Blam!

19 O Dia dos Namorados


Mais cedo, naquela mesma semana, eu tivera uma conversa com a minha mãe de um modo bem pouco convencional: pelo Skype. Tradicionalmente, a gente só se falava através de mensagens de texto e ligações curtas (segundo o que ela dizia, tinha pouco tempo para se dedicar às ligações, e, quando tinha, queria estar dormindo), mas eu estava com saudade de vê-la e ela dizia que estava com saudade também. Combinamos de nos encontrar no Skype no domingo, depois do almoço, quando, ela assegurava, teria um tempo para uma conversa.

E estava linda. Não me lembro de ter visto minha mãe tão bem arrumada quanto naquele vídeo, mas ela estava estonteante. Aprendera a usar maquiagem mesmo em dias corriqueiros, em que não teria que trabalhar. Seu cabelo estava mais bem penteado e eu podia jurar que estava mais claro. Era como se ela finalmente tivesse encontrado a felicidade, e eu já devia ter imaginado que a felicidade da minha mãe estava em trabalhar, porque ela sempre demonstrara grande interesse pelo trabalho. Devia se sentir completa agora, onde quer que estivesse.

Cumprimentamos-nos e foi ela quem elogiou minha aparência. Disse que eu estava ficando com cara de homem. Perguntou se a frequência com que eu fazia a barba tinha aumentado, e foi com certa infelicidade que eu disse que sim. Perguntou se eu estava me dando bem com a Angelina, apesar de ela ter o horrível costume de falar sem parar (palavras dela), e eu disse que eu e Angelina tínhamos uma ótima relação, sem mentira nenhuma. Perguntou como eu lidava com o filho dela. Eu disse que estava bem e não fiz mais nenhum comentário a respeito. O assunto “Sam” não era um do qual eu gostasse de falar – não que eu tivesse oportunidade ou pessoas com as quais falar sobre ele. Minha mãe deu-se por satisfeita com a pouca informação e eu me senti aliviado.

Eu não esperava que ela fosse abordar a minha possível volta para a casa naquela ligação, mas, após alguns instantes de silêncio, em que seus olhos ficaram apenas voltados na minha direção, ela me perguntou se eu estava pronto para reencontrá-los. Por um momento, eu não entendi de quem ela estava falando e isso ficou claro no meu rosto. Ela reforçou a questão, querendo saber se eu estava pronto para voltar a morar com eles.

Eu não estava, mas não disse isso. No lugar, perguntei como seria possível voltar a morar com eles, estando eles com essa vida tão instável. Minha mãe assegurou que ela e o marido tinham encontrado uma boa casa em um bairro de subúrbio e que ela tinha um quarto vazio à espera de mim. Mesmo assim, eu disse que era um absurdo largar a escola de Portland agora, durante um semestre, afinal, eu estava em época de provas e eu tinha estudado tanto... Ela disse que isso não seria um problema, que as escolas por lá não exigiriam tanto de um aluno novato, sabendo eles das dificuldades dessa mudança. Eu disse que duvidava disso. Ela disse que esse era o menor dos problemas. Eu disse que era melhor eu ficar no Maine e terminar o que já tinha começado.

Ela disse que talvez eu poderia estar atrapalhando a rotina na casa dos Evans.

Eu ainda não tinha pensado nessa hipótese, mas... Por que eu atrapalharia? Eu fingia tão bem que não existia quando não estava nos momentos das refeições e ainda ajudava a lavar a louça e limpar meu quarto. Angelina não tinha por que reclamar, e isso era algo que ela mesma dizia para mim. Só se estivesse mentindo para não parecer indelicada. Perguntei à minha mãe se ela sabia de algo que eu não sabia, e ela disse que não, que conhecia as pessoas e sabia que visitas só são boas para os anfitriões quando eles não são obrigados a conviver com a dúvida de se a visita vai embora em algum momento ou não.

Isso fazia sentido. Mas eu não podia me afastar de Sam agora, eu não podia simplesmente ir para o outro extremo do país e deixá-lo para lá. Se embaixo do mesmo teto eu já me sentia distante dele, com a distância essa sensação seria pior. Eu seria obrigado a me esquecer dele, mas isso só seria possível se eu o substituísse por outra pessoa. E quem no mundo seria como Sam? Eu nunca tinha conhecido alguém como ele e suspeitava de que jamais fosse encontrar.

