A minha segunda aula era na oficina. Nos foi dada a tarefa de realinhar a corrente de bicicletas desgastadas para testar nossas habilidades mecânicas. O cheiro de óleo de motor permeava o ar da velha garagem. Minhas mãos já estavam manchadas de graxa devido a corrente do veículo bastante destroçado, e as orientações do professor Neil para realizar essa atividade foram excepcionalmente imprecisas, para dizer no mínimo.

Jimmy também estava nessa aula comigo, bem próximo de onde me encontrava, e tal como eu, ele aparentava enfrentar dificuldades em manusear a corrente de sua bicicleta designada. Passamos a nos ajudar mutuamente até obtermos algum resultado, o que foi um alívio para nós dois.

Dentre o decorrer da aula, sentia algo inquietante me acompanhando por trás. O olhar vigilante de um estranho não parecia se desvincular dos meus movimentos por nada. Por ter estado muito focada na minha ocupação, não tinha me atentado tanto a esse incômodo pertinente, mas assim que por fim terminei de alinhar a corrente da minha bicicleta, confrontei o olhar o qual se mantinha a me perseguir obstinadamente.

Meus olhos então se depararam com um rapaz. Não tão alto, porém másculo e entroncado, com cabelos castanhos emplastrados de gel capilar e um rosto mascarado por um semblante de mau humor irreversível. Ele usava jeans surrados e uma jaqueta de motocross de couro preto. O detalhe do brinco prateado em uma única orelha provavelmente era usado com o efeito de lhe transmitir um ar mais rebelde, mas na realidade, para mim, só o fazia parecer afrontoso de modo pouco efetivo em instigar tremor.

― Se o seu talento para reparo de bicicletas for o mesmo que você tem no trato com garotas, presumo que não devo considerá-la uma ameaça. ― Disse o rapaz temperamental ao dirigir-se a mim em tom acusatório. Ele deu um passo à frente, acompanhado de outros três garotos vestidos em jaquetas de couro. Todos ostentavam topetes lustrosos, parecendo ter exagerado na aplicação de gel capilar. O trio riu ao ouvir o comentário proferido por aquele que me vinha a me atiçar.

― Com quem você tá falando, hein, Johnny? Quer levar uma surra? ― Jimmy retribuiu a alfinetada em meu lugar.

― Não falei com você, Hopkins. Falei com a Walsh. ― Johnny Vicent disse sem desvincular o olhar furioso do meu alcance.

O sinal proclamando o final da segunda aula manifestou-se sob nossas escutas. O professor desleixado informou que só iria avaliar nosso progresso na próxima aula e logo se retirou do local sem se importar com o confronto que estava prestes a ocorrer em sua classe.

Johnny afastou-se de sua mesa, sobre a qual se via disposta uma bicicleta de corrente perfeitamente realinhada. Ele caminhou em minha direção para se estabelecer bem à minha frente. Suas mãos se ancoravam nos bolsos de sua jaqueta como se escondessem um segredo. Talvez um soco inglês, talvez uma navalha. Quem sabe? O fato é que eu começava a me incomodar com sua presença petulante a me confrontar.

― Você não sabe nada sobre mim para supor qualquer coisa. ― Retruquei, tentando manter a calma para não ceder ao desconforto que se alastrava em meu âmago.

― Aí que tá, Thea Walsh. Eu sei sim bastante sobre você! ― Falou, presunçoso, emanando a mesma presença de um cão arisco e territorial prestes a atacar quem ele considera uma ameaça. ― Sei que você pretende ir a um encontro com a minha garota hoje à noite. Sei que você e ela fizeram uma aposta para determinar esse encontro. E também sei que você está sendo investigada por assassinar sua rival na esgrima.

Percebi Jimmy alargar os olhos em reação à informação dada na última parte da menção de Johnny. Murmurei que o explicaria melhor depois, visto que ele não parecia saber sobre o assassinato o qual eu estava a ser investigada.

