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24 #24 Não me deixe sozinho, mas vá
Notas iniciais
Turbinas sendo ligadas, aviões com as portas lacradas e finalmente a aeromoça informando que o voo duraria longas horas e que aterrissaria em Atlanta no fim do dia a seguir. O jovem rapaz se confortou em sua cadeira e fechou os olhos sorrindo, pensando no futuro que viria pela frente.
E é assim que começa o capítulo de hoje, mas não me entenda errado, a pessoa que está no avião não é Blaine. Para você entender essa história, preciso te contar o que aconteceu a partir do momento que Blaine saiu da casa de Kurt, após a briga.
O médico acordou com um peso enorme nas costas, como se tivesse feito algo de errado, mas em sua cabeça, tudo parecia ok. Desceu as escadas arrastando suas velhas pantufas pelo chão, chegando finalmente na sala aonde sua irmã "assistia" à televisão e comia uma enorme tigela de cereais matinais. Blaine deu um tapa leve no ombro de Katie e seguiu preguiçosamente até a cozinha, não antes de apertar o botão da secretária eletrônica que apitava novas mensagens.
"Oi, aqui é Blaine... E Katie. Deixe sua mensagem após o bipe."
"Katie, é Mark. Por favor, atenda minhas ligações. Não sei o que faria sem você, por favor..."
– Mark está em apuros? — Blaine perguntou divertido voltando com uma maçã da cozinha e se sentando ao lado da irmã.
– Sim. — Falou sem dar muita bola.
"B-blaine? Você não deve reconhecer esse número, mas sou eu, Finn. Queria te pedir pra me mandar por e-mail algo sobre essa tal cirurgia de Kurt, algo que o faça desistir de fazê-la. Kurt é cabeça dura e provavelmente isso não irá resolver, mas espero que resolva. Aliás, você esqueceu seu casaco e seu cachecol aqui. Até mais."
Blaine suspirou ao se lembrar da outra noite.
"Boa tarde, Dr. Blaine Anderson. Estamos te ligando novamente sobre a proposta de emprego em Atlanta. Atualmente nosso hospital conta com as mais velozes e modernas máquinas de operações de todo o mundo, e estamos na lista de melhores hospitais para se tratar, em terceiro lugar. Adoraríamos ter um médico como você em nossa equipe, afinal, seu trabalho com o Senhor Dolt é de invejar qualquer outro médico. Sua ficha diz que você tem uma irmã com deficiência visual, e saiba que temos programas para deficientes visuais nos quais há coral, dança e artes. Retorne a ligação assim que puder. Atenciosamente, Anne."
"Você não tem mais mensagens no momento."
– Ainda não se decidiu sobre Atlanta, huh? — Katie sorriu sem jeito para o irmão.
– Não vou. — Falou depois de limpar a garganta e engolir um pedaço de maçã.
– Por causa de Kurt?
– Por causa de nós. Temos uma vida aqui, acabamos de reencontrar nossos pais... Você tem Mark, eu tenho Kurt. Não devemos ir a lugar nenhum.
– Mas Pandinha, você sempre falou que trabalhar lá era um sonho, e que no momento que te chamassem você correria até o aeroporto e embarcaria no primeiro avião.
– As coisas simplesmente mudam. — Falou tentando não quebrar seu coração ainda mais. Katie estava certa, infelizmente.
– Mas Blaine...
– Deu desse assunto, coala.
Beijou a testa da irmã e subiu as escadas, indo se vestir para cobrir seu plantão de 24hrs. Assim que Blaine estava em seu uniforme de plantão, branco gelo com detalhes em azul marinho, ele não se sentia mais o mesmo. Sua vida era aquele hospital, suas mãos salvavam vidas e... bem, aquelas mãos haviam salvado seu maior tesouro.
Dirigiu até o hospital, aonde seus pacientes o esperavam. Amanheceu tranquilamente no hospital. O problema de Lima era ser cortada por uma enorme Br, o que trazia tumulto ao hospital por causa dos acidentes, e em muitas das cirurgias, Blaine deveria estar presente. Além de auxiliar o cirurgião (pois era clínico geral), Blaine checava os orgãos vitais dos pacientes. Naquela pequena sala de cirurgia, Blaine era um super-herói. Seis horas se passavam, e a roupa de Blaine já estava gasta e um pouco suja de sangue, era hora de um intervalo.
– Sanduíche natural e café? — Sebastian passou pelos corredores, andando de trás por um trecho para encarar o médico.
– Vou me trocar e te espero na lanchonete. — Piscou para o enfermeiro que sorriu e continuou seu caminho.
