Blind
4 Capítulo 4 - Parceiros
Notas iniciais
O celular vibrou com a nova mensagem e seu dono não tardou a sacar o aparelho do bolso para ver do que se tratava.
“Limpe a bagunça que você deixou para trás, antes que eu tenha que fazer isso. E não se engane, se eu sujar minhas mãos, você será um dos corpos no final.”
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— Ele não pode ser o assassino, a bala que ele escolheu foi a rosa!
— Pare de ser ridículo, eu estou certo, olhe aqui... – Ele pegou o livro de conclusões e apontou para o nome. – Estou certo!
— Eu odeio jogar isso com você. – Tobirama cruzou os braços e emburrou exatamente como criança. – Por que a gente não joga banco imobiliário?
— Por que você sempre acaba comigo.
— Essa é a graça. Vamos jogar damas.
— Quantos anos você tem?
— Não sei, mas devo ser um velho burro por aceitar jogar um jogo de detetive com um detetive.
Hashirama riu do mau humor do irmão, ainda emburrado. O irmão mais velho se levantou para reabastecer as canecas de chocolate. Embora não dissesse, o detetive adorava quando Tobirama tinha qualquer motivo para dormir em sua casa. Naquele dia, por exemplo, ele havia ficado até tarde em seu escritório e após passar para visitá-lo, resolveu ficar por ali mesmo.
O detetive sorriu bobo quando voltou para a sala com as canecas, vendo o irmão mais novo de pijama e cabelos molhados, zapeando pelos canais da TV. Ele se sentou no sofá ao lado de Tobirama, entregando-lhe a caneca. Observou enquanto ele assistia atentamente a um filme que, Hashirama sabia, ele odiava. Segurando a risada ao ouvir os comentários do irmão, o detetive se perdia nas lembranças de quando eram crianças, os quatro irmãos sentados na sala assistindo a um programa qualquer, enquanto a mãe deles preparava um pudim para a sobremesa. Lembrou-se também de como costumavam brigar para ver quem poderia lamber a panela de açúcar queimado ou as pás da batedeira cheias de chantilly.
Hashirama foi trazido de volta para a realidade quando Tobirama encostou a testa na dele, olhos fechados, como se soubesse exatamente o que o irmão estava pensando. E ele sabia.
— Eu te amo. – O mais novo sussurrou.
— Também te amo maninho.
Tobirama não se importava nem um pouco em dormir no sofá. Ele acordou na manhã seguinte com a luz do dia passando pela cortina da varanda e alcançando seus olhos. Sentou-se no sofá e observou Hashirama deitado sobre um amontoado de cobertores no chão aos seus pés. Não pôde conter um sorriso ao se lembrar de sua infância, quando “acampavam” na sala assistindo algum filme violento, totalmente impróprio para suas idades.
O mais novo se levantou, pulando o irmão sem o acordar e seguiu para a cozinha. Colocou a água para ferver, adicionou a quantidade de café no coador, preparou as torradas e as panquecas. Arrumou tudo perfeitamente em duas bandejas e levou uma a uma para a sala, deixando ambas em cima do sofá.
Apesar da ótima intenção, acordar Hashirama não era a tarefa mais fácil do mundo e com o passar dos anos, parecia ficar ainda mais difícil. Tobirama acabou apelando para a brutalidade de uma almofadada na cabeça do irmão mais velho que se sentou rapidamente, atordoado.
— O quê?!
Tobirama revirou os olhos e colocou a bandeja em seu colo, sentando-se ao seu lado para compartilhar do café.
— Uau! – Hashirama olhou para a bandeja e em seguida para o irmão. – Não quer dormir aqui todos os dias? Eu prometo que lavo a louça.
Ambos riram. Fazia tempos que Hashirama não tomava um café da manhã descente. Geralmente eram xícaras atrás de xícaras de café para deixá-lo desperto.
— Não tem nada na agenda hoje, senhor prefeito? – Hashirama provocou.
