Blam!
9 A Aula de Ciências
A convivência com Sam não tendeu a melhorar com o tempo. Na verdade, com o passar dos dias, tudo pareceu piorar.
Não éramos muito de dialogar. Seu quarto ficava em frente ao meu e, em situações cotidianas, não conversávamos mais do que o necessário. Fisicamente, só ficávamos próximos de verdade quando sua mãe nos obrigava a fazer as refeições à mesa (e isso só quando estava por perto, porque, por exemplo, quando almoçávamos, Sam gostava de fazer isso no sofá, e tomava um sofá de três lugares apenas para si) ou quando ele me dava carona para a escola, o que acontecia basicamente todo dia. Nem nesses momentos conversávamos muito. Se havia algum diálogo, ele vinha de mim, que ficava falando sozinho, e as únicas demonstrações de atenção ao que eu falava que Sam demonstrava vinham dos “uhum” que de vez em quando ele dizia ou dos risos curtos que dava quando eu contava alguma situação engraçada.
Mas não éramos amigos. Por Deus, a gente não era nem colega! Morávamos na mesma casa, mas, na escola, sempre parecia que éramos completos estranhos. Mesmo as pessoas mais observadoras e atenciosas suspeitariam de morarmos na mesma casa realmente. Sam era muito discreto quando queria e sabia, como ninguém, fazer de conta que não me conhecia quando seus olhos corriam por mim nos corredores. Ou quando tínhamos a mesma aula, geralmente a de Ciências, que acontecia em um laboratório limpo, refrigerado e com cheiro de formol.
Quando eu parava para pensar no assunto, sempre concluía a mesma coisa: as coisas entre nós haviam mudado no dia em que ele invadira o meu colchão, pressionara seu pênis contra a minha bunda e então tivera que levantar correndo porque a mãe acabara de chegar de viagem. O que, por sua vez, me levava a pensar se a culpa da frieza dele não era da mãe; quer dizer, se ele tivesse ido até o fim comigo, será que tudo estaria melhor? Será que Angelina não podia escolher um momento mais oportuno para aparecer e atrapalhar a vida de alguém? Isso era frustrante!
Mas a verdade mesmo era que tudo começara a mudar entre a gente no dia em que ele invadiu o meu quarto e me beijou.
Até hoje, eu não entendia muito bem o propósito daquilo, e eu podia jurar que ficaria sem entender pelo resto da vida. Mas também não vou mentir; como um adolescente com os hormônios à flor da pele, em meus sonhos eróticos mais profundos, homens como o Sam costumavam aparecer me desejando como uma pessoa com sede pode desejar um copo de água, e sonhos assim eram legais. A realidade com Sam era tão fascinante quanto, mas a incerteza do que havia entre a gente adicionava um gosto amargo à situação. Quando ele me tocava – nas vezes em que ele me tocou –, era mágico e único, perfeito, tão bom que sempre me deixava com vontade de mais. Mas eu nunca sabia se iria ter mais. E o jeito como ele tratava a coisa, fazendo de conta que nada de mais acontecia entre a gente, quase me fazia pensar que talvez nada estivesse acontecendo mesmo, que o que eu “achava” que acontecia era apenas fruto da imaginação de uma mente bêbada com álcool ou com vontade de dormir.
Mas, quando acontecia, parecia tão real.
E ficou sem acontecer por um bom tempo, a ponto de eu achar que Sam tinha desistido de mim e do meu corpo magro, da minha companhia. Uma pena que eu não tivesse desistido dele com a mesma facilidade.
Uma pena imensa mesmo!
Naquele dia, fomos à escola como sempre fazíamos. Sam ligou o rádio, tocando aquelas músicas caipira que há tempos eu odiava, mas com as quais já começava a me acostumar. Suas mãos, brancas como se nunca tomassem sol, manejavam o volante, arrastavam-se até a marcha do carro (ou o que quer que fosse aquela alavanca que ele sempre acionava), e eu, por tudo, desejava poder embrenhar meus dedos nelas. Sinais de que eu estava apaixonado por ele, obviamente, mas, como boa parte das paixões do mundo, aquela era uma que jamais seria retribuída.
Quando chegamos à escola, antes de deixarmos o carro, ele me deu alguns avisos, dizendo que, depois da aula, teríamos que passar no mercado para comprar alguns mantimentos que sua mãe pedira, mas que ele estava muito a fim de um pote de sorvete também, e o que eu achava sobre isso? Por mim, tudo bem, foi o que respondi. E então, quando deixamos o carro, ele voltou a agir como se tivesse apenas dado carona para um estranho que encontrara na rua, como se tivesse feito sua boa ação do dia.
