Blackfyre
27 Senhora de Olhos Violetas e o Jovem Lobo
Notas iniciais

Senhora de Olhos Violetas e o Jovem Lobo
Quando Roose Bolton exigiu sua presença no Salão Principal, não viu alternativa a não ser obedecer. Ficou de pé, em frente ao Lorde, que se sentava no cadeirão de Robb, como se aquele lugar sempre lhe tivesse pertencido. Shiera seguiu em silêncio, cercada por seus homens. Tinha mil homens, sendo que pouco mais de quatrocentos eram arqueiros. O restante eram basicamente Imaculados e soldados da antiga e extinta Companhia Dourada. Sua guarda era composta de Theon, seu homem de confiança, Nym, a líder das arqueiras, Zoltan, o líder da cavalaria e vinte Imaculados. Eles a seguiam para qualquer lugar que fosse, pois os homens de Roose Bolton pareciam estar sempre a vigiando com olhos desconfiados.
—No que posso ajudar, Lorde Bolton? – perguntou sentindo-se sempre ameaçada pela presença dele. Tantos Lordes para Robb deixar para trás, precisava ser justamente o que mais a assustava.
Lorde Bolton não era um homem de muitas palavras. Ele sempre era sucinto e objetivo. Além disso, ele nunca falava muito alto. Seu tom de voz era sempre um constante tipo quase sussurrado. Odiava essa característica dele, pois lhe dava a impressão que o Lorde de Forte Pavor estava sempre tramando alguma coisa. Lorde Bolton respirou fundo, a olhando com aqueles olhos gélidos e sem cor, com o semblante pacífico, que não deixava de ser assustador, apesar disso.
—Ouço que vai todos os dias, pelo menos duas vezes, para o Bosque Sagrado. Não sabia que era tão devota aos deuses do norte. – disse ele calmamente. Shiera concordou com um aceno de cabeça, estudando o aposento. Tinha mais guardas que Roose ali, mas não muitos mais. No entanto, seus homens eram Imaculados, os soldados mais habilidosos do mundo... ou ao menos era o que o senhor seu pai sempre dizia... – Pelo que reza?
O que quer, Roose Bolton? Duvido que se interesse pelas minhas orações.
—Para que Robb volte, são e salvo pra casa. – respondeu – Rezo pelo norte, por nossos soldados, pelo meu filho, por um inverno curto e um outono maior. Pelo meu pai, que está em Harrenhal, pelo meu irmão gêmeo, que é refém em Porto Real. Pelo meu irmão mais velho, que está sozinho em Essos... tenho muito pelo que rezar. – respondeu calmamente. E os Deuses sabem como rezo por Jon Snow... mas achou melhor deixar esse último tópico sem dizer.
Roose concordou com um aceno de cabeça.
—Não reza para que o povo volte a amá-la? – perguntou Roose – Sua situação com o norte não está boa desde que cortou a cabeça de Catelyn Stark. Nossa situação com os Tully e com os Frey está muito delicada e agora Robb está indo para as Gêmeas, negociar com Walder Frey por conta de sua decisão.
—Foram seus conselhos quem me levaram a cortar a cabeça de Lady Stark, Roose Bolton. – sibilou com uma pequena ira brilhando timidamente em suas bochechas avermelhadas. Roose Bolton concordou.
—Mas foi sua decisão. Foi sua mão a brandir a espada. A culpa não é de quem aconselha, mas de quem acata ou não o conselho. – retrucou ele e ela sentiu os olhares frios e acusadores dos homens de Roose e de alguns que trabalhavam no castelo. Suspirou, vendo sentido nas palavras do Lorde de Forte Pavor, mas isso não fazia com que simpatizasse mais com ele. Pelo contrário. Só havia um desgosto maior por tê-lo ouvido... – Mas que seja. Se importa com o norte, não? Mesmo não que não tenha nascido aqui. Mesmo que tenha conhecido o norte há pouco tempo. Tem um responsabilidade com o reino, agora que é uma Stark. Não concorda?
—Claro. – disse calmamente, se perguntando para qual armadilha Roose Bolton a empurrava dessa vez.
—Robb foi guerrear no sul. É nossa responsabilidade cuidar da fronteira. Minha e sua, afinal é a rainha. – explicou Roose se levantando e andando para mais perto. Zoltan bufou, cruzando os braços e Shiera viu Nym se agitar com a aproximação de Bolton. – Os Homens de Ferro voltaram a atacar. Recebemos um corvo de Bosque Profundo, residência dos Glover, clamando por ajuda. – explicou Roose Bolton e Shiera sentiu o coração apertar. A casa Glover era uma das casas mais importantes do Norte e Lorde Galbart foi um dos poucos que achou um absurdo o modo como a estavam tratando, por mais que não concordasse que ela tivesse feito certo ao executar Lady Caitelyn – Se Galbart Glover achar que demos as costas para ele agora, o exército de Robb pode ser prejudicado novamente. Precisamos evitar isso e enviar ajuda para eles.
—O que Bran acha disso? – perguntou sentindo um frio na espinha, vendo verdades mais uma vez nas palavras de Roose Bolton.