— Hoje é sábado, eu também mereço descanso! – Tobirama respondeu bebendo do café. – E você, não tem nenhum crime para investigar, senhor detetive?
— Na verdade tenho sim. – Ele engoliu uma garfada das panquecas. – Madara e eu vamos interrogar certos banqueiros. – Fez mistério, fazendo o irmão revirar os olhos e rindo em seguida. – Não entendo porque não gosta dele.
— Ele é “o senhor da razão”. – Tobirama ficava sem paciência com a menção de Madara.
— Ele discordou de você cinco anos atrás numa palestra estudantil! – Hashirama sempre ria quando o irmão ficava nervoso, especialmente quando não tinha um real motivo para isso.
— Ele não sabe a hora de parar, isso sim. – Ele se levantou, levando as bandejas vazias para a pia.
— Não precisa guardar esse rancor todo. Tenho certeza que vocês dois mudaram bastante desde então.
Tobirama apenas revirou os olhos novamente, encostando-se na pia enquanto o irmão cuidava da louça, cruzou os braços sobre o peito e o observou.
— Aproveite seu último final de semana de folga.
— Eu não dei minha resposta ainda. – Hashirama ergueu uma sobrancelha para o irmão.
— Sabe que eu não vou mais encarar o chefe da polícia e sustentar seus pedidos de reabertura de casos que foram encerrados pelo filho dele.
— Foi a última vez!
Tobirama riu descrente. – Nunca é a última vez Hashi. Já foi a... – Ele contou nos dedos. -- Quarta vez desde que eu assumi.
— Não tenho culpa se Shikamaru não presta atenção nos detalhes que deveria.
— Seria diferente se você tomasse a frente do departamento. – Ele constatou o óbvio.
— Não quero ser obrigado a trabalhar com o Shikamaru.
— Não me obrigue a nomear o Inoichi para o cargo.
Hashirama parou o que estava fazendo e olhou sério para o irmão. – Não brinque comigo Tobirama.
O mais novo ergueu as mãos em defesa. – É você ou ele.
Ambos ficaram mudos por alguns instantes. Hashirama estreitou os olhos, voltando a secar as canecas. Tobirama se espreguiçou e foi caminhando para fora da cozinha enquanto retirava o pijama para trocar as roupas.
— Bem, acho que é ele então... – Falou da sala enquanto se vestia.
— Você não me deu sequer um dia para pensar!
Tobirama voltou um minuto depois, já vestido. – Então eu quero uma resposta amanhã ou eu bato na porta do Inoichi na segunda-feira às seis da manhã!
— Vai acordar o velhote. – Respondeu com humor, fazendo Tobirama rir.
— Vocês a mesma idade, tapado. – Ele revirou os olhos. – Preciso ir, tenho uma família de gatos para alimentar.
Hashirama sorriu, levando-o até a porta. – Venha almoçar comigo amanhã e eu te dou a resposta.
— Não vamos almoçar torradas, não é? – Provocou.
— Está desconvidado. – Olhou para o irmão e riu.
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— Desculpe por arruinar seus planos. – Madara falou com a voz baixa enquanto massageava as têmporas. – Não esperava ter que cobrir o plantão da madrugada. – Bocejou. Tinha olheiras novamente. Os cabelos pretos presos acima da cabeça de qualquer jeito, como se tivesse precisado amarrá-los às pressas.
— Você está uma bagunça... – Hashirama demorou os olhos nele.
— Obrigado. – Ele soltou os cabelos e passou os dedos por entre os fios, tentando ajeitar a bagunça.
— O que aconteceu por aí de madrugada? – Olhou para o hospital através da janela do café do outro lado da rua. – Anda dando festas durante o plantão?
— Quem dera... – Madara desistiu do cabelo, tomando um gole do café. – Um dos pacientes da ala psiquiátrica teve um surto psicótico. – Ele ergueu a manga da camisa preta, revelando um curativo no antebraço. – E saiu tentando apunhalar as pessoas com uma caneta.
