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Notas iniciais
– Como é possível meus olhos estarem apodrecendo, Blaine?! — Kurt repetiu a pergunta pela décima vez.
O carro de Blaine voava pelas ruas de Lima e o hospital nunca pareceu tão longe. Mesmo com o cinto apertado era difícil manter as costas no banco. Blaine não estava correndo, apenas em uma velocidade avançada. Não é como se dois minutos fossem mudar o que está acontecendo por meses.
– É difícil de explicar, Kurtie... — Blaine continuava a atenção no trânsito. — Deixe-me ver uma maneira fácil de explicar, sem termos médicos... — Pensou um pouco. — O fato de você ter sensibilidade à claridade mostra que sua visão está intacta, e que podemos trabalhar com ela de alguma maneira. Sua visão não estava perdida, apenas danificada, como uma máquina que estraga mas continua ligada, tentando fazer o seu trabalho. Porém, como você me contou desse fato somente agora, isso pode ser preocupante. Durante esses meses, seus olhos trabalhavam incontestavelmente com a missão de enxergar alguma coisa, forçando muitos órgãos e veias, e isso força a... vida útil dos seus olhos, digamos assim.
– Agora eu sou uma máquina? — Debochou, nervoso.
– Aparentemente.
– E-então se minha visão está apenas danificada... I-isso significa que eu possa voltar a enxergar algum dia?
Blaine quase atropelou uma velhinha.
– Hã... Sim. Mas isso requer muito estudo, uma cirurgia adequada e cheia de riscos e depende muito de você querer se recuperar ou não. — Kurt sorriu. — M-mas Kurt, cirurgias desse porte não são recomendadas nem nos casos mais extremos, e eu não permitiria você se arriscar desse jeito.
– Como assim "não permitiria"? — Kurt perguntou incrédulo, fazendo aspas com as mãos.
– É uma cirurgia de risco, amor. E quando eu digo risco, não é como se a consequência fosse você ficar cego pra sempre... Ela mexe com os músculos faciais, e algumas veias cerebrais. Um milímetro errado na precisão do médico e você pode ficar paraplégico, ou com uma hemorragia cerebral... — Falou Blaine cuidando das palavras. — As coisas podem ficar bem feias.
Blaine estacionou o carro em sua vaga do hospital e em alguns minutos já estava no elevador com o namorado. O silêncio era constrangedor, até demais. Kurt ainda estava incrédulo sobre Blaine não o "permitir" realizar a cirurgia. Por mais que fosse arriscada, Blaine era um ótimo médico e o castanho confiava no namorado. Já Blaine estava perplexo que Kurt ainda tinha em mente a possibilidade de fazer a maldita cirurgia.
A porta do elevador se abriu no terceiro-andar para algumas pessoas entrarem também. O escritório de Blaine e seus equipamentos ficavam no sexto-andar.
Chegaram ainda em silêncio e caminharam pelo corredor. Kurt fechava seus olhos enquanto a luz branca fazia seus olhos doerem, mas tentava não alarmar Blaine. Mais alguns passos foram dados pelo corredor.
– É aqui. — Blaine abriu a porta e ajudou Kurt a entrar.
– Blaine? — O médico chamou a atenção do enfermeiro/secretário. — Não esperava te encontrar aqui hoje.
– É meio que uma emergência... Será que você pode arrumar a sala de exames pra mim? Temos um 929. — Sebastian assentiu com a cabeça surpreso e deixou a sala, indo realizar sua função. Não era todos os dias que se encontrava um caso como esse.
Kurt se sentou no sofá de espera.
– Hey, amor... — Blaine havia pegado a mania de chamar Kurt de amor, e o castanho havia percebido isso, mas não falaria nada pois, por mais cafona e brega que isso fosse, o frio na espinha de ouvir isso da boca do seu namorado era uma das melhores sensações do mundo. — E-eu vou me vestir, colocar minha roupa branca e... Sebastian irá te ajudar, irá começar a fazer os exames de rotina, ok?
– Tudo bem.
Kurt estava, pela primeira vez no dia, nervoso. Não é como se antes parecesse menos real, mas é que voltar à sala de cirurgia de Blaine e sentir esse cheiro de hospital traziam lembranças fortes para Kurt. Blaine beijou o topo da cabeça do namorado e entrou em seu vestiário pronto para colocar o Doutor Anderson em ação.
O castanho repousou no silêncio daquela sala. Não se lembrava de como o hospital era quieto pelas manhãs, e como os passarinhos cantavam alto naquele edifício.
– Kurt, certo? — Perguntou Sebastian.