—Ele concorda comigo, que precisamos enviar ajuda aos nossos companheiros. Winterfell fica no coração do Norte, o que dificulta um ataque. Mas se deixarmos nossas fronteiras enfraquecidas, pode ser que o castelo não continue a salvo. – explicou Roose Bolton – Eu tenho apenas mil homens comigo. Mas não posso deixar o castelos desguarnecido. – explicou ele – E meus homens estão cansados e feridos. Mas os seus estão frescos, por terem se unido ao exército muito depois. – Roose Bolton coçou o queixo de leve, a olhando analiticamente – Conseguimos capturar o Regicida graças a um sacrifício meu e de muitos dos meus homens, então não acho justo com eles colocá-los numa batalha sangrenta contra os homens de ferro mais uma vez. – explicou ele.
—Quer que eu envie minhas tropas. – concluiu Shiera e Roose Bolton a olhou de maneira quase paterna.
—Não todas. A rainha se sentiria mais segura se seus homens de confiança estivessem ao seu lado. Apesar que seria sensato enviar Theon Greyjoy para negociar. Ele é o herdeiro das Ilhas de Ferro... – disse Bolton
—Já tentei negociar com meu pai, senhor. – retrucou Theon.
—Balon Greyjoy não faz negociações. Ele só lida com o sabor do aço. – concordou Zoltan.
Roose Bolton soltou um suspiro franzindo a testa.
—Então devemos mostrar a ele o sabor do aço. – disse Bolton calmamente – Devemos expulsar os homens de Balon de nossas terras. Mas não vou conseguir isso só com meus homens. – Roose suspirou – Balon não vai parar até não ser completamente derrotado. E eu acho que devemos derrotá-lo completamente... tomando as Ilhas de Ferro, antes que eles consigam nossos poucos navios. – adicionou ele – Está de acordo, Vossa Graça? – perguntou Bolton e Shiera suspirou.
—Eu não sei. – respondeu apreensiva.
—Precisamos mandar tropas o quanto antes. – disse uma voz aguda, vinda de trás de si mesma. Shiera se virou e viu Bran, nos braços de Hodor – Se não ajudarmos nossos Lordes, eles vão começar a questionar se devem ou não ajudar Robb. – disse ele e Shiera suspirou.
—Eu concordo com o garoto. – disse Roose – Podemos contar com suas tropas, Vossa Graça? – perguntou ele.
Shiera suspirou, sem saber o que fazer.
—Está assim tão ansioso para ver meus homens longe de mim, Roose? – perguntou ela. Lorde Bolton a olhou como se não passasse de uma menina boba. Era estranho ser olhada daquela maneira. Já fazia muito tempo desde que os homens tinham parado de vê-la como uma garotinha.
—Estou ansioso para ajudar o norte a manter-se livre. E eu não pretendo mandar todos os seus homens. Apenas uma parte... o suficiente para libertarmos Bosque Profundo e devolvê-lo à Casa Glover. – explicou Roose – Mas se acha que seus homens ficarão melhores aqui, devorando nossas provisões para o Inverno, que seja. É o seu filho que morrerá de fome, não eu. – Roose Bolton se aproximou mais, ficando há poucos palmos de distância – Você não conhece o inverno como nós do norte, Lady Shiera. Ele não costuma ser benevolente com recém nascidos. Pergunte às criadas mais velhas, quantas mães sufocaram os filhos com os travesseiros, para não ter de vê-los morrer de fome e de frio.
Roose Bolton se virou e foi andando de volta para o cadeirão. Shiera mirou Bran, que a olhava com frio desdém. Depois olhou para Theon, Zoltan e Nym, que aguardavam suas ordens.
—Lorde Bolton. – chamou sentindo-se perdida naquele lugar – Quantos homens imagina que precisará?
—Dois terços de suas forças serão o suficiente. – respondeu ele – Você pode escolher quem vai e quem fica. Eu mandarei alguns dos meus homens também.
—Alguns? – perguntou Nym e Shiera engoliu em seco – O suficiente para ter a maioria de soldados? – perguntou ela.
—Eu prefiro me precaver e não correr o risco de ter um fim como Catelyn Stark. Sei que Vossa Graça não gosta muito de mim. De todo modo, minha responsabilidade é administrar o castelo. O Norte é responsabilidade da rainha. O correto seria que ela marchasse com suas tropas para coordenar a defesa do reino, mas como o pequeno príncipe precisa da mãe e a rainha não se sente segura sem seus guardas, então eu estou disposto a ser compreensivo. – ele suspirou e voltou a se sentar, com um sorriso ameaçadoramente gentil – Por mais que Vossa Graça pense que pretendo usar sua sedosa pele para fazer um casaco, ou qualquer coisa assim.
Bufou sentindo o sarcasmo de Bolton alfinetá-la. Sem dizer uma só palavra, deu meia volta e foi seguida por seus homens. Quando estavam fora do castelo, próximos ao lugar onde costumara treinar sua habilidade com o arco, interrompeu-se.
—Zoltan, Nym e Theon. Organizem as forças. Entreguem os homens que Lorde Bolton precisa. – murmurou e Zoltan escarrou um catarro negro em cima da neve cinzenta.
—Com todo o respeito, Lady Shiera. Acha sensato abrir mão de tantos homens? – perguntou ele.
