Blam!
22 Epílogo
De volta à Nova Iorque, pude reencontrar colegas dos quais eu sentia falta e nos quais eu não pensava mais já há um tempo, devido às circunstâncias. Um deles era Kurt Hummel.
Kurt era gay e não escondia isso de ninguém. Entendia de moda melhor do que qualquer garota do colégio, tinha a voz mais delicada e doce do que qualquer garota do colégio e podia cantar melhor do que qualquer cantora pop da atualidade. Também tinha excelentes conselhos amorosos e me ajudou bastante nas semanas que seguiram a minha volta. Disse que estivera morrendo de saudade de mim durante todo o tempo do meu afastamento, o que eu achei, a princípio, exagerado (o que não deveria me causar nenhum espanto, sendo Kurt um garoto naturalmente exagerado), mas que logo se justificou. Kurt não tinha muitos amigos que fossem como ele, então, sim, ele sentira a minha falta.
E eu sentira a dele.
No fim das aulas, quando já era verão, Kurt e eu combinamos de ir a um parque aquático para relaxar, tomar algumas bebidas e falar de outros assuntos que não estivessem relacionados à escola – pelo menos no que dizia respeito às matérias. O parque aquático não vendia bebida alcoólica, mas Kurt costumava carregar consigo garrafas térmicas com vinho, a fim de disfarçar a bebida que carregava. Não o fazia porque vinho era a bebida que mais apreciava, mas porque gostava do estilo que a bebida proporcionava. Sentia-se bonito.
E aquele era um sábado, ao meio dia, e o pequeno parque aquático ao qual fomos compreendia uma enorme piscina frequentada, em grande parte, por alunos de férias, algumas vendas ao redor, banheiros e vestiários e, naquele dia, um céu ensolarado de fazer inveja a qualquer morador de outra cidade. Era preciso ser sócio do clube para entrar, e nossos pais eram.
Passamos pelo vestiário e nos trocamos. Eu estava acostumado com as sungas tradicionais, mas Kurt, que não perdia a chance de querer chamar a atenção mesmo quando estava com pouca roupa, providenciaria um short de banho que parecia ter sido retirado dos anos cinquenta, guardado em uma estufa com o passar das décadas e preservado apenas para aquela ocasião.
– Será que a gente pode fingir que está na Califórnia? – disse Kurt, espreguiçando seu corpo branquelo e magro na beira da piscina.
– Acho que eu não gostaria de estar em outro lugar, senão esse.
– Use a imaginação, Blaine. Sair da Selva de Pedra de vez em quando pode ser uma boa – ele disse e sorriu aquele sorriso que fazia com que parecesse não ter dentes. – Ei, você pode segurar minha bolsa um instante?
– Claro – eu concordei, apanhando uma bolsa de alça única, de lona, que ele trouxera consigo. – Aonde você vai?
– Vou buscar copos plásticos naquela tenda...
– Kurt! A gente não pode trazer bebida...!
– Ninguém vai saber se você não contar! – ele repreendeu e fez o gesto de quem passa um zíper na boca. – Já volto. Vê se não some.
– Não há pra onde ir, como vou sumir? – eu dizia enquanto ele se afastava.
Olhei para frente. A piscina, em um dia tão perfeitamente ensolarado, era um convite atraente. Naquele dia, no entanto, o cenário parecia ter sido construído para, sem dúvida, agradar o meu olhar, pois, além da piscina, as pessoas que hoje a frequentavam eram tão atraentes quanto as de um sonho americano. Caras de abdômen rachado ao sol, acompanhados de suas bronzeadas garotas de corpos esguios, portando belos pares de óculos. Era quase como um comercial de creme dental no qual eu de repente fora parar.
Sobre a água, havia uma garota em um dos colchões de ar que o clube fornecia fazendo o possível para, com as mãos, remar até a borda da piscina mais próxima, que era onde eu estava. Havia muito pouca dedicação em seus gestos, mas, no final, a muito custo, ela conseguira o que queria. Uma vez na borda da piscina, ela se retirou de sobre o colchão, calçou um par de chinelos que estivera ali o tempo todo e, caminhando em direção ao banheiro, torceu os cabelos, fazendo água gotejar pelo caminho.
Um colchão de ar como aquele era algo difícil de conseguir, especialmente em um dia como aquele, com o clube quase cheio. Descalcei meus chinelos e coloquei a bolsa de Kurt sobre eles. Na borda da piscina, puxei o colchão de ar até mim e, com algum esforço (havia muito tempo desde que eu fizera aquilo pela última vez), consegui encontrar um ponto de equilíbrio sobre ele. Deitei-me de barriga para cima. Como se por vontade própria, o colchão começou a tomar seu curso na enorme piscina e agora eu boiava pela água, indo para nenhum ponto específico.
