Blind
28 "Epilogo"
Notas iniciais
Era uma manhã agradável de domingo. O vento matinal batia no rosto de Percy. Pela claridade que entrava dentro do carro, ele sabia que era um dia ensolarado, porém não muito quente. Era um dia fresco e perfeito para um passeio.
Percy estava de olhos fechados, não fazia diferença ficar de olhos abertos ou não, afinal ele não via nada. Era isso o que lhe dava raiva, um dia tão espetacular e ele não podia ver. Sempre se sentia triste em momentos assim. Tudo teria mesmo que ser tão injusto?
Então ele sentiu um corpo pequenino se mexendo no seu colo e uma mãozinha segurou o seu dedo indicador. Ele sorriu.
–Oi, filho. Acordou dorminhoco? -Ele perguntou a seu filho.
–Papá ... -seu filho respondeu.
Ele ouviu Annabeth sorrir enquanto dirigia. Eles estavam em um silêncio confortável no carro enquanto o pequeno Peter dormia tranquilo no colo do pai. Eles estavam na estrada para Montauk, a praia que mudou a vida deles dois.
Peter já estava com um ano e meio, falava algumas palavras e tentava balbuciar outras. Ele era muito apegado a Percy, por isso a primeira palavra que falou foi o famoso "Papá". Annabeth fingiu que não ficou chateada, mas ficou uma semana resmungando algo sobre filhos serem ingratos com suas mães. Peter era inteligente como a mãe. Percy não podia ver o seu filho, mas a discrição que todos davam era a mesma: os olhos verdes mar do pai, os cabelos loiros e o sorriso da mãe. Leo e Piper concordaram que quando Peter não entendia algo, sempre fazia a cara de lerdo de Percy.
–Você está triste. -afirmou Annabeth.
–Não estou não, Annie. -retrucou Percy
Ele podia imaginar os cabelos loiros dela presos em um coque e alguns fios soltos voando ao vento. Imaginou ela com um short jeans e um blusa estampada, as roupas que ela disse que sempre gostava de usar quando iam a praia. Percy estava como sempre desleixado, não ligava muito pras roupas que usava. Estava sem camisa, de bermuda, chinelos e seus inseparáveis óculos escuros. Não tinha nem se preocupado em fazer a barba de uma semana.
Peter começou a catuca-lo. Ele entendeu o recado: o filho queria brincar. Percy pegou no porta luvas a miniatura do barco que Annabeth tinha projetado e começou a brincar com o filho. Peter gargalhava e tentava pegar o barco no alto. Depois de um tempo Percy percebeu que Peter se cansou e então lhe entregou o barco para ele segurar e fazer o que quiser.
–Você está triste, sim. -disse Annabeth em um tom gentil.
Percy suspirou.
–É inevitável não ficar. Eu tenho quase certeza que está um dia lindo, que o nosso filho está feliz e ainda assim eu não posso ver nada. Não posso ver as coisas mais simples e belas da vida. -ele deixou a sua voz morrer, não fazia sentido prolongar aquilo.
–Ah, meu amor ...
–Não, esqueça isso. Não precisa dizer nada. É só um velho ressentimento. -Percy sorriu, um sorriso forçado, mas mesmo assim achou que tranquilizou mais Annabeth. -Agora chega desse drama. Estamos indo pra praia, nadar, surfar e brincar na areia, não é, filho?
–Sim, papá! -respondeu Peter.
Percy sorriu, bagunçou os cabelos do menino e lhe deu um beijo na testa.
Quando chegaram na praia, Annabeth logo lhes arranjou um lugar perto no mar e onde batia uma brisa maravilhosa. Como Percy estava com fome, decidiu ficar ali sentado na areia e comer alguns sanduíches naturais que Annabeth tinha feito. Sua esposa e seu filho não lhe fizeram companhia, foram nadar um pouco.
–Vem, papá! -pediu Peter, antes de ir.
–Depois eu vou, filho. Pode ir, eu acho que sua mãe não mata vocês afogados em tão pouco tempo. -Percy torceu para que a esposa não lhe matasse ali mesmo, na frente do filho.
–Deixa de ser babaca -ele retrucou.- Daqui a pouco vamos apostar umas braçadas até a ponta da praia. E eu tenho certeza que você não aguenta nem até a metade do caminho.
Percy lhe deu língua. E assim as pessoas que ele mais ama, foram para o mar.
Quando ele terminou de comer, automaticamente se levantou e acenou com a mão para que Annabeth fosse até ele. Apesar de ter poucas pessoas na praia ele com toda certeza não conseguiria ouvir sua família o chamando, até porque o barulho do mar estava um pouco alto. Ele acenou mais um pouco, mas pelo visto sua família não viu, já que não foram até ele.
