Blackfyre
34 Sem Tutela
Notas iniciais

Sem Tutela
Aegon suspirou ao sentir as mãos macias de Daenerys em seu peito. Abriu os olhos, ainda com um pouco de sono e a olhou. Ela o olhava de volta, com um sorriso divertido.
—Precisamos levantar... Missandei já falou que apenas nós dois ainda não chegamos no conselho. – disse ela cheia de preguiça. Aegon suspirou e concordou com um aceno de cabeça. Mas no lugar de se levantar, a puxou mais para perto e a beijou com paixão. Daenerys gargalhou enquanto ele mergulhava o rosto em seu cálido pescoço, para mordicá-lo com carinho – Aegon!
—Você é a rainha. Eles podem esperar mais um pouco. – disse cheio de sorrisos, mas Dany se sentou, para em seguida sair da cama – Oh... como você precisa ser dedicada. – riu se levantando também. Daenerys sorriu, dando a volta na cama, para beijá-lo de novo, mas logo o afastou, para se vestir.
—Eu sou a governante de Meereen, não posso passar o dia todo nos seus braços. – disse ela colocando um robe de seda brilhante, cor de pérola. Aegon suspirou, procurando por suas roupas e deu de ombros.
—Eu discordo. Você poderia deixar Meereen para seus conselheiros um dia... então eu e você poderíamos pegar um barco e aproveitar um passeio. – disse vestindo as ceroulas.
—Um dia calmo e relaxante num barco, mirando a plantação de azeitonas próximo ao rio... parece tentador. – disse ela com um olhar sonhador – Mas eu preciso treinar. Não posso simplesmente conquistar uma cidade, eu preciso saber mantê-la. – disse sua rainha e Aegon suspirou.
—Sabe que Porto Real e Westeros é completamente diferente da Baía dos Escravos... não sabe? – perguntou cauteloso – Tudo é bem diferente. – colocou as calças e pegou a camisa branca de linho – Você deveria escolher um representante e partir... partir para Westeros e conquistar o Trono de Ferro... – andou até ela e a abraçou por trás – O único Trono digno desse seu adorável traseiro. – brincou a beijando no ombro, com carinho. Daenerys sorriu e o olhou. Céus, ela era a representação da beleza...
—Acha que eu conquistarei o Trono de Ferro e serei uma boa rainha?
—Eu tenho certeza. – disse colocando as mãos por dentro do robe dela. Daenerys sorriu, movendo o corpo lentamente de um lado para o outro, enquanto ele deslizava as mãos pela pele macia dela. Desceu uma das mãos até a intimidade de sua rainha, para massageá-la ali. A outra foi de encontro ao maravilhoso seio esquerdo dela, para apertá-lo com vigor e beliscar de leve os mamilos. Dany gemeu de leve e se virou para beijá-lo.
—Precisamos ir. – disse ela com um sorriso e ele concordou, apesar de já estar apertado dentro de suas recém colocadas calças. Terminou de se arrumar e prendeu Blackfyre firmemente no cinto. Não era segredo seu relacionamento com a rainha, apesar que a palavra relacionamento poderia ser algo forte... ele tinha se tornado o amante dela. Não era uma posição oficial, apesar disso. Claro, ele ainda fazia parte do Conselho, mas ninguém o acusava de estar ali apenas por entreter as noites da rainha. Ele estivera com ela desde o início – Missandei disse que tenho muitas pessoas para ouvir hoje. – disse ela e Aegon concordou com um aceno de cabeça.
—Não escuta meus conselhos sobre ficar comigo e deixar que Jorah e Barristan resolvam tudo... agora não vale reclamar. – disse em tom descontraído e Daenerys concordou.
—Verme Cinzento, Daario Naharis e Missandei fazem parte do meu conselho, não se esqueça.
—Como se você me permitisse esquecer daquele mercenário metido. – disse rabugento e Daenerys sorriu.
—Ele é um mercenário metido? – perguntou ela – Você era um também.
—É, mas eu sempre fui mais bonito. – disse sorrindo e Daenerys sorriu de volta.
—Daario Naharis é o capitão dos Segundos Filhos e está mais familiarizado com a cultura de Essos.
—Você não se importa com a cultura de Essos. – disse sorrindo e Dany parou, parecendo levemente ofendida.
—É claro que eu me preocupo.
—Não. Você quer ver as massas felizes, um mundo sem escravos. Você deu uma rasteira na cultura deles, Dany. E não foi num terreno macio.
—O que quer dizer? Que eu devo permitir que os Mestres mantenham seus escravos? – perguntou ela e ele negou com a cabeça.