—O norte precisa. – murmurou – Não tenho escolha. – ela se virou para Nym – Tenho uma missão especial para você. – disse mirando-a. Nym a olhou com atenção – Eu quero que envie uma carta minha a Robb. Ele deve estar nas Gêmeas. Depois deve passar em Harrenhal. – disse ansiosa – Peça a meu pai que...
—Seu pai não moverá um dedo por você, Lady Shiera. – cortou Zoltan. Shiera concordou com um aceno de cabeça. Era verdade. Seu pai lhe avisara que ela não deveria mais contar com ele. Soltou um suspiro, se perguntando quem poderia mantê-la a salvo de Roose Bolton... – Então preciso que fale com meu irmão, Valerion.
—Ele está cercado por guardas demais. – disse Nym – E não há muito que ele possa fazer, senhora. – Concordou sem ver saída – Posso tentar atravessar o mar, partir para Essos, entrar em contato com Aegon. Ver se ele pretende algum dia voltar pra casa, como está a campanha dele... talvez Aegon seja o homem que irá salvar você e sua família, Lady Shiera.
—Aegon nunca a deixou na mão. – concordou Zoltan.
—Aegon está há um mundo de distância. – murmurou sentindo-se encurralada – Fale com Robb. Diga a ele que eu acordei e... e que acho que... não... – suspirou aflita andando de um lado para o outro – Se falar demais, Robb vai achar que estou fazendo criancices...
—Por que não faz como Roose mesmo disse? – perguntou Zoltan – Lidere a marcha. Vamos sair do alcance dele. – sugeriu ele e Shiera suspirou.
—E levar Ned conosco? Não... seria loucura. – disse pensando em seu pequeno bebê.
—Loucura seria deixar você e o jovem príncipe aqui, nas mãos de Roose Bolton. – disse Theon – Winterfell não permanecerá segura para você enquanto for governada por Bolton.
—E o que sugere? – perguntou sabendo que as palavras dele eram verdades, mas que não havia o que fazer a respeito.
—Jogue-o nas masmorras e deixe que congele lá dentro. – sugeriu Zoltan – Você é a rainha.
—Foi esse pensamento que causou a minha ruína. – resmungou arrependendo-se de ter matado Lady Catelyn. Ela me perdoou, mas aparentemente foi a única – Deve haver alguma opção... – suspirou – Eu temo pela vida de meu filho. Nada me tira da cabeça que Roose é um conspirador. – se calou, sem saber o que fazer, quando viu Talisa se aproximar rapidamente. Estranhou, pois ela deveria estar com Ned e vê-la sem ele a deixou deveras preocupada – Talisa? Onde está Ned?
—Com Walda e as outras. – disse ela fazendo um aceno com as mãos, como se dissesse que não era importante. Shiera notou que Fedor estava ali perto, afiando as pontas de suas flechas, olhando sua pequena reunião com interesse – As tropas partirão amanhã? Para Bosque Profundo? Escutei um soldado Bolton falando sobre isso. – disse ela. Shiera piscou chocada por a notícia já estar correndo – Deveríamos fazer um banquete de despedida para os homens, num agradecimento por sua coragem.
—Banquetes? Tão próximos do inverno? Que tolice! – ralhou Zoltan.
—Mas é que chegou um bardo. – insistiu Talisa, com seu jeitinho divertido, mas havia algo nela... algo que não sabia explicar – Eu o escutei tocar lá dos muros, enquanto... hum... conversava com um dos guardas...
—Existe algum homem que ainda não experimentou o que tem entre as pernas, Rivers? – ralhou Nym.
—Muitos. Você não faz ideia. – cortou Talisa – Mas de qualquer maneira... o bardo. Acho que estou apaixonada por ele. Precisa conhecê-lo, minha senhora. – disse Talisa a olhando nos olhos. Shiera arqueou as sobrancelhas.
—Muito talentoso? – perguntou Shiera, desconfiada do que aquilo poderia significar.
—Sim. Ele tocou em Porto Real, Porto Branco, Castelo Velho e no castelo de Hornwood. – disse ela e Shiera suspirou.
—Não temos tempo para bardos e canções. – ralhou Zoltan.
—Pois eu quero conhecer esse bardo. – disse Shiera e Talisa sorriu contente.
—Vou dizer que Vossa Graça deseja tê-lo aqui. – disse ela, dando meia volta. Shiera sentiu os olhares de seus companheiros, se perguntando o motivo de tanto mistério por parte de sua amiga.
—Vossa Graça... – começou Nym.
—Não vejo problemas em ter alguém de bela voz me cantando belas melodias. – disse dando de ombros, querendo dar aquela conversa como encerrada.
—Mas senhora... – começou Theon.
—Pode ser um dos passarinhos de Varys. – disse Zoltan.
—Que ele venha aqui e veja como somos fortes, então. Que ninguém desconfie de minha inimizade com Lorde Bolton. – disse decidida. Marchou de volta para o castelo e voltou para o Salão, onde Brandon estava sentado no cadeirão de Robb, com Roose lhe sussurrando conselhos. O retrato do desastre, certamente – Concordo em emprestar-lhe os homens de que precisa, Lorde Roose. – disse Shiera e Bolton lhe deu um sorriso presunçoso – Mas quero jantar com meus homens aqui, antes. Chegou um bardo de quem minhas damas de companhia fizeram muitos elogios. – ela olhou ao redor do salão, como se todas as paredes escondessem segredos maravilhosos – Winterfell pode aproveitar um pouco de música e lazer. Meu filho nasceu saudável e Robb conseguiu expulsar os Lannister de Riverrun, além de refazer a aliança com os Tully. Temos bastante o que comemorar. – disse calmamente.
