.
Eu recuei um passo para trás quando ele me soltou do abraço. Notei que ele era apenas alguns centímetros mais alto do que eu.
—Eu me chamo Gustav. Sam é meu melhor amigo. -Jansen pigarreou. — Você é meu segundo melhor amigo.
—É um prazer conhece-lo, Gustav. — Eu disse em tom mais doce que conseguia.
Ele alargou o sorriso e Jansen lhe deu uma cotovelada de leve nas costelas.
—Qual é Jansen? Ah cara. Você não perde uma. — Reclamou Gustav.
—Desculpe, mas não estou entendendo. — Eu sabia que ele estava se referendo a mim, mas eu deveria ser ingênua.
—Não é nada demais. — Respondeu o príncipe.
—Certo. — Me virei para encarar Gustav. — Estou aqui para passar um tempo com meu primo — me virei para o príncipe — e não para ser cortejada.
Jansen ergueu os braços e Gustav deu um meio sorriso e disse — É, você realmente é parente do Sam.
—Tenho que concordar. — Disse o príncipe já com os braços abaixados.
—Já estão atormentando a Charlotte. — Disse Sam ao sair na multidão e vir em nossa direção.
—Ainda bem que vocês tem a mesma chatice, porque se fosse à mesma beleza que você, coitadinha. — Comentou Gustav a Sam e eu lhe dei uma cotovelada. -Ai! — Reclamou ele.
—Não fale de mim como se eu não estivesse aqui. — Eu disse cruzando os braços.
O príncipe parecia se diverti com isso. E eu também. Olhei para a multidão que dançava, comia e bebia e além das donzelas que não tiravam os olhos do príncipe, ninguém mais se importava que ele estivesse conversando com criados em vez dos nobres. Eu já havia ido a outros reinos e nenhum deles era assim, jamais um príncipe poderia deixar a companhia dos nobres para dar atenção aos criados, mas ali era diferente. Andrya, o bom reino. Sim, era verdade. Ali havia igualdade verdadeira. Talvez nem todos concordassem com isso, mas a monarquia sim. Mais uma vez a ideia de que eu poderia ter uma vida ali me veio à mente.
—Sam, você não parece tão feliz. — Comentou o príncipe.
—Eu estou. Mas você sabe como fico quando o assunto são meus pais. — Mentira e verdade. Pude notar em seus olhos.
—Hoje é dia de comemorar e eu tive uma ideia. — Disse o príncipe e caminhou em direção ao patamar real.
Gustav, Sam e eu observamos o que o príncipe iria fazer.
—Só eu estou com medo do que ele vai fazer? — Perguntou Gustav ao meu lado direito.
—Não, eu também estou. — Respondeu Sam do meu lado esquerdo.
A orquestra parou de tocar e todos se voltaram para o patamar. Jansen estava de pé.
—Peço um momento da atenção de todos, por favor. — Disse ele a multidão que ia fazendo silêncio. — Eu quero agradecer a todos que puderam se fazer presente aqui esta noite. — Continuou ele. — Hoje é uma noite muito importante. Muitos acham que estamos loucos em comemorar a chegada do inverno, mas mal sabem eles que não estavam comemorando o frio. — Ouve pequenos risos na multidão. — Nós comemoramos o solstício de inverno, pois sabemos que depois de meses passando frio e uma escassez de alimentos e água, a primavera retorna e trás com ela dia alegres. Comemoramos essa data, pois sabemos que depois de dias ruins sempre teremos dias gloriosos. — A multidão aplaudiu as palavras do príncipe, inclusive eu. — Sabendo disso, hoje temos um exemplo do que lhes falei. Sam, meu grande amigo que sempre achou que sua família havia lhe abandonado — Sam encolheu ao meu lado — ele encontrou sua prima. — Jansen apontou para onde estávamos e a multidão se voltou para nós. — Por isso eu, príncipe Jansen, quero lhes oferecer uma dança.
O chão parecia se abrir aos meus pés. Dança. Eu não sabia dançar.
A multidão começou a abrir espaço para que passássemos, mas senti que Sam não queria aquilo tanto quanto eu.
—Estão esperando o quê? — Sussurrou Gustav.
Sam segurou minha mão e me arrastou para o centro do salão.
—Eu não sei dançar. — Confessei baixinho.
—Dois pra lá e dois pra cá. — Disse Sam pausando sua mão sobre minhas costas.
A orquestra começou a entoar uma valsa e Sam me conduziu. Tropecei algumas vezes até pegar o jeito.
Eu conseguia sentir os músculos tensos das costas de Sam. Pude imaginar o inferno que estava sua mente. Além de sustentar uma mentira e colocar dentro do castelo uma desconhecida, agora tinha que dançar com ela. No fundo até senti pena dele, mas passou quando ele me rodopiou e vi a multidão se tornar um borrão. Ele começou a dançar mais rápido e ropiavamos pelo salão. Até que a música parou e a multidão aplaudiu. Eu sai do centro e voltei ao meu posto ao lado da mesa e Sam e Gustav seguiram para qualquer que fosse a função deles.
O baile continuou até a comida acabar, talvez isso fosse uma estratégia para que o baile não durasse a noite inteira. Ajudei a levar as bandejas até a cozinha. Eu estava tão cansada que parecia que eu havia levado uma surra.
A Sra. Mellyn me dispensou dizendo que haviam outros que fariam a limpeza da cozinha. Agradeci e subi até meu quarto. O cansaço era tão grande que nem mesmo me troquei, apenas cai na cama e adormeci.
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