Blood Moon
7 Velha rabugenta
— Pronto, senhorita. Seu destino chegou... —Trevor falou quando parou sua Ferrari vermelha em frente à casa de Summer. Ele se adiantou em sair do carro e correr para abrir a porta para mim num tom divertido. — Eu posso vim te buscar mais tarde, se quiser.
— Quanto cavalheirismo, tem algo suspeito... — Falei enquanto Ben me ajudava a pegar minhas bolsas no banco de trás.
— Como assim? Eu sou um cavalheiro o tempo todo. — Ele fingiu ficar magoado.
— Anham, você é quase um príncipe da Disney. — Ben exclamou sorrindo enquanto ouvia nossa conversa. Trevor respondeu subindo as janelas do carro e trancando o amigo dentro.
— Vamos só fingir que ele não está ali. — Trevor me puxou pela cintura, pondo fim a distância que estava entre nós. Eu sorri quando senti sua respiração no meu pescoço.
Trevor foi transferido para a Harley Hill Academy quando ainda estávamos na sétima série do colegial, foi naquela época que o conheci e nos tornamos amigos, no ano seguinte começamos a namorar e desde então estamos juntos. Segundo Summer, eu já devia ter enjoado de beijar a mesma boca durante cinco anos seguidos e segundo Ben, é para continuarmos juntos mesmo, assim ele fica com o título de solteiro mais concorrido do colégio. E que fique registrado aqui, esse título foi ele mesmo quem criou. Bom, durante todo esse tempo que estamos juntos, acho que já conheci todos os lados do Trevor. O Trevor popular, que é o capitão do time de futebol e que não passa despercebido pelos corredores da escola, o Trevor bêbado, que sabe cantar todas as músicas da Britney Spears, o Trevor romântico, que não perde uma oportunidade de enviar flores para minha casa e invadir a sala da rádio da escola só pra dizer que me ama em todos os autofalantes espalhados pela Harley Hill Academy, o Trevor com muita raiva, esse eu só vi duas vezes e nas duas vezes envolvia o pai, o Trevor tímido, recatado e que sabe até uns versículos da bíblia, esse só aparece quando meu pai está por perto, é até fofinho... mas me dá tédio, o Trevor engraçado, esse lado é o pior de todos, o que faz umas piadas que só ele mesmo ri, que faz a Summer e eu passarmos vergonha em público, se eu pudesse, matava e enterrava esse lado, mas a questão é que se eu tirasse esse lado dele... Bom, não seria o meu Trevor, não seria o cara por quem me apaixonei.
— É meio impossível fingir que não estou vendo aquilo... Ele está imitando a gente? — Apontei para o carro, onde Ben segurava uma pessoa imaginária e a beijava de olhos fechados tentando, sem sucesso, imitar os braços do Trevor em minha cintura.
— Acho que vou deixar ele trancado aí e vou andando até o Tonic — Os meninos da equipe de futebol quase sempre se reuniam no Tonic Bar, na 7ª Avenue para assistir aos jogos da *NFL que começavam naquele mês.
— É uma boa opção. — Respondi sorrindo.
— Nós podíamos trancar a Summer aí dentro também e passarmos a noite no meu quarto... assistindo filmes na Netflix. —Ele completou rapidamente, num tom brincalhão — O que acha? — O seu rosto ainda estava muito perto do meu pescoço, o que fez os pelos daquela região se arrepiarem.
— Essa opção é melhor ainda. — Falei depois de beijá-lo e, só então me desvencilhar de seus braços. — Mas se deixarmos a Summer e o Ben trancados no mesmo lugar por muito tempo é capaz de rolar a terceira guerra mundial.
***
— Tessie! — Amanda exclamou animada quando abriu a porta e me viu parada do lado de fora de sua casa. — Summer está no seu quarto. Quer ajuda com essas coisas? — Ela fez menção de pegar uma das bolsas que eu carregava embaixo dos braços.
— Ah, não precisa, Amanda. São só roupas e um notebook, não está pesado. — Amanda é a madrasta da Summer. Se bem que madrasta não é o termo para chamar a mulher que parece realmente amar Summer como sua filha.
— Tudo bem, então. Vocês vão sair? — Ela perguntou enquanto arrumava umas flores num vazo perto das escadas.
— Não, temos que acordar cedo amanhã, sabe... primeiro dia de aula.