—Não temos o que comemorar. – ralhou Brandon – Você matou a minha mãe. Não estou em clima para festas.
Shiera deu alguns passos em direção ao menino, o olhando com superioridade. Brandon até encolheu em seu cadeirão, levemente intimidado.
—Fiz o que fiz por pedido de sua mãe, que quis poupar Robb de fazer. Foi decisão dela e não minha. – mentiu deslavadamente – Um fardo que ela confiou a mim, e que me foi quase impossível de carregar. Mas agora chega de pensar nos mortos. – ela olhou para Roose – Precisamos cuidar dos vivos. Quero um jantar, quero o bardo, quero vinho. E em três dias meus homens estarão prontos para marchar e expulsar definitivamente os homens de ferro. Escolherei as lideranças e você pode ajudá-los a planejar tudo.
—Confiará seus homens a mim dessa maneira? – perguntou Roose parecendo levemente divertido e surpreso.
Shiera se aproximou, respirando fundo. Depois deu um sorriso fraco, afagando o braço de Roose. O olhou então no fundo de seus olhos sem cor, tentando não parecer assustada com eles. Os olhos dele eram assustadores...
—Você é meu lorde. É lorde de Robb. Arriscou sua vida mais de uma vez pelo meu marido. Meus conselheiros disseram que passou da hora de colocarmos nossas diferenças de lado, meu senhor. Estou disposta fazê-lo. – explicou o olhando nos olhos, ainda segurando-o no braço. Roose tinha ficado tenso, a olhando com atenção. Suspirou e deu mais um sorriso. Então se virou e foi seguida de seus guardas para o próprio quarto. Nym e Zoltan a escoltaram, assim como Theon e os Imaculados.
—Há um pingo de verdade nessas suas palavras? – perguntou Nym a olhando com curiosidade. Talisa não confiava em suas pessoas de confiança por algum motivo. Esperaria que ela lhe contasse seus motivos antes de falar a verdade com eles.
—Em todas elas. – disse erguendo a cabeça. Theon a olhou desconfiado. Ele era quem a conhecia de verdade. Era seu amigo. Nym e Zoltan sempre foram soldados de seu pai – Eu não posso pensar como Shiera Blackfyre. Mas como Shiera Stark, a rainha do norte. – respondeu. Entrou em seu quarto e viu suas damas de companhia ninando Ned, o enchendo de afagos, falando com vozes agudas e irritantes. Walda a olhou e se levantou, parecendo animada.
—E então, o que Roose queria com você? – perguntou ela.
—Homens para proteger a fronteira. – disse calmamente – Zoltan, Nym, vão discutir o que precisam. Você também, Theon. – disse se voltando para ele – Você conhece os homens de ferro melhor que qualquer um. – explicou segurando as mãos dele – Confio completamente em sua astúcia. – se virou para os outros dois – Deixem os Imaculados na guarda, ficarei recolhida com minhas damas de companhia. – disse calmamente.
Theon, Zoltan e Nym se curvaram respeitosamente e se viraram, mas ela notou que Theon deu um olhar safado em Nym. Acabou rindo disso, se perguntando se Theon sobreviveria a um cortejo. Quando ficou sozinha com suas damas, respirou fundo – Teremos um jantar mais formal hoje. – explicou – Em homenagem ao meu filho e em honra aos nossos soldados. Teremos boa comida e música, então quero todas vocês muito bem vestidas. – disse autoritariamente.
—Como podemos ficar bonitas com essas roupas horríveis que usam aqui no Norte? – perguntou Walda levando a mão à testa, de maneira dramática.
—Não são todas que tem a capacidade de não sentir frio, para usar os vestidos mais bonitos. – concordou Linda.
Shiera sentia frio. Principalmente na hora de dormir, já que não tinha mais Robb para aquecer sua cama.
—Existem belos vestidos nortenhos. Lhes emprestarei alguns dos meus. – adicionou prontamente – Acho que podemos pegar um vestido de Arya para Waldra. Ou de Sansa, caso os de Arya não sirvam. Tenho certeza de que elas não se importariam.
Sua pequena daminha de companhia, a mais feia de todas, sorriu com a possibilidade de usar um vestido das meninas Stark.
—Será um jantar deveras importante, minha senhora? – perguntou Linda.
—Sim. – respondeu – Quero que estejam todas lindas, a flertar com os homens Bolton. – elas perderam a animação em seguida – Queremos cair nas graças de Lorde Bolton, que segue solteiro e sem herdeiros. – explicou – A futura esposa dele poderia ser uma de vocês. Walder Frey gostaria da união e eu estaria bem vista aos olhos dele caso participasse do acordo. – suas damas de companhia se entreolharam – Então se arrumem, uma de vocês pode vir a se tornar a Senhora de Forte Pavor, uma das casas mais antigas e poderosas do Norte. É tudo o que Lorde Frey poderia desejar. E isso sem custar um dragão de ouro que fosse.