— Mais alguém se feriu? – Hashirama perguntou enquanto olhava para o braço de Madara, arroxeado em volta do curativo.
— Não, eu o agarrei no meio do corredor antes que entrasse na ala infantil.
— Oh, temos um herói aqui. – O detetive falou com humor, arrancando um sorriso um tanto cansado do colega.
— Um herói apunhalado pela própria caneta, dentro da ala psiquiátrica. – Ele respondeu em meio ao sorriso.
— Deveria ir para casa descansar.
Madara bocejou outra vez e encarou Hashirama, considerando a possibilidade, mas tomando mais um gole do café em seguida.
— Se eu dormir agora, meu sono vai virar uma bola de neve. – Coçou os olhos. – Apenas me mantenha acordado.
— Então vamos. – Hashirama se levantou da mesa, sendo acompanhado pelo olhar de Madara. – Vamos te manter acordado.
Madara saiu do carro resmungando alguma coisa. Havia vestido as roupas que usava para ir à academia após seu turno no hospital, deixando a mochila dentro do carro do detetive. Hashirama o havia arrastado para o parque central da cidade para uma caminhada. Embora o psiquiatra estivesse pouco disposto a praticar exercícios, o colega fazia bem em mantê-lo ocupado e fora de posições confortáveis para uma soneca.
— Sabe... – Madara o acompanhava mais atrás, caminhando lentamente e dando longas piscadas e bocejos. – Eu possuo a habilidade de andar dormindo.
Hashirama riu e desacelerou o passo, acompanhando Madara.
— Certo zumbi, vamos conversar. – Falou com humor enquanto observava um longo bocejo vindo do outro. – Acredito que vai perder seu parceiro de investigação.
Madara estreitou ainda mais os olhos já semicerrados.
— Eu te ajudei apenas uma vez em um caso e já faz quase duas semanas.
— Sabe, você fica extremamente sincero quando está com sono.
— Desculpe.
Hashirama riu outra vez. – Meu irmão quer me nomear o chefe do departamento de inteligência da polícia.
A notícia pareceu despertar Madara que ergueu as sobrancelhas para ele.
— Isso é ótimo, não é?
— Por que seria?
Madara parou no meio da rua, encarando Hashirama e piscando lentamente, como se seu cérebro processasse a pergunta.
— Da última vez que eu chequei, era assim que você conseguia comprar comida.
— Também vai ser o jeito se me fazer ser preso por assassinar colegas que tiram conclusões estúpidas e precipitadas.
Eles voltaram a caminhar, ainda lentamente, seguindo o ritmo adormecido de Madara.
— Ora, talvez eu devesse analisar novamente seu perfil, levando em conta essa sua tendência homicida.
— Falo sério. Não sei se saberia trabalhar com o garoto. Nara. Ele tira conclusões muito precipitadas, não analisa todo o cenário...
Madara deu de ombros.
— Nada que trabalho psicológico não resolva em você. Assim desenvolve a paciência necessária para lidar com o rapaz. Talvez ele possa aprender as coisas que você tem a ensinar.
— “Trabalho psicológico”, isso é uma oferta?
— Não. – Madara sorriu. – Não posso mais lidar com você, já estamos próximos. É antiético.
— “Próximos?” – Hashirama ergueu uma sobrancelha, fazendo o outro rir.
— Fala sério Hashi, estamos caminhando pelo parque, falando sobre matar pessoas e indicação a um cargo público que deveria ser segredo entre você e seu irmão.
Hashirama concordou com a cabeça.
— Mas eu ainda não dei a resposta. Posso recusar.
— Para mim está escrito na sua testa que você vai aceitar. – Madara olhou de canto para ele. – Não sei qual foi a contraoferta ou ameaça que ele fez, mas você parece provocado demais para deixar para o concorrente.
— Realmente, você com sono é um perigo. Sai falando por aí tudo que pensa. – O comentário fez Madara rir.
— O nome disso é intimidade. – Ele bocejou. – Vai ficar bem mais fácil analisar seus casos bem de perto e tomar alguma medida antes que Shikamaru jogue um inocente na prisão.