— Oh, é verdade. — Ela sorriu. — Bom, então tenham uma ótima noite porque eu vou sair para jantar... Ou pelo menos estou tentando, já que o meu marido demora mais que uma noiva para se arrumar. — A última frase ela falou alto para que o Sr. Graham pudesse ouvir. Surtiu efeito, o pai da Summer apareceu descendo as escadas apressado.
— Já estou pronto, vamos? — Ele perguntou quando chegou no andar em que estávamos e beijou sua esposa. — Estamos atrasados. — Ele sorriu.
— E de quem é a culpa? — Amanda cruzou os braços na frente do corpo e fez uma cara de brava, que logo sumiu e deu lugar a um sorriso quando o Sr. Graham a beijou.
— Boa noite, Tereza. — Ele falou antes de sair de mãos dadas com Amanda.
O quarto da Summer não mudou muito desde quando erámos crianças. As paredes cor de rosa ainda estavam ali, combinando com as cortinas douradas e a estante com bichinhos de pelúcias que agora serviam apenas para decoração e na cabeceira da cama ainda tinha um mural com fotos de quando éramos crianças, a diferença é que agora tinha fotos recentes também. Uma Summer levemente bêbada no baile de debutantes — que minha mãe e Amanda insistiram que fossemos — sorria para qualquer um que entrasse no quarto, a foto ao lado era nós duas vestidas com o uniforme das líderes de torcida na temporada do ano passado, algumas fotos dela com o pai e Amanda numa viagem que fizeram ao Havaí uns anos atrás, uma Summer pendurada nas costas de Ben sorria para a foto enquanto Trevor e eu nos beijávamos ao lado deles — Eu tinha a mesma foto no meu quarto — e ali, quase escondida no meio de tantas outras fotos, tinha uma Summer bebezinha aninhada nos braços da mãe, que ao invés de sorrir para o fotógrafo, sorria para sua filha em seus braços.
Sentada toda torta encima da cama, Summer fazia alguma coisa que dá porta do quarto não dava para ver muito bem.
— O que você tá fazendo? — Perguntei entrando no quarto e soltando a bolsa que estavam minhas roupas numa poltrona ao lado da cama dela.
— Pintando as unhas dos pés. — Ela respondeu parando o que estava fazendo e esticando um pouco a coluna, logo depois voltando para a mesma posição. — E, sabe, usando esse calor desgraçado como desculpa para minha improdutividade — Ela falava sem prestar muita atenção para mim e sim para as unhas e o esmalte rosa que estava na sua mão.
—Então é bom arrumar uma desculpa melhor, todo mundo sabe que você é improdutiva em qualquer temperatura, Summer. Não importa se é verão. — Sem eu perceber, um travesseiro já estava voando em minha direção e batendo em cheio na minha cabeça. Ela sorriu orgulhosa pela boa mira que tinha.
— Então, deixa eu ver o que você vai vestir amanhã na sua reunião de negócios. — Ela fechou o frasco do esmalte e levantou para pegar minha bolsa na poltrona. Todas as minhas coisas foram derrubadas na cama quando ela abriu a bolsa e virou-a de cabeça para baixo.
— Fala sério, jeans? Você quer ser uma executiva bem-sucedida ou uma estagiária? — Ela perguntou segurando a calça.
— Eu vou da escola para lá, Summer. Quer que eu vá para a escola vestida com o que se não for uma calça jeans. — Revirei os olhos.
— Você pode muito bem trocar de roupa antes de largarmos. É bom arrumar uma desculpa melhor, todo mundo sabe que você não tem um gosto muito bom para roupas, Tess. — Ela usou minha fala contra mim. — Não sei o que você faria sem mim. — Ela abriu as portas do closet e entrou, depois de um tempo sai com uma pilha de roupas nos braços.
***
Por termos dormido tarde escolhendo uma roupa para hoje perdemos a hora e estávamos atrasadas, nada como chegar tarde já no primeiro dia de aula para começar bem o meu último ano no ensino médio.
