Blam?

22 Epílogo


Quando a mãe de Blaine chegou em casa naquela noite de sexta-feira, pouco houve de mudança no ritual que ela já repetia há algum tempo sempre que voltava do trabalho. Passou pela porta da frente, largou as chaves do carro e da casa em uma peça de decoração em formato de tigela que sempre deixava ali, sobre uma mesa à porta, e retirou o casaco. Esse ela deixou em um gancho preso na parede. Com a bolsa ainda pendurada no antebraço, caminhou até a sala de estar, agora mergulhada em escuridão suficiente para permitir que qualquer ponto de luz, por menor que fosse, ganhasse notoriedade. Foi o caso da luzinha vermelha do telefone, que piscava devagar, indicando que havia alguma mensagem gravada no correio de voz. As mudanças daquela noite começaram aí.

Primeiro porque já fazia tanto tempo que ela não usava o telefone fixo da casa que às vezes até se esquecia de que tinha um. Em frente ao aparelho, passou por um instante de dúvida, perguntando-se qual botão deveria apertar para ouvir a mensagem. Acertou-o de primeira e sorriu satisfeita. Continuou seu ritual pela casa, deixando a bolsa sobre o sofá e caminhando para a cozinha, acendendo as luzes a cada novo cômodo que cruzava, enquanto a voz do filho, eletrônica e um pouco abafada, dizia:

Oi, mãe, tudo bem? Espero que esteja. Eu estou. Muito. Não consigo nem me lembrar de já ter me sentido assim antes. Talvez nunca tenha acontecido. – Riu antes de continuar: – Não estou dizendo que sempre fui um garoto depressivo, mas bastante comum. Você deve entender o que eu quero dizer, não? Eu nunca fui de ter grandes conquistas ou de realizar grandes desejos. Acho que por preguiça ou por falta de motivação. Ou por falta de um objetivo, algo de que eu gostasse muito. – Hesitou por um instante: – Sei que vim para Portland para fazer bem a alguém, à sua amiga, a Angelina, mas devo confessar que esse tempo por aqui fez muito mais bem a mim, e de uma maneira inesperada.

A mãe de Blaine levara apenas um segundo para decidir se beberia um copo de leite ou uma taça de vinho naquela noite: beberia vinho. Apanhou a garrafa e passou a mão em uma taça há muito seca no escorredor.

Eu liguei no seu telefone fixo porque o seu celular não estava colaborando. Como sempre. Nem sei por que você faz tanta questão de ter um celular bom, se no final das contas não vai usá-lo para outra função, senão a de espelho. Seria mais fácil comprar um espelho de bolsa. Seu celular estava fora de área, e tenho certeza de que não foi porque estava sem bateria, mas porque estava desligado. Não queria ser incomodada, não é?

Ela nunca tinha pensado no assunto, mas talvez o filho estivesse certo. Gostava de ter foco no trabalho e tinha horror, um profundo pavor, em se tornar uma daquelas pessoas reféns de celular. Talvez por isso não desse tanta atenção a ele.

Não queria que essa conversa fosse assim, como se eu estivesse num monólogo ao invés de um diálogo, mas você não facilitou as coisas. De qualquer forma, sabe onde me encontrar, se precisar, e tem o meu número de telefone. Estou com problema com a conexão da internet por aqui, então o Skype não é uma opção, por enquanto. Em resumo, o que eu queria dizer é que... – Mais uma vez, um instante de hesitação. A mãe de Blaine sequer imaginava o que ouviria a seguir. – Eu vou ficar por aqui, mãe, em Portland.

Mas não foi uma revelação tão surpreendente assim.

Aprendi a gostar daqui — o filho continuou, falando com a voz arrastada, lenta, de alguém que já sabe as palavras que vêm a seguir. – Sei que sempre fui acostumado com a correria de Nova Iorque e nunca me imaginei longe daí, mas...

Houve uma pausa de pelo menos cinco segundos naquela mensagem, mas a mãe, por si só, foi capaz de completar a ideia que ela falhou em transmitir. Algo havia acontecido em Portland que agora o amarrava lá, que o fazia ter interesse em ficar. Ela já tinha pensado nessa possibilidade em alguns momentos, mas sempre acabava duvidando de que Blaine fosse ter motivações para isso, tão mimado que era. Mas ali estava ele, afirmando que era hora de sair de casa. Era motivo de orgulho, sim, mas a mãe de Blaine não podia deixar de sentir um pouco de angústia também.