—Não se não é o que você quer... mas já que está tão preocupada em governar, deveria fazer melhor politicagem. Essas cidades viviam do comércio de escravos. Do que vão viver agora?
—E o que sugere, oh, sábio conselheiro? – perguntou ela parecendo achar graça.
—Que tivesse começado aos poucos. Libertasse os escravos mais jovens e proibisse a escravidão de crianças. Criasse um fundo para treinar essas crianças e transformá-las em soldados, caso elas assim quisessem. O comércio iria se reajustando aos poucos. As coisas se adaptariam devagar.
—E os mais velhos continuariam sofrendo nas mãos dos Mestres? – perguntou ela e Aegon deu de ombros.
—Não dá pra deixar todo mundo feliz. – riu Aegon – Se você está deixando todo mundo feliz, então você não é uma boa rainha. – explicou ele e Daenerys suspirou.
—Bem, no quesito escravidão, eu seguirei do meu jeito. – disse ela teimosamente e Aegon deu de ombros.
—Bem, não dá mais para voltar atrás, de qualquer maneira.
Um tempo depois estavam no salão de audiência. Dos conselheiros, apenas Daario não estava lá e ele gostou disso, pois significava que ele ainda não voltara de Astapor. Detestava Daario Naharis e seus constantes flertes com sua rainha. Não sabia como seria seu relacionamento com ela, mas sabia que seria capaz de degolar qualquer homem que tentasse tocar em um fio que fosse de seus cabelos de prata.
As pessoas vinham e iam pedindo favores para Daenerys. Pediam para prender escravos que estavam abrindo suas lojas a partir de ofícios que aprenderam na escravidão.
—Estão quebrando nosso negócio, pois vendem mais barato utilizando técnicas da minha família! – dizia um deles.
Outros eram ex escravos que pediam para serem escravos novamente, ou então ex escravos denunciando um Mestre por estar escravizando outros... Vieram pedir para que Dany se casasse com um mestre, para falar que Imaculados tinham morrido, atacados pelas costas em ruelas, para pedir que a arena voltasse a funcionar, para que os espetáculos de guerra de Meereen voltassem a acontecer. Eram um marco cultural da cidade, mas Daenerys era contra sangrar escravos para divertir o povo.
Alguns vieram reportar sobre as plantações, sobre a situação das outras cidades, sobre inimigos que se aproximavam de Meereen, ou de amigos que vinham para a cidade, também.
Por fim, um homem magricelo e trêmulo apareceu trazendo um embrulho nos braços. Missandei apresentou Daenerys com todos os mil títulos que ela ostentava e Aegon acabou suspirando ao lado de Barristan e Daenerys. Jorah estava do outro lado da rainha, evitando olhá-lo, pois se roia de ciúmes por Daenerys tê-lo escolhido como amante.
—Não tenha medo, meu amigo. – disse Daenerys para o homem magrelo, em valiriano. O homem, que se vestia de maneira bem simples, se aproximou trêmulo, em passos vacilantes – Aproxime-se e fale. – pediu a rainha.
O homem obedeceu, parecendo completamente infeliz. Se aproximou falando muito rápido, num idioma que Aegon não compreendia muito bem, o ghiscari, mas Missandei o traduziu.
—Ele é um simples pastor de ovelhas... disse que rezou por sua vitória contra os mestres de escravos.
—Eu o agradeço por suas preces. – disse Daenerys.
Missandei traduziu e o homem se ajoelhou, colocando o embrulho no chão e o abrindo com as mãos trêmulas. Aegon logo notou que haviam ossos carbonizados ali.
—Ele disse que foram seus dragões... – murmurou a tradutora, parecendo sem jeito – Eles atacaram o rebanho dele... – continuou ela e Aegon suspirou. Os bichos estavam crescendo muito e gostavam de voar por aí, mas sempre voltavam para a mãe deles. – Ele espera não a ter ofendido... mas nada lhe restou.
—Diga-lhe que sinto muito. – pediu Daenerys – Não posso ressuscitar suas cabras... mas ele será pago três vezes o valor delas. – o homem pareceu extremamente grato e catou os ossos, falando algo que certamente eram agradecimentos, e se retirou muito animado. Aegon deu uma risadinha e suspirou – Diga que chamem o próximo.
Dessa vez era um nobre quem vinha, acompanhado de seu próprio arauto. Conhecia aquele homem, era Hizdahr zo Loraq.
—Rainha Daenerys. – disse ele no idioma comum – Não exageraram sobre sua beleza.
—Obrigada. – disse ela com um sorriso quase sarcástico.
—Minha família é antiga e altiva em Meereen. – disse o homem.
—É uma honra recebê-lo. – disse Daenerys.
