Blind
1 Capítulo 1 - O banqueiro
Notas iniciais
De fato, aquele era um belíssimo escritório, situado em um dos mais altos prédios da cidade e com vista panorâmica, era um lugar luxuoso. Os móveis de madeira clássicos eram perfeitamente lustrados, os papéis sobre a mesa estavam cuidadosamente organizados por assunto e ordem de recebimento.
O homem sentado atrás da mesa tinha por volta de quarenta anos, apesar de parecer mais velho. Seus olhos estavam atentos ao que estava escrito no papel em sua mão, até que seu foco foi desviado pela suave batida na porta. Antes de esperar uma resposta, a bela secretária do banqueiro adentrou a sala e deixou mais alguns papéis em cima da mesa.
— Não se esqueça de sua reunião dentro de trinta minutos. O senhor Tomball confirmou a presença dentro do horário.
— Obrigado. – O homem respondeu simplesmente, parecendo estupefato com o que acabara de ler.
Logo após isso, a bela secretária sai de cena, dirigindo-se para a bilheteria do teatro, não muito longe dali. Atendendo ao pedido de seu chefe, para comprar ingressos para ele e sua mulher.
Ostermann permaneceu em seu escritório, porém após a saída da mulher, nada do que foi dito durante aquela reunião foi ouvido pelo detetive. O homem que assistia a tudo em pé ao lado da mesa estava imerso em seus pensamentos. Ambas as mãos juntas na frente do rosto, os longos dedos indicadores encostados nos lábios finos. Quando Tomball se levantou, murmurando algo que o detetive também não pôde ouvir, ele o seguiu até a porta, apenas para vê-la se fechar. Ao virar-se de volta para a mesa, o banqueiro estava estatelado sob uma bagunça de papéis, o sangue vívido escorria por sobre a madeira e pingava no chão. Um único tiro preciso no meio de sua cabeça.
O detetive passou os dedos sobre os lábios, escaneando a sala rapidamente. Mas nada ali fazia sentido. Havia um enorme espaço em branco que precisava ser preenchido, mas ele não sabia como.
— Hashirama! – Ele foi desperto de seu devaneio pelo homem mais velho ao seu lado. A cena havia se desfeito perante seus olhos, porém tudo permanecia como estava antes em sua visão, apenas com o corpo do banqueiro fora de seu lugar, este já levado para análise clínica. – Consegue me dizer alguma coisa? – O policial perguntou visivelmente nervoso com toda aquela situação. – Não posso mantê-lo aqui por mais tempo.
O detetive mordeu os lábios, ainda pensativo.
— Ele foi morto por vingança. – Uma voz se intrometeu no fundo dos pensamentos do detetive, como se cutucasse tudo dentro de seu cérebro. – Alguém entrou em seu escritório após a reunião que teve e o forçou a entregar as senhas do cofre principal, ele não entregou e então foi morto.
Hashirama respirou fundo, contendo sua vontade enorme de responder àquele pensamento ultrajante e resolveu simplesmente ignorar.
— Preciso de uma cópia da agenda dele. – O detetive se dirigiu ao policial mais velho.
— Consegue resolver isso, Hashirama? – O outro perguntou, também ignorando o comentário feito anteriormente sobre o caso.
— Preciso da agenda. – Ele repetiu, fazendo o policial revirar os olhos. Num instante ele tinha uma cópia da agenda do banqueiro em mãos e a entregou para o detetive que sem nem mais uma palavra, deixou o local.
Com a agenda em mãos, o detetive se dirigiu para um café a dois quarteirões do prédio. Hashirama era ótimo em fingir emoções – ou a falta delas – na frente de outras pessoas. E era exatamente isso que fazia quando estava na presença do chefe da polícia, especialmente tratando-se de um caso como o que lhe havia sido apresentado. Já dentro do café, a salvo de olhares que o julgavam, Hashirama sorriu ao encarar a agenda impressa que lhe foi entregue. Não podia negar que estava feliz em ver alguma ação novamente, afinal a vida sem nenhum daqueles casos, era totalmente sem graça. Era um alívio quando o chefe de polícia batia em sua porta para buscar sua ajuda e por mais complicados que os casos parecessem, Hashirama tinha um dom que não podia ser subestimado.
— Posso anotar seu pedido? – A garçonete se aproximou da mesa alta com um aparelho em mãos, pronta para servir o cliente.
— Apenas um café grande preto, por favor. – Ele respondeu sem desviar o olhar da agenda. Tirou do bolso do casaco uma caneta e passou a fazer algumas anotações na folha. Teria algum trabalho naquela madrugada, e isso o animava ainda mais.