Só fui encontrá-lo novamente quando a tão aguardada aula de Ciências voltou a acontecer, depois do intervalo para o almoço. Tão aguardada não porque eu voltaria a ver Sam (e esse convencimento era algo que, há muito tempo, eu vinha tentando forçar), mas porque os experimentos eram, sim, interessantes. Finalmente aprenderíamos a fazer uma mistura que mudava de cor com o tempo. Parecia inútil, mas era bonito de se ver.
Mesmo no laboratório de Ciências, Sam costumava fazer de conta que eu não existia. Mas não naquele dia. Quando entrei, o professor, um senhorzinho curvado, de óculos grandes que lhe davam a impressão de ter olhos enormes como bolas de tênis, já escrevia algumas coisas no quadro, mas eu não estava atrasado, era ele que estava adiantado. Esquadrinhei a sala, procurando alguma mesa que ainda não estivesse ocupada ou com alguém que aguardasse alguém para formar um par. Pessoas sozinhas ainda havia muitas, mas a única que chamou a minha atenção foi Sam, e não porque ele, em vista dos demais, era um deus grego de braços fortes, rosto masculino e sorriso que parecia iluminar ainda mais aquela sala, mas porque seu braço estava erguido no alto, uma mão sacudindo de um lado para o outro, e o olhar voltado na minha direção.
Olhei para trás – ninguém. Olhei para os lados: à direita, o professor, e à esquerda, uma dupla de garotas que se divertia com uma piada interna. As duas logo tomaram uma mesa para si. Era comigo que Sam estava falando, e eu tive que levar um indicador ao peito para ter certeza disso.
Com a cabeça, ele confirmou.
O trajeto que fiz até aquela mesa no final da sala pareceu o maior e mais emocionante que já fiz na vida. Sam sentava ao lado da janela, isolado, a mesa mais distante da saída da sala, geralmente escolhida por aqueles que não tinham vontade nenhuma de sobreviver a um incêndio, caso algum experimento ali desse errado. Eu joguei a minha mochila no chão e puxei a banqueta ao seu lado, sem deixar de olhá-lo. Sam me observou dos pés à cabeça e sorriu quando seu olhar parou sobre o meu. Mais nada aconteceu.
O que, mais uma vez, me deixou frustrado.
Enquanto o professor falava e explicava o porquê de certas misturas ficarem cor-de-rosa ou azuis, eu pensava no quão louco estava ficando. Toda vez que eu me aproximava de Sam, eu pensava em sexo. Eu estava me tornando um maníaco. Eu não pensava em sua amizade ou no que tinha para falar, eu pensava em seu corpo e em como ele poderia tocar o meu. Isso não era normal para um adolescente, era? Acredito eu que não. Talvez por isso eu não conseguisse ser o seu amigo, porque não era exatamente a sua amizade o que eu queria.
Isso te lembra algo, não lembra?
O professor deu as coordenadas para que as misturas começassem a ser feitas e o falatório entre alunos teve início.
– Como começamos a fazer isso? – Sam perguntou, se voltando para mim.
– Bem... Ele disse que devemos misturar nesse tubo de ensaio pequenas quantidades das misturas dessas garrafas e, dependendo da cor que resultarem, devemos anotar os resultados, consultar uma tabela no livro e descobrir que substâncias elas s... Sam?
– O que foi? – perguntou ele, já depositando dois líquidos de mesma cor no tubo de ensaio.
– Vá com calma. Não precisa ser muito, e a gente ainda vai ter que fazer pelo menos mais quatro misturas.
– Não esquenta.
– Sam, por favor... – eu falei, levando ambas as mãos às dele, esperando impedir que ele continuasse a despejar tanto.
– Relaxa, cara! – disse ele, pousando uma das substâncias sobre a mesa, agarrando a minha mão e a forçando contra sua perna.
Se propositalmente ou não, eu não soube dizer.
Mas eu ainda precisava impedir que ele fizesse besteira em sala de aula.
– Sam, não precisa misturar tanto! – eu disse, novamente tentando impedi-lo de continuar a mexer nos tubos de ensaio.
– O professor tem litros dessas substâncias guardados, não sei por que você está esquentando a cabeça!
– Mas a gente não precisa abusar dis...
