Blood Moon
2 A festa da pizza
Notas iniciais
— O que ela bebeu, hein? —Trevor perguntou para ninguém em especial.
— Não sei não. Mas precisamos disso para aguentar o treino na segunda. — Ben respondeu sorrindo antes de tomar um gole da garrafa de cerveja em sua mão.
Já tínhamos perdido a noção de quanto tempo estávamos ali sentados no sofá olhando a Summer bêbada dançar umas coreografias sem sentido.
É o nosso último fim de semana antes do ano letivo começar e como de costume: Summer, Trevor, Ben e eu estamos na minha casa fazendo a festa da pizza. Uma tradição que surgiu quando ainda éramos crianças, a diferença é que agora no lugar de latinhas de Coca-Cola, bebíamos garrafas de Budweiser.
— Eu fiquei cansada só de olhar pra ela. Alguém derruba essa garota no chão, pelo amor de Deus. — Eu implorei sorrindo, já estava ficando tonta de tanto olhar ela rodopiar na nossa frente.
— Vocês são uns fracos, não aguentam nada. São três bebezinhos que não aguentam nadaaaaaa. — Ela agora cantava a música inventada por ela mesma. —Nadaaaa, não aguentam nadaaaa — Por um instante ela parou de rodopiar e cantar. — Pessoal, acho que eu vou... — A frase foi interrompida por ela caindo no chão de joelhos e vomitando toda a pizza que tinha comido mais cedo.
— Até que demorou — Trevor falou.
— Vocês já se perguntaram porque a gente sempre vomita algo que não comeu? Tipo, sempre sai algum pedaço de algo que não comemos, no nosso vômito. — Ben questionou. — Olha, Summer vomitou essas coisinhas laranja. Parece cenoura, mas ela não comeu cenoura.
— Cara, para de falar de vômito..., mas pensando bem... É verdade. — Trevor ficou pensativo tentando obter uma resposta para aquela questão.
— Eca. Parem de falar essas coisas nojentas. — Levantei do sofá e fui ajudar ela a levantar do chão. Os meninos ficaram rindo. —Aqui, amiga. Por hoje já deu, não é? — Falei levando ela para o banheiro e limpando sua boca.
— É. Acho que você tá certa, Tess. Eu te amo muito, sabia? Você é a melhor pessoa desse planeta. É, você é sim. — Summer falava enquanto gargalhava e tropeçava até o banheiro.
— Eu também te amo, Summer. Mesmo você me dando todo esse trabalho. — Falei segurando os cabelos dela enquanto, toda desajeitada, ela limpava a boca na pia do banheiro. Até que ela viu nosso reflexo no espelho e começou a chorar.
— Você é tão boa comigo. Eu não te mereço, Tess. —Ela tentava falar enquanto chorava. — Você é a minha melhor amiga, foi a única que não me abandonou. E eu... eu só faço merda. Me desculpa, amiga. — Ela me abraçou.
— Eeei... Você é meio maluquinha, nisso concordamos, mas você não faz merdas. Você é incrível, Summer. É eu quem não te mereço. — Eu a abracei, mais forte.
— Não... não Tess, você não entende. Eu sou uma pessoa horrível, eu... — Ela foi interrompida pelo Trevor entrando no banheiro.
— Summer, o Ben já está indo. Ele mandou perguntar se você quer carona. —Ela encarou meu namorado por um segundo antes de responder.
— Sabe... Eu queria dormir aqui com a Tess. — Ela tinha parado de chorar e enxugava o rosto molhado com o próprio antebraço.
— Você dormiu aqui ontem, não é melhor ir para a casa, não? O Sr. Graham deve estar preocupado com você. — Trevor respondeu ainda encarando ela.
— Meu pai não liga pra onde eu passo a noite... Na verdade ele não liga pra nada relacionado a mim. —
— Isso não é verdade, o seu pai se preocupa sim com você... Acho melhor você dormir em casa hoje, só para ele não surtar de vez com você. Amanhã nós podemos passar o dia todas juntas, só nós duas. O que você acha? — Perguntei sorrindo enquanto prendia uns fios de seus cabelos atrás da sua orelha.
— Summer, foi mal. Não vou poder te levar para casa agora. O carro da minha mãe foi rebocado de novo. — Ben apareceu na porta do banheiro com uma careta. A mãe dele é a pessoa mais avoada que a terra já teve o prazer de conhecer, não faço ideia do porque ainda deixarem ela dirigir — Ela estacionou em local proibido de novo. Se importa de chamar um Uber?
— Eu a levo. Pode ir. — Trevor falou e Summer continuava calada olhando toda a cena. Ela parecia que ia vomitar de novo.
— Tudo bem então... Verifica se ela colou o sinto de segurança direito, tá? — Falei beijando meu namorado. Enquanto Summer ainda calada, ia saindo da casa da piscina.
— Pode deixar, amor. Ela vai chegar em casa em segurança. — Ele falou sorrindo e me beijando de novo. Em seguida foi de encontro a Summer que já estava fora da casa e olhando para a piscina como se estivesse lutando internamente com a vontade de vomitar dentro de toda aquela água limpinha.
— Ei, Summer. Boa noite, a gente se ver amanhã? — Perguntei a abraçando e tirando ela de perto da piscina.
— É... amanhã a gente se ver. Dorme bem, Tess. — Ela sorriu antes de seguir cambaleando atrás do Trevor até a garagem.