Pedi à minha mãe que esperasse pelo menos até o fim do bimestre, para que eu organizasse um pouco as coisas e não saísse daqui deixando tantas pontas soltas. Minha esperança com essa resposta era que ela se esquecesse desse pedido e que Angelina se acostumasse com a minha presença o suficiente para jamais querer que eu fosse embora. Eu seria o filho que ela nunca teve, tudo para que Sam não escapasse de mim. Eu precisava disso.

E era nessa conversa que eu estava pensando quando acordei na manhã seguinte e abri os olhos. Parte desse diálogo todo estivera nos meus sonhos, mas agora eu pensava neles com mais razão.

Quando abri os olhos, procurei a janela do meu quarto, que era para onde eu geralmente olhava quando acordava, a fim de verificar se o dia já tinha amanhecido. Deparei-me com a parede fria no lugar. Subitamente, recordei que eu não estava no meu quarto e que a pessoa que me abraçava por trás, cuja respiração quente tocava minha nuca em ciclos, era Sam.

Ajeitei-me no lugar e, inconscientemente, tateei a cabeceira da cama, onde geralmente ficava o meu celular. Eu estava tão sonolento que nem por um segundo pensei que, por aquele não ser o meu quarto, eu não encontraria o meu celular onde o procurava. Quando encontrei o de Sam, dei-me por satisfeito e levei sua tela aos olhos. Afora as 138 novas mensagens que ele recebera durante a noite, a tela anunciava que eram quase seis horas da manhã. Estava perto do horário em que meu próprio celular despertaria.

Além disso, a tela dizia que era dia catorze de Fevereiro.

– Dia dos namorados – eu sussurrei.

As mãos de Sam estavam entrelaçadas na minha barriga. Eu sentia seu peito tocar e se afastar das minhas costas no ritmo da sua respiração. Seu pau, que na noite passada estivera encaixado entre as minhas nádegas, agora estava apenas pressionado contra a minha bunda, de um jeito qualquer. Movimentei-me um pouco no lugar, tentando ficar de frente para ele. Nem assim ele despertou, e eu sabia disso porque sua respiração continuava pesada. Sua boca estava levemente aberta e emitia um som que, no futuro, talvez viesse a se tornar um ronco.

– Sam – eu sussurrei.

O corpo de Sam ouviu e entendeu o que eu dissera, porque se manifestou com um espasmo estranho. Mas seus olhos não se abriram.

– Sam – eu insisti.

Sam abriu os olhos com lentidão e mirou-me como eu provavelmente tinha mirado a parede instantes atrás. Quando se deu conta do cenário com o qual se deparara, soltou o aperto que tinha feito às minhas costas e levou a mão rosto, resmungando. Estava se espreguiçando, esticando bem o corpo, ainda resmungando e apertando os olhos. Quando terminou, voltou seu olhar sério para mim.

– A gente tem que se levantar para ir à escola – eu o lembrei.

– Hoje tem aula? – ele disse, com voz cavernosa.

– Tem.

Sam desviou um pouco do olhar para baixo enquanto assentia com a cabeça, procurando aceitar aquele fato.

– Achei que hoje fosse sábado.

– Não, não é.

A mão de Sam voltou ao meu quadril e lá ficou. Ele tornou a fechar os olhos e por um instante eu achei que ele já tivesse voltado a adormecer, tão rápido quanto jamais foi aquele ritual. Levei minha mão à sua face direita e um lapso de sorriso surgiu em seus lábios, como se o toque o tivesse inconscientemente agradado. Parei minha mão na região em que ficava a sua orelha, deixando seus cabelos se embrenharem em torno dos meus dedos como cobras tentando derrotar um inimigo. Sam pareceu muito satisfeito com essa carícia, ainda que estivesse de olhos fechados, mas eu duvidava de que ele estivesse gostando daquilo tanto quanto eu.

Porque eu estava adorando.

– A gente tem que se levantar para se aprontar para a escola, não é? – a voz de Sam disse em um sussurro, e eu estava tão distraído que não pude evitar a pergunta:

– O que foi que disse?

– A gente ainda está preso a ela. A gente ainda precisa acordar todo dia de manhã, ao som de chicotes, para ir à escola.

– Eu até gosto.

– Isso porque você tem um péssimo gosto.

Será que isso justifica eu gostar de você também?

Sam riu com a própria piada e tornou a abrir os olhos.

– Que dia é hoje? – perguntou.

– Quinta-feira.

– Não, o número.

– Hoje é dia 14.