—Meu pai, um cidadão respeitado e amado, supervisionou a restauração de seus grandes marcos... inclusive esta pirâmide. – continuou o homem e Aegon suspirou.
—Eu fico grata. Seria uma honra conhecê-lo. – disse Daenerys e Aegon fez uma careta. O pai de Loraq estava morto. Era um dos Mestres que Daenerys havia crucificado, assim que conquistaram a cidade, pelas maldades feitas aos escravos.
—Você o conheceu, Vossa Graça. – disse o homem e Aegon suspirou – Você o crucificou. – e o sorriso de Daenerys morreu – Eu rezo para que você jamais veja um parente sofrer assim.
—Seu pai crucificou crianças inocentes! – defendeu-se Daenerys.
—Meu pai falou contra a crucificação delas. – retrucou Loraq – Mas sua posição foi rejeitada. É justo punir um crime com outro?
—Sinto por você perder seu pai... mas minha ação não foi um crime. – disse Daenerys com vigor – Seja sábio lembrando-se disso.
—O que está feito, está feito. – suspirou Loraq – Você é a rainha e eu sou um servo de Meereen. Um servo que não deseja ver suas tradições erradicadas.
—E que tradições seriam essas?
—A tradição do rito funerário. Um enterro no Templo das Graças. – disse o homem de maneira até bastante humilde para quem estava na posição dele. O que eu seria capaz de fazer se fosse o meu pai ali?— Meu pai e cento e sessenta e dois nobres de Meereen ainda estão pendurados... como carcaças para os abutres, apodrecendo ao sol... – ele abaixou a cabeça em sinal de submissão, algo raro para um nobre. Em seguida ele se ajoelhou e suspirou – Vossa Graça, eu peço humildemente que os tire de lá para que recebam o enterro apropriado.
—O que dizer das crianças crucificadas por eles? – perguntou Daenerys e Aegon suspirou. Aquela era uma situação complicada, mas ele achava que ela deveria fazer melhor que os mestres e lhes dar a misericórdia de um funeral apropriado... – Elas também apodreciam ao sol. Você me imploraria pelo enterro apropriado delas?
—Vossa Graça... – ele ainda estava de joelhos – Eu não posso falar pelos mestres... mas apenas como um filho que amava seu pai. – ele engoliu em seco – Permita-me pegar seu corpo, levá-lo ao templo e enterrá-lo dignamente... para que ele encontre paz no outro mundo... por favor. – insistiu ele parecendo que se emocionaria. Aegon baixou a cabeça, sem saber o que Dany iria escolher...
O Salão ficou em profundo silêncio durante alguns segundos, até que a rainha quebrou o silêncio.
—Enterre seu pai, Hizdahr zo Loraq. – disse ela, lentamente.
—Obrigado, minha rainha... – disse Loraq, ainda de joelhos. E ele só se levantou quando Daenerys lhe deu permissão.
A rainha suspirou e chamou o próximo suplicante. Aegon ainda estava cabisbaixo, quando escutou a pessoa se apresentar no idioma comum.
—Vossa Graça. Que seu reinado seja longo. – disse a voz e Aegon levantou o olhar. Era um velho amigo, Lyman Cox. A família Cox era uma casa recente, de hierarquia cavalheiresca, vassala de sua família. Lyman tinha sido um dos que trouxera consigo e que ficara com sua pequena frota, presente de seu avô, quando partira para Essos a fim de desposar Daenerys – Eu vim aqui a mando do meu capitão, que ainda está sob ordens de Sor Aegon.
Aegon deu uma risadinha.
—E o que faz aqui, Lyman? – perguntou curioso.
—Eu vim por ordem de Alexander Frey, senhor... sabe como ele é devoto.
—Sim, um grande chato, devoto aos Sete. – resmungou Aegon. Lyman concordou, um tanto trêmulo.
—Ele me mandou aqui para que eu explicasse algumas coisas... que aconteceram em Westeros, senhor... ele... ele está enojado da própria família, senhor. Ele disse que Lorde Walder Frey traiu os deuses... cometeu crimes imperdoáveis. Ele implora pelo seu retorno, pois tudo anda terrivelmente errado em Westeros, senhor. – explicou Lyman e Aegon desceu um degrau, sentindo-se preocupado.
—O que quer dizer?
—Não soube ainda do Casamento Vermelho, senhor? – perguntou ele e Aegon negou com a cabeça. Lyman suspirou e olhou para Daenerys – Lorde Eddard Stark descobriu que os filhos de Cersei Lannister não eram de Robert Baratheon... mas de seu irmão Jaime. Por isso os Lannisters prenderam Eddard Stark e o bastardo que se sentava no Trono de Ferro cortou a cabeça dele fora... então o Norte declarou independência e se recusou a dobrar o joelho para Joffrey. Eles queriam que Joffrey pagasse pelo que fez a Lorde Eddard... e Robb Stark casou com sua irmã, Aegon...