Os sons do café não o incomodavam, ao contrário do que qualquer um pudesse pensar a respeito de Hashirama, ele gostava de estar na rua, ver as pessoas, ouvir os sons da cidade. Enganava-se quem pensava que ele não gostava da cidade, muito pelo contrário, aquele era seu território, ele conhecia cada curva, cada rua...
Com o copo de café em mãos, sem açúcar e forte como ele gostava, finalmente começou a trabalhar em seus pensamentos. Voltou à cena da reunião inúmeras vezes, tentando descobrir qualquer coisa que pudesse em sua reconstrução mental do incidente.
Observou cuidadosamente a feição da mulher que adentrou o escritório. Enquanto em sua mente a cena permanecia pausada, ele circundou a mulher, prestando atenção na marca em seus dedos da mão esquerda: canhota.
O coque cuidadosamente feito em seus cabelos louros, presos com um alfinete rico, feito com pedras preciosas: comprado pelo chefe.
A saia de algodão cinza, um número maior do que a secretária vestia: emprestada da mulher do banqueiro.
Ele parou de volta as costas da mulher e respirou fundo, impaciente. Pois aquela mulher não tinha nada que a pudesse ligar ao assassinato. Era apenas uma secretária amante do chefe. Após sua saída, o senhor Tomball – diretor de empréstimos comerciais do banco – adentrou a sala. Desta vez Hashirama deixou que a cena corresse normalmente enquanto circundava seu suspeito. Usava um terno preto, camisa branca e gravata roxa, as mesmas cores que Ostermann e o símbolo do banco. Era comum que os banqueiros se vestissem daquela forma.
Novamente Hashirama não pôde ouvir o que eles diziam. Todas as palavras eram abafadas, como se o detetive tivesse água em seus ouvidos. Mas ouvir a conversa não era seu foco, pois sabia que não poderia e, além disso, um corpo poderia dizer mais que as palavras para ele. Tomball tinha rosto e mãos mais morenos que o pescoço, perto de onde a gola da camisa terminava, o que indicava um longo período na cidade e pouquíssimo tempo viajando ou aproveitando seus dias fora do escritório. De acordo com a descrição fornecida pela secretária, Tombell não era o tipo de homem que se ausentava de seus deveres dentro da empresa por muito tempo. Ele se preocupava com o crescimento do banco. Hashirama pôde confirmar que ela não estava mentindo.
Embora a recriação do depoimento da secretária o ajudasse a decidir alguns pontos em sua investigação, o desaparecimento do diretor o incomodava. Enquanto a polícia suspeitava que Tomball fosse o assassino de Ostermann, Hashirava sabia que ele era apenas mais uma vítima. Bem como o tesoureiro Bakman que também estava desaparecido desde o dia do assassinato.
Respirando fundo, o detetive abriu os olhos, voltando ao café e a agenda em suas mãos. Não havia mais nada que ele pudesse tirar da sala de Ostermann. Deveria forcar na agenda e nos lugares recentemente frequentados pelo banqueiro.
Durante o dia, focou-se em seu médico cardiologista, que o descreveu como um homem acelerado, de difícil persuasão e hábitos alimentares duvidosos. O doutor ficou chocado ao saber da morte de seu paciente, mas não havia nada de suspeito sobre suas atitudes.
Ao cair da tarde, Hashirama se dirigiu para o restaurante muito frequentado por Ostermann e seus diretores executivos, a fim de reuniões mais descontraídas. Porém também não conseguiu muito além de seus hábitos alimentares e o tipo de conversa que costumava ter sobre as ações e o crescimento da companhia.
Havia apenas mais um lugar que ele considerava relevante visitar para entender mais sobre a vítima, mas antes precisava de algumas informações. Ao entrar em casa, retirou os sapatos e os deixou na porta, pendurou o casaco no cabideiro e preparou uma caneca grande de café. Sentou-se na mesa da sala e ligou seu computador, bebericando do café.
Seu corriqueiro site de notícias informava a morte do diretor de inspeção do maior banco do país. Hashirama pesquisou pelo nome do banco e analisou cuidadosamente os altos e baixos de suas ações e recente queda na adesão de empréstimos e até mesmo novos clientes. Uma ideia surgiu em sua mente e o detetive levou os dedos aos lábios, matutando a possibilidade de aquele ser de fato o desfecho do tal curioso caso. Mas ele não tiraria nenhuma conclusão precipitada. Ainda visitaria o último local.
