Bleeding Out

1 Bleeding Out


— Tasha! Você está bem?

A voz de Natasha iria soar irritada e descontente quando os respondesse, ecoando pelos comunicadores e alertando aos seus companheiros de que ainda estava viva. Ela havia acabado de acabar com duas dúzias de terroristas libaneses que defendiam a base de um grupo de terror mundial, cuja qual tinha intenção de, novamente, tentar explodir o Pentágono. Mas a sorte não parecia estar no seu lado naquele dia. A agente precisou pular do décimo quarto andar do prédio em que estava para poder fugir de mais duas dúzias de homens fortemente armados, e tudo o que ela mais desejava naquele momento era uma banheira de água quente e pétalas de rosas rodeando seu corpo dolorido pela queda. Ela provavelmente havia quebrado algumas costelas e deslocado seu ombro, mas graças ao rolamento que dera antes de desabar no chão, evitara machucados piores.

— Eu estou bem.

— Está mesmo tudo bem, Nat?

Ela suspirou, engolindo sua irritação e murmurando um "uh-hum" contra o comunicador. Apesar de achar fofo, a preocupação de Steve com a mesma estava fazendo-o perder o foco. Agora, apoiada na parede do beco atrás do prédio lotado de homens, ela tomou fôlego e encaixou o ombro deslocado em seu lugar sem nem ao menos esboçar alguma expressão de dor, voltando a correr para escalar o prédio pelas escadas de emergência. Natasha saltou, agarrando a varanda de ferro que havia ali e rolou sobre a mureta, passando para dentro e começando a subir com rapidez e destreza, evitando passar por onde poderia ficar exposta. Tony sobrevoava o prédio atrás de uma entrada no teto, Steve distraía os guardas do primeiro andar e Clint colocava em ação a parte da cobertura, acertando uma flecha de gás do sono em alguns dos guardas que bloqueavam o caminho da ruiva. Ela pulou num dos dardos de metal que Barton atirara contra a parede e esgueirou-se pela janela, rolando e caindo atrás de um caixote grande de madeira sem fazer o menor ruído.

Mas como disse, a sorte não estava ao seu lado.

A sala estava repleta de homens, todos armados até os dentes, que conversavam em árabe enquanto caminhavam apressados de um lado para o outro pelo grande cômodo. A espiã empurrou a tampa da caixa o suficiente para que pudesse ver seu interior, e um sentimento gelado nasceu na boca do seu estômago. O caixote estava cheio de bombas, pequenas e compactas, redondas, mas Natasha sabia que tinham alto poder de destruição. Aqueles terroristas não estavam para brincadeira. Ela precisou respirar fundo e manter a calma, puxando uma de suas pistolas da cintura e a recarregando. Levou uma mão até sua orelha e sussurrou baixinho, visto que um homem com uma Uzi presa em um de seus ombros estava a menos de seis metros da mesma.

— Capitão, preciso de você aqui. Sétimo andar, primeira janela à esquerda. Use as escadas de emergência, e não faça alarde. Tony, libere todos os prédios e casas num raio de noventa quilômetros. Clint, nos dê cobertura.

Com a confirmação dos heróis, ela respirou fundo e decidiu atacar. A ruiva correu para longe dos caixotes e utilizou um dos mesmos para dar impulso e saltar o mais alto que pôde, segurando num dos canos que passavam pelo teto da sala e se equilibrando em cima do mesmo. Os homens começaram a procurá-la, gritando em árabe, apontando suas armas para o teto e ameaçando atirar. Ela precisava ao máximo manter o foco dos terroristas em si, para que pudesse deixar o espaço livre para que Steve se esgueirar para dentro e a ajudasse a derrubá-los. Apoiando os pés nos dois canos de ferro que ainda não estavam enferrujados, Natasha puxou a outra pistola e começou a atirar, acertando uma única bala na testa de seus inimigos. Aos poucos, os libaneses caiam por terra enquanto os que ainda estavam de pé atiravam desesperadamente para cima, fazendo a agente correr pelos canos e se manter abaixada para não acertar sua cabeça no teto.

Quando o inadiável aconteceu e um dos canos em que pisava cedeu, ela decidiu entrar no combate corpo a corpo. Aproveitando-se da queda, a ruiva envolveu suas pernas no pescoço de um dos homens e girou o corpo, fazendo-o cair no chão, desacordado. Ela rapidamente se levantou e correu até o próximo, acertando um soco contra seu maxilar e o girando, segurando sua garganta e o apagando com um mata-leão. Nat desviou de uma rajada de tiros desconexa que um jovem libanês, de talvez vinte anos, lhe direcionava, com a expressão assustada. Ela jogou a coluna para trás, vendo pequenos raios pretos zunirem diante de seus olhos, e se ergueu num impulso, usando de sua perna esquerda para acertar um chute no maxilar do garoto, o lançando para o outro lado do caixote atrás de si. A espiã deu um rolamento para o lado e puxou a arma que estava largada no chão em cima de um dos mortos, usando seu punho para acertar o rosto do outro terrorista com um lançamento invejável.