― Também sei que você tem um braço permanentemente lesionado, e esse é o único motivo que me impede de ir até aí quebrar sua cara. Isto, e claro, o fato de você ser só uma garotinha! ― Continuou a declarar, histérico e enfático. Seu tom de voz beirava a uma fúria teatral. O exagero de suas expressões faciais me atordoava e irritava na mesma intensidade.

Franzi o cenho e me percebi bufar em indignação. Ouvi-lo chamar-me de tal forma pejorativa e me diminuindo acendera em mim uma cólera indomável. Cerrei os punhos firmemente e estava prestes a desferir um soco bem dado na cara revoltante dele.

No entanto, antes que eu pudesse me opor contra ele, Jimmy se colocou à minha frente e peitou Johnny com a sua habitual tendência a reagir à hostilidade alheia.

― Por que não vem enfrentar alguém do seu tamanho então, Johnny?! Não sabia que os chifres da sua cornice te davam o direito de ser um cuzão com os outros!

Johnny exalou um ar pesado de suas narinas e removeu uma de suas mãos dos bolsos de sua jaqueta. Passou assim a apontar seu dedo indicador de forma errática à medida em que destilava ofensas desenfreadas voltadas a tanto Jimmy quanto a mim.

― Já avisei que isso não tem nada a ver contigo, Hopkins. Pode deixar que se você quer tanto apanhar, vou providenciar isso para você em homenagem à sua amiguinha assassina! ― Johnny desbravou, aderindo uma posição de combate com agora seus ambos punhos elevados.

Eu ainda estava transbordando de raiva, contudo, não queria prejudicar Jimmy com algo que minhas ações haviam instigado. Respirei fundo e agi com rapidez.

― Isso tudo é por causa da Lola? ― Questionei no mesmo instante em que me coloquei na frente de Jimmy para encarar Johnny.

O olhar enfurecido do rapaz ficou nitidamente afetado com a menção do nome que proferi. Por trás de suas órbitas castanhas, existia um oceano de mágoas que era bem manifestado por ondas eufóricas de frustração combativa. Eu poderia sentir um pouco de pena por ele, se o mesmo não fosse tão truculento em busca de conflitos para saciar o desamparo desesperado ocasionado pela sua frustração.

― Sim, pode crer que isso tudo é por causa da Lola! Ela foi minha namorada durante um tempo, até que passou a se envolver com uns fracassados e me dispensou. Mas ela ainda é a minha garota, pois sempre volta para mim depois de descartá-los. Com você isso não vai ser diferente!

Os três garotos cujas vestimentas combinavam com as de Johnny se aproximaram e adotaram posturas semelhantemente defensivas. Eles se posicionavam bem atrás de Johnny como verdadeiros soldados a esperar comandos de um superior para avançar em uma batalha sangrenta. Era claro como o sol que nasce pela manhã – Johnny não era simplesmente um dos Greasers, ele era o líder deles. Isso só complicava ainda mais as coisas para mim.

No entanto, não esquivaria de um confronto de forma alguma, mesmo que tivesse de lidar com toda a gangue dos Greasers tendo somente talvez Jimmy para me apoiar.

Se me permitisse acorvardar diante dos combates – por mais bobos que sejam –, acabaria mais na mira de infelizes ataques consequentes em função da minha falta de firmeza. Por mais que odiasse admitir, Mandy estava certa: eu estava mesmo ficando em evidência. Claro, eu já ocupava essa posição de destaque muito antes, devido às acusações as quais me perseguem, mas minha tentativa de passar despercebida em Bullworth da mesma forma como minha irmã havia sugerido que eu tentasse, não era mais uma possibilidade.

É provável que nunca tenha realmente sido.

Só me resta aprimorar minha habilidade de lidar com situações de alto risco, sem me submeter a derrotas vergonhosas.

― Vamos resolver isso de igual para igual, Vicent. Não estou nem aí para sua relação com a Lola, mas você realmente não sabe nada sobre mim e não permitirei que saia ileso de sua prepotência. ― Rebati-o sem me conter. ― Se deseja tanto “quebrar minha cara”, proponha um jeito para fazer isso. Vou revidar e duelar com você sob os seus próprios termos.

