Blindwood

22 Cinzas e Fantasmas


Notas iniciais
Obrigado pelo apoio! Estou dando duro nos próximos capítulos, então espero que gostem

"De repente, tudo não era mais nada.
Tudo era extremamente escuro e se resumia em uma respiração pesada e ofegante, como se tudo estivesse passando rápido demais; como se tudo fugisse de mim, ou eu fugisse dele.
Eu preciso continuar fugindo, preciso evitar que isso chegue até mim. Sempre foi uma vida. Sempre foi tudo ou nada, mas agora, mais do que nunca, não posso deixar que vire nada."


Quando Elaine acordou, era como se tivesse acabado de voltar a realidade, enquanto, sem consciência, seu corpo estivesse se movendo sozinho. Ela não estava em seu quarto, no Chariotte. Não estava em sua casa e também não estava no chão frente aquele orfanato, do qual Agatha a derrubou.
Elaine estava em um corredor composto por grades tanto no chão quanto nas paredes. Na verdade, as paredes eram um misto de grades e cal sujo.
Ela estava cansada e ofegante como se estivesse correndo a algum tempo, mas isso era um grande susto e não fazia sentido, pois havia acabado de acordar e antes de apagar, não estava em uma situação parecida com essa. Elaine então viu uma sombra e ouviu passos pesados. Rapidamente ela sentiu um grande desespero e sabia que precisava fugir dali o mais rápido possível. Sua única chance de fuga era seguir em frente, seguindo aquele extenso corredor cheio de curvas, foi o que ela fez. Ela se levantou e suas pernas estavam doendo, mas correu como pôde até aquela que era sua única saída deste lugar. Após virar duas vezes, ela avistou uma porta e foi até lá.
Quando alcançou a porta, Elaine entrou e a trancou sem olhar para trás, desabando logo em seguida. Ela estava cansada.
Agora Elaine estava em um ambiente completamente diferente. Ela estava na entrada de uma casa e ali conseguia ver, em sua frente, uma escada para o andar superior e à sua direita uma sala de estar. O cansaço havia passado, então ela se levantou e caminhou até a sala de estar. Os móveis eram bonitos e feitos de mármore, enquanto as paredes eram de uma cor verde escura com alguns detalhes em um vermelho também escuro. Toda a casa era iluminada por lamparinas nas paredes ou abajures em cima de estantes, deixando tudo à vista, mas ainda mantendo uma certa escuridão.
Elaine entrou na sala, atraída por um pequeno chiado, que era o único som em todo o ambiente. Mas esse era diferente. Não era o chiado dos monstros, e sim o de uma televisão sem sinal, que estava do outro lado do cômodo, frente a uma poltrona. Elaine foi até lá e a desligou, pois o barulho a incomodava.
Ela pensou que precisava achar uma saída logo, antes que aquilo viesse atrás dela.
Elaine observou bem a sala, com os livros nas estantes e tudo na mais perfeita ordem. Embora não fosse um lugar que ela conhecesse, era acolhedor. Mas ela sabia que precisava sair dali. Ela atravessou a sala e chegou até a cozinha. Ali foi até a porta dos fundos, mas ao tentar abrir a mesma, não havia uma saída, apenas um muro de tijolos.
Elaine ficou em pânico, se lembrando de seus últimos momentos no orfanato. Antes de Agatha a derrubar do prédio e ela acordar neste lugar, sem machucados e sem o corte que recebeu da adaga, ela havia sido perseguia por aquele demônio do orfanato, e miseravelmente procurava uma saída, mas só encontrava portas com paredes como essa. Apenas um muro impedindo a passagem.
Ela desesperadamente mexeu em seus bolsos procurando a adaga que havia roubado de Agatha, mas não a encontrou. Então começou a vasculhar a cozinha procurando algo que pudesse usar como arma, para se defender caso aparecesse um daqueles seres, e acabou encontrando uma pequena faca de corte. Era isso que ela tinha.
Elaine seguiu indo para a sala de jantar, com o intuito de explorar aquele lugar, mas o chiado daquela televisão novamente soou por toda a casa, fazendo com que ela fosse até lá novamente para desligar a mesma.
A sala de jantar possuía apenas uma mesa com seis cadeira, uma janela, um pequeno armário e um grande quadro de duas montanhas com uma névoa no meio delas. Era um quadro em uma escala cinzenta.
Elaine se aproximou da janela para tentar ver onde estava, mas não conseguia ver nada, apenas uma grande e densa neblina.
Ainda irritada com o chiado, ela foi até a televisão com a intenção de desligá-la da tomada, mas ao chegar lá, se surpreendeu.
Em uma poltrona no canto da sala estava um homem sentado, virado para a televisão.
Era um homem velho e gordo, até um pouco corcunda. Esse não era o primeiro encontro entre os dois, mas dessa vez ele não carregava um livro.
