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Notas iniciais
Os dias pareciam sem sentido para Kurt. Ele estava em casa, porém mal saía do quarto. Haviam sido contratados três professores particulares, dois de matérias e um para ensinar Kurt a ler e escrever em braille, porém o castanho não se interessava nas aulas.
– Kurt, você tem visita. — Disse Carole dando umas batidas nas porta, fazendo Kurt despertar do sonho que vivia.
– É o Blaine? — Kurt meio que sorriu. O médico prometeu que iria visitá-lo, porém não apareceu mais por ali. Kurt estava começando a pensar que ele nunca mais apareceria.
– Alguém melhor. — Kurt ouviu uma voz, porém não reconheceu.
– Oi... — Disse receoso.
– Você já deve ter ouvido falar de mim... — Kurt ouviu algum batuque que não conseguia distinguir o que era. — Sou Katie, irmã de Blaine.
– Ah, sim. Ele me contou de você. — Kurt se sentou na cama. Katie também era cega, e conversar com alguém na mesma situação seria algo bom agora. — Esse barulho é de sua bengala?
– Sim. Parece que você está começando a aprender a prestar atenção nas coisas, e isso é bem importante. — Katie se sentou na cama. — Blaine me trouxe aqui pra conversar com você, mas ele não ficou porque surgiu algo importante no hospital.
– Entendo. É bom conversar com alguém que me entende, pra variar. — Kurt sorriu, mesmo sabendo que Katie não poderia ver. Ela talvez sentisse.
– Tenha certeza que te entendo. Há quanto tempo você está nessa situação, Kurt? — A mão dos dois cegos se encontraram. Kurt tinha aprendido nesse tempo que o toque era importante.
– Um mês? Mais? Não me lembro muito bem... Você nunca enxergou nada, não é?
– Não. Desde pequena, tudo o que eu enxergava era... nada. Todos me perguntavam se eu enxergava um fundo preto, mas... o que é um fundo preto? O que é preto? Eu sei que é uma cor, mas como eu vou saber como ela é se eu nunca a vi? Como eu vou saber o que é uma cor se eu nunca vi nada para distinguir o que é uma cor? Me descreva cor. Cor é algo que colore um objeto. O que colore? Você me entende? Você enxerga o quê? Preto?
– N-não... Eu... — Kurt tentava entender o que Katie havia acabado de falar. Ele nunca havia parado para pensar nisso. Katie sequer sabia o que era uma cor. — Não, eu não vejo preto. Eu vejo uma cena, lembranças de como é enxergar. Eu nunca paro de pensar. Nesse momento eu imagino meu quarto e uma moça sentada na minha frente; porém não preto...
– É exatamente isso. Eu consigo imaginar também um garoto sentado em uma cama em minha frente, mas como eu sei que é isso que eu estou pensando? Eu sinto as coisas. Já passei minhas mãos por rostos, móveis, objetos, mas eu nunca realmente saberei como eles realmente são, você entende?
Kurt assentiu a cabeça.
– Entende?
– Ah, me desculpe. Eu estava acenando. — Katie deu uma pequena risada. — E como são seus sentidos? A audição e o tato?
– Melhores do que as de qualquer um. Eu posso ouvir Blaine chegando em casa, quando ele vira a esquina com seu carro. Eu consigo colocar minhas mãos pelo rosto do meu irmão e imaginar como ele é, sabe? E eu acho que isso quase se compara à visão. Eu nunca saberei.
– E você... nunca... nunca vai... enxergar? — Perguntou com medo.
– Blaine está procurando algo que me faça enxergar. No Reino Unido estão testando um aparelho que manda fotos para a parte central do cérebro e talvez funcione. Ele é um anjo pra mim!
– Imagino, ele foi um pra mim também. — Kurt corou segundos depois de perceber o que havia falado. — Digo, eu estava perdido e... não sabia o que fazer... e ele apareceu... e....- Foi interrompido.
– Eu entendo. Quando eu nasci, Blaine tinha 3 anos e meus pais pararam de dar atenção pra ele por causa do meu problema. Quando tínhamos 15 e 12, nossos pais nos deixaram com a vizinha e sumiram. Ficamos vivendo um inferno de vida por mais 3 anos, quando Blaine virou de maior e virou meu responsável. Desde então ele prometeu que faria de tudo pra me fazer feliz.
– Uau, ele é... maravilhoso. — Soltou.
– Quem é maravilhoso? — Blaine apareceu na porta, sorrindo ao encontrar a irmã e o amigo de mãos dadas, sentados na cama.
– Coala! — Ela gritou e se levantou, esperando o irmão vir a abraçar. Um dos motivos de Blaine ter entrado na faculdade de oftalmologia foi para ajudar a irmã.
– Coala? — Perguntou Kurt sorrindo.
– É que temos esses apelidos... — Blaine falou envergonhado. — E ela é minha Pandinha. — Apertou o nariz da irmã, que estava abraçada com ele. — E então, Kurt, como você está?
– Bem. Foi muito bom conversar com sua irmã.
– E as aulas? Está frequentando direito?
– Sim, pai. — Brincou. — O único problema é com o professor de braille. Ele quer que eu aprenda da noite pro dia e estou isso aqui pra mandar ele ir catar coquinhos. — Fez sinal com a mão.
– Oi gente. — Carole apareceu na porta. — Vou fazer café pra vocês, tudo bem?
– Vou com você.
Katie alcançou sua bengala com a ajuda de Blaine e saiu do quarto, deixando os dois sozinhos. Blaine repetiu o que sempre fazia e se sentou ao lado da cama de Kurt, alcançando sua mão e fazendo carinho na mesma. Kurt sentia falta daquela mão na sua. Céus, estaria ele se apaixonando por Blaine?
– Talvez eu pudesse ser seu professor de braille então. — Com a mão livre, alcançou o livro que ficava na cabeceira da cama de Kurt e abriu na primeira página.
– Você sabe?
– Eu aprendi para ensinar para Katie. — Blaine pegou a mão de Kurt que estava sob a sua e colocou em cima do livro. — Essa é a letra A.
– Hm.
– Uma dica, é que como só tem um pontinho em relevo, dá pra associar como a primeira letra do alfabeto. A.
– Letra A, um pontinho. Entendi.
Blaine sorriu e Kurt percebeu. Ele estava ficando cada vez melhor nesse lance de cegueira. Blaine virou a página.
– Essa é a letra B. Dois pontinhos.
– Quando chegar na letra Z vai ter vinte e seis pontinhos?
– Não. — Blaine gargalhou e Kurt se sentiu bem, bem como nunca.
A aula continuou até chegarem na letra K. Foi quando Carole gritou do primeiro piso que o café estava pronto.
– Paramos então na letra K. Pronto pra descer? — Blaine se levantou da cama e se preparou para pegar Kurt no colo, pois sua perna ainda estava quebrada. Quase sarada, mas ainda machucada.
– Blaine... — Hesitou.
– Sim, Kurt?
– Posso tocar seu rosto?
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