Quando finalmente o motorista dos Graham estacionou o carro na entrada da Harley Hill Academy já não tinha mais ninguém no pátio. Aquilo não significava coisa boa, o sinal já tinha tocado. Summer e eu passamos pela entrada principal correndo e implorando ao universo que a vice-diretora Jones não estivesse daquele lado do colégio. Nos despedimos no fim da escada que dava para o primeiro andar quando ela seguiu para o corredor da esquerda indo para a aula de literatura e eu continuei correndo até chegar nas escadas que davam para o segundo andar, onde ficavam as salas e laboratórios das disciplinas de ciências, como biologia, química e física e algumas eletivas como artes e saúde. E é em momentos como esse que eu me arrependo de não fazer muitos exercícios físicos, a mochila que eu carregava nas costas estava cheia com os livros e cadernos que eu iria precisar hoje e como já estava fodidamente atrasada não tive tempo de passar no meu armário para deixar a maioria daquele peso nele. Pelo esforço dobrado de estar correndo e subindo dois lances de escadas com aquele peso nas costas meu pulmão já pedia socorro, parei de correr quando subi todas as escadas. Apoiei minhas mãos nos joelhos e me permiti descansar e recuperar o fôlego por um segundo antes de segui para a turma do Prof. Johnson.
— Senhorita Williams, porque não está na sala de aula? — A voz da vice-diretora Jones soou atrás de mim fazendo meu coração dá um salto dentro do meu peito. Merdaaaa.
— Bom dia, vice-diretora... — Falei me recompondo e dando para ela o meu sorriso mais gentil e meigo. — Eu esqueci um livro no armário e tive que ir buscar. Sabe como eu sou, não é? Esquecida demais. — Eu tentei soar engraçada, até me esforcei para que minha risada soasse verdadeira, mas a mulher continuo séria com os braços cruzados em frente ao corpo.
— Sim, eu sei. — Ela deu um sorriso cínico, a vontade de esbofetear a cara daquela mulher era tanta que acho que transpareceu no meu rosto, ela parou de sorrir e cerrou os olhos — E pelo visto também esqueceu de chegar na hora certa. Não vou permitir que isso se torne um vício.
— E não vai, vice-diretora. Só foi desta vez, amanhã vou chegar na hora certa.
— Ah, eu sei que chegará. E para garantir isso, quero a senhorita na sala de detenção hoje, depois do horário das aulas. — O sorriso debochado voltou ao rosto dela.
— Não pode me deixar de castigo. — Falei antes de pensar. Provavelmente isso vai me custar mais horas na detenção. Porra. — Digo.... Não posso ir para a detenção hoje, Srtª Jones, tenho um compromisso importante à tarde, por favor. — Mas tarde ela ia pagar muito caro por me fazer implorar daquele jeito. Mas agora, tive que apelar para a minha carinha de cachorro que caiu da mudança.
— Este compromisso é mais importante do que suas obrigações na Harley Hill Academy, senhorita? Porque se for, terá que rever suas prioridades. — Ela já estava me fazendo perder a paciência. Respirei fundo umas duas vezes antes de responder educadamente.
— Não preciso que me lembre quais são minhas obrigações no âmbito escolar, vice-diretora Jones. Afinal, as notas mais altas em provas e simulados realizados aqui desde a fundação dessa escola são as minhas, foram os meus projetos que levaram a equipe de robótica e mecânica para o campeonato mundial quatro anos consecutivos, se não me engano, tem os quatro troféus no mural da entrada para provar. E claro, todas as faculdades da *Liga Ivy entusiasmadas para conhecer o colégio que está “formando uma mente como a minha”, quando o diretor Lincoln falou isso a senhorita estava na sala, não lembra? — Quando terminei de falar foi a minha vez de sorrir cinicamente, mas o sorriso não durou muito.
— Pela petulância de me responder nesse tom irá ficar na detenção amanhã também. Agora vá para a sala de aula antes que eu precise chamar seus pais e perguntar pessoalmente o porquê de ter chegado tão atrasada. — Ela ralhou antes de apontar com a mão o caminho que eu tinha que seguir. Velha rabugenta, minha boca ainda abriu para gritar bem alto um “Isso é falta de sexo” para ela, mas mordi minha língua no último segundo e segui para a aula de física avançada enquanto arquitetava um plano para fugir do castigo e me encontrar com o Sr. Stark.
*Liga Ivy, em inglês Ivy League, é um grupo formado pelas oito faculdades que são sinônimo de excelência acadêmica dos Estados Unidos, Brown, Columbia, Cornell, Dartmouth, Harvard, Princeton, Yale e Universidade da Pensilvânia.
*NFL é a sigla da National Football League, a liga profissional de futebol americano dos Estados Unidos, onde aqueles times fodões, tipo o Giants, Jets, Vikings e o Patriots (que só a título de curiosidade, é o time que o nosso Chris Evans torce.) Competem entre si até chegar na final, o famoso Super Bowl, que é quase um feriado para eles, que param tudo para assistir ao jogo kkkk. Bem a gente quando sai filminho novo da Marvel, né.
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