Ele estava com seu paletó escuro e segurava suas mãos em cima de suas pernas. Ele parecia um pouco desconfortável e seu semblante continuava sério e cansado.
— O que você está fazendo aqui? Aliás, onde eu estou?
— Elaine Campbell... Você esteve à minha procura, sim, eu sei. Agora estamos aqui e temos tempo. Sempre o temos, como já lhe disse antes. Mas você ainda não viu tudo, ou viu? Me diga, tua vontade de conhecer essa casa é maior do que a de conversar comigo? De toda forma, faça o que tem que fazer, eu posso esperar.
— Não. Estou aqui agora, vamos conversar.
Elaine abaixou a faca e se sentou em uma outra poltrona, próxima do pequeno homem, que manteve o silêncio e olhava para Elaine.
— Curioso. Isso é muito curioso. Vamos rever os passos que tomou. Primeiro enfrentou Agatha no topo daquele prédio e, depois de roubar tua adaga, você caiu, mas acordou aqui. Estou certo?
— Eu acordei em um corredor estranho, sendo perseguida por um louco. Mas agora estou aqui, sim.
Elaine olhou em direção a porta, com medo de que alguém entrasse.
— Fique tranquila. Ninguém passará por aquela porta. Imagino que você já tenha procurado uma saída daqui, mas não a encontrou, estou certo? Pois bem. Hoje existe uma mulher que pode confrontar a religião. Hoje existe alguém que assim como eles, quebra o paradigma entre o real e o não real. Existe alguém que consegue ir e vir, embora ainda seja uma pessoa cega e não entenda bem o motivo de estar fazendo isso. Uma pessoa que parece saber mais sobre a outra dimensão do que aqueles que a estudam a anos. Ou apenas uma pessoa com sorte... Me diga, Elaine, por quê você ainda está em Blindwood? Tu queria saber sobre o Chariotte, estou certo. Mas agora você quer mais, não é mesmo? E você sabe que ainda não sabe a verdade sobre o hotel. Pois bem, a história do incidente de Chariotte está ligada a Blindwood. Está ligada a religião. Está ligada a todas as vítimas e tanto a mim quanto a ti. Você também entende que se não fosse esse incidente, não estaríamos aqui agora, mas também muitas coisas não seriam como são. Alguns sacrifícios são necessários, Elaine, você precisa entender isso.
— Eu não aceito isso. A religião não pode decidir o que é certo e o que não é. E além disso, as pessoas não deviam aceitar isso como se fossem cegas!
— Veja onde está, Elaine. Você está em paz agora. Blindwood é feita por cinzas e fantasmas e isso sempre foi certo. Desde o princípio Saliã vive. Saliã respira. A névoa não é fruto apenas do clima, do incêndio e das montanhas. Saliã tem participação nisso. Podemos dizer que é como mágica. A cidade é como uma representação do inferno. Todos aqui são culpados e não podem fugir de seus destinos e essa é a realidade. Um mortal não pode confrontar uma força maior, mas você, uma mortal, tenta fazer isso, e não há mal nisso. Saliã é o deus que as pessoas daqui seguem e sempre abençoou essas terras, fazendo inclusive com que elas tenham sido férteis e atraissem turistas de muitos lugares, imagino que você saiba disso. Mas agora você precisa saber dos pontos ruins deste lado. Inclusive saiba que, mesmo quando Blindwood parecia um lugar alegre e vivo, a religião já existia e atuava controlando a cidade. Em troca de tudo que proporcionava, Saliã pedia sacrifícios, que os cidadãos locais entregavam sem pestanejar, pois uma ordem divina não deve ser contestada e nenhum deles via motivo para as contestar. Saliã escolhia pessoas específicas, inclusive pessoas que vinham de fora. Pessoas que vinham sozinhas para cá, ele especificava todas elas. Uma mulher loira e alta. Um homem de óculos e gordo... Ele sempre sabia o que queria e dava os meios para a religião os encontrar, inclusive com magia, que pouquíssimas pessoas conseguem usar até nos dias de hoje. Já é algo quase extinto; uma lenda. Os sacrifícios existiam em dois pontos. Os escolhidos e os cegos. Os cegos eram pessoas que tinham suas almas entregadas para Saliã, enquanto o segundo grupo eram pessoas escolhidas para lhe trazer de volta para a realidade, onde ele poderia reinar absolutamente todo o mundo. Um grupo alimentava sua alma, o outro, seu corpo. Um dia Saliã encarnou em um homem dentro da igreja, em um culto, e apontou para uma mulher, profetizando algo. "Você irá ter uma filha este ano e em seu décimo segundo aniversário deve sacrificá-la para mim.", Foi o que ele disse.