– Isso.
– Eu sou Sebastian, e vou te levar para fazer alguns exames, tudo bem? — Kurt assentiu com a cabeça enquanto era conduzido por Sebastian até uma sala. — Sente-se aqui.
Não demorou muito e Blaine se juntou na sala também. A vistoria era minuciosa, e Blaine poderia jurar que estava mais nervoso do que Kurt. Os olhos azuis-piscina de Kurt pareciam perdidos, arranhados ainda por causa do vidro. A pupila se encolhia conforme a luz alcançava, e continuava enquanto a luz saía. Sebastian anotava todo o procedimento em um bloco de notas.
– Kurt, olhe para cima. — Kurt olhou e Blaine assentiu lentamente. — Para baixo...
[...]
– Então esse é o garoto misterioso? — Perguntou Sebastian enquanto a máquina processava os exames de Kurt. Blaine apenas abriu um sorriso sem graça enquanto Kurt não sabia o que estava acontecendo.
– Garoto misterioso...? — Perguntou incerto.
– O famoso garoto que roubou o coração do médico mais disputado entre os pacientes. — Sebastian ria com a confusão se formando no rosto do castanho. — Blaine fala de você toda a hora, mas não é como se contasse seu nome... Acho que é medo de alguém te roubar dele.
– Ei. — Blaine tinha um sorriso divertido no rosto, enquanto examinava o resultado dos exames.
– D-desde quando você trabalha com o Bl...Doutor Anderson?
Perguntou com uma pitada de ciúmes. Kurt havia percebido que o enfermeiro só se referia à Blaine pelo nome. Sequer um "doutor" era citado. Torcia para que a aparência desse tal Sebastian fosse horrorosa, ou que fosse um homem velho.
– Uns dois anos, acho... Desde que comecei a faculdade. — Droga!
– Nos conhecemos em uma palestra que fui lecionar numa das aulas de Seb. Desde então mantivemos contato, e quando recebi meu escritório aqui no hospital soube exatamente quem chamar. — Blaine já não tinha mais o sorriso no rosto, mas ainda assim não tirava os olhos dos exames. A situação de Kurt era complicada.
Kurt ignorou o fato de o namorado chamar o possível "concorrente" de Seb, e sorriu amarelado. O que estava acontecendo com o castanho? Na noite passada ele e Blaine tiveram uma noite linda de amor. Até o exato momento Blaine nunca havia dado nenhum motivo para Kurt desconfiar ou sentir ciúmes (a não ser chamar o cara com quem passava a maior parte do dia por um apelido meloso). Além do mais, eles trabalhavam juntos, e não seria ético namorarem... Assim como não seria ético Blaine namorar um paciente... Merda, Kurt!
– Minha nossa, preciso ir. Se ficar um pouco mais chego atrasado à aula! — Sebastian se levantou correndo. — Foi bom te conhecer, Kurt. — Deu uns tapas nas costas do castanho. — Até amanhã, B. — Depositou um beijo molhado na bochecha do moreno e foi até o vestiário tirar seu jaleco e sua roupa branca.
Kurt fechou os olhos e respirou demoradamente. Ele havia acabado de ouvir um beijo. Um beijo. Tão antiprofissional da parte dos dois! Por mais que Blaine já tivesse mencionado um melhor amigo Sebastian algumas vezes, Kurt era muito inseguro para pensar que havia sido apenas um beijo na bochecha ou topo da testa. E se Blaine quisesse o trair em sua frente, Kurt não poderia falar nada pois não teria como saber...
– No que essa cabecinha está pensando? — Blaine segurou a mão de Kurt e se se sentou à mesa de exames junto com o namorado.
– E-eu... Sebastian falou de sua faculdade e eu me lembrei das minhas aulas. — Mentiu. — Embora eu tenha tido aulas em casa nos últimos meses e o ensino tenha piorado muito, eu consegui. Estou finalmente livre do Ensino Médio!
– Isso é maravilhoso, Kurt. — Apertou a mão do namorado. — Um passo de cada vez. Podemos convidar seus pais e... e os meus pais... para uma pequena comemoração.
– E-eu estava pensando em ir até a formatura...
– Kurt...
– Blaine... — Kurt segurou forte as mãos do namorado. — Desde que eu entrei nesse inferno de colégio eu sonho comigo vestido a beca, recebendo o certificado que seria minha chave pra longe dessa cidade. E depois no baile, dançando com meu par... É tudo que um jovem quer... — Blaine tinha que entender que Kurt ainda era um adolescente e não podia se privar de tudo que os outros adolescentes passam apenas por causa da perda de sua visão.