Blaine tirou suas roupas sujas e vestiu apenas uma roupa azul marinho, as que os enfermeiros usavam algumas vezes. Vestiu seu relógio, pegou seu celular e foi até a lanchonete se encontrar com o melhor amigo. Durante o trajeto, Blaine aproveitou para dar uma checada em suas mensagens de voz.
"Você tem 4 novas mensagens."
"Hey... Não preciso me identificar, certo? A não ser que você me rotule por números, como namorado um, ou talvez sete." Kurt gargalhou. "Precisamos conversar, ter uma conversa madura... Me desculpe por ontem e... Bom, nos falamos quando você terminar seu plantão. Já te falei que me encho de orgulho para falar que meu namorado salvou minha vida? Após o plantão, e depois de você descansar suas oito horas merecidas, precisamos nos encontrar. Bom trabalho... ...eu te amo."
Blaine deu um sorriso torto e teclou para ouvir a outra nova mensagem.
"Blaine, não nos conhecemos, mas acho que deveríamos. Eu sou Mark, e bom... Isso já diz praticamente tudo sobre mim. Tenho seu número desde que Katie me deu para emergências. É meio estranho nunca termos nos visto e eu namorar sua irmã por, não sei, oito meses... Bom, acho que veríamos nos conhecer. Meu número é 990-458-875 e acho que seríamos bons amigos."
– Realmente, Mark está encrencado. — Gargalhou sozinho, descendo as escadas. Descer escadas fazia bem para os músculos, nem que fosse uma vez por semana.
"Blainey, é mamãe. Não quero que percamos os contatos novamente. Passei no endereço que você e sua irmã me deram, mas não tinha ninguém em casa. Casa? Quis dizer mansão. Fico feliz que tenha cuidado tão bem da sua irmã todo esse tempo... Coisa que eu e seu pai não fizemos. Katie disse que você provavelmente estará de plantão hoje e depois pega suas merecidas férias de Julho. Bom, me avise caso queira reunir a família em alguma festa ou evento. Estamos com saudades. mamãe e papai."
Blaine sorriu com a preocupação de sua mãe em manter a família unida, porém ainda tinha um pé atrás com a família, como se precisasse tomar cuidado de alguma coisa, que a situação estava prestes a desmoronar e ele tinha que ser o único a sair salvo dali.
"Doutor Anderson, é Anne novamente, direto de Atlanta. Não queremos que perca a paciência, ou que nossa insistência esteja lhe causando algum incômodo. Muito pelo contrário, apenas queria lhe informar que o enviamos um e-mail com um reajuste no salário proposto. Estamos dispostos a pagar o triplo do que você recebe em seu atual emprego. Você é um ótimo médico, e deve trabalhar com os melhores. Mantenha contato."
Blaine suspirou. Como sua vida pode ter mudado em sete meses? Se essa proposta acontecesse meses atrás, Blaine sequer pensaria em aceitar esse emprego. Seu salário era bom em Lima, mas ganhar três vezes mais e ainda ser mais reconhecido? Blaine havia performado uma cirurgia em um famoso amigo do presidente sem saber de quem se tratava. O médico estava de plantão quando acharam Douglas perdido, sem as roupas nem documentos, caído no asfalto com um tiro no olho esquerdo. Blaine sequer pensou em como receberia o pagamento, mas operou o paciente e pagou do próprio bolso os custos da cirurgia. Tudo correu bem. Douglas precisa usar olho de vidro até hoje, mas as coisas poderiam ter ficado muito piores se não fosse a ajuda do doutor Anderson.
Blaine era o primeiro na lista de médicos nos Estados Unidos para se operar, e isso era algo de valor para um oftalmologista de pouca idade.
Mas há Kurt... Se pudesse levar o castanho consigo, mas não funcionaria. Se um dia fosse terminar com Kurt (o que não pretendia, mas coisas acontecem), o castanho estaria perdido em um país do outro lado do Oceano. Isso os prenderia em um "termina e volta" sem sentimentos, e isso era exatamente o que Blaine não queria.
Escolher entre carreira ou amor... A decisão mais difícil na vida de alguém.
Blaine finalmente havia chegado à lanchonete e avistou Sebastian em uma mesa. Ambos os lanches já haviam sido servidos e Seb escrevia algo em um caderninho.
– Começou sem mim? — Blaine gargalhou e se sentou na lanchonete do hospital.
– M-me desculpe. É que a garçonete entendeu errado e achou que eu iria comer agora... Mas não se preocupe, está fresco. — Seb deu um sorriso amarelo para Blaine, parando de escrever.