Mais um se aproximou, e ela o apagou com um simples golpe em sua artéria do pescoço com os dedos meio fechados. Viúva Negra puxou um dos bastões de seu cinto e o girou no ar, pronta para acertar o rosto de outro homem quando a voz do soldado invadiu seus ouvidos e a trouxe de volta à realidade.

— Se abaixa!

Ela agachou, com uma das pernas esticadas, vendo o escudo de Steve voar pelo ar e acertar quatro homens de uma vez só, os lançando para o outro lado da sala. Ele correu para ajudá-la a se levantar e acertou um soco contra o último libanês que vinha da sua direção, lançando sua metralhadora para longe com um único golpe. Natasha avaliou a sala; agora estava vazia, com alguns homens mortos e outros desacordados, e não parecia ter sinais de que mais terroristas iriam partir ao ataque. Ela então caminhou até um dos caixotes de madeira e empurrou a tampa para trás, ignorando o fato da tábua pesada ter caído em cima de um dos desacordados. Diversas bombas estavam ali, de tamanhos e formas diferentes, com marcações de numerações diferenciadas e variações de cores entre o preto, o cinza e o verde militar. Haviam pelo menos quarenta dispositivos naquele caixote, e a ruiva não precisava ser tão boa em contas para saber que aquela quantidade de caixas conteriam uma centena de explosivos.

— Você está bem?

Ela inclinou a cabeça. Eram amigos próximos, quase tão próximos quanto ela e Clint, mas ainda estranhava o fato de ele estar sempre se preocupando com seu bem estar. Steve, mais do que ninguém, deveria saber do que a Romanoff era capaz.

— Te garanto que estou bem melhor do que eles. — ela sorriu, olhando ao redor — Stark liberou a área?

— Tudo limpo. — Steve a encarou, os olhos azuis brilhando em satisfação ao mesmo tempo que mergulhavam-se em terror — Precisamos tirar isso daqui o mais rápido possível.

Ela assentiu com a cabeça. Caminhou até o outro lado da sala e empurrou outra tampa, enquanto assistia de canto de olho Capitão América fazer o mesmo. Pôde reparar pequenos detalhes nele, como sempre fazia nas missões e, principalmente, fora delas. Steve tinha os ombros baixos e o uniforme sujo de poeira e pólvora. Sua expressão era neutra, apesar de Nat o conhecer bem o suficiente para saber que estava irritado. Ela, de certa forma, o entendia. Rogers lutara na guerra para impedir que coisas como aquela, ameaças ao povo americano como aquela surgissem novamente. Mas ali estava ele, e tanto o Capitão quanto a Viúva sabiam que a guerra nunca iria terminar.

Natasha, cuidadosa, examinou uma das bombas, apoiada na caixa, sabendo que Steve olhava o caixote logo atrás. Símbolos de empresas que ela nunca ouvira falar entalhavam-se nas carcaças metálicas, pareciam ter destinos diferentes, apesar de dividirem o mesmo espaço. Segurando com zelo um dos explosivos desativados, ela se virou para o Capitão, prestes a lhe fazer uma pergunta, quando percebeu que aquele fora o pior erro da sua vida.

— Ei, Cap, você reconhece algum desses si-

— Natasha, cuidado!

Um dos libaneses havia acordado, e segurava um longo facão de lâmina dupla em suas mãos, gritando o nome do hino de seu país como um brado de guerra. Natasha virou-se para o terrorista e tentou desviar se jogando para o lado, mas já havia sido tarde demais; o homem cravara a placa de metal fundo em sua barriga, fazendo o sangue rapidamente empapar seu uniforme de couro e agarrar-se desesperadamente à sua pele. Ela se encontrou imóvel, surpresa e furiosa. Havia sido atacada por um libanês que nem ao menos sabia desferir um golpe descente?! Entretanto, a descarga de adrenalina que a fúria e a batalha haviam lhe fornecido dissipou-se em segundos, a fazendo sentir uma das piores dores da sua vida. A dor era aguda e queimava, borbulhando cada célula em seu sangue e a fazendo gritar de dor. Caiu de joelhos para a frente, e assistiu, com os olhos fracos e a visão turva, um Steve Rogers extremamente furioso acertar violentamente o rosto do homem com seu égide e o lançá-lo para fora da sua visão, ouvindo uma janela de vidro ser estilhaçada. Ele correu na direção dela, largando o escudo no chão e se ajoelhando ao seu lado, colocando a mulher deitada com a cabeça em suas pernas. Natasha começava a falhar com sua respiração, o facão preso em sua barriga subia e descia conforme ela tentava ingerir o ar, cada parte de seu tronco agora doendo como se tivesse sido acertada por um raio. Sete vezes seguidas.

