Blam!
20 A Notícia
Falar com a minha mãe foi bem mais fácil do que havia sido nos dias passados. No sábado seguinte, quando acordei, bastou uma mensagem de texto curta – “Mãe, preciso falar com você” –, e logo ela me respondeu. A estratégia tinha funcionado, afinal: toda vez que alguém anuncia que precisa falar com outro alguém, não é certo esperar que boa coisa está a caminho.
Minha mãe surgiu no Skype com a mesma beleza da última vez em que havíamos nos falado, os cabelos agora ondulados e cheios de saúde, o sorriso contido pintado de vermelho. Começou a conversa com um desejo de bom dia cuja animação me contaminou apenas por uma fração de instante, mas que logo acabou perdendo espaço para o meu atual estado de desânimo. E minha mãe percebeu isso.
– O que está acontecendo, filho? – ela quis saber.
Sam está me machucando, era a resposta para aquela pergunta. E não com as mãos. Quer dizer, ele me estapeou algumas vezes – e foi bom, acredite –, mas dessa vez suas intenções são outras. Os tapas que suas mãos me deram enquanto a gente fodia jamais tiveram o mesmo impacto que a sinceridade das suas palavras.
Mas é claro que eu não diria nada disso à minha mãe. Aquele era um problema que compreendia a mim e ao Sam exclusivamente e a ninguém mais. Nem Angelina, que dividia aquele mesmo teto com a gente, sabia do que se passava, e eu imaginava que nem uma leve suspeita ela tinha. Tinha problemas mais importantes com os quais esquentar a cabeça. Seria possível acreditar que nada estava acontecendo, que tudo era coisa da minha mente, se as marcas não fossem tão evidentes. Minha consciência podia ser o que fosse, mas louca ela não era.
– Não é nada – foi o que eu disse.
– Nada mesmo?
– Foi o que eu disse.
– Nunca vi um “nada” deixar alguém tão atormentado.
– Eu não estou atormentado, mãe.
– Querido, alguém que te conhece há poucos meses pode não perceber algumas das suas mudanças de humor, mas eu te conheço há pelo menos dezessete anos. Você é um desses livros que li vezes suficientes para conhecê-lo de cor. Mesmo que você tente esconder de mim que há algo de errado acontecendo, eu já sei que há.
O que dizer àquilo? Eu não sabia muito bem como reagir. Dei de ombros e suspirei profundamente, frustrado por estar sem palavras. Não era bem assim que eu queria que a conversa com a minha mãe fosse.
– E deve ter uma boa razão para você não querer falar disso comigo – minha mãe continuou. – E eu respeito o seu espaço. No momento apropriado, você vai falar, eu sei. E se não quiser, não tem problema, é uma escolha sua.
– Obrigado, mãe.
Ensaiei um sorriso e minha mãe sorriu de volta.
– E o que havia de tão sério que você queria falar comigo, que não é o problema que te aflige? – ela perguntou em seguida.
– Bem, eu ainda me lembro do que falei para você semana passada e eu sei que voltar atrás é sempre um sinal de fraqueza de personalidade, mas... – Como dizer aquilo? Eu não sabia por que estava demorando tanto para revelar o meu desejo. Aquela era a minha mãe, não um chefe para o qual eu estava prestes a pedir um aumento. – Eu quero voltar.
– Como é que é? Você quer voltar?
– Você ouviu certo.
– Mas, e aquelas coisas que você disse da última vez...?
– Tudo mudou. – Minha mãe parecia incrédula, então continuei: – É, as coisas podem mudar num piscar de olhos, estou tão surpreso quanto você.
– A Angelina, por acaso ela está...?
– Não, não tem nada a ver com a Angelina.
– E o filho dela? Ele andou mexendo com você?
Mais do que você pensa.
– Mãe...
– Eu só queria saber, filho. Vai ser um prazer para mim e para o seu pai tê-lo de volta aqui, mas se há algo acontecendo com você e você precisa de ajuda, é nosso dever ajudá-lo. E eu faria isso sem pensar duas vezes! Então por que de repente você quer voltar, filho?
Porque as escolhas que eu fiz em Portland foram todas erradas.
Eu devia saber que um cara bonito e solteiro como Sam não era alguém confiável. Quer dizer, que pessoa bonita nesse mundo não tem pelo menos um parceiro ou parceira insuportável ao seu lado? Alguém para privar sua liberdade quando sua vontade é a de ir a uma livraria sozinho? Que pessoa bonita não seria a mais requisitada de todas, aquela pela qual muitas outras pessoas se jogariam no chão, se matariam, sacrificariam as próprias vidas para conseguir alguma atenção? Sam era bonito, mas não só isso, ele era o cara perfeito em todos os aspectos que iam desde o seu rosto bem construído e uma boca exageradamente grande, passando por aquele torso digno de pertencer a um modelo de calça jeans, até chegar aqueles pés de dedos perfeitos. E tinha o gosto do seu pau. E tinha o gosto do seu beijo. Sam era o tipo de cara que ninguém no mundo, homem ou mulher, se arrependeria de ter beijado, e eu nunca me arrependi! A experiência fora, de fato, uma das melhores possíveis. O único arrependimento que eu sentia era o de ter me deixado envolver por isso.