O detetive concordou novamente.
— Quer dizer então que o senhor acredita que eu preciso de um psicólogo.
— Todo o mundo precisa de um psicólogo. Nós psiquiatras temos psicólogos! Especialmente pessoas como nós que lidam com a pressão de outras vidas precisam de um. E a menos que queira virar meu paciente na ala psiquiátrica, eu sugiro que arranje um logo.
Hashirama riu. – Sincero e dramático. Tem certeza que não quer ir dormir?
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Manter Madara acordado foi um trabalho difícil que Hashirama poderia classificar como ficar de babá. Haviam passado a manhã no parque, durante a tarde o detetive o arrastou para fazer a compra do mês e o obrigou a ajudar a descarregar e organizar tudo dentro dos armários. Depois disso o arrastou para um “tour” pela cidade, após constatar que apesar de Madara estar a bastante tempo na cidade, ele não conhecia nada. Finalmente ao cair da noite Hashirama resolveu lhe dar uma carona até em casa e foi obrigado a guiar o amigo zumbi para seu apartamento.
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Na manhã de segunda-feira Hashirama apresentava-se no distrito policial, onde seria responsável pelo setor de inteligência.
Tobirama apareceu horas depois em seu escritório, apoiando as mãos em sua nova mesa e olhando no fundo dos olhos do irmão.
— Eu sei que você vai sair caçando pelo em ovo. Faça o favor de não me aparecer morto, Hashirama.
— Pode deixar, se eu morrer juro que não vou bater na sua porta. – Respondeu com humor.
— Estou falando sério, palhaço. – O mais novo relaxou a postura. – E trate logo de arranjar sua equipe de apoio. Shikaku já convocou uma reunião para apresentar suas nomeações.
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— Me diga que está ao menos considerando. Por favor. – Hashirama apelou.
— Acho que a doutora Shizune está mais apta para assumir essa bomba. – Foi a resposta que recebeu.
— A doutora Shizune não se formou com honras na universidade de Kyoto.
— Você não tinha essa informação horas atrás...
— E ainda assim eu já estava considerando você. – Hashirama cortou sua frase.
Madara suspirou.
— Temos uma máquina de café incrível. – Ele tentou não rir da própria apelação.
— O hospital também. – Madara estreitou os olhos, como se aqueles fossem argumentos plausíveis.
— Aqui você não será apunhalado por canetas.
— Não, aqui eu serei atingido por uma bala. – Falou com ironia na voz.
— Estou começando a deduzir que você é chato por natureza, não só quando está com sono.
Madara sorriu, abaixando a cabeça incrédulo com a péssima tentativa de persuasão de Hashirama.
— Está pedindo que eu abandone minha formação médica para tratar como psicólogo sabe disso.
— Sim, eu entendo. – Ele falava sério agora. – Mas eu realmente acredito que suas experiências serão de grande valor para as equipes.
— Sabe que moro do outro lado da cidade. – Madara ergueu uma sobrancelha, estendo a mão, aguardando Hashirama concordar com aquilo para finalmente aceitar sua oferta.
— Deixo meu sofá livre quando precisar. – Ele sorriu, apertando a mão dele.
— Ora, se tivesse feito essa oferta logo de cara, não teríamos discutido tanto. – Soltou um sorriso canalha.
Hashirama o lançou um olhar de reprovação.
— E o senhor diretor está ciente de que eu sou o chefe do consultório de psicologia e não investigador, certo?
Desta vez foi Hashirama quem lhe lançou o sorriso traiçoeiro.
— É claro senhor psicólogo. Eu jamais lhe arrastaria para resolver casos ainda pendentes que começamos a estudar juntos. – Ele foi totalmente irônico, vendo Madara revirar os olhos, sabendo que seria inútil contrariá-lo. – Vá escrever sua cartinha de demissão para o hospital, vá. – Hashirama o expulsou sorrindo da sala. – Te vejo amanhã, parceiro.
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