Suas damas de companhia concordaram com acenos de cabeça. O resto do dia foi para se prepararem para o jantar. Foram para as piscinas termais de Winterfell, deixando seus Imaculados de guarda. Aproveitou para dar banho em Ned ali, fazendo festa com seu bebezinho, que finalmente tinha parado de rejeitar. Ned era bem parecido com Robb, principalmente por conta dos cabelos vermelhos. Mas os olhos eram os mesmo de Aegon. Talisa se juntou a elas logo, falando sobre o bardo que viera tocar.
—Ele me garantiu que nunca esteve em Harrenhal, mas que gostaria de conhecer o castelo. – disse Talisa e Shiera sorriu.
—Se ele for bom, posso recomendá-lo a meu pai. Todos sabem que Lorde Haegon adora música. – disse calmamente enquanto Linda Walder lavava seus cabelos compridos. Depois foram se arrumar, no quarto da rainha. Resolveu usar o vestido bonito que usara em seu casamento, assim como seu colar, que pertencera a sua mãe. Lembrava de Robb ter reparado na joia e falar que era bonita, no primeiro jantar que tiveram juntos.
No dia em que eu dancei com Jon pela primeira vez, como Lady Shiera... em frente a todos os Lordes das Terras Fluviais...
Se repreendeu por aquele pensamento, pois não deveria pensar em Jon. Quando estava terminando de se arrumar, um Imaculado bateu em sua porta e disse:
—Lady Shiera. Lord Bolton está aqui, pedindo uma audiência com a senhora.
Suspirou, mirando suas damas de companhia. Concordou, já que já estavam todas vestidas e pediu que o Imaculado permitisse que Lorde Bolton entrasse.
Roose Bolton usava vestes bonitas, com o brasão do homem esfolado em seu peito. Ele olhou para ela com aqueles olhos assustadores e suas damas de companhia fizeram uma reverência. Ele se curvou em respeito a sua posição e olhou novamente para suas damas, deixando claro que esperava que elas saíssem.
Não se sentia confortável de ficar sozinha com ele, mas não viu escolha. Acenou para suas damas, que se retiraram prontamente. Respirou fundo, quando Talisa fechou a porta, levando Ned consigo, mas em seguida mirou Lorde Bolton.
—O que posso fazer por você, Lorde Roose? – perguntou calmamente. Roose Bolton sorriu de maneira enigmática e ela sentiu um péssimo agouro ao ver o sorriso dele.
—Sei que não me tem em alta estima, Vossa Graça. – disse Roose a olhando com atenção e se aproximando um passo – Sei que muitos me chamam de perverso. Mas não o sou injusto. Faço aquilo que é necessário, como você mesmo fez. – disse ele e Shiera manteve-se em silêncio. Roose colocou a mão de maneira gentil, em seu queixo, num pedido que o olhasse nos olhos. O fez apesar de não gostar muito da ideia – Você é muito bonita. Bonita demais para a própria segurança. – adicionou ele.
—O que quer dizer? – perguntou Shiera sentindo um frio lhe subir a espinha.
—Que um homem com pouco controle sobre si mesmo poderia não resistir aos seus encantos. – respondeu ele e ela recuou assustada – Não se preocupe, Vossa Graça, eu sou um homem com bastante controle sobre mim mesmo. – ele suspirou – Eu e você não precisamos ser inimigos. Temos interesses em comum. Ambos queremos que Winterfell prospere, que o Norte seja forte e que os meninos Stark estejam a salvo. Podemos ser aliados. – ele suspirou – Devemos ser aliados. Não acha? – concordou com um aceno de cabeça e sentiu a mão pálida de Roose descer para seu pescoço, seu colar – Me lembro de sua mãe, quando vejo esse colar.
—O senhor lembra bastante dela, ou é apenas uma impressão minha? – perguntou engolindo em seco.
—É difícil não pensar nela, quando vejo você todos os dias. – murmurou ele – Sua mãe e você têm muito em comum. – o lorde suspirou – Não demore. O jantar já está sendo servido, os homens já estão comendo e bebendo. O bardo que sua aia arrumou já está cantando. Ele tem uma boa voz.
—Talisa disse que tinha.
—O conhece de algum lugar? – perguntou Roose e ela teve a impressão que toda aquela conversa tinha a intenção de chegar a aquele ponto. Negou com a cabeça.
—Imagino que não. Ainda não o vi. Foi Talisa quem o recomendou. – respondeu calmamente – Eu aceitei porque... bardos fazem com que me lembre de Harrenhal. De casa. Meu pai adorava bardos e sempre tínhamos um em nossos salões. – continuou se perguntando quais seriam as desconfianças de Roose Bolton e o que se passava na cabeça de Talisa – Por que a pergunta?
—Pareceu muito determinada a ter o bardo entre nós essa noite. – respondeu Bolton a olhando de maneira analítica.
—Estou cansada do silêncio do norte. Em breve o inverno vai chegar e não haverá espaço para canções. Eu sou uma garota do sul, afinal. Os soldados nortenhos amam me lembrar disso, não é? – adicionou acidamente. Roose deu uma risadinha e concordou com um aceno de cabeça.