A claridade do sol do meio dia era tanta que tive que fechar os olhos. Cruzei os braços às costas e os usei de travesseiro. Eu estava tão confortável que não conseguia sequer pensar em uma forma de aquele dia melhorar. Talvez quando o vinho de Kurt fosse servido a gente usasse copos de plástico vermelhos para tomá-los e...
– Ei – ouvi alguém dizer. Não imaginei que fosse comigo até a voz repetir: – Ei!
Meu colchão rodopiou no lugar e, exasperado, eu me retirei da posição confortável em que antes estava. O dono da voz – ou assim eu imaginei – segurou meu colchão e o impediu de ir mais longe. Ele próprio estava em um colchão de ar também.
– Você tem algum probl...? – eu comecei a dizer.
– O seu nome é Blaine, não é? – disse-me o garoto.
– Como é que você sabe disso? – eu perguntei, sem interesse, enquanto procurava algo que eu podia ter deixado cair na água. Não havia como isso ter acontecido, uma vez que eu deixara todas as minhas coisas junto com a bolsa de Kurt, mas não tinha como eu pensar com muita razão depois de uma batida como aquela.
– Porque eu estudei com você.
Algo me disse que era hora de eu me atentar ao garoto que falava comigo e, pela primeira vez, eu o contemplei com atenção.
Se eu já estivesse bebendo o vinho, teria engasgado.
Era um garoto alto, bastante magro...
– Está lembrado de mim? – ele perguntou, cruzando os braços sobre o colchão, sorrindo.
...de olhar quase maldoso e sorriso grande.
– V-Você...? – eu ensaiei dizer.
– Não era sempre que frequentávamos as mesmas aulas lá na escola de Portland, mas eu te via em algumas delas.
O cabelo estava sempre organizado em um topete incomum, digno de ter sido moda nos anos sessenta...
Mas hoje eles estavam desorganizados como os de qualquer outro garoto que, em algum momento, tivera dado um mergulho na piscina.
– Às vezes – ele prosseguiu –, eu te via nos corredores da escola, mas...
Quando eu bebia água no bebedouro, lá estava ele, na companhia de outros dois garotos, fazendo de conta que prestava atenção no que lhe diziam, mas, de braços cruzados, olhando na minha direção.
–...não era sempre que a gente tinha oportunidade trocar alguma ideia...
Eu o notava e ele desviava o olhar – não como alguém que se arrepende de ter sido descoberto, mas ocasionalmente, como se o “objeto” que observava tivesse subitamente perdido todos os seus atrativos e ele não sustentasse mais o menor interesse por ele.
–... Eu sempre pensei em te abordar para a gente conversar, mas... Acho que nunca tive coragem.
Não tentava se esconder, ah, não, mas...
Eu não sabia o seu nome e nem de que classe ele era, mas eu não me importava.
Isso havia mudado agora.
Respirei fundo.
– Que indelicadeza a minha! – ele disse de repente e deu um tapa na própria testa, ainda sorrindo com simpatia. – Eu não cheguei a me apresentar!
Ele, assim como todo outro garoto que chamasse a minha atenção ou por estar com os braços à mostra ou porque era simplesmente um cara bonito, era preto e branco.
Ofereceu uma mão na minha direção antes de dizer:
– Meu nome é Sebastian Smythe e...
Colorido mesmo era o...
–... seria um prazer poder conversar com você, agora que estamos distantes do...
...Sam.
–... Maine e todo aquele pessoal caipira.
Ele sorria o tempo todo, mesmo que não estivesse dizendo nada de engraçado. Sorria como se sua simpatia dependesse de quanto os seus dentes estavam à mostra.
– Há algo em você que me fascina – ele sentenciou.
Sebastian Smythe, eu repeti em pensamento.
– Será que a gente poderia conversar um pouco? – ele perguntou, por fim.
Sebastian Smythe, era o nome que minha mente repetia enquanto eu olhava nos olhos do belo garoto que boiava em um colchão de ar à minha frente. Ele era do Maine, da escola em que eu havia estudado durante uma curta temporada, e eu sabia que isso não era mentira, porque eu mesmo reparara nele algumas vezes. Olhá-lo me fazia sentir certa nostalgia, mas no fundo...
...lá no fundo...
...eu tinha certeza de que não era exatamente no estado do Maine que ele me fazia pensar.
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