Blades of Chaos

2 Descobertas Repentinas


Foi uma boa mudança”. As últimas palavras de Mandy Wiles ecoaram em meu subconsciente durante horas a fio. Descobri o nome dela após tê-lo escutado na chamada durante a aula de Química, minha última aula do dia e a única aula que tínhamos juntas. Mandy parecia cheia de contradições a meu respeito – em um momento estava me ameaçando, no outro, elogiara minha atual cor de cabelo.

E ela cumpriu com o intuito que havia imposto sobre mim – senti o seu olhar me acompanhar pelo restante das atividades da aula. Era envolvente de uma forma desconcertante. Tentei o meu máximo não reagir à sua vigia excessiva. Creio que, dada as circunstâncias, talvez mesmo com meu testemunho direto, ela ainda não creia piamente que não estou envolvida no homicídio de Serena ou que talvez me considere uma ameaça ao “status quo” a qual ela faz parte.

De toda maneira, não me sinto incomodada em receber esse tipo de atenção. Sinto-me intrigada. Talvez até dispersa.

Meu parceiro designado às atividades conjuntas da aula de Química era um novato em Bullworth, um ruivo sardento e baixinho de corte militar, e isso fez com que nossa convivência fosse um pouco menos tensa do que as que eu havia nutrido até então.

Jimmy Hopkins expressou sua frustração em grunhidos perante ter errado mais uma vez a ordem dos frascos químicos do laboratório. E de tal maneira, com minha total “delicadeza”, vim a resmungar e direcionar o meu foco antes concentrado em Mandy para atribuí-lo à tarefa de classe.

― Passa os frascos pra mim logo ― Exigi. ― Deixe-me tentar.

― Olha, se você conseguir, eu te devo um favor pois só me vejo explodindo essa porcaria na minha cara caso eu continue. ― Jimmy disse enquanto abria espaço para que eu ocupasse o seu lugar mais à frente aos frascos centrais.

Aceitando o desafio, foquei inteiramente em seguir com as instruções da fórmula em busca de acertar a sequência da imersão de cada líquido em sua devida quantidade. Jimmy se manteve observando atentamente cada movimento meu, aparentando tentar compreender meus passos.

Até que tive bons resultados conduzindo a primeira parte do experimento. A combinação dos líquidos dentre esse primeiro segmento dera o efeito estimado da atividade. No frasco principal designado, pude contemplar a alteração do líquido transparente para uma coloração harmônica de azul anil, com somente leves espumas no topo.

Porém, durante o segundo passo da tarefa, já me vi dispersa novamente. Enquanto ainda prosseguia com a minha tarefa, pressenti sobre o canto do meu ombro, o olhar de Mandy ainda fissurado em mim. Só que em meio a isso, também reparei na mudança de movimentação que ela estava a realizar.

Não conseguindo conter minha curiosidade em acompanhá-la, direcionei meus olhos ao alcance de Mandy com a maior discrição que consegui performar, tudo para conseguir capturar a visão dela retocando o seu batom levemente avermelhado ao longo em que se encontrava com os cotovelos apoiados sobre a mesa de experimentos, transferindo ao seu parceiro de aula a responsabilidade de conduzir sozinho o experimento deles.

Senti um rubor aquecido tomar conta da minha face por ter centralizado meu olhar para acompanhar o momento exato em que Mandy havia deslizado a base de seu batom pelo seu lábio inferior. Sua boca carnuda, dotada de uma delicadeza exuberante, me fizera errar completamente a fórmula a ser distribuída no frasco central, ocasionado assim em uma explosão alarmante.

Jimmy, por sua vez, conseguiu se esquivar justo a tempo antes de ser atingido pela erupção dos líquidos químicos. No entanto, não tive a mesma sorte.

Sem me preocupar muito, consegui ouvir alguns risos avulsos de alunos que presenciaram meu fracasso desastroso na atividade. Minhas mãos imediatamente foram em direção ao recipiente contendo vários papéis em busca de limpar os vestígios dos líquidos multicoloridos do meu rosto, assim como da extensão do meu pescoço.

Mandy, que não havia parado de me observar, dera uma risada que misturou-se com a dos outros alunos. Entretanto, sua postura não parecia hostil. Com o seu batom inteiramente retocado agora, a líder de torcida demonstrava ter se divertido com a minha performance falha por razões distintas às das outras pessoas presentes na sala. Será que ela percebeu o fato de eu ter errado a distribuição dos frascos somente por conta dela?

Tendo isso em perspectiva, antes que eu pudesse desviar o olhar dela, a avistei lançar um beijo ao ar bem na minha direção. O rubor abrasador inundando em meu rosto se intensificou por conta disso. Não soube bem decifrar o significado por trás daquele deboche. Talvez significasse à confirmação de que ela havia sim reparado o quão eu me distraí por culpa dela, ou poderia haver alguma outra motivação por trás. Contudo, após o ocorrido, imediatamente parei de encará-la, sentindo meu coração palpitar um tanto mais forte.

