Blood On Blood
3 03 Evan- Gonna make you an offer you can't refuse
Notas iniciais
Estava passando por uma das ruas sujas e escuras da Bulgária quando me deparo com uma casa abandonada, cheia de ratos, gambás e baratas.
E antes que pudesse pensar nos pedestres, talvez até inexistentes pelo frio e feiura do dia, fechei o portão da casa velha e lá dentro fiquei, com aquele cheiro doentio de vida e sangue novo. Sentei-me entre eles, sentei-me entre os ratos. Uns passavam, outros voltavam, outros apenas faziam ruídos... outros pareciam sentir que a morte estava rondando por perto deles, e que ia escolher um como banquete.
Quebrei a cabeça de um rato e me pus a beber seu sangue. Em breves segundos, já não era mais consumível e eu não poderia mais bebê-lo. Porém minha sede já estava domada e não mais precisava matar ratos nem gambás naquela tarde e nem na noite que se aproximava.
Ainda extasiado pelo sangue novo e sujo que corria em minhas veias, saí discretamente para que ninguém me notasse. Mais à frente já se podia ouvir o som do festejo de dentro do cabaré da dona Esmeralda. As moças todas agitadas, cerveja gelada, cantoria, animação. Lugar perfeito para um vampiro que acabara de se alimentar.
Ajeitei meu casaco e arrumei meu cabelo de lado_ há dias não cortava, antes estava curto, agora já estava como era antes_, encoberto pelo chapéu velho. Entrei discretamente no cabaré, já me sentando numa das mesas vazias do fundo, enquanto acontecia uma grande bagunça, entre homens gritando e jogando notas de dinheiro para uma dançarina que estava seminua, dançando uma música animada, acompanhada por mais outras duas de vestido curto floral.
Tentei não ser tão mal encarado quanto estava sendo; tirei meu chapéu e meu casaco, deixando ambos na cadeira ao lado. Os homens ainda estavam eufóricos, gritando palavras como "linda!" e soltando rugidos e gargalhadas escandalosas.
_Não vai beber nada, gato?
Ela tinha seus cabelos caídos em cima dos grandes seios, encobertos por um biquíni verde cheio de jóias. Provavelmente uma das garçonetes do cabaré.
_Ah... não, não. Obrigada.
Vampiros podem, sim, beber. Podem, é claro, tirando o fato de não sentirem absolutamente nenhuma atração.
A moça saiu sorridente, e foi atender um grupo de homens que a tinha chamado. Os homens ainda festejavam até as dançarinas saírem e a música acabar. Logo depois, voltaram, falando alto, para os respectivos lugares nas mesas. Passaram alguns minutos até que a ordem voltasse a prevalecer no ambiente, deixando a atenção toda voltada para o palco iluminado, de onde parecia que a qualquer momento entraria outra dançarina.
_Muito bem, rapazes..._ falando no microfone do palco, apareceu uma mulher branca, de cabelos pretos, de vestido parecido com o das dançarinas que há minutos estavam no palco._ Agora, vamos assistir uma apresentação incrível. Ela, que vocês já devem suspeitar quem é_ exibia um sorriso imenso no rosto enquanto falava_, volta agora para surpreendê-los novamente! A belíssima, charmosíssima... Sophie!
Todos começaram a aplaudir, educadamente, mesmo que estivessem eufóricos para o show. A "apresentadora" saiu, sorridente, deixando o palco livre novamente. Foi na hora que a loira entrou no palco, usando um vestido de várias camadas que ia desde seu colo_ onde se encontrava um cordão brilhante_ até suas coxas. Tinha seus olhos pretos como a escuridão e cabelos lisos, que percorriam seu pescoço e paravam justamente na frente dos seios, encobertos pelo vestido vermelho sangue. Sangue...
_In my life I've had a time, had to fight for what was mine, and I don't intend to lose my crown...
Todos os homens_ e até mesmo as garçonetes_ haviam parado para ver o show. A voz da garota_ devia ter uns dezoito anos_ ecoava por todo o salão que há momentos atrás estava em plena zona. Agora estavam todos paralisados, ouvindo sua voz.
A dama saiu do palco, como quem já sabia o caminho que iria fazer. Ainda cantando, passou pelas mesas da frente, deixando os homens estupidamente olhando para suas pernas descobertas. Depois, caminhou certa ao fundo, perto de onde eu estava.
Meus olhos estavam totalmente concentrados nela. Somente nela. Não havia decote nem coxas que tirassem meus olhos daqueles olhos escuros como a noite. Já havia visto tantos corpos como aquele em tantos outros cabarés que nada mais nela me chamava atenção senão a voz.
Ela caminhava lentamente, até chegar ao fundo do salão, bem onde eu estava.
_Must be, must be...
Ela olhava intensamente para os homens que assistiam ao show. Até que me encontrou na "platéia", ali, sentado bem em sua frente, paralisado em seus olhos. Ela chegou mais perto, envolvendo-me com seu perfume de rosas. Sua voz soava tão fria quanto a de um vampiro e ela carregava algo no olhar... maior que qualquer dançarina que ali estava. Não algo como sensualidade, mas como mistério. Não parecia apenas uma cantora, mas parecia a própria música.
Olhava fixamente à mim, estando longe dos demais_ que se encontravam logo nas primeiras fileiras do cabaré_, Sophie segurava com uma mão o colar de brilhantes em seu colo enquanto passava a outra no vestido, perto das coxas.
_Didn't you know that you belonged to me?...
Voltava calmamente para frente, onde continuava a cantar.
O salão era satisfeito pouco a pouco pela voz de Sophie, até que todo o cabaré era a própria garota. Os drinks, as comidas, as mesas, os cavalheiros, tudo era Sophie. Por um momento um arrepio subiu meu corpo frio, e eu pude perceber que eu também era ela. Eu era seu decote, suas pernas, seus olhos negros.
Estava ficando cada vez mais embriagado com sua voz até que a música acaba. Todos os homens ali presentes aplaudiram decentemente, até que a garota agradece e sai discretamente pelo lado do palco, que imediatamente é tomado por mais dançarinas seminuas que começaram a dançar ao som de uma música estridentemente alta.
Os homens saíram de seus respectivos lugares e começaram a andar novamente pelo cabaré, em busca das mulheres as quais outrora estavam sendo assediadas com dinheiro. Essas repentinamente voltaram do fundo do salão e começaram a rir e a esfregar seus corpos nos dos homens, que riam e festejavam ainda mais alto que antes. Umas saíam com eles, outras voltavam a ponta pés para o fundo do salão, onde trocariam suas roupas para uma nova dança que viria à seguir.
Retirei-me do cabaré, ainda tonto com o olhar de Sophie, que parecia uma pessoa bem mais familiar que uma simples cantora de cabaré.
Algo nela me chamava a atenção que há séculos_ literalmente_ não havia sentido. Um sentimento nobre e extintivo, algo não como amor_ afinal, vampiros não se apaixonam por suas presas_, mas algo como um grande mistério oculto e irrevelavelmente inquieto naqueles olhos frios. Algo além da vida.
Fale com o autor