Todos do vale souberam disso e adoraram a mulher. Sua filha seria a escolhida e com seu sacrifício, Saliã estava um passo mais próximo de voltar para a terra. Sua filha seria adorada por todos até o dia onde cumpriria seu destino, mas isso não era o que a mulher queria.
Tudo começou então, com a mulher não tendo a ciência de que estava grávida, mas seis meses depois, deu a luz a uma menina pequena e loira, que chamou de Mia.
"Mia era a escolhida, a maior delas. Essa foi a primeira vez em que Saliã em pessoa havia escolhido alguém desta forma. Antes era com escritos e visões, mas desta vez ele realmente possuiu alguém e foi até a pessoa dizer algo do tipo; foi a primeira vez em houve um profetizamento. Onde ele escolheu alguém que nem sequer estava vivo.
A mulher, que se chamava Louise, morreu no hospital após dar a luz a sua filha. Assim a menina foi criada pelo pai em um famoso hotel da cidade onde eles moravam, chamado Chariotte.
A garota cresceu sabendo que sua mãe era querida e importante para todos, assim como ela, e a garota, que era temida e vivia sozinha, tinha medo das pessoas e sua excentricidade – Enquanto alguns a tratavam com respeito pelo medo, outros a desprezavam –, vivia sempre se escondendo e se esgueirando por aí, desenhando e escrevendo. O pai da garota, que era um homem importante na igreja, manteve a promessa da religião consigo e afirmava sempre que necessário, mas assim como Louise, ele, lá no fundo, não aceitava entregar sua filha. O homem tinha um plano, que só colocou em prática um mês antes do dia do 12° aniversário de Jane. Ele sabia que não havia uma forma de fugir de Blindwood vivo e com sua filha, então usando magia, ele foi para um lugar que era palco de estudos da parte da religião. Era um lugar proibido onde poucos haviam pisado. Era uma nova dimensão, igual Blindwood, e ele levou sua filha para lá. O homem não era tão poderoso assim e não conseguia ficar apenas em uma dimensão, então ia e vinha muitas vezes com sua filha, sem pleno domínio deste poder, mas não saía do hotel, pois sabia que as ruas eram perigosas e haviam seres hostis. Essa dimensão é o outro lado, ou como era chamada até então, era o lado proibido, onde haviam monstros e demônios... A religião logo soube disso e tomou uma decisão drástica. No meio da noite, homens vieram e incendiaram o hotel, imaginando que o levando a baixo no plano original, na outra dimensão ele também queimaria, mas não foi isso que aconteceu. A religião queimou o Chariotte com turistas e pessoas ali, sem pudor e sem chamar resgates. Apenas assim eles poderiam matar Mia e entregá-la para Saliã, pois apenas por tirar sua vida eles já estariam entregando-a. Foi um grande caos. Algumas pessoas sobreviveram e foram enganadas, sendo ajudadas pela religião e saindo de Blindwood, voltando para suas casas de verdade, com suas mentes traumatizadas, pensando que foram vítimas de um desastre da natureza – Depois do incêndio, Blindwood afirmou que o mesmo foi causado por um pequeno acidente e se alastrou pelo carvão que havia embaixo do solo do vale e no início das montanhas –, mas na realidade foram vítimas apenas da maldade. Outras pessoas, menos afortunadas, morreram, e a religião deu cabo de seus corpos. Machucado e sem saída, o pai de Mia viu apenas uma saída, que para ele foi a mais sensata. Já que não conseguiria salvar sua filha, sobre pressão, ele pensou que poderia salvar ao menos metade dela. O homem então usou uma magia poderosa e dividiu o corpo de sua filha em dois. Agora não era apenas Mia. Eram gêmeas. Duas garotas de mesmo tamanho e mesmas características físicas. Duas gêmeas com consciência, que estavam assustadas e temiam o fim.
O homem tomou uma atitude cruel demais para um pai – embora tenha sido necessária –, que tem suas consequências até hoje. Mia, sua filha original, foi levada por ele até o portão de Blindwood na outra dimensão, e, quando chegaram ali, o homem usou seu poder para voltar ao mundo normal. Ele então usou uma magia para fazê-la esquecer do vale e convenceu, com magia, uma família que estava saindo dali a levá-la embora, para longe dali, onde ela poderia viver. Após isso o homem voltou para o Chariotte, e já cansado e sem poder usar sua magia, acabou voltando para a realidade original – para o meio do incêndio –, junto da gêmea que foi feita, que nem ao menos possuía um nome. Pelo menos não até o momento. Mas eu, Elaine Campbell, sei tudo, então sei quais foram as últimas palavras do homem antes de morrer queimado, segurando sua filha para que tenha o mesmo fim que ele. Ele nomeeou a gêmea, tendo a certeza de que amava tanto quanto sua filha original. Para o homem, não existia uma original e uma cópia, elas eram suas filhas. Ele a abraçou e chorou, pedindo perdão. Não havia como fugir dali e ela devia aceitar o destino, para que a outra pudesse viver. Ele a criou para que a outra metade pudesse viver. E mesmo com a gêmea não aceitando isso, ele a segurou em seus braços com força. Ele imaginou que, se uma sobrevivesse, tudo teria valido a pena. A que estava em seus braços deveria entender isso, ao menos é o que ele pensava da gêmea que, mal recebeu a vida, já deveria entregá-la. Abraçando sua filha, o homem morreu, e a religião achou seu corpo incinerado pouco depois.