Mais uma vez, ele agarrou a minha mão e a afastou do balcão.
E, dessa vez, não a pousou em sua perna. Ele a colocou entre as suas pernas.
– S-Sam...?
Ele levou o indicador ao lábio e fez “Shh!” muito rapidamente.
– Pode fazer você as misturas então – disse ele e escondeu as mãos embaixo da mesa. Aproximou-se do meu ouvido e disse o restante num sussurro: – Mas faça isso usando apenas uma das mãos.
Ele entrelaçou os dedos de uma de suas mãos nos meus e, mesmo sem ver, pude sentir sua outra mão desabotoando o botão de sua calça e abrindo o zíper. Eu escutei cada um desses movimentos com riqueza de detalhes, ainda que não pudesse vê-los, mas o barulho na sala era tanto que eles se perderam no falatório. Sam aproximou minha mão de seu pau, que já estava enrijecido como se há muito ele estivesse pensando naquilo, abriu meus dedos e os obrigou a segurá-lo.
– A mistura, Blaine – disse, fazendo com que eu me desse conta de que olhava nos seus olhos com atenção redobrada, a ponto de não piscar.
Com a outra mão, apanhei uma haste transparente e a levei ao tubo de ensaio. Deixei-a lá dentro e de repente não consegui fazer mais nada; Sam apertava minha mão em seu pau e a fazia ir para cima e para baixo, para cima e para baixo, para cima e...
Ele está me fazendo masturbá-lo.
Eu ruborizei. Os arrepios começaram na mão que segurava o pênis de Sam, subiram pelo meu braço e se interromperam na minha nuca. Eu o olhava, mas ele insistentemente pedia para que eu prestasse atenção na mistura.
– Não para – ele disse, mas aquela frase soava tão ambígua que eu não pude evitar um questionamento.
– O quê?!
– Não... para...
Ele soltou a minha mão, mas meus dedos se mantiveram envoltos em seu pênis. Sam me olhava com seriedade, os lábios enormes retos. Tive a impressão de tê-lo ouvido suspirar; quando aconteceu pela segunda vez, tive certeza. Minha mão esquerda, apertando aquele membro, massageando-o de cima para baixo, sentindo algo pulsar dentro dele, parecia ter vida própria – minha mão direita se agarrava à borda do balcão como se para impedir que eu caísse a qualquer instante.
– Não para – Sam disse pela última vez e agarrou a haste que estava enfiada na mistura ainda incolor. Começou a mexê-la. – Estou quase terminando.
O QUÊ?!, minha mente esbravejou e minha boca se abriu num O.
– Você é LOUCO! – eu sussurrei, apertando os olhos na direção de Sam.
– Essa é só a sua opinião.
Apertei-o com mais força. Meu polegar tocava a cabeça do pau, alisando a pequena fissura que nela havia, fazendo com que o pênis de Sam se retraísse e pulsasse como se ele...
Como se ele estivesse quase terminando.
– Professor? – ouvi a voz de Sam dizer.
Larguei o pau de Sam no mesmo instante e me virei na banqueta. O professor, com seus enormes globos oculares, nos olhava com interesse, como se estivesse em busca de uma resposta.
– Tudo correndo bem por aqui? – ele perguntou com sua voz esganiçada.
– Tudo – eu respondi por impulso.
– Já estamos quase terminando – Sam disse em seguida, com mais segurança do que eu, porque ele sabia como ser dissimulado e falsificar emoções, enquanto eu não.
– Que bom. Não se esqueçam de que esse relatório valerá um ponto na nota da prova, garotos. Estou passando de mesa em mesa para reforçar isso.
– Não precisa se preocupar, estamos nos dedicando bem – Sam voltou a falar e até sorriu para o professor.
Com quem estou me envolvendo?, eu pensei.
Aproximei minha mão do seu joelho, apesar dos pensamentos contraditórios, e cobrei o seu olhar.
– Devo continuar? – eu perguntei, sentindo um pouco de culpa descer pela garganta quando engoli em seco.
– Não – ele disse com a mesma secura, agora com cem por cento de sua atenção voltada para os tubos de ensaio. – Já não estou mais com clima para isso.
E a surpresa encheu meu rosto como um tabefe quando eu me dei conta de que aquela talvez fosse a primeira vez em que Sam respondia uma pergunta sugestiva minha sem fazer de conta que não sabia do que eu estava falando.
E isso era um avanço, não?
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