—... eu não sei – foi como ele justificou. – Certos acontecimentos da nossa vida são imprevisíveis e alguns deles são até difíceis de justificar. É como tentar explicar sentimentos: não é todo mundo que consegue fazer isso, e mesmo alguns poetas, quando o fazem, soam meio confusos. É como tentar explicar o amor. Eu não vou saber fazer isso, então nem vou tentar. – Inspirou fundo e expirou, como alguém que está chorando, mas a mãe de Blaine não notara nenhum vacilo na voz do filho. Talvez fosse só pesar. – Quando quiser conversar comigo, é só me ligar. Eu vou atender a sua ligação e a gente pode falar sobre como vai ser a partir de agora. Ainda vou precisar do seu apoio por um tempo, se é que me entende, mas não vou deixar de procurar um emprego de meio período para preencher meu tempo e ajudar nas despesas. Sabia que Portland às vezes parece uma cidade grande? Só às vezes. — Riu novamente, o que fez a mãe sentir ainda mais saudade do filho. – Ficar por aqui também vai ser bom para os meus estudos. Não acho que tantas mudanças de escola me ajudariam com algo.

E nisso ela tinha que concordar.

É noite e vou preparar o meu jantar. Sam está comigo, pode ficar tranquila. A noite está fresca e acho que ele vai ficar por aqui hoje. Me ligue depois para que possamos conversar. Tenho saudade de você, mãe. Espero que fique tudo bem – e assim a ligação terminou.

A mãe de Blaine contemplou a taça meio cheia de vinho enquanto pensava no que fazer a seguir. Claro que tinha vontade de ligar para o filho e saber o que estava acontecendo, mas não o fez. Pela primeira vez em muito tempo, tinha a súbita percepção de que Blaine estava crescendo, a caminho de se tornar um adulto, e era natural que quisesse tomar algumas decisões sozinho. Ela o apoiaria e o deixaria voar como bem quisesse.

Era parte fundamental de ser mãe.

E parecia ser parte fundamental da felicidade que o filho procurava.

Por isso ela não ligou para ele naquela noite.

~//~

A noite trouxera consigo uma brisa fria e ótima para manter qualquer um dentro de casa. Estava ótimo para assistir filmes no Netflix e comer pipoca, mas a minha conexão de Internet não estava boa e comer pipoca só por comer não só não fazia sentido para mim como parecia depressivo. A temperatura estava propícia para qualquer coisa mais caseira, mas eu estava empolgado demais para ficar dentro de casa. Sam concordava comigo.

E era por isso que estávamos ambos na beira da piscina, vestidos apenas com calções de banho, contemplando a água serena que nos encarava de volta.

— Há quanto tempo você não entra nessa piscina? – Sam perguntou. Mantinha as mãos unidas em frente ao corpo e estremecia de vez em quando.

— Nunca entrei.

Sam assentiu devagar com a cabeça.

— Você pelo menos limpou a água? – foi a próxima pergunta que fez.

— Umas duas vezes, a última delas na semana passada. É legal usar aquela redinha de tirar sujeira, principalmente quando estou entediado.

Mais uma vez, a cabeça de Sam se inclinou em consentimento. Seus olhos não se desviavam da água.

Sempre fora um mistério para mim o porquê de a área de trás daquela casa ser mais bonita e charmosa do que a própria casa. O responsável por aquela construção se dedicara não só em cultivar um belo jardim por ali como também em fazer com que a piscina fosse uma atração não só para o corpo, mas para os olhos. Ela tinha iluminação própria, uma luz branca e forte que deixava o corpo desnudo de Sam ainda mais pálido.

Ele estremecia de vez em quando, principalmente quando havia uma nova lufada de vento, mas eu tremia o tempo todo, como um daqueles cachorros pequenos que parecem sempre estar com medo.

— A água não deve estar muito limpa – eu deixei escapar, como um reflexo involuntário da minha inconsciente vontade de fazer qualquer coisa, exceto o que estávamos ali para fazer.

— Pior do que isso: ela deve estar fria pra caralho.

Em uma escala de prioridades, eu não via aquele como o maior dos problemas. Se Sam achava que a frieza da água era pior do que a possibilidade de pegar uma doença de pele em uma água que não era trocada já havia algum tempo, isso só mostrava o quanto positivo ele era.