—Eu não vejo apenas isso ao olhar pra você. – riu Roose a olhando nos olhos. Shiera sentiu-se completamente desconfortável com o olhar dele. Era o mesmo olhar que ele lhe lançara no dia de seu casamento, quando estava nua na cama, escondendo-se com a pele de urso. Aquele olhar que parecia significar que ele era capaz de ver por dentro de suas roupas. Ambos ficaram em silêncio por alguns segundos e ela se perguntou se precisaria chamar seus Imaculados para lidarem com ele – Esperarei ansiosamente pela presença da rainha no banquete. Creio que todos esperarão. – adicionou Roose. Quando ele se virou para sair, Shiera o chamou.
—Lorde Roose. Uma dúvida. Recebemos mais alguma informação de Robb? Ele foi bem sucedido em ajudar os Tully? – perguntou ela. Roose sorriu.
—Não temos autorização para falar tais coisas com você. – disse ele e ela suspirou – Mas recebemos algumas informações. Hoster Tully morreu e Edmure é o novo Lorde de Riverrun, que agora deve a vida e o castelo a Robb. A aliança entre o norte e as terras Fluviais foram reforjadas, agora mais forte. Só faltam convencer Lorde Walder Frey disso. Ele aguarda nas Gêmeas, onde Robb se encontrará com ele. – Roose deu um sorriso com seus finos lábios unidos – Aparentemente Walder Frey exige que Edmure Tully case com uma de suas filhas ou netas. Com isso Robb terá novamente seu exército e algo mais. Walder Frey prometeu negociar pessoalmente com seu pai.
—O que? – perguntou surpresa.
—Todos sabem que seu pai e Lorde Frey são amigos. Lorde Frey diz ter uma proposta para Lorde Haegon que ele não vai poder recusar. Com o apoio de seu pai, o cenário muda completamente. – explicou ele e Shiera ficou surpresa com todas aquelas informações – Depois de falar com Haegon, imagino que eles atacarão Rochedo Casterly, que está desguarnecida. Atacando pelo mar e por terra, Rochedo cairá antes que Tywin Lannister tenha tempo de sair de Porto Real. E ele não vai querer sair antes de selar a aliança com os Tyrell pelo casamento de Joffrey e Margaery. Mandamos um mensageiro a Dorne, pedindo o apoio dos Martell, em troca da vida de Gregor Clegane. Com toda a Westeros contra eles, Tywin se verá numa grande desvantagem... e os Tyrell tem o costume de se render antes de lutar até a morte. – Roose deu de ombros – Até sensato da parte dele. – ele lhe sorriu – Adoraria continuar conversando, mas temos um jantar para comparecer. Deixarei que termine de se ajeitar, Vossa Graça. – riu Bolton e Shiera concordou.
Quando ele saiu, suas aias voltaram, a olhando com curiosidade.
—O que ele queria? Está tudo bem? – perguntou Linda.
—Ele quer que nos apressemos. – respondeu Shiera, sentindo-se preocupada – Ele anseia por nossa presença no banquete. – disse calmamente. Suas aias pareceram preocupadas – Vamos. Não há o que temer. Vamos nos arrumar. – suas damas pareceram ainda cheias de preocupação, mas não hesitaram em obedecer. Poucos minutos depois estavam descendo para o Salão. Deixara os Imaculados fazendo a guarda de Ned e seguiu apenas com suas damas.
Podia ouvir o som das risadas e sentir o cheiro da comida. O som da música também cortava o ar, enchendo-o de alegria. Sentia falta daquilo. De música, alegria e diversão. Mas sentia mais falta de Robb... trocaria tudo aquilo para vê-lo novamente. Entrando pela porta, com Grande Jon logo atrás de si. Mesmo que ele viesse com os olhos sombrios e cheios de rancor.
Quando chegaram no salão, viram que Roose tinha separado os homens de maior patente para ficar lá dentro. O restante dos soldados estava lá fora, bebendo hidromel, cerveja e vinho. Tinha um lugar reservado a ela ao lado de Roose e ela se dirigiu até lá. Suas damas ficaram sentadas entre os homens Bolton, mas Talisa se sentou ao seu lado. Roose serviu vinho para si e para Shiera e os dois brindaram antes de beber. Bran estava ao lado de Rickon, lá perto, ambos parecendo aproveitar apenas um pouco da festa.
O bardo voltou a tocar, dessa vez uma canção triste, que Shiera reconheceu ser “Alysanne”, uma canção bem conhecida no sul. Mas o que era mais familiar, era a voz do bardo. Olhou para ele e sentiu o estômago saltar. Manteve a compostura e não mudou seu semblante, mas a surpresa tinha sido enorme. Quem estava ali era ninguém menos que Hoster Rivers. Amigo de Valerion. Meio irmão de Talisa. Ele não lhe deu atenção, tocando e cantando mais e mais músicas. Depois de “Alysanne”, ele cantou a canção de “Jenny de Pedrasvelhas”. A garota por quem o príncipe Duncan, filho de Aegon V se apaixonara perdidamente, a ponto de desistir de sua coroa para casar-se com ela. Depois cantou outra canção triste, a “Folhas Caídas”. Ele cantou tão bem que Linda Frey suspirou, emocionada.