Ao cair da noite, ainda com os cabelos molhados, Hashirama trancou a porta de seu apartamento e saiu pelas ruas da cidade, caminhando até o bar onde Ostermann costumava ir após o trabalho.
Aquela era a primeira sexta-feira após a volta às aulas, era óbvio que os bares do centro estariam lotados de universitários reunidos para comemorar qualquer coisa. O ambiente era mais barulhento do que Hashirama esperava. Ao passar da parte mais movimentada próximo à bancada de drinks, o detetive se sentou em uma mesa alta com duas banquetas e passou a analisar a composição de tudo ali, as paredes revestidas com madeira escura e luzes amareladas, o piso preto fosco, as banquetas e mesas de ferro, os copos chiques... Realmente era um lugar de padrão alto e perfeito para homens de negócios discutirem algo sem chamarem a atenção.
Era exatamente aquilo que Hashirama pensava que havia acontecido. As ações do banco haviam despencado nos últimos meses, sua credibilidade estava abalada com os últimos relatos de clientes que haviam sido lesados em quantias grandes. Logo o bar estava mais vazio e dois homens de meia idade sentavam-se à mesa ao lado do detetive. A conversa entre eles era tensa, mas não chegava a se tornar agressiva. Ambos Ostermann e Tomball discutiam sobre o desvio de verba que estava ocorrendo descaradamente por parte de um dos diretores. A reconstrução daquela noite chegava ao seu ponto crucial, quando a mente de Hashirama foi brutalmente trazida de volta por um copo que batia em sua mesa e um jovem que se sentava junto a ele.
— Finja que estamos tendo uma conversa animada e eu te pago uma bebida! – O outro rapaz falou, recebendo um olhar completamente confuso do detetive. – Fale qualquer coisa. Como está cheio aqui hoje, não?! – Ele parecia preocupado com alguma coisa, sempre olhando por cima do ombro de Hashirama.
— Sim. – Ele respondeu seco. – Parece bem cheio, inclusive com pessoas sem muito senso.
O outro rapaz caiu na risada, fazendo um escândalo forçado e batendo com a mão na mesa.
— Como você é engraçado! – Falou alto, limpando uma lágrima do canto dos olhos e colocando a mão na barriga após a crise riso nada convincente para o detetive.
Um universitário de cabelos ruivos passou por eles, encarando o rapaz na mesa de Hashirama. Após perceber que ele havia saído do bar, o intruso olhou para o homem que o encarava com um misto de confusão e raiva na face.
— Desculpe. – Ele pareceu voltar ao seu normal. Passou uma mão pelos cabelos pretos e compridos e tirou do rosto a expressão de maluco. – Tinha que escapar daquele maluco e você foi a primeira coisa que veio na cabeça. Interrompi algo, não foi? Realmente me desculpe. – O estudante permaneceu na mesa segurando seu drink e olhando para o detetive.
— Ele está te perseguindo? – Hashirama tentou ser gentil, apesar de seu pensamento se dividir entre expulsar o rapaz da mesa e entender a razão dele precisar de uma solução tão rápida.
— Tecnicamente. Ele quer minha ajuda no TCC dele, mas eu não estou muito disposto a ajudar. – Ele sorriu de forma infantil. – Então ele tenta me pressionar onde quer que eu esteja. – Tomou um gole de sua bebida azul fluorescente e então voltou a olhar para o detetive. – Onde está minha educação... Meu nome é Madara. – Estendeu a mão.
— Hashirama Senju. – O detetive respondeu, apertando a mão estendida. – O que estuda? – O detetive ficou curioso, embora pudesse adivinhar algumas das opções do rapaz que parecia extrovertido.
— Psicologia. – Ele respondeu com um sorriso. – Último semestre. – Ele bebericou outra vez.
Hashirama estreitou os olhos, pois aquela não era uma das opções de curso que tinha em mente para aquele rapaz. Sua expressão fez Madara rir.
— A maioria diz que não é a minha cara, que eu combino com publicidade ou algo do gênero. Acho que é por causa da cara de paciente psiquiátrico e não de doutor. – Falou com humor, logo desmanchando a expressão duvidosa de Hashirama. – Desculpe pela interrupção Hashirama, e obrigado pela ajuda!
O rapaz deixou a mesa, sumindo de vista em meio aos outros universitários. Deixando Hashirama de volta com seus pensamentos sobre os banqueiros.
Notas finais
Temos um assassinato, um detetive preocupado e um universitário entusiasmado. O que pode dar errado?
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