— Certeza de que ainda quer fazer isso? – ele me perguntou, dessa vez olhando para mim.

Dei de ombros e estava pronto para dizer que não, mas ele me interrompeu:

— Bem, foi você quem propôs isso. Se quer tanto pular nessa água agora, acho que devíamos fazer de uma vez só.

Mal tive tempo de apreciar o toque da sua mão quando ela agarrou a minha, pois Sam se jogou para frente e me puxou consigo. Ele gritou, mas eu devo ter gritado mais alto, principalmente quando senti o primeiro toque da água, que doeu como agulhas enfiadas na pele.

Mas emergir e sofrer o ataque da brisa no rosto molhado pareceu ainda pior do que pular naquela água.

— Você é maluco! – eu me ouvi gritar enquanto procurava um apoio no chão. Por alguma razão, a água espirrava para todos os lados (mais tarde eu descobriria que isso acontecia porque eu estava sacudindo os meus braços sem parar). – Você é um doente, você é maluco!

Quando encontrei o rosto de Sam, ele ria um riso tão legítimo que os dentes pareciam reluzir.

— Sim, eu sou maluco – ele disse, mas repetiu, dessa vez mais alto: – EU SOU MUITO MALUCO!

— Há pessoas dormindo, Sam...

— Que durmam e acordem! – Agarrou-me pelos ombros: – Seria para mim o maior dos prazeres o mundo saber que todos sabem o quanto sou maluco por você, Blaine!

Eu não esperava por isso e tampouco esperava o beijo que ele entregou nos meus lábios.

— Às vezes, tenho medo de acordar e perceber que isso aqui é só um sonho – eu revelei para ele.

— E eu tenho medo de o sentimento que você tem por mim não ser eterno, mas por que vamos nos preocupar com isso agora? Estamos aqui. Chegamos aqui. Temos um ao outro e você disse que vai ficar. Somos jovens e temos toda a vida pela frente.

— Toda uma vida pela frente para fazer o que quisermos.

— Toda uma vida pela frente para fazer o que quisermos – ele repetiu.

Voltamos a nos beijar, dessa vez com mais vontade, sem susto, uma carícia planejada. A mão dele explorava meu peito e a minha descia pela sua barriga. Alcancei seu short e encontrei o volume feito do seu pau ereto ali escondido.

— Eu posso ser maluco o tempo todo, mas você há de concordar que o mais safado de nós dois é você— disse Sam entre risos.

— Mas não fui quem tomou a iniciativa que nos levou a isso tudo.

— É... Certas vontades a gente não pode deixar para depois mesmo.

Roubou outro beijo meu, um que eu teria feito durar muito mais se ele mesmo não tivesse tomado iniciativa de interrompê-lo.

— Eu queria ter você ao meu lado, Blaine.

— Aqui estou eu.

— Mas sem essa preocupação toda. Sem escola, sem falsos amigos e sem uma mãe autodestrutiva. Só eu e você.

— Vai ser um pouco difícil de conseguir isso, enquanto o mundo tiver sete bilhões de pessoas espalhadas por aí...

— Acho que a gente devia fazer uma viagem.

Eu o encarei com expectativa, na espera de uma explicação mais detalhada que não veio. Ele sustentou meu olhar durante todo o instante, como se também esperasse uma resposta minha. Ele foi o mais impaciente de nós dois, no entanto:

— O que me diz, Blaine? Faria uma viagem comigo?

No futuro, quando retomei esse momento e tentei descobrir ao certo o porquê de eu ter dado a resposta que dei a Sam, a explicação chegou a mim clara e explícita como se sempre estivesse escrita diante do meu olhar. Foi fácil tomar aquela decisão, quando outras decisões difíceis já tinham sido tomadas naquele dia. O portão para o mundo do Faça-O-Que-Quiser-E-Quando-Quiser estava aberto, arreganhado, sem previsão de fechamento. Além do mais, minha mãe, quando ouvisse a gravação que eu lhe deixara, acabaria por descobrir que eu já não tinha mais vontade de viver sob sua supervisão e que eu já estava confortável com a possibilidade de cuidar de mim mesmo sem a ajuda de ninguém.

E que a perspectiva de poder fazer o que eu quisesse quando eu quisesse, a partir de agora, era o que havia de mais sedutor em viver, agora que eu estava sob o meu próprio domínio. E eu queria desfrutar disso.