Então ele cantou “A Donzela de Inverno”, uma música nortenha e também triste, que falava de uma donzela que vê seu velho pai partir para a caça de inverno. Robb lhe explicara aquela música, meses atrás. Quando o inverno é muito comprido e os homens notam que não haverá comida para todos, os velhos partem para a Caça de Inverno. Seus ossos normalmente são encontrados na primavera. Uma tradição triste, mas crucial para que algumas vilas sobrevivam...
Quando ele cantou “Bravo Danny Flint”, Linda começou a chorar e Shiera se levantou.
—Bardo, sua voz é maravilhosa e suas músicas nos tocam o coração. Mas se possível, toque algo mais alegre, ou Lady Linda Frey morrerá de tanto chorar.
—A história de Danny Flint é tão linda. É minha música favorita. – suspirou Linda, secando os olhos com um lencinho.
—Como Vossa Graça desejar. Algo mais festivo então? Pode ser o “Lobo na Noite”, escrita por Rymund, o Rimante, sobre a Batalha de Cruzaboi? – perguntou Hoster ajeitando seu chapéu emplumado e Shiera sorriu.
—Claro. – disse se sentando e então Hoster voltou a cantar.
Depois ele cantou algumas românticas a pedido de Linda e Walda, que se o tinha reconhecido, fingiu que não. Hoster cantou “Deixe-me Beber a Sua Beleza”, “As Donzelas que Desabrocham na Primavera”, “Dois Corações que Batem Como Um Só”, “Lobos nas Montanhas” e então “Pinheiros Negros”. Mas quando ele cantou a “A Noite Que Terminou”, Shiera se viu pensando novamente em Jon Snow, pois em uma parte da música, a Patrulha da Noite avança ao encontro dos Outros na Batalha da Aurora. Ele cantou “A Senhora minha Esposa” e depois outra triste e bonita “A Rosa da Beira da Estrada”. Depois “Belas Donzelas do Verão”.
Então ele fez uma pausa e bebeu um pouco de cerveja, antes de continuar.
—Senhora Shiera Stark. Seu amor pelo Jovem Lobo é reconhecido em todos os reinos. – disse ele e Shiera suspirou – Ouvimos sobre a Batalha dos Murmúrios, onde a senhora trotou de encontro ao Rei Robb, para lutar contra os inimigos dele. Todos já ouviram falar do amor entre o Jovem Lobo e sua Rainha de Olhos Violetas. – continuou ele – Então essa canção que cantarei agora é dedicada ao amor do Rei e da Rainha do Norte. – disse ele e Shiera concordou com um aceno de cabeça. Hoster suspirou e arrumou novamente seu chapéu – Espero que goste, Vossa Graça. A música é para a senhora. – disse ele novamente e Shiera imaginou que deveria ter algo de importante naquela canção. E assim que ele começou a tocar, soube que sim.
https://www.youtube.com/watch?v=HvQZKlWAElc
Aquela melodia... era a melodia que Aegon ensinara a ela e a Valerion... a melodia que Valerion prometera lhe escrever uma letra um dia. Por um segundo, parecia que eram Aegon e Valerion ali, numa missão de alertá-la para algo importante.
These scars long have yearned for your tender caress
To bind our fortunes, damn what the stars own
Rend my heart open, then your love profess
A winding, weaving fate to which we both atone
You flee my dream come the morning
Your scent — berries tart, lilac sweet
To dream of raven locks entwisted, stormy
Of violet eyes, glistening as you weep
The wolf I will follow into the storm
To find your heart, its passion displaced
By ire ever growing hardening into stone
Amidst the cold to hold you in a heated embrace
You flee my dream come the morning
Your scent — berries tart, lilac sweet
To dream of raven locks entwisted, stormy
Of violet eyes, glistening as you weep
I know not if fate would have us live as one
Or if by love's blind chance we've been bound
The wish I whispered, when it all began
Did it forge a love you might never have found?
You flee my dream come the morning
Your scent — berries tart, lilac sweet
To dream of raven locks entwisted, stormy
Of violet eyes, glistening as you weep
Quando Hoster parou de tocar seu alaúde, Shiera escutou todas suas damas fungarem e arfarem, incluindo Talisa. O salão pareceu ficar num silêncio pesado e profundo.
—Espero que tenha sido do agrado de Vossa Graça. – disse Hoster, quebrando o silêncio.
—Por favor... – sussurrou com a voz engasgada. Uma linda música, com tom de despedida... – Cante de novo.
—Seu desejo é uma ordem... – disse ele voltando a tocar o alaúde.
Shiera suspirou, sentindo imensa vontade de chorar. Desejando estar junto de Robb mais uma vez. Por que Valerion faria Hoster viajar meio mundo apenas para lhe cantar aquela canção? Haveria mais ali. Precisava falar com Hoster a sós. Não seria difícil pedir por isso. O difícil seria não levantar suspeitas por tê-lo apenas na presença de Talisa. Mas só havia algo que tinha certeza. Seu irmão achava que ela estava em perigo. E se tanto Talisa quanto Hoster estavam sendo super cautelosos quanto a aquela informação, só poderia significar que alguém de sua confiança estava envolvido. E não só isso... será que significava perigo para Robb também?
Quando Hoster terminou de tocar novamente, Shiera se levantou e aplaudiu, sendo imitada por praticamente todos. Depois se sentou e Hoster deu uma risadinha.