Johnny pareceu ponderar por alguns instantes sobre suas opções acerca de minha sugestão. Depois de relaxar seus ombros de sua postura ofensiva, ele guardou os punhos mais uma vez dentro dos bolsos de sua jaqueta e anunciou:

― Você, eu, meus rapazes e Hopkins. Corrida de bicicleta amanhã às sete da noite no estacionamento da escola. Esteja pronta para comer poeira, Walsh!

Convicto de sua antecipada vitória, Johnny se retirou do local com seus rapazes o acompanhando obedientes e o vangloriando. Jimmy e eu nos olhamos compartilhando o mesmo desgosto por presenciarmos aquela saída extravagante dos Greasers.

― Juro que te explico tudo assim que possível, Jimmy. ― Exalei uma respiração extenuada ao longo em que me comuniquei com Jimmy utilizando uma tonalidade um tanto envergonhada por conta da proporção dos eventos. ― Amanhã antes da corrida conversaremos. Me desculpa qualquer coisa.

― Vou te cobrar isso viu? ― Jimmy me deu um tapinha em meu ombro esquerdo em um gesto de apoio moral, me assegurando com um entusiasmo contagiante: ― E desculpa porquê, garota? Eu amo corridas de bike! Mal posso esperar para ver Johnny cornudo todo descabelado após perder!

~

Sete horas da noite em ponto e cá estou, encostada na parede na frente do canto escondido na base dos Greasers. Trajada em uma jaqueta preta e uma calça jeans clara ajustada à minha forma, meus cabelos arruivados soltos serviam como fonte de calor complementar contra a eventual frente fria provinda do anoitecer. Fixei meu olhar para o céu da noite enevoado e deixei o ar puro preencher livremente meus pulmões por alguns segundos de tranquilidade plena. Em meio a isso, porém, acabei por inalar um cheiro reconhecível de cigarro adocicado de cereja – um aroma que associava com Lola com grande exatidão.

Ao depositar meus olhos na greaser instigadora de diversos apuros em minha vida, a contemplei no mesmo traje que a tinha visto no dia anterior, tirando pelo detalhe de sua camisa ser desta vez de um tom róseo, ainda expondo boa parte de sua barriga tonificada. Sua única fonte de proteção ao frio era sua jaqueta de couro sintético, a qual transluzia na luz do luar. Vê-la agora após o dia turbulento que tive teve um efeito mercurial sobre mim.

― Thea, oh Thea, você me surpreende tanto! ― Lola anunciou sua presença esbanjando um ardor lívido entre suspiros arrebatados. ― Fiquei sabendo quanto à sua corrida contra o Johnny. Eu amo tanto assistir corridas, elas me deixam tão... Excitada!

Bruscamente, me movi de onde estava para puxar Lola pelo canto de sua jaqueta e pressioná-la contra a parede mais próxima. Sua caixa tórica liberou uma respiração entrecortada denotando espanto. Pude sentir claramente essa inspiração carregada em virtude da proximidade de nossos corpos.

A tensão absurda que marcava o contato formado por mim e Lola se assimilava a vez que Mandy havia me prensado contra a parede, exceto que agora eu era a condutora desse feito. O fulgor da atmosfera era envolvente de modo esmagador e a maciez cálida provinda do corpo de Lola em toque direto com minhas curvas deixava-me um tanto desnorteada, mas não o suficiente para controlar minha frustração inicial de se manifestar.

― Por que raios você mencionou para todo mundo sobre nosso encontro? Tem ideia do problemão que isso causou? ― Interroguei enquanto a segurei pelo tecido de seu lenço escarlate realçando seu pescoço delgado, querendo manter o seu olhar fixado no meu.

Presenciei Lola mordiscar seu lábio inferior diante de minha abordagem. Ela mal aparentava estar sob ameaça. Suas pupilas dilatadas e feições assanhadas indicavam um estado extasiado. Lola fizera questão de elevar seu pescoço para manter-se ainda mais aprisionada pelo meu aperto em seu lenço. Seus lábios rubis pareciam abrasados e tentadores sob essa ótica próxima. E me percebi engolindo seco tendo de canalizar um alto nível de controle para conter a vontade visceral de sentir aqueles lábios contra os meus.