— Meu Deus...
Elaine se levantou e caminhou pelo cômodo. Ela estava horrorizada pela história. Agora ela sabia o que havia acontecido de fato e não conseguia imaginar que era algo tão cruel assim. Uma família, sacrifício, Saliã...
— Depois disso, Saliã ficou furioso e castigou as pessoas, por isso não há mais fartura, a névoa é mais densa e não há muita vida por aqui. Dos que não conseguiram fugir, muitos sofrem. Além dos seres que existem na outra dimensão. A religião também encontrou os livros do homem e deu sequência a sua pesquisa, mas até hoje não possuem domínio da outra dimensão. A religião ainda a teme. De mortais, são poucos os que conseguem ir e voltar com vida. Eles ainda não a entendem.
— Escrivão... E quanto a gêmea? E a religião, o que eles querem agora?
— Eles ainda querem reviver Saliã. A garota era uma escolhida, mas não era a última.
— Sarah! Ela é uma escolhida?
— Sim... Tua amiga está na igreja agora mesmo. Teu sacrifício acontecerá em breve.
— Eu preciso ajudá-la!
Elaine saiu dali abandonando o Escrivão e foi até a cozinha, em uma nova tentativa de sair dali. Dessa vez não havia o muro e ela conseguiu sair pela porta dos fundos.
Elaine saiu em um quintal e conseguia ver a grama e algumas árvores sendo iluminadas pela luz da lua que estava no céu. Havia neblina, mas não era tão densa. Elaine não reconhecia em nada aquele lugar, mas caminhou em direção a uma pequena luz que via a sua frente. Ela pensou que estava em um lugar novo de Blindwood, que não havia conhecido ainda.
Quando chegou até a luz, Elaine viu um poço no chão e parou na beira dele. O contorno do poço era feito por pedregulhos no próprio chão e não havia algo que protegesse alguém de cair ali; nem ao menos um aviso. Havia um pequeno poste de madeira com uma fraca lamparina que iluminava o poço, mas se não fosse isso, qualquer pessoa poderia cair ali sem saber onde estava. Elaine tentou olhar para o fundo do mesmo mas tudo que via era a mais densa escuridão.
— Cinzas e fantasmas. Essa é Blindwood.
A voz assustou Elaine. Era o Escrivão que estava ali com ela.
— Você quer voltar, não quer? Tens a certeza de que não quer ir embora? Eu lhe dou essa oportunidade neste momento.
— Eu preciso continuar. – Elaine disse sem pestanejar.
— Eu entendo. Mas tem mais uma coisa que precisa saber...
— O que? Me diga rápido, por favor. Eu preciso voltar logo.
— A adaga que roubaste de Agatha não era uma qualquer. É a adaga de Pedenium, um grande artefato que dizem ser tão antigo quanto Saliã, então a guarde consigo, você irá precisar. É uma arma de suma importância na tua jornada. E se lembre, mulher, que a mente humana pode se confundir às vezes, enganando você mesma. Você pode ir e vir quando quiser, mas não deixe se enganar. Se lembre sempre de tudo que lhe for importante e não deixe se enganar.
— Por quê está dizendo isso?
— Acredito que nossa conversa tenha sido importante. Eu não apareço para você atoa, Elaine. Esta não é a primeira vez em que tentam trazer Saliã de volta. Então se lembre, não deixe os fantasmas lhe pegarem. Se esconda dos demônios, dos monstros, e proteja o que lhe for importante... Me diga, por quê deseja tanto voltar, se lhe dou a chance de sair daqui e abandonar tudo, assim como o homem fez com sua filha.
— Escrivão... Eu preciso continuar. Preciso salvar Sarah. Sinto que se sair daqui agora, nunca esquecerei nada e poderei ficar louca só de pensar na culpa que iria sentir. Sarah. Maria. Marco... Eles precisam de mim.
— Você entrará na escuridão. Tenha cuidado. Tu estás no inferno agora, não estás mais na passagem; agora não há volta e nem tempo para pensar sobre. Guarde tua esperança, pois o tipo não é aceito neste local. Se entregue ao desespero e corra. Fuja da escuridão que sempre irá lhe cercar. O vazio irá lhe assombrar. Vá!
O homem empurrou Elaine dentro do poço escuro com suas mãos grossas, enquanto olhava para ela com desdém.