De repente, ele ouviu uma conversa interessante ao seu lado. Era um garoto discutindo com a sua mãe, ele parecia estar chorando.
"Não sei por quê você me trouxe " disse o garoto. A mãe pareceu tentar parar de argumentar e deixou o filho sozinho ali. Percy se concentrou ao máximo para se lembrar de onde a voz tinha vindo. Caminhou devagar e ouviu as bufadas de alguém.
–Oi. -disse ele.
–Oi. -respondeu mal humorado a voz do garoto.
–Hã, eu ouvi você falando com a sua mãe, onde ela está?
–No mar, me deixou aqui, como sempre. -a voz do moleque estava embargada. -E por que você quer saber? Vai me sequestrar?
–Claro que não.
–Então, está aqui por quê? -pelo tom de voz do menino ele já estava ficando chateado.
Percy suspirou. Não queria dar uma de moralista, mas algo lhe dizia que ele tinha que fazer aquilo por aquela criança.
–Eu queria saber porque você não está se divertindo com a sua família. -falou Percy.
–Você está brincando, não é? -disse o menino, já um pouco alterado. -Não vê que estou nessa droga de cadeira de rodas?
–Não, eu não vi. E nem verei. Sou cego, moleque. Não percebeu?
–Ah ... -o menino pareceu envergonhado. -Mas minha família não liga pra mim, não sei porque me trouxeram. Meus irmãos e meus pais estão lá brincando, me chamaram pra ir também, mas eu não quero. Não quero ficar sendo carregado pelo o meu pai, não posso andar, não posso nadar, não posso fazer nada!
–Sei como se sente. -Percy suspirou. -Posso me sentar ao seu lado?
O garoto confirmou.
–Então, moleque -Percy começou. -Você deve ter o quê, dez ou onze anos?
–Tenho doze. -disse o menino.
– ... o quê significa que você viveu pouco ainda. Eu fiquei cego com seis anos. Foi difícil e ainda é. Hoje mesmo eu senti que magoei a minha esposa porque revelei que não me sinto muito bem vindo para a praia em um dia lindo e não poder ver nada. -Percy suspirou e disse as palavras que resumiam a lição que ele aprendeu ao longo dos anos: -Eu e você, deficientes, vamos nos sentir assim em alguns momentos da vida, é normal.
"Mas precisamos nos lembrar que existem pessoas que veem, andam e fazem tudo o que nós não podemos fazer; mas que ainda sim se sentem deslocadas, sozinhas e incompletas. Pessoas egoístas que nunca se preocuparam com o bem estar de alguém. Nós, moleque, temos algo faltando, uma vantagem a menos. Mas nós, assim como os outros, somos quem escrevemos a nossa própria história."
–E o quê você quer dizer com todo esse discurso? -perguntou o menino desconfiado.
–Quero dizer pra você ir se divertir com a sua família. Você não vai andar se ficar aqui, também não vai andar se for até lá. Mas pelo menos vai estar se divertindo. Não deixe suas limitações pararem você.
O menino agradeceu. Percy estendeu a mão e o garoto a apertou. Ele voltou para o mesmo lugar que estava antes, contou os dez passos que tinha dado antes e achou a sua cadeira de praia.
–Percy? -Chamou Annabeth. -Desculpa não ter vindo antes, acabei me distraindo.
–Tudo bem, eu fiquei tranquilo aqui.
–O quê está dizendo àquele menino? -ela perguntou.
Percy sorriu.
–Apenas algumas coisinhas. -ele respondeu. -Vamos nadar um pouco? -perguntou ele pegando Peter do colo de Annabeth.
–Claro ...
–Sim, papá, vamos! -falou Peter a interrompendo.
Os pais do garoto sorriram. Percy deixou seus óculos escuros em cima da toalha que estava estirada no chão. Segurou na mão da sua esposa e com o seu filho nos seus braços, entrou no mar.
Percy ouviu a voz estridente do moleque com quem estava conversando. Pelo o que pareceu ele tinha decidido se divertir com os irmão enquanto o pai o segurava.
Percy sorriu mais uma vez, ficou feliz por ter ajudado alguém como ele. Ele fechou os olhos e virou o seu rosto para o céu, aproveitando o vento e o cheiro de maresia do local.
Ele beijou o rosto de filho e percebeu que existem coisas mais importantes que ver, andar, falar ou ouvir. Existem coisas que chegam simplesmente para apagar toda a dor de uma vida inteira. Existem, mais precisamente, pessoas que fazem o coração pulsar e a vida valer a pena como nunca pareceu ter valido antes.
Ele ensinaria seu filho a ser alguém assim, capaz de enxergar as coisas que realmente precisam ser notadas. Deu um beijo na sua esposa, deu um pequeno e curto mergulho com Peter e pela primeira vez na vida enxergou que era feliz de verdade.
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