Ralph tentou me avisar, e essa foi uma consciência que eu subitamente tive enquanto olhava para minha mãe. Quando veio até aqui, quando discutiu com Sam, quando conversou comigo no intervalo, dizendo que Sam tinha costumes com os quais ele não queria mais conviver, ele tentou me avisar que isso poderia acontecer. Por isso Ralph havia se afastado, agora eu sabia. Ele queria algo melhor para a vida do que a enrolação a que Sam submetia todos, amigos ou amantes. E eu não posso julgá-lo; eu mesmo queria um pouco mais do que apenas sexo e tesão, eu queria sentimento. Eu queria sentir algo mais do que o pau do Sam na minha bunda, eu queria sentir que ele gostava de mim e que sentiria a minha falta quando eu não estivesse por perto, porque era isso o que eu sentia por ele.
A falta de reciprocidade doía. O fato de eu sempre me enganar, pensando que as coisas mudariam com Sam, só reforçava essa dor. Tudo sobre ele mais machucava do que aliviava o sofrimento, mas quando a gente era um só na cama dele ou em qualquer outro lugar... Tudo parecia tão bom.
Parecia.
Apenas parecia.
Porque não era.
–... Eu só quero estar em algum lugar em que as pessoas sintam algo por mim – eu disse à minha mãe, e minha voz soou embargada como a de um covarde. Lágrimas logo vieram à tona, e eu tive que sair do alcance da Web Cam para poder limpá-las sem que minha mãe percebesse o que estava acontecendo. – Acho que estou com saudade de ter pessoas que me amam ao meu redor e de me sentir amado. Acho que sinto falta de ter alguém do meu lado que sinta algo real por mim.
– E nós, eu e seu pai, te amamos, Blaine.
– Eu sei. E eu amo vocês tanto que nem sei nem como explicar isso em palavras.
Foi a vez da minha mãe de suspirar enquanto me observava. Eu tinha vontade de sair da frente da Web Cam mais uma vez, mas minha consciência dizia que isso não seria educado. Minha mãe queria me ver, e ela tinha todo o direito de fazer isso.
– Então você vem? – ela perguntou de repente.
– Sim, já estou decidido, não vou me arrepender.
– Precisa que eu acerte as coisas com a escola ou...?
– Preciso que você ou o pai confirmem o cancelamento da minha matrícula junto à escola. Eu já a solicitei.
– E pensa em vir quando?
– Hoje à tarde eu termino de arrumar as minhas malas. Vou falar com a Angelina agora.
– Filho, quero que faça o que for melhor para você, mas tenho medo de que você se arrependa. Pareceu tão certo de querer continuar aí quando falou comigo da última vez...
– Mãe, eu não vou me arrepender, e você não precisa se preocupar. Se quiser dedicar suas orações a algo, torça para que meu avião não caia na minha viagem até vocês.
Minha mãe riu.
E eu ri com ela, o que fez com que uma de minhas lágrimas escorresse pela minha face. Limpei-a antes que minha mãe a avistasse.
– Vou agendar um voo para você, querido – ela disse quando se recompôs. – Daqui a pouco, envio uma mensagem de texto com o horário da decolagem. Até lá, cuide-se.
– Você também, mãe.
A ligação se encerrou e eu fechei o notebook. Respirei fundo. Contemplei o silêncio do quarto, tomando coragem para me levantar da cama e descer até o andar de baixo, onde Angelina se encontrava. Era algo que precisava ser feito.
Coloquei o notebook de lado, calcei um par de tênis e me levantei.
Angelina cuidava de um par de panelas no fogão e cantarolava uma melodia conhecida enquanto mexia uma colher de madeira no interior de uma das panelas. Logo notou a minha presença.
– Oi, querido! Estou preparando o almoço! Almôndegas e salada de legumes! O que acha?
– Uma delícia – eu disse e, antes que perdesse a coragem de abrir a boca mais uma vez, incluí: – Preciso falar com você.
Angelina parou a colher dentro da panela e se voltou inteiramente na minha direção.
– Pode falar, querido.
– Eu vou embora – falei de uma vez.
– O que quer dizer com isso...?
– Falei com a minha mãe já. Vou arrumar minhas coisas para voltar para os meus pais ainda hoje de tarde.
– Mas, querido, eu...?
– Acho que vou ficar o suficiente para provar suas almôndegas, sim, Angelina, não precisa se preocupar...
– Que se danem as almôndegas! – ela disse e caminhou toda a distância que nos separava com poucos passos. – O que está acontecendo, Blaine? Por que isso de repente?
– Não foi de repente. Eu estive pensando nisso já há um tempo...