O professor Watts, com seu modo excêntrico e beirando ao histérico, repreendeu os risos dos alunos e, em seguida, me esculachou pela incompetência por não ter sido suficientemente cuidadosa com o meu experimento.

― O seu favor ainda está de pé mesmo que eu tenha falhado, Jimmy? ― Questionei entre um suspiro profundo na medida em que tentava limpar minhas bochechas das manchas provocadas pelo impacto da explosão.

O recipiente de papéis que havia utilizado havia se esgotado, mas Jimmy me passou um pano de limpeza para que eu conseguisse continuar a me sanear.

― Só pelo fato de você ter ficado no meu lugar para que não explodisse em mim, já conta como um favor, sim. Fica tranquila. ― Jimmy respondeu-me após ter retrucado algumas das exclamações eloquentes do professor Watts.

Ele havia sido o único na sala que não riu de mim. Este fato e sua presença descontraída na realidade já haviam me servido como um genuíno favor dentre esse caos todo.

~

Durante o desfecho do dia, retornei para o dormitório feminino e pude chegar aos meus aposentos sem grandes desavenças.

Ao adentrar o recinto, fui imediatamente repousar em minha cama, esta que se encontrava próxima à janela. Meu quarto tinha as paredes roseadas em tons chocantes. Meus pertences ainda estavam guardados nas duas bolsas que havia trago comigo para me acompanhar na minha estadia – tais quais estavam encostados à estreita do armário de madeira.

Tirei meus sapatos sem usar as mãos enquanto ainda me mantinha com as costas colocadas contra o colchão macio. Quando me encontrei livre da opressão dos calçados, deslizei na cama até deitar corretamente no travesseiro. Aproveitei meu primeiro instante de paz, e me permiti a cerrar minhas pálpebras na tentativa de obter repouso, mas acabei por escutar uma voz feminina puril e vivaz.

Essa voz era inconfundível, ela pertencia a ninguém mais além de Pinky Gauthier. Sua risada ecoava pelos corredores em conjunto de outras vozes femininas, a distância da conversação de Pinky com estas garotas desconhecidas por mim transparecia estar se anulando a cada passo que davam, como se estivessem vindo precisamente na direção onde eu me encontrava.

Logo, me levantei de forma imediata para que pudesse sentar-me na ponta da minha cama, e assim presenciei o momento que Pinky adentrou o quarto no meio da despedida calorosa do que pareciam ser amigas próximas dela.

Sem necessitar dizer nada, o olhar de Pinky imediatamente desviou-se de suas amigas no instante que elas se dirigiram para provavelmente se alojarem em seus respectivos aposentos, e então ela voltou-se para mim.

Seus olhos cor de mel brilharam ao me enxergar. Ela trajava um uniforme com a vestimenta de Aquaberry, seu busto era acentuado com um colar dourado enfeitando seu pescoço. Os cabelos castanhos claro em corte Chanel moldavam seu rosto com uma finura notável e bastante refinada. Ela desde sempre esbanjara uma elegância natural, até quando era mais nova.

― Thea! Meu Deus, há quanto tempo! Não acredito que seremos companheiras de quarto agora! ― Ao manifestar com entusiasmo seu cumprimento, Pinky inesperadamente se arremessou em meus braços e me abraçou com uma ternura acolhedora o bastante a me deixar confortável ao retribui-lá sem qualquer hesitação.

O corpo delicado de Pinky emitia uma quentura relaxante e uma maciez semelhante aos tecidos mais sedosos que posso me recordar de memória. Tudo em sua aura condizia com texturas afáveis e acetinadas. Minhas mãos haviam envolvido-lhe a sua cintura fina para mantê-la propriamente ancorada contra mim, e enquanto a segurava daquela forma, senti suas mãos tateando tanto a extensão das minhas costas quanto a zona um pouco acima da parte de trás dos meus ombros. Não negarei me sentir demasiada aconchegada pelo afego.

Creio que tenhamos passado pouco mais de um minuto interrupto aprisionadas nesse abraço afetuoso. E quando ele foi-se desfeito, pude contemplar o sorriso grandioso esculpindo os lábios graciosos de Pinky, dando-lhe a impressão radiante de alguém perante algo que a agradava profundamente. Aquele sorriso tinha um potencial contagiante, a tal ponto que me fizera corresponder sua empolgação ao cumprimentá-la.

― Sim, faz cerca de um ano desde que não nos vemos, não é verdade? Tão bom vê-la por aqui. ― Amistosa, pontuei. E reparei no momento em que um brilho fixou-se no olhar brando de Pinky diante do meu ato em corresponder seu deleito.

Rever Pinky após todo esse período me é algo estimável, principalmente levando em consideração que fazia um bom tempo que não recebia uma recepção tão terna quanto a dela, fora que muitos daqueles que considerei meus amigos me viam de uma forma indigna de ter qualquer contato positivo sequer.

