– Então eu já posso o ver? — Perguntou Carole para a atendente. Era claro no rosto da mulher as olheiras, entregando que ela não dormira noite passada.

– Claro. Aqui está seu crachá, seu marido está no quarto 74B, no sétimo andar, e seu filho ainda está na cirurgia. — Disse a moça que ficava na recepção, entregando para a mulher um crachá.

Carole agradeceu e seguiu seu caminho. Enquanto o elevador subia ela fechava os olhos e agradecia a Deus por ter poupado a vida da sua nova família. Chegou no andar e foi seguindo os quartos no corredor, até chegar ao quanto aonde estava Burt.

– Querido? — Perguntou ela a abrir a porta e reconheceu seu marido deitado na cama. Por sorte, ele estava acordado. Caminhou até lá, segurando algumas flores. — Oi. — A mulher depositou um beijo na testa do marido que sorriu, ainda atordoado por causa dos remédios.

No rosto de Burt haviam alguns arranhões, não muitos. E seu braço estava sendo segurado por um suporte, certamente por estar quebrado.

– Aonde está Kurt? — Perguntou com a voz fraca. Carole sorriu, mesmo naquela situação. Era incrível como Burt esqueceu totalmente do seu estado para se preocupar com o filho.

– Na cirurgia. — Deixou as flores na poltrona e ficou de pé, ao lado da cama enquanto segurava a mão boa de Burt.

– Estou muito no hospital ultimamente. — Sorriu o homem. Carole iria responder alguma coisa se não fosse surpreendida por alguém abrindo a porta.

– Bom dia, Sr. Hummel. — Disse o Dr. Anderson ao entrar na sala, ainda olhando sua prancheta. — Bom dia Sra. Hummel.

– Bom dia só quando eu saber como está o estado do meu filho. — Resmungou Burt.

O médico sorriu, terminando de assinar umas coisas na papelada e colocar ao lado da cama do paciente.

– Sobre isso. Posso falar com a Sra. lá fora?

– Não. Você vai falar com nós dois, porque ele é o meu filho também e eu preciso saber como ele está. — Burt respondeu nervoso. O doutor assentiu e começou a ler outro prontuário.

– Seu filho acabou de passar pela cirurgia. Durante a batida, como eu já expliquei pra Sra. Hummel, Kurt acabou tendo seu rosto cheio de cacos de vidro, incluindo seu nariz e seu olho. Nós fizemos a cirurgia para tirar os cacos de vidro da via nasal, que ocorreu sem problemas, porém na hora da retirada do vidro do globo ocular, acabamos vendo a profundidade da situação. — O médico olhava para o chão, tentando procurar termos médicos para suavizar aquela notícia. — A córnea dos dois olhos estão em um estado muito crítico, a única solução seria o descolamento da mesma, e depois a restauração...

– Então faça isso. — Disse Burt, com os olhos vermelhos.

– Nós fizemos. — Blaine levou a prancheta ao peito. — Foi uma cirurgia delicada. Pensamos na possibilidade de colocarmos uma argola de silicone, ou até mesmo um óleo para melhorar a situação, mas talvez tenha sido tarde demais. Vocês vieram para o hospital quase meia-hora depois do acidente e isso custou a visão do seu filho.

– O-o quê? — Perguntou Carole enquanto algumas lágrimas escorriam pelo seu rosto.

– Eu sinto muito. — O doutor procurava modos de se desculpar, como se fosse sua culpa.

– Eu quero vê-lo. — Burt tentou se levantar da cama, porém o doutor o impediu.

– Ele está se recuperando da cirurgia, mas assim que ele ficar bom para visitar eu o trarei para o mesmo quarto que o seu, prometo. Eu vou estar aqui para o que precisar. — Dr. Anderson se encontrava chateado com a situação. Era uns dos primeiros pacientes que o oftalmologista não conseguia curar.

A situação no quarto estava péssima. Carole chorava em silencio, porque tentava confortar seu marido. O doutor resolveu dar espaço a família e saiu do quarto. Blaine nunca se sentiu assim. Não era o primeiro paciente que perdia a visão. Durante seus dois anos de carreira, o doutor já havia perdido pacientes até para a morte, porque aquele o intrigava tanto?

Caminhou pelos corredores até o quarto de recuperação e ficou ao pé da cama de Kurt. A única coisa que o médico pensava era em uma vida que seria daqui pra frente mais complicada possível. Ele não podia entender como isso podia acontecer assim com uma pessoa com toda uma vida para viver ainda.

Kurt estava deitado na cama, respirando com a ajuda de aparelhos por causa da cirurgia no nariz. Seu olhos estavam enfaixados, assim como sua perna direita. O rosto angelical do garoto agora estava com alguns arranhões, assim também como algumas outras partes do corpo.

O médico tentava figurar alguma forma de ajudar aquele rapaz. Quando estava na faculdade de oftalmologia ele não queria apenas ter pacientes, ele queria ajudar pessoas. Não somente no hospital, mas fora dele também.

– Dr. Anderson, comparecer ao terceiro andar. — Dizia a caixinha de som que ficava no corredor, tirando o doutor de seus pensamentos. Deu uma última olhada para o paciente e sorriu, vendo que mesmo no estado que estava, Kurt ainda sorria durante o sono e/ou o efeito dos remédios.

O médico saiu da sala, seguindo rumo ao terceiro andar. Blaine não sabia, mas ia ser muito importante na vida de Kurt.