Não poderia ser o fim.

Se eu não conseguiria encantar a espada com os quatro elementos, pelo menos encantaria com três. Eu só precisava encontrar um conjurador do ar, eu conhecia algumas aldeias quase esquecidas em alguns reinos que talvez pudessem ter algum conjurador e então eu voltaria para aquele rei medíocre e dizer que não haviam mais quatro elementos de conjuração...

— Quem saqueou os livros? — Perguntei por fim.

— Charlotte, você está entrando numa jornada muito perigosa, por isso deve confiar em seus amigos.

— Eles não são meus amigos.

—Será? — Callyen se aproximou do pedestal elementar — Eles te seguiram até aqui, agora precisam continuar juntos. Para isso você deve contar sobre quem realmente é.

— Não contarei mais nada sobre mim.

— Há uma maneira de reunir todos os quatro elementos por alguns instantes...

— Por que não disse antes?

— Estou tentando — ele virou para me encarar com seus olhos azuis. Me senti estranha. — Um dos livros que foi saqueado era um livro de encantos, com esse livro é possível realizar um ritual de conjuração de um conjurador que não está mais nesse mundo.

Esperança.

— Então me diga onde esse livro está que eu o trarei.

Ele me encarou por alguns segundos e disse ainda com sua voz calmante :
— Não direi até você contar toda a verdade sobre você e essa jornada para Sam e Gustav.

Eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de ouvir. Eu estava tentando protegê-los de mim e... das consequências.

— Não posso. Callyen, entenda que eu não posso.

— Poder você pode. Você apenas não querer.

— O que eles têm de especial? Para mim são apenas dois garotos franzinos tentando se aventurar por ilusões que eles criaram do mundo.

— A minha condição já foi dita. Conte a eles a verdade e te contarei sobre os livros.

— Nunca. — Rebati.

Callyen se aproximou de mim.
— Então tenho algumas tarefas para vocês.

— Tarefas?! Não ficarei aqui, se você não quer me dizer onde essa droga de livro está, então vou procurar outro que saiba. — Eu me afastei dele e segui em direção a saída.

— Os únicos que sabem onde esses livros estão são os sacerdotes do Labirinto. — Parei. — E creio que eles ainda estão ressentidos pelo que você fez.

— Já faz uns oitenta anos. Esses sacerdotes e deuses são rancorosos demais. — Eu ainda estava parada perto do arco da entrada do salão e de costas para Callyen.

— O que você fez por lá não é algo que se esquece...

—Tudo bem. Não quero falar sobre isso. — Eu o interrompi. Não me arrependia do que fiz naquele lugar e não pediria perdão a ninguém.

—Acho que terá que ficar, não é mesmo? A menos que você conte tudo a eles, só assim você poderá ir atrás do livro e tirar o seu pai daquele reino. — Callyen estava atrás de mim quando terminou de falar.

Ele tinha vencido. Por enquanto.

Saímos do salão e seguimos pelas escadas escavadas na rocha e iam para onde havíamos deixado Sam e Gustav. Eles continuavam comendo. Sam me olhou duramente como sempre fazia e Gustav abriu um sorriso preguiçoso ao dizer:

— Achei que tinham nos abandonado.

—Ainda não. — Comentei lhe devolvendo um meio sorriso.

—Me acompanhem, por favor. — Disse Callyen se aproximando da margem da nascente. Uma ponte de água se formou e ele atravessou para a outra margem, onde eu só notara por agora a existência de uma passagem aberta na pedra.

Eu o segui. Gustav e Sam vieram logo atrás. Quietos demais.

Atravessamos a nascente e passamos pela passagem na pedra onde Callyen nos aguardava, ali se abria uma minuscula ante câmara de teto alto e abobadado e que mal nos cabia. Um único caminho se abria entre a rocha e seguia para cima. O local era quente e abafado, apesar de não haver nenhuma fonte de luz ou calor visível. Callyen começou uma subida silenciosa por aquele caminho. Nós o seguimos.

Subimos, subimos até a respiração de Sam e Gustav se tornar pesada. Eles pareciam exaltos, porém continuavam de boca fechada, mesmo eu sentindo o olhar furioso de Sam em minha costas. Callyen de vez enquando olhava sobre o ombro para ver minha reação ou para se certificar que os garotos ainda estavam conseguindo respirar.

Então Callyen parou sob um arco alto de pedra. Senti quando uma leve corrente de ar passou por mim e fez os fios soltos de minha trança balançarem. Parei ao lado direito de Callyen, onde ele observava uma extensa planicie escavada na montanha. As paredes de rocha avermelhada circundavam a planicie e se erguiam em forma de concha até o alto. Céu. Um buraco aberto no alto da planicie, a fonte daquela brisa que eu sentira. Estávamos em algum lugar no topo das Montanhas de Areia. Apesar de ser inverno fora da montanha ali dentro não havia nada que indicasse isso, nenhum floco de neve entrava por aquele enorme buraco no teto. Gustav olhava para o mesmo ponto que eu e pela careta que fazia imaginei que estaria pensando em por quê não nevava ali dentro.

—Como puderam notar no meu... celeiro ? — Callyen pareceu buscar a descrição que Gustav tinha dito. — Costumo manter um estoque de grãos e vocês chegaram em boa hora. -Callyen sorriu para mim de uma forma nada divertida. — Sou um velho solitário e preciso de ajuda. Preciso que cuidem da plantação.

—Que plantação? Só vejo uma terra dura. — Comentou Gustav avaliando a planicie.

—O que ganharemos com isso? — Questionou Sam encarando Callyen. O mesmo retribuiu o sorriso que a pouco me dera.