― Você acreditaria se eu dissesse que não fui quem contou a todos sobre isso? ― Revidou meu questionamento com uma lucidez sóbria bastante oposta à sua usual presença viperina. Sua fala ancorada transmitia uma clareza genuína no que revelava.

― Dificilmente. ― Arqueei as sobrancelhas, incrédula e áspera diante dessa possibilidade mal-elaborada.

― Mas é a verdade, querida! A única pessoa a quem mencionei sobre isso foi ao meu precioso diário. Johnny deve ter o lido e comentado com os outros, espalhando para que todos soubessem.

― Como Johnny teria acesso ao seu diário?

― Ele estava determinado a saber com quem eu estava me relacionando no momento e vasculhou todos os meus pertences. ― Declarou em exclamação, no entanto, sua postura não apontava indignação real ou sequer fingida pela violação de sua privacidade; e sim sugeria uma certa ânsia em ser notada em sua totalidade. Lola relatava tudo como se estivesse em meio a um prolongado desabafo. ― Fora que, não costumo dormir nos dormitórios para não ter que aturar as cadelas irritantes de lá. Então o único local onde venho a repousar é nos cortiços de New Coventry, e Johnny tem acesso aos meus aposentos, por ser parte do território dele.

Observei-a atentamente por mais alguns instantes até largar seu lenço e me desvencilhar dela a fim de entender mais a circunstância que ela detalhava. Ainda era cética demais para acreditar piamente em sua justificativa, por mais que ela possuísse sim um grau de plausibilidade. Jamais tinha visto Lola nos dormitórios e não duvidaria que Vicent tivesse feito tal coisa. Mas na realidade, pouco importava, o estrago já estava feito e no momento atual, meu foco estava destinado em me controlar para não ceder ao seu encanto ardiloso.

― Independente de qualquer coisa, você me prometeu um encontro e é precisamente isso que teremos. Passei meu dia inteiro planejando-o. ― Lombardi relembrou-se empolgada do nosso acordo antes que eu dissesse qualquer coisa quanto a hipótese que veio a elaborar.

Ela se deslocou da parede e arrumou sua jaqueta para deixá-la mais alinhada a seu corpo. Um sorriso malicioso esculpia-lhe a face e ela me contemplava dos pés à cabeça com um fascínio conspícuo destacando a atração explícita a qual expressava por mim.

― Saiba que eu adoro espontaneidade e paixão. Não gosto de nada morno. E você me parece ser recheada de fogo. ― Confessou destemidamente enquanto permanecia me devorando com o olhar. ― Desde que a vi aqui, descontando suas frustrações naquele saco de boxe, eu só consegui pensar sobre como adoraria estar fervilhando nas suas chamas.

Meu rosto ficou quente como nunca antes. O modo como ela dizia essas declarações era tão envolvente e poderoso que me fazia arrepiar um pouco. Entretanto, não cederia às suas investidas. Não valia a pena. Precisava relembrar várias vezes que deveria me manter centrada para não me envolver com Lola a todo custo. Era só um encontro e ficaria por isso mesmo. Nada mais, nada menos.

― Pois bem então podemos seguir de acordo com o seu planejamento. ― Suspirei após ter soltado uma respiração que não percebi ter segurado. Acabei por bagunçar meus cabelos em um toque inquieto para afastar-me do impacto fugaz resultante daquela confissão.

A satisfação irradiava de todo o seu semblante galanteador. Ela aproximou-se de mim fazendo uso de uma cautela ponderada, parecendo ter reparado na minha inquietação. Lola veio a oferecer-me o braço para que eu o segurasse e assim andássemos lado a lado.

E mesmo carregada de tanta relutância, deixei minha mão pousar em seu apoio concedido, permitindo-me ser guiada rumo ao que o restante da noite nos aguardava.