Bleed
1 Capítulo 1
Na noite do dia 25 de junho, eu vi alguém jogar correntes de ferro no rio. O barulho da água engolindo o metal era, de alguma forma, assustador. Uma fina neblina cobria o céu. Meu coração disparou quando a estranha figura se virou e andou na minha direção. Eu vi seus olhos, brilhantes e azuis, quase tão frios quanto o ambiente, mas ele não parecia me enxergar; olhava através de mim. Parou, alongou o pescoço, e seguiu em frente, as mãos dentro dos bolsos.
— Não dorme agora, por favor. — Erika me cutuca com força, levemente irritada. Pisco algumas vezes, confuso. — Eu disse pra não dormir. — e estala os dedos na minha frente.
— Não estou dormindo, porra. — demoro alguns segundos para perceber onde estou. A sala de aula, claro. Dois garotos estão de pé, na frente da lousa, apontando para a imagem projetada de um gráfico qualquer. Ambos visivelmente nervosos.
— Jura? Porque você passou quase um minuto inteiro de olhos fechados. Se isso não é dormir... — ela diz enquanto se ajeita na carteira, impaciente. — Você se lembra da sua parte, né?
Aos poucos me dou conta do que havia acontecido. Outro lapso. Estavam mais frequentes nos últimos meses. Eram como sonhos curtos, cenas aleatórias que eu tentava ignorar quando não eram interessantes ou com pessoas desconhecidas. O mais estranho era a forte sensação de certeza que acompanhava o sonho. Uma data. Eu sempre sabia a data, como uma intuição impregnada, um rótulo com números. Não importava o quão estranha era a cena, a data sempre estava lá, no meu subconsciente. 13 de maio, 22 de agosto, 17 de abril. Sempre.
— Lembra ou não? — Erika me cutuca de novo. Como conseguia ser tão irritante?
— Lembro. Para de me tocar. Seus dedos machucam. — ela tinha dedos compridos demais. Sempre imaginava que ela daria uma ótima pianista ou coisa do tipo. Ela ria da ideia.
— Você não vai querer sentir o que vou fazer com eles se você dormir de novo. — ameaça, com um sorriso debochado, passando a mão no meu braço.
Um aplauso desajeitado finaliza a apresentação patética da dupla desesperada. Era nossa vez.
— Nathan e Erika, certo? — a professora diz enquanto checa na lista. — Vão usar slide?
Levanto sem muito ânimo enquanto Erika murmura para si mesma sua parte do trabalho.
— Não vai ser preciso. — respondo, caminhando para a frente da sala. Viro para os outros alunos. Quase todos absortos demais em seus mundos particulares para prestar atenção em qualquer merda que eu diga. — Bom, nosso trabalho é sobre a influência da mídia nas massas. Separamos alguns exemplos legais também. No final vocês podem fazer perguntas. A Erika aqui tem uns avisos antes...
[...]
— Acha que eu fui bem? — ela pergunta depois de morder um pedaço de maçã. — Tipo, de verdade, acha que alguém entendeu o que eu disse?
Nós estávamos voltando para casa à pé. Era nosso percurso diário. Saíamos da escola, comprávamos algo para comer no mercado ao lado e andávamos por trinta e poucos minutos até chegar no nosso bairro. Erika morava numa casa grande e suntuosa, três quadras antes da minha. Era a filha única de um casal de advogados da cidade. Tinha pele clara, cabelos pretos lisos, olhos verdes e era bem alta. Uma silhueta sempre familiar, mesmo de longe.
— Acho que alguns prestaram atenção. Uns quatro, no máximo. O Dan com certeza foi um deles. — dou uma risada. Erika tinha pavor do garoto.
— Deus me livre! — ela faz o sinal da cruz. — Acredita que ele me marcou num meme semana passada? Quem ele pensa que é? Meu namorado?
— Ninguém mandou aceitar todo mundo que te manda solicitação no Facebook.
— Você sabe que eu odeio recusar.
— Que bondosa. — rimos juntos. — Você não reclamaria se fosse o Jason encarando suas pernas.
— Nem você. — ela retruca, arqueando a sobrancelha. — Eu sei que você tem uma queda naqueles braços.
— Vai se foder. — e rimos de novo.
Logo em seguida o carro vem em nossa direção. O pavor toma conta de mim. O som crescente dos pneus no asfalto. A luz alta dos faróis. Uma fração de segundo e o som da batida. Um baque alto e seco. Pedaços de vidro por todo o lado. O airbag inflado manchado pelo sangue do motorista. 31 de dezembro.
— Nathan?! Puta merda! O que deu em você? — Erika está em pé ao meu lado, celular em mãos, olhar assustado. — Quer que eu chame alguém? Fala comigo, porra!
Eu estou ofegante, sentado na calçada, sem entender a situação. Não havia carro algum. Éramos só eu e ela na rua deserta.
— O carro... — balbucio, atônito. — Cadê o carro?
— O que deu em você, porra?! Você gritou e se jogou na minha frente. Não tem carro nenhum!
Na noite do dia 25 de junho, eu vi um homem na beira do lago.
Nós estávamos em março...
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