— Claro que eu viajaria com você – foi a resposta que concedi.

Sam voltou a sorrir daquele jeito amoroso, que sempre me fazia querer sorrir junto e me enchia com alegria de viver.

E então começamos a acertar os detalhes da nossa viagem.

Notas finais
E mais uma vez chegamos ao fim! Foi bom pra vocês? ;* rsssss (pelo que pude ler pelos comentários de vocês, acho que foi rs) Vou começar a fazer umas confabulações aqui que podem sair meio grandes, então se quiserem ignorar não tem problema nenhum ahahaha Eu amo o Maine. Mesmo sem nunca conhecê-lo, eu amo esse estado dos EUA. Às vezes, eu abro o Google Street View no estado do Maine só pra ver as cidadezinhas que inspiraram várias das histórias do Stephen King. Há um quê de cidade rural ou isolada no Maine que eu busco pra minha vida e que não vejo a hora de ter um dia! Inclusive, não vejo a hora de ter a oportunidade de viajar até lá em uma época de verão americano (dizem que no inverno é impossível ficar por lá). E foi por isso que escrevi essa história em Portland. De qualquer forma, o Sam original (não o desse universo alternativo) vem de uma cidade que ninguém de Glee conhece pessoalmente, o que os fazem chamá-lo de caipira o tempo todo. Já o Blaine, mesmo não sendo de Nova Iorque, tem essa coisa meio nova iorquina em si, uma personalidade menos rústica do que a do Sam. E os dois funcionam tão bem juntos..................... Tenho mil imagens na minha cabeça dos dois juntos durante a série. Inclusive, o nome da primeira edição dessa fic (Blam!) veio de um episódio da quarta temporada, se não me engano, quando os dois fazem uma missão espiã na escola dos Warblers. Acho que foi por causa de shippá-los na série que passei a admirá-los tanto na vida real. Não posso ver postagem nenhuma do Chord ou do Darren que já sinto saudades de Glee. Acho que vocês também devem sentir algo parecido por eles ou por qualquer outro ator/personagem da série. Seria legal saber por quem. E eu gosto muito de escrever fanfic, apesar de não parecer muito às vezes. Estou no último ano de faculdade, e conciliar isso com o trabalho às vezes mata a minha oportunidade de escrever. Por isso os gaps de às vezes até dois meses entre um capítulo e outro. Isso e uns probleminhas pessoais, do ♥, que às vezes fazem a gente de saco de batatas. Sorry! E obrigado a todos que acompanharam a fic. Vou agradecê-los nominalmente, primeiro aos que comentaram: DanielVictor (que comenta todas rs), David DVD, BlaineHudson (e sua sede por Lemon!), Victor Marlboro (com quem troquei bastante ideia sobre escrita e fics), com o Rhennan (que compartilha do mesmo vício por acompanhar divas pop que eu, além de ter o mesmo nome E sobrenome que eu hahahahah), do Alexandro (e seus reviews ENORMES que dão um gosto de responder!), Redricky, BLam55 (com suas mensagens privadas me cobrando capítulos e me descrevendo seus hábitos de leitura curiosos rssss), Naruto Potter e Jellal Scarlet. Entre vocês, agradeço também aos que favoritaram, e também a: Blaine Evans e heisenberg. Me desculpa se esqueci de alguém! Devo ter respondido as mensagens de alguns de vocês dizendo que não saberia se escreveria outra história Blam depois dessa. Pode ser que eu escreva. Esse final deixou espaço pra uma continuação que eu meio que construí na minha mente por aqui, um estopim pra uma história mais ~dark. Vou trabalhar melhor a ideia. Será que vocês gostariam? rsssss MAIS UMA VEZ, OBRIGADO A TODOS AEWWWW!!! o/ P.S.: Para fins de curiosidade, o capítulo mais visualizado foi o Capítulo 17: O Medo, o único capitulo escrito com narrador-observador e que não foi narrado pelo Blaine, mas sim pelo Sam. Não há diálogo nesse capítulo ou lemon. Eu me pergunto por que essa preferência de vocês, e até tenho uma suspeita rs P.P.S.: Quem quiser trocar ideia via passarinho, o meu twitto é: @reedie_s. Avisem quem são quando aparecerem por lá pra eu seguir de volta :D
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!