Não houve resposta imediata de Sam.

– Hoje é dia dos namorados – eu concluí.

Mais uma vez, Sam não quis dizer nada.

Ficamos assim, abraçados e em silêncio, até o celular dele despertar.

– Mesmo se eu quisesse, o despertador não me deixaria fazer de conta que a realidade não existe, não é? – ele disse e, com gestos rápidos, interrompeu o abraço, a carícia e o nosso momento tranquilo e se pôs sentado na cama, já pronto para apanhar roupas pelo caminho e vestir aquelas que achasse melhor.

Apenas alguns instantes depois eu comecei a fazer o mesmo.

– A escola vai estar um porre hoje – Sam comentou. – Dia dos namorados, corações, cantoria, essas coisas.

Eu gostava desse tipo de coisa, mas, como Sam deixara claro que não pensava como eu, mantive silêncio.

– Sorte que é apenas um dia dos namorados, e não uma semana, senão eu acho que enlouqueceria – ele voltou a dizer e riu sozinho, enquanto calçava um par de meias.

Eu mesmo começava a vestir o meu pijama (com a intenção de cruzar o corredor entre o quarto de Sam e o meu vestido) quando comecei a pensar no que Sam queria para a vida. Vangloriava-se de ser solteiro e desprezava o Dia dos Namorados. Gostava de sexo casual, mas, quando a coisa ficava mais romântica, ele se esquivava. Sam não era um cara romântico, isso eu já tinha percebido, mas será que isso dizia mais do que parecia dizer? Será que Sam, afinal, não tinha romantismo nenhum, a ponto de querer viver para sempre longe de qualquer relação que tivesse pelo menos um pouco mais de carinho? Será que Sam não queria namorar nunca?

– O nós somos, Sam? – foi a pergunta que saltou da minha boca sem que eu tivesse controle sobre ela.

– O que quer dizer com isso? – ele perguntou prontamente.

– Por que nós fazemos isso? – Se eu bem me lembrasse, Sam havia me dito que não gostava de falar sobre o que fazíamos, mas eu precisava fazer isso e quando eu queria fazer algo era difícil impedi-lo. – O que você vê em mim? Um amigo? Um amigo de sexo? – Tive que engolir em seco antes de dizer: – Um amante?

– Um namorado.

– O quê?!

– Brincadeira, Blaine – ele disse e voltou a rir. – Você é um amigão, cara. Um amigão com um rabo delicioso, é claro, mas ainda assim um amigão.

– Só isso?

– Não acha suficiente? Como você me vê?

– Eu estou apaixonado por você.

E tão rápido quanto as palavras haviam esvaído da minha boca, eu levei minhas mãos unidas aos lábios, como se me repreendesse por ter dito algo tão cheio de blasfêmia e vexame.

Sam me encarou com um olhar duro e crítico de alguém que pensa em uma maneira de ser menos enérgico do que sua mente quer que seja.

– O... O quê?

– Esqueça o que eu disse. Falei sem pensar, Sam...

– Eu não achei que houvesse sentimento nisso aqui. Quer dizer, cara, é só tesão! É só questão de corpo, cheiro e gostos! Não estamos fazendo amor, nós estamos fodendo!

Mas eu não consigo ver as coisas assim, porque sou idiota!

Mas o choque que senti foi tamanho que, ao invés de revelar o que minha mente dizia, mantive o silêncio. Precisei ficar bastante tempo assim, fitando o chão e o rosto esperançoso de Sam em momentos alternados, enquanto minha mente ajustava as coisas e pensava em algo melhor para dizer. Quando a solução perfeita para aquele problema me ocorreu, o alívio fez com que eu voltasse a abrir a boca e dissesse algo:

– Tudo bem, Sam. Acho que já ouvi o bastante para compreender.

– Espero que não esteja se sentindo mal.

– Essa palavra não descreve bem o que estou sentindo.

Vesti o que faltava do meu pijama – o short – e dirigi-me para fora do quarto, sem voltar a fitar Sam. Eu não queria mais vê-lo, e isso porque temia que contemplar seu rosto tão bonito e apaixonável fosse me atrapalhar a seguir em frente com os meus planos e fazer o que eu tinha que fazer.

O que eu tinha em mente era falar com a minha mãe. Quem sabe o convite para voltar a ficar com ela e o meu pai ainda não estivesse de pé?

Notas finais
Mais de 2 mil views. Valeu, galera que anda lendo e relendo os capítulos! o/