– M-mas Kurt, você mesmo disse dias após o acidente que odiava frequentar a escola por causa dos neandertais que te batiam e te empurravam contra os armários. E-eu não sei o que faria se visse alguém te machucando!
– Não irão bater em um ceguinho. — Kurt gargalhou. — Prometa que pensará nesse assunto. Por mim.
– Tudo bem. — Blaine se deu por vencido, se levantando da cama.
– E meus exames, quais foram os resultados?
Blaine engoliu seco.
– Quero falar isso com seu pai e Carole juntos, Kurt. Podemos ir almoçar na sua casa e depois conversarmos sobre isso? — Kurt assentiu nervoso, e de mãos dadas saíram do hospital.
[...]
– Então Kurt e Mercedes entraram no ginásio cantando uma música da Madonna e Mr. Shue ficou irado. Rachel também odiou a ideia... — Finn contava alguns fatos constrangedores sobre Kurt, que estava vermelho de vergonha.
– A-acho que podemos continuar a comer em silêncio. — Disse Kurt chutando o irmão por debaixo da mesa.
– Ah, mas eu nem contei à Blaine sobre nossa performance nas Invitivas. — Blaine fez uma cara de interessado. — Kurt e Mercedes dançaram Push It.
– Push It do Salt N Pepa? — Blaine perguntou gargalhando. — Eu p-r-e-c-i-s-o ter acesso a um vídeo, foto ou alguma coisa desse dia.
Kurt já havia desistido e comia sua comida em silêncio. Burt e Carole apenas riam do entusiasmo de Finn em queimar o filme do irmão para o namorado. Kurt e Blaine haviam apenas chegado em casa e lhes contado que iriam almoçar, então nenhum ali sabia de exames ou preocupações vindas de Kurt.
– Sem problema. Rachel pagou Jacob no começo do clube glee para filmar todas as performances. — Finn comeu mais uma garfada da carne-de-sol.
– Se Blaine terminar comigo depois disso eu juro que mostro pra Rachel sua caixa de lembranças da infância... Finny... — Kurt debochou. — Ela adoraria saber que você já gostava de programa de artes quando pequeno, e que fez o papel principal em uma peça da escola.
– Ah, é? — Burt não sabia dessa história. — E qual peça foi?
– Romeu e Julieta. — Respondeu Finn cerrando os dentes enquanto olhava ameaçadoramente para Kurt.
– M-mas qual é o problema de Finn interpretar Romeu, filho?
– Nenhum. Porque ele interpretou Julieta.
– O QUÊ?! — Burt e Blaine perguntaram juntos, quase cuspindo toda a comida de sua boca.
– Kurt, eu juro que vou te matar! — Falou nervoso. — É-é que... É que nenhuma das meninas queria interpretar Julieta, e eu queria tanto o papel principal! — Colocou as mãos no rosto.
Blaine e Burt estavam roxos de tanto rir. Precisavam de ar, ou alguma coisa que os impedissem de morrer de tanto das gargalhadas. Ambos provavelmente iriam depois até o quarto de Finn procurar algumas fotos do teatro. Carole comia sorrindo, adorando o clima daquele almoço que não podia ficar ruim.
– Pai, Blaine, deu. — Kurt precisava saber o resultado. Aquilo estava o matando. — Eu e Blaine não viemos aqui apenas para almoçar... Fizemos alguns exames hoje.
Blaine limpou a garganta enquanto Burt ficava sério.
– Vocês sabiam que Kurt tinha hemorragia pelos os olhos algumas vezes pela manhã, mas isso foi novidade pra mim. Fizemos alguns exames algumas horas atrás e eu acabei descobrindo algo que quisera eu não descobrir.
– O que é, Kurt? — Perguntou Finn aflito.
– E-eu também não sei. Blaine quis contar na frente de vocês...
– Kurt está sofrendo dessa síndrome, e ela é bem rara entre os pacientes. Posso dizer que entre os cegos do mundo, apenas 15% deles tem. — Burt engoliu seco, apenas prestando atenção. — Kurt ainda tem sensibilidade nos olhos, o que é maravilhoso, mas também pode forçar muito a vista de Kurt, que foi o que aconteceu. Kurt precisa de uma cirurgia, o quanto mais breve melhor.
– E como seria essa cirurgia? — Burt finalmente havia falado alguma coisa. Mesmo sem os meninos verem, Burt segurava a mão de Carole por baixo da mesa.