—Isso vocês me contaram no final. — Respondeu ele por fim.

—Isso não é nenhum tipo de prisão, não é? — Gustav perguntou calteloso.

—É claro que não — Respondeu ele e olhou para mim -Não com ela aqui.

Os garotos me olharam. Gustav talvez assustado, mas de Sam ódio fervilhava pelos olhos. Eu abri a boca para falar, mas Callyen começou:

—Preciso que preparem a terra para a plantação. — Uma abertura ao lado esquerdo do arco onde estavamos foi aberta. — Ali estão as ferramentas que precisarão para esse trabalho. Quando estiverem terminado me procurem. Callyen deu as costas e desapareceu rapidamente por aquele caminho que a pouco havíamos subido.

—Por que temos que fazer isso? — Gustav parecia perdido, confuso.

—Porque insistiram em viver uma aventura — Respondi perdendo a paciência. -Tenho uma péssima notícia: o mundo não é uma aventura. Pelo contrário, é perigoso, entediante e na maioria das vezes você é obrigado a fazer coisas que não queria estar fazendo.

—Então por quê fazer isso? — Questionou Sam em um tom baixo que estranhei.

—Porque preciso encontrar meu pai. Callyen possui seus próprios meios para ajudar e não vou questionar. Eu quase os estava mandando embora quando Gustav falou:

—Vou ajudar você a retirar seu pai de onde quer que ele esteja. Isso é aventura. Mundo real. Quero um dia poder ter histórias verdadeiras para contar aos meus filhos e netos. Não me importa que fique gritando ou de cara fechada, eu vou ajudar você. Essa será minha aventura e ela será com você. Gustav entrou na abertura onde Callyen havia tido que estariam as ferramentas.

Eu não sabia o que pensar. As palavras de Gustav me atingiram de uma maneira estranha. Ele pensava no futuro e isso era algo que eu não fazia, futuro para mim era simplesmente poder abrir os olhos a cada manhã. Isso me bastava. E tinha acabado de perceber que estava cometendo um grande erro.

— E você? — Perguntei a Sam que continuava parado no mesmo lugar de antes. — Vai me ajudar ou irá voltar para Aleil?

—Eu poderia voltar, mas não vou deixar Gustav sozinho com você e além do mais se eu voltar estaria fazendo um favor a você e eu não quero isso. — Sam seguiu Gustav e antes de passar pelo arco ele olhou sobre o ombro e piscou para mim.

Foi ali que percebi que não conseguiria me livrar deles tão cedo. Se isso era sorte ou azar eu ainda não sabia. Ainda.

Me aproximei da planície. Eu poderia preparar toda aquela planície com um estalo de dedos, mas era isso que Callyen queria e eu não faria isso.

Gustav se aproximou de mim e me entregou algo para ir afofando a terra. Então começamos.
Depois de algumas horas trabalhando percebi Sam amarrando uma faixa na mão direita. Provavelmente estava ferida por causa do trabalho que não estava acostumado a fazer. Gustav parou a meu lado e olhou para o alto. Segui seu olhar e percebi que estávamos no meio daquele buraco aberto no teto. Do lado de fora o céu era cinza. Inverno. Mas ali estava quente a ponto de estarmos todos suados.

—Como isso é possível? — Perguntou Gustav ainda encarando o alto.

—Magia. Encantos. -Respondi voltando a olhar para Sam que tentava dar um nó em sua atadura improvisada.

—Há outros lugares como esse?-Perguntou Gustav me olhando.

—Não mais. Esse é o único templo que não foi destruído durante a caçada. O único fora do Labirinto. Eu o encarei e percebi que seus olhos eram de um verde primavera e eram incríveis, pareciam brilhar e sorrir para mim.

—É possível um humano entrar no Labirinto? — Ele parecia bem interessado.

—Sim, mas apenas se o Labirinto permitir. Ele e os deuses. — Os quais ainda estavam zangados comigo.

—Nossa. — Gustav ergueu uma sobrancelha e perguntou: -Como sabe tanto sobre isso?

—As mocinhas vão ficar aí conversando ou voltarão ao trabalho? — Sam brandiu de onde terminará de amarrar a faixa e ele tinha me salvado da pergunta de Gustav.

Eu encarei Gustav e sorri ao dizer:
—Ouviu o general. E voltamos ao trabalho.

No fim do dia nós três estamos com bolhas e feridas nas mãos. A atadura de Sam não pareceu ajudar muito. Callyen fez os garotos enfiarem as mãos na correnteza do Kash e ele disse palavras tão antigas quanto aquelas rochas que nos cercava e então quando eles retiraram as mãos do Kash todos os ferimentos haviam sumido. Gustav me mostrou as mãos curadas e sorriu. Eu devolvi o sorriso. Sam também parecia imprecionado com o que Callyen havia feito.

Callyen me olhou e mostrei minhas mãos feridas para ele. Eu poderia ter me curado sozinha, tanto pelo meu lado élfico que me permitia uma cura mais rápida, tanto pela conjuração da terra, mas se fizesse isso os garotos perceberiam algo e eu não queria dar nenhuma explicação sobre isso. Callyen apenas deu um aceno com a cabeça e bolhas de água saíram da correnteza e flutuaram até minha mãos. Ele fechou os olhos e pude ver meus ferimentos sumirem dentro daquela bolha de água que minha mãos estavam.

—Obrigada. Creio que amanhã precisaremos dos seus dons de cura mais uma vez, visto que ainda temos muito trabalho por aqui. -Eu disse com um leve risinho nos lábios. Um tipo de provocação, pois eu não iria ceder ao pedido de Callyen tão cedo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.