—Algo mais alegre agora, Vossa Graça? – perguntou ele.
—Sim, por favor.
—Então cantarei “A Sua Florzinha”. – riu ele e os soldados gritaram de alegria.
Era uma musiquinha obcena qualquer. Não tinha tempo para aquilo.
—Talisa. Tinha razão quanto ao bardo. Eu realmente precisava disso. – murmurou segurando a mão da amiga – E gostaria de recompensá-lo de alguma maneira. Há tempos que não me sinto tão... feliz e relaxada. – disse com um sorriso no rosto e Talisa sorriu.
—Eu imaginei que iria gostar. Mas que tipo de recompensa tem em mente?
—Antes de qualquer coisa, quero recomendá-lo a meu pai. – disse num tom mais baixo, apesar de ter certeza que Roose a escutava – Sabe como papai gosta de bardos.
—Sim, claro. – riu Talisa – Mas o que mais?
—Eu não sei... acho que posso dar a ele uma das minhas joias. Quero que ele vá até onde Robb está. Quero que cante essa música para ele... quem sabe assim ele não se recorde de nossos bons tempos. Quem sabe essa música ajude a curar o coração de meu esposo. – murmurou – Quero que ele vá pela manhã, no máximo depois do almoço.
—Pobre bardo, não vai deixá-lo descansar? – perguntou Talisa.
—Ele precisa ir antes que Robb ataque Rochedo Casterly. Ou será muito improvável que o alcance.
—Bem... é bom dar uma bela joia, pois vai ser uma viagem bem difícil. – disse Talisa. Shiera concordou e voltou a prestar atenção em Hoster, que ainda cantava aquela música obcena. Depois tocou “Cinquenta Tonéis”, a música favorita do falecido Rei Robert. Mais três canções e ele encerrou a noite.
—Fale com ele, Talisa. – disse com autoridade. Depois se virou para Roose Bolton – Meu senhor. Vou me recolher, se não se importa.
—Claro. – Roose segurou sua mão e falou em seu típico tom baixo de voz – Está fazendo a coisa certa, Lady Shiera, mandando os homens para a fronteira. Robb ficará grato por isso, tenho certeza. – adicionou ele – E obrigado pelo banquete. Sua presença ilumina Winterfell. – adicionou ele a soltando. As palavras dele poderiam ser gentis, mas não havia gentileza em sua voz ou em seus olhos. Parecia que Roose Bolton era desprovido de algo tão bobo como sentimentos. Se levantou e se retirou.
Nenhuma de suas damas a acompanhou, apenas Theon, que logo a alcançou no corredor.
—Vossa Graça. Temos tudo orquestrado. Deseja que eu permaneça com você ou prefere me enviar para a batalha? – perguntou Theon. Shiera sorriu e o olhou.
—Isso depende.
—De que? – perguntou Theon.
—Do que o bardo irá dizer. – respondeu muito baixinho – Vamos. Eu te explico em meus aposentos. – adicionou. Theon concordou em um aceno de cabeça e os dois avançaram pelo castelo. Quando chegou em seus aposentos, fechou a porta e mirou Theon – Aquele bardo é o irmão de Talisa e é um dos melhores amigos de meu irmão Valerion. – explicou num sussurro, olhando dentro dos armários e então embaixo da cama. Mas parecia tudo em ordem. Vento Cinzento e Lady a olhavam com curiosidade – Valerion aparentemente fez um grande esforço para conseguir trazer Hoster pra cá. Preciso saber o que há de tão importante...
—Seu irmão? Ele está em Porto Real? Dizem que ele faz tudo o que Joffrey manda. – resmungou Theon.
—Valerion é esperto, quando não está apaixonado. – respondeu calmamente – Ele fará o que precisar para sobreviver, assim como eu. Mas nós levamos os laços familiares a sério. – explicou – Se ele mandou Hoster aqui, significa que eu corro grande perigo. Talvez apenas esteja sendo teimosa em insistir em algo que não é verdade, mas se eu tivesse que apostar, diria que Roose Bolton não é nosso aliado. – murmurou. Theon concordou com um aceno de cabeça.
—Se acha isso, não deveria cancelar a investida? – perguntou Theon.
—Não. – discordou Shiera – Quero meus soldados deixando Winterfell e você estará entre eles. – respondeu Shiera – Eu tenho um plano. – adicionou mirando a janela – Mas primeiro, precisamos falar com Hoster.
Minutos depois, Talisa trouxe o bardo, que a olhou com um sorriso travesso.
—Vossa Graça. – riu ele fazendo uma reverência, num tom bem parecido com o que Theon costumava utilizar no passado, quando ainda tinha senso de humor – Tenho coisas importantes pra falar. – adicionou ele e Shiera o olhou aflita – Pelo que eu escutei, Robb deve estar chegando nas Gêmeas hoje ou amanhã. Não há maneira de avisá-lo. – disse ele.
—Avisá-lo? Avisá-lo de que? – perguntou desesperada.
—O Rei no Norte não voltará para o norte, Shiera. – disse Hoster perdendo o sorriso – A música que tocará nos salões de Lorde Frey será Chuvas de Castamere. Robb foi guiado por uma armadilha e não terá como sair dela. A boca do leão se fechará sobre ele.
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