— Eu posso limpar tudo, Tess? — Sarah era uma das empregadas da casa. Ela é um amor de pessoa, mas tem essa mania de chegar de fininho que sempre me faz pular de susto.
— Nossa senhora, Sarah. Você já pensou em mudar de profissão? virar uma ninja, sei lá.
— Mas se eu fosse uma ninja não iria poder te ver e cuidar de você todos os dias. — Ela sorriu arrumando meus cabelos sobre meu ombro esquerdo —E você não sobrevive por muito tempo sem mim ou sua mãe por perto. — Ela entrou na casa da piscina.
— Não sei se concordo muito com isso. — Eu falei enquanto ajudava ela a arrumar toda a bagunça que tínhamos feito na casa da piscina.
Quando terminamos já era quase meia noite, Sarah foi direto para sua casa e eu fui ver minha mãe antes de ir dormir.
Minha mãe é Olivia Renard, uma supermodelo francesa que agora tem trinta e oito anos e já está longe das passarelas há um tempo, mas não longe do mundo da moda, agora ela é dona da maior agência de moda de Nova York e vive aparecendo nas capas de revistas e eventos da elite de Manhattan e para provar que os opostos se atraem, ela se apaixonou pelo meu pai, um homem que não entende literalmente nada de moda. Ele é um renomado geneticista inglês, Dr. Henry Williams, diretor do Hospital George Williams. O problema é que o Hospital fica em Londres e por isso passa bastante tempo longe da mamãe e de mim. Ultimamente, mais tempo que o normal.
Eles quase nunca estão em casa, então não sei bem qual a necessidade de ter uma casa do tamanho da nossa. A residência é a maior da rua, e sem contar com a casa menor dos fundos que os meus pais deram a Sarah quando ela perdeu o marido e filho num assalto quando eu ainda era pequena.
Mas sabe, não é porque eles trabalham o tempo todo que deixam de cuidar de mim, na verdade eles são bem presentes em tudo relacionado a minha vida. Diferente dos pais da Summer, a mãe dela fugiu com o vizinho antes de nos conhecermos, deixando ela e o pai sozinhos, um tempo depois seu pai casou de novo e meio que deixou a Summer de escanteio. Esse é um dos motivos dela passar mais tempo na minha casa do que na dela, o que é bem triste, na verdade, porque a sua madrasta faz de tudo para se aproximar dela.
Então, minha vida é toda resumida na escola. Eu estudo na Harley Hill Academy, segundo o diretor— o Sr. Lincoln — e umas revistas sobre educação, é o melhor colégio do estado de Nova York, o que talvez seja verdade mesmo, já que eu não tenho tempo para fazer quase nada além de estudar, treinar com as líderes de torcida e dirigir o grupo de robótica.
Os fins de semana são quase todos iguais, Summer, Trevor, Ben e eu sempre vamos ao clube nas manhãs de sábado com os pais do Trevor. Brunch, piscina e, infelizmente, socializar com os outros membros do Shoreditch House Club, não que eu seja antissocial ou mal-educada, mas todo mundo lá é... fútil e falso. Sabe as festas de gala que tinham em *Gossip Girl? Aqueles dramas sem sentido que se resolviam facilmente com uma conversa, mas que para eles era o fim do mundo? É exatamente igual a série de TV. Talvez eu esteja exagerando, quem sabe, mas a culpa não é minha. Eu nunca parei para pesquisar, mas meus pais devem estar na lista das pessoas mais ricas de Nova York, e eu estou deixando claro que isso não é uma reclamação, óbvio que não, eu amo pegar o jatinho e ir fazer compras em Paris, mas com algumas poucas exceções, todas as pessoas ao meu redor dão uma importância sem sentido ao dinheiro e tudo o que ele traz. Talvez não seja culpa deles, talvez eu tenha sido educada de modo errado. Meus pais sempre me deram tudo o que eu queria, mas mesmo assim me ensinaram a ter os pés no chão e saber que nem todos podem ter os mesmos privilégios que minha família tem. Eu cresci passando metade de todas as minhas férias vendo meus pais deixarem de viajar para o Caribe ou França para ajudar em hospitais e escolas quase destruídas por bombas na Síria ou vacinando crianças na Somália.
Decidi entrar para o clube de robótica quando eu tinha quatorze anos, um verão antes disso meus pais me deixaram ir com eles a República do Congo, meu pai tinha um paciente que não podia viajar para fazer uma cirurgia em Londres, então ele foi até lá, foi depois desse momento que eu não consegui mais me sentir completamente feliz curtindo um fim de semana num hotel cinco estrelas em Qatar ou esquiando com o Trevor nos Alpes suíços. Uma parte de mim não conseguia ficar bem sabendo como aquelas pessoas vivem, então eu entrei para o clube de robótica porquê eu queria ajudá-los, não sou como meu pai, definitivamente não tenho coragem para fazer medicina e nem sou boa em socializar como minha mãe, ela sempre promove eventos e leilões beneficentes para arrecadar verbas para ONG'S, mas sou boa com engenharia mecânica e ciência da computação e é assim que vou fazer minha parte para deixar o planeta um pouco melhor para as pessoas que não nasceram com a mesma sorte que eu.
*Gossip Girl é uma série televisiva produzida pelo canal The CW baseada na série de livros com o mesmo nome da autora Cecily von Ziegesar. A série foi ao ar de 2007 a 2012 e tem 6 temporadas, todas disponíveis na Netflix.
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