– O que temos aqui...? — Blaine "arrancou" a caderneta de Sebastian, que tentou retirá-la do médico sem sucesso. — Seb, isso é... Isso é incrível.
– É... É só um rascunho de teoria que irei apresentar em minha tese de faculdade. — Retirou o caderno das mãos do amigo, guardando-o em sua bolsa.
– Seb, isso é uma coisa que poucos médicos conseguem chegar à com pouco tempo de estudo. — Blaine tinha os olhos arregalados. — Eu cheguei, claro. Mas isso é porque sou demais. — Riu e Sebastian revirou os olhos com um tom de diversão.
– Não é nada demais. Apenas acho que isso pode ser uma carreira de verdade pra mim. — Seb falou antes de tomar um gole do seu café quente.
– Não desista disso, Seb. — Blaine alcançou a mão do amigo, apertando-a carinhosamente. — Vejo em você um jovem Blaine Anderson, e não desista. Aposto que fará sucesso assim como seu tutor. — Piscou para o castanho.
– Você realmente acha que está assim tão bom? — Perguntou orgulhoso, vendo Blaine terminar seu café.
– Eu realmente acho. Você pode perguntar à qualquer um aqui o que um cego enxerga e eles irão dizer que é apenas preto, uma escuridão total, e acho que se aprofundar nesse assunto pode trazer boas coisas pra uma carreira. — Sorriu. — Você é maravilhoso, e eu confio e acredito que consiga!
Sebastian assentiu com os olhos brilhando. Aquelas eram as melhores coisas que já havia ouvido de alguém, e isso saindo da boca de Blaine Anderson era mil vezes melhor.
Voltaram para o plantão minutos depois. Mais cirurgias, consultas de última hora e Dr. Anderson sendo chamado para uma cirurgia aonde atuaria como cirurgião pois o atual havia desmaiado de sono após um plantão de 66 horas, mas tudo correu bem.
O sol amanhecia e Blaine finalmente deixava o hospital. Sua camisa preta e seus jeans nunca pareciam tão "chiques" como hoje. Aliás, qualquer coisa fica glamorosa perto de roupas brancas. Blaine ajeitou seu gel já gasto, dando lugar aos cachos do médico e trancou seu escritório, encontrando seu secretário dormindo no sofá de espera.
– Ei, bela adormecida... — Blaine tocou o ombro do amigo. — Hora de ir para seu castelo.
– Só mais um pouquinho, bruxa má.
Sebastian se virou enquanto agarrava o braço de Blaine, usando-o como travesseiro. Ambos gargalharam e caminharam até a porta. Um breve abraço e beijo na bochecha e se separaram nos corredores.
– Se cuida, B. — Sebastian piscou para o melhor amigo.
– Você também, Seb. E vê se coloca a tese em prática, está perfeita!
Andaram por caminhos diferentes, Blaine fez o usual e foi checar suas mensagens de voz. Uma apenas, e Blaine sabia exatamente de quem era.
"Doutor Anderson, dessa vez estamos lhe ligando para tratar de um assunto diferente. Não abrimos mão do doutor ainda. Sempre teremos essa vaga de oftalmologista chefe, e ela está destinada à você, mas por enquanto precisamos de uma pessoa para encaminhar as coisas por aqui. Alguém que você nos indique? Uma pessoa de confiança, que saiba com o que está lidando e que possa, talvez, te convencer a se mudar logo para a Austrália. Nos avise assim que encontrar alguém que preencha esses requisitos. Anne."
Blaine parou no corredor e um sorriso foi surgindo em seus lábios. Revirou seus olhos pensando se iria se arriscar e assentiu, correndo para o lado oposto de onde estava indo.
– Seb, Sebastian! — Gritava pelos corredores.
O castanho se assustou quando viu o médico empolgado atrás de si e teve que o segurar para não cair.
– O que foi? — Perguntou divertido.
– Tenho uma proposta maravilhosa pra você! — Falou quase sem ar.
[...]
E foi assim que chegamos ao presente. A cabeça encostada na janela, assistindo ao oceano pela janela do avião não era Blaine, era Sebastian.
O castanho sorria com a oportunidade que estava recebendo. Largou sua casa, seus amigos e seu cachorro apenas para aceitar a oportunidade de emprego, e não sabia como Blaine não havia aceitado essa oferta em Atlanta ainda. Mas as palavras de Blaine no aeroporto ecoavam em sua memória.
"Você vai se dar muito bem lá, e não se preocupe. Em uma semana, ou duas, estarei lá também." Disse Blaine sorrindo.
O que será que o médico quis dizer com isso?
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