– Ela ainda não tem um nome fixo, alguns médicos a chamam de 929, outros a chamam de Recuperação de Sulco e Fluídos. As chances de sair alguma coisa errada durante a cirurgia são medianas, 45% na maioria dos casos. — Blaine respirou fundo. — Minha tese de faculdade incluía algo sobre ela, mas mesmo depois de tanto estudar, ainda há coisas sobre essa cirurgia que não sabemos. Kurt precisaria desse cirurgia, mas poderia conviver sem ela, desde que tenha muito cuidado com sua vista. É o que eu recomendo, mas não posso esconder as opções de vocês.
– Ela pode me fazer enxergar novamente... — Kurt falou com um sorriso nos lábios e lágrimas nos olhos.
– Isso é verdade, Blaine? — Carole parecia esperançosa.
– É. Mas tem seus poréns... — Blaine segurou a mão de Kurt por debaixo da mesa. — Eu sendo o médico de Kurt não recomendaria, porque mesmo depois de ter seus olhos gastos, o máximo que pode acontecer com Kurt é perder a visão pra sempre, ou ter seus olhos irritados. Eu sou contra essa opção.
– Porque você enxerga! — Kurt cuspiu as palavras. — Faz meses que estou nessa situação, e agora que eu tenho a possibilidade de voltar a enxergar meu médico, que deveria me ajudar, está me proibindo de realizá-la.
– Kurt... — Blaine foi cuidadoso com as palavras, já Kurt nem tanto. — Eu não estou lhe proibindo, mas fazer essa cirurgia te garantiria 55% por chances de continuar vivo. Ela dura doze horas, isso se não acontecer nenhum imprevisto. Estou apenas falando que se essa for sua opção, você pode procurar outro médico, porque eu não quero ter a possibilidade de ter ver morrendo em minhas mãos. — O coração de Blaine bateu mais forte só de pensar na possibilidade de perder Kurt.
O castanho se levantou rapidamente, nervoso.
– Você sabe o que é conhecer alguém maravilhosa, e morrer de vontade de ver essa pessoa, conhecer ela totalmente? Mas você não pode. Eu perco o amanhecer todos os dias! — Kurt gritava. — Eu não me importo se é 45% de chances, ou 1%. Eu vou fazer essa cirurgia, e se isso for te afastar de mim, eu procuro outro médico.
Kurt saiu da cozinha correndo. Seus olhos estavam cheios de lágrima e não entendia como Blaine queria que Kurt continuasse naquele estado. Porra, Kurt estava fodido. Não enxergava e seu médico/namorado não o apoiava. Enquanto subia as escadas (correndo) deu um passo em falso e caiu, caindo alguns degraus. O choro só aumentou, mas Kurt era muito orgulhoso.
– KURTIE! — Blaine correu para ajudar o namorado que estava caído nas escadas. Burt, Carole e Finn acompanhavam o drama do casal de longe.
– Sai, Blaine. E-eu não preciso de sua ajuda! — Soltou seu braço das mãos do namorado.
– Kurt... — Respondeu quebrado.
– Se você não pode fazer isso por mim, não quero que seja mais meu médico. Procurarei outro oftalmologista e farei essa cirurgia, com ou sem o seu apoio. Talvez você devesse ir agora.
– Mas Kurt... — Blaine controlou sua mente para não começar a chorar ali mesmo.
– Vá embora, Blaine. Talvez para Atlanta, mas vá.
O clima era pesado naquela sala e era impossível de dizer quem estava mais machucado sentimentalmente, Kurt ou Blaine. Um achava que o outro estava sendo egoísta consigo.
Blaine colocou as mãos na cintura e suspirou. Kurt continuava sentado na escada. Blaine deu uma última olhada no namorado, deu meia volta e bateu a porta atrás de si com força. Precisava tirar a cabeça de tantos problemas, conversaria com Kurt depois, e provavelmente pediria ajuda à Katie para convencer o castanho de que a cirurgia não era o melhor modo de continuar a vida.
O barulho do carro de Blaine descendo a estrada foi diminuindo, e logo o silêncio se instalou na casa novamente. Burt, Carole e Finn olhavam Kurt na escada, chorando. Queriam fazer alguma coisa, mas depois da briga ficaram estáticos, não sabiam se Kurt aceitaria ajuda ou não.
– S-será que dá pra alguém me ajudar aqui? — Gritou, antes de cair em um choro desesperado. Burt foi até o filho e o pegou no colo (também o abraçando e o mantendo perto). Kurt fechou os olhos e desejou morrer naquele momento. Aquele não poderia ser o fim... ou poderia?
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