E então aquele famoso filme desenrolou-se diante de sua cabeça.

Ela assistiu toda sua trajetória de vida em segundos. Mas então, sua mente cravou-se no beijo que havia dado em Steve naquele shopping enquanto despistavam a equipe de Rumlow. E se repetiu de novo, de novo e de novo, para logo dar acesso à uma dolorosa lista de cenas em que ele se importara com ela.

Ele passou os dedos pelos cabelos vermelhos da ruiva, os acariciando enquanto sua outra mão cuidava do facão agarrado em sua barriga. Steve o arrancou como um esparadrapo, vendo Natasha berrar de dor e fechar os olhos com força, usando uma de suas mãos livres para segurar a dele na busca desesperada por conforto. Aquela cena partiu o coração do soldado em minúsculos pedaços, que tentava de tudo para não derramar as lágrimas que se alojavam em seus olhos azuis. A respiração ofegante a ajudava a se manter calma, mas seus batimentos cardíacos continuavam a decair cada vez mais rápido. Apesar da dor lancinante que percorria cada terminação nervosa de seu corpo, ela não temia a morte. Ela sabia que, se fosse mesmo morrer de forma tão ridícula como aquela, que pelo menos seria pelo país que já passara a considerar como seu.

E admitindo para si mesma, não havia melhor lugar para estar a beira da morte do que nos braços fortes e aconchegantes de Steve Rogers.

— Capitão América para Maria Hill, traga uma ambulância imediatamente! A Viúva Negra está gravemente ferida! É urgente!! — Steve urrou como um leão furioso contra o comunicador, ignorando todas as outras respostas que recebera pelo mesmo — Vai ficar tudo bem, você vai ficar bem. — ele murmurava contra o rosto da ruiva, falando mais para si mesmo do que para ela, controlando arduamente para que as lágrimas não lhe fugissem dos olhos — Eu estou aqui, Nat, você vai ficar bem.

— Shh... A culpa... N-não é sua. — ela tossiu, lançando mais um curto jato de sangue na direção do seu uniforme. Ela lhe deu um fraco sorriso, e mesmo com os lábios e dentes mergulhados no líquido escarlate, seu riso era o mais bonito que ele poderia ter visto. O pânico começou a tomar conta de seu corpo quando os olhos esmeraldinos de Natasha começaram a se fechar, o brilho brincalhão e zombeteiro que ela sempre carregava sumindo como fumaça num vendaval — N-não foi... Sua... Culpa...

E ela se calou. Dessa vez, para sempre.

Rogers abaixou a cabeça, colando sua testa à da ruiva e deixou que todas as lágrimas acumuladas em suas safiras cerúleas desabassem contra as bochechas da Romanoff. A dor da perda esfaqueava seu coração como um assassino insano, a cada batida era uma lembrança e a cada lágrima o reconhecimento de que ela se fora. Steve gritou para o céu, amaldiçoou os quatro cantos do mundo e se sentou imponente, incapaz de ajudá-la. Seus ombros sentiram o peso do céu, sua cabeça parecia a um fio de explodir e seu peito doía como nunca fizera antes. Perder Natasha fora o golpe mais cruel que recebera da vida. Ele desceu seus olhos até seu uniforme, e este estava manchado de sangue.

Do sangue dela.

O soldado sentiu sua alma partir-se em mil pedaços, que caíram por terra e desapareceram ao vento. Seu corpo estava em chamas, mas não eram o fogo suave e tranquilo no qual ela sempre o fazia mergulhar-se com apenas um toque, um sorriso, ou uma piada. Não. Eram chamas de dor e completa perda. Steve Rogers nunca se sentira tão culpado, e dor maior nunca havia instalado-se em seu peito daquela maneira.

Sangrando. Ele estava sangrando.

Sangrando por ela.

Notas finais
Entãããão, gostaram? Por favorzinho, não me matem, por favorrrrr. Eis aqui o que eu proponho a vocês: Se vocês tiverem gostado da oneshot, eu vou transformá-la numa longfic! O que vocês acham, hun? Deixem suas respostas nos comentários! Até logo ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!