– Foi algo que eu fiz ou disse? Eu sempre pensei que estivesse sendo uma boa anfitriã. Sempre imaginei que estava sendo bem sucedida em deixar você à vontade dentro de casa. Eu lavava sua roupa de cama toda semana, então... O que eu fiz, Blaine? Ou melhor: o que eu deixei de fazer?
– Angelina – eu comecei, pousando uma mão no ombro da mulher –, você é incrível. Não tenho absolutamente nada de mal para dizer a seu respeito. Eu estive à vontade aqui como tenho certeza de que jamais vou estar na casa de outro alguém. Você é uma anfitriã admirável e eu jamais vou me esquecer disso.
– Obrigada pelos elogios, querido, mas eles tornam ainda mais difícil entender sua decisão de partir.
Dei de ombros. Não havia como eu ser mais claro sobre esse assunto, do contrário, eu teria que falar sobre Sam, e essa estava a milhas de distância de ser a minha vontade no momento.
– Foi o Sam – Angelina disse de forma súbita, encarando-me agora com seriedade.
E eu fiquei tão chocado com o palpite que não consegui fazer nada mais do que arregalar os olhos.
– É isso. Agora eu sei – Angelina continuou. – Aquele moleque... Eu tinha falado com ele para tratar bem a nossa visita...
E ele tratou.
–... mas esse moleque nunca me ouve, só fica naquela droga de celular o dia inteiro, porque aqueles amiguinhos de merda dele, sim, ele escuta, e escuta o tempo que for, mesmo que seja a droga de um dia inteiro...!
– Angelina, pelo amor de Deus, se acalme! – eu implorava, segurando-a pelos ombros.
– Eu vou acabar com a raça dele! – ela disse e apanhou o utensílio de cozinha mais próximo (um rolo de macarrão) e se esquivou de mim, indo, imagino eu, na direção em que ela esperava que estivesse Sam.
E ela estava certa. Às minhas costas, ao portal da cozinha, estava Sam, segurando o que restava de um picolé de chocolate, boquiaberto e desviando a atenção entre mim e sua furiosa mãe.
– O-O que está ha-havendo aqui...? – ele gaguejou.
– O Blaine vai embora! – Angelina respondeu, brandindo o rolo de macarrão.
– Isso é sério? – ele perguntou para a mãe, mas voltou a atenção para mim e apertou os olhos. O picolé em sua mão gotejava pelo chão. – M-Mas...?
– Isso é culpa sua!
– Blaine...?
– Eu sabia que você ia ser um pé no saco da visita, você disse que faria isso, você disse...
Eu tive que segurar os braços de Angelina antes que o rolo de macarrão acertasse Sam que, de uma hora para outra, se deparara encurralado em um dos cantos da cozinha.
– Blaine, por que você está fazendo isso? – Ele ainda insistia em falar comigo, mesmo que sua mãe tivesse se tornado uma fera prestes a acabar com a raça dele.
– Me solta, Blaine!
– Angelina, não faça nada do qual possa se arrepender depois... – eu tentei dizer.
– Angelina, por favor!
– Blaine, me solte!
– Foi o que você disse para ela? – Sam insistiu, na minha direção. – Você disse que está indo embora por minha causa?
Apesar de eu ter dito “Não”, os gritos de Angelina encobriram a palavra.
– Eu preciso sair daqui – ela disse e, com um gesto rápido de braços, se soltou do meu aperto. – Preciso espairecer. – Dirigiu-se ao fogão e desligou suas duas bocas. Retirou o avental que vestia. – Se eu continuar aqui, vou acabar com o meu filho, e acho que o Maine não precisa de mais um caso de violência agora. – Olhou rapidamente na minha direção. – O almoço vai demorar um pouco para ser feito, querido. Sinto muito.
Angelina bateu as mãos nas coxas e saiu pela porta de trás.
De repente, estávamos só eu e Sam na cozinha.
– Então é isso? – ele começou a dizer, forçando uma aproximação. – Você, de uma hora para outra, decide ir embora e, na falta de um culpado, diz à minha mãe que é por minha causa? Devia ter pensado em uma justificativa melhor para seu ataque de rebeldia adolescente.
– Você não sabe do que está falando, Sam. – E olhá-lo com aquele olhar julgador, de alguém que já está convencido de em qual verdade vai acreditar, fez com que eu sentisse nojo dele. – E eu não tenho que dar satisfação de nenhuma das minhas escolhas, muito menos a alguém como você.
Passei por Sam e galguei as escadas de dois em dois.
– O que quer dizer com isso? – eu o ouvi perguntar às minhas costas. – Hein? O que quer dizer com isso, seu causador de intrigas de merda?
– Não precisa continuar com seus insultos, Sam, porque eles já não me afetam mais.
– Foda-se! Mas isso não te dá o direto de sair de uma discussão sem explicar o que está acontecendo!
– Há certas coisas sobre as quais não se fala, a gente só faz – eu disse, já do interior do meu quarto, segurando a porta para fechá-la.
– Você não sabe do que está faland...
– Adeus, Sam.
O som que a porta fez quando eu a bati foi o ponto final daquela discussão.
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