Havia conhecido Pinky quando ainda estudava no colégio En Garde, a bolsa de estudos por lá era concedida somente para jogadores exemplares das mobilidades de esgrima, boxe, natação, tênis ou futebol americano. En Garde ficava na fronteira com Bullworth e a cidade vizinha de Northways. Pinky havia comparecido lá durante um evento de boas-vindas aos novos esportistas aceitos, isso porque o tio dela fora por muitos anos um dos principais doadores do colégio. A intenção dele era fazer com que Pinky acabasse por estudar em En Garde. Porém, por não ter afinidade com nenhum esporte, ela acabou não sendo admitida no colégio. Pelo o que sei o filho dele, Derby Harrington se me bem recordo, também não foi aceito lá.

No entanto, isso não impediu com que Pinky acabasse participando de alguns outros eventos em En Garde, e foi durante esses eventos que acabávamos interagindo amigavelmente de vez ou outra.

De volta ao presente, eu e Pinky conversamos durante horas sobre os ocorridos das nossas vidas desde a época que nos vimos pela última vez até o dado momento. Descobri o seu descontentamento em ter sido prometida ao seu próprio primo, sua insatisfação com certas ocorrências em Bullworth e sua dificuldade em aceitar menos do que ela sentia ser merecedora.

Partilhei vagamente minha dificuldade em sentir-me ajustada a ambientação de Bullworth, meus medos relacionados à suspeita que tinham quanto ao meu envolvimento no assassinato de Serena e as dores que experienciava com meu braço lesionado. Acredito que tenha sido a conversa mais profunda a qual já tivemos.

Possuíamos incontáveis diferenças e ela era bastante expressiva quanto a sentir inveja de mim por eu ter tido a chance de estudar em En Garde. Por mais genuína e agradável que fosse sua companhia, eu sentia que parte do que a motivara a manter contato foi por conta da sua necessidade de estabelecer vínculo com pessoas supostamente influentes, a fim de ascender ainda mais na escala social.

No entanto, eu pouco me importava com suas motivações, com sua abastança inquestionávelou sua popularidade. Sabia que jamais me encaixaria nesses meios. O que eu buscava, em vez disso, era provar minha inocência, além de encontrar uma forma de canalizar minha energia agora que esgrima profissional não era mais uma opção válida.

Independente do que aproximava Pinky de mim, eu valorizava verdadeiramente tê-la por perto e ficava satisfeita em perceber que esse sentimento era mútuo, apesar de tudo.

No decorrer da nossa conversa, acabamos deitando lado a lado na cama. De repente, ela virou seu corpo em minha direção ao perguntar timidamente:

― Thea, você me deixaria tocar no seu braço machucado?

Surpresa com o seu pedido incomum, mas sem saber como negá-lo a ela, acabei por ceder meu braço flagelado ao seu toque suave. O movimento dele ainda era estável. O problema residia na sua flexibilidade, que havia sido permanentemente comprometida e ocasionava em dores agudas de vez ou outra, ainda mais sem os devidos remédios relaxantes musculares para auxiliar em minha recupera.

Os dedos de Pinky percorreram minha pele com curiosidade, tentando sentir meus músculos e desvendar onde se concentrava minhas dores. Involuntariamente, acabei me arrepiando com as dedilhadas delicadas as quais ela me concedia.

Pinky voltou seu olhar para mim ao ter reparado no arrepio alojado em minha pele, e seu sorriso brando indicava entender a origem do meu arrepio melhor do que eu.

― Acho que irei fechar a janela, senti um vento frio através dela. ― Um tanto sem graça, acabei por me levantar da cama e me afastar do toque de Pinky.

A garota de cabelos curtos ergueu-se da cama também, ainda portando toda a excelência que possuía antes mesmo de deitar-se comigo. A invejei silenciosamente por seu cabelo estar intacto mesmo após receber o atrito do contato com o travesseiro. Afinal, meu próprio cabelo deveria estar um caos de cachos alaranjados emaranhados entre si.

― Pode fechar a janela. Oh, e eu irei tomar um banho bem quentinho para depois adormecer. Thea, muito obrigada pela conversa. Saiba que se precisar de algo, estarei bem aqui pra você. ― Pinky ajustou sua saia azul celeste e despediu-se de mim com uma prontidão repentina.

Senti como se ela tivesse percebido a tensão que ficara impregnada no ar devido ao seu dedilhar suave em meu braço. O formigamento do calor dela ficou fixado em mim, mesmo quando ela já havia se ausentado do quarto.

Fechei a janela e lancei-me à cama novamente, deitando para refletir acerca do meu dia. Por alguma razão inconsciente, alisei meus próprios cabelos encostados no travesseiro. No entanto, uma descoberta foi feita ao realizar deste ato singelo.

Quando coloquei minha mão sob o travesseiro, acabei encontrando um bilhete debaixo dele. Meu espanto ao me deparar com as informações contidas naquele pequeno papel me atordoou mais do que qualquer evento que tive até então.

“Eu sei quem matou Serena Wells. Encontre-me próximo ao cemitério às 23:35 e revelarei tudo a você.”