—Eu soube disso.
—E eu soube que eles se amavam. – disse Lyman – Soube que a rainha Shiera cavalgava ao lado de seu rei marido e os dois lutavam contra os Lannister, vencendo todas as batalhas que tiveram juntos... mas os Bolton se uniram com os Frey, para derrubar os Stark. – explicou Lyman e Aegon sentiu um frio lhe subir a espinha – Lady Shiera retornou a Winterfell, pois estava para ter o primeiro e único filho de Robb Stark... enquanto o marido expulsava os Homens de Ferro do Norte. Mas a mãe do rei traiu o Norte, libertando o refém mais precioso que eles tinham, Jaime Lannister. – explicou ele e Aegon respirou fundo – Sua irmã a acusou de traição e a decapitou, senhor, a conselho de Roose Bolton. Com isso os Tully ameaçaram retirar o apoio a Robb Stark, caso ele não matasse sua irmã...
—Shiera morreu?! – perguntou horrorizado.
—Não, senhor. Robb Stark não a matou, mas a deixou para trás, para tentar fazer as pazes com os Tully e com a casa Frey, que retirou seu apoio assim que seus suseranos o fizeram... – Lyman torceu as mãos, nervosamente – Lorde Walder avisou seu pai sobre seus planos, mas seu pai não quis fazer parte... e nem ajudar... ele está escondido em Harrenhal... os rumores é que está doente e amaldiçoado... por ter ido a Valíria, senhor... – explicou Lyman – Todos falam como ele parece fraco... – Lyman respirou fundo, como se tivesse chegado na pior parte – Seu irmão é refém em Porto Real, mas Alexander quer resgatá-lo lá... ele quer que o senhor retorne, senhor... – explicou Lyman – Pois Lorde Walder matou Robb Stark nas Gêmeas, depois de casar Edmure com a senhorita Roslin... Ele ofereceu pão e vinho a Robb Stark e o matou, o enforcando e deixando seu corpo para apodrecer do lado de fora das Gêmeas... e... e os Bolton... eles tomaram Winterfell.
—E Shiera? – perguntou desorientado.
—Shiera é esperta. Ela escapou. – explicou Lyman – Mas ela não tem pra onde fugir. Ela precisa de ajuda. Sor Alexander implora para que volte para Volantis, peça os navios de seu avô e então siga até Westeros. Temos que ajudar Lady Shiera e... e punir Walder Frey. Ele já está velho demais e está destruindo as Gêmeas. Sor Alexander está completamente desgostoso do tio. Disse que todos os descendentes dele estão corrompidos e que não merecem herdar o nome Frey...
—O que garantirá a ele o título de Lorde Frey, com a queda de Walder. – disse Jorah.
—Sim, Alexander é sobrinho de Walder Frey, mas é o único Frey que presta, senhor. – disse Lyman – Por favor, nós precisamos que você volte para Westeros. Nós precisamos que Harrenhal se levante e se junte à luta! Os Frey são uns hereges, senhor. Todos merecem morrer pelo que fizeram. Mas Lorde Haegon concordou e ficou calado... ele... ele deve estar mesmo doente e senil. Você precisa voltar e tomar o lugar dele como Lorde de Harrenhal!
Aegon engoliu em seco e mirou Daenerys. Ela encarava Lyman com atenção, parecendo concentrada na história dele.
—Eu preciso voltar. – disse pra ela. Daenerys seguiu calada ‘’’’– Minha irmã... ela vai ficar a salvo...? Quanto tempo ela tem? – perguntou para Lyman.
—Ela deve ter fugido para as Ilhas de Ferro, pois é muito amiga de Theon Greyjoy. Ele é o herdeiro das Ilhas. – explicou Lyman – Mas há rumores de que ela fugiu para a Muralha... se foi o caso, foi um erro... a Muralha não tem defesas contra o sul...
Aegon olhou novamente para Daenerys, que suspirou.
—Eu não posso deixar Meereen agora. – explicou ela – E você jurou sua espada a mim. – adicionou ela e Aegon sentiu um frio na boca do estômago – Mas eu jamais o proibiria de partir. – explicou ela e Aegon a olhou mais uma vez – Traga sua irmã para Meereen e eu a protegerei. Quando eu voltar para Westeros, eu serei a única rainha. Se ela dobrar o joelho para mim, eu estenderei a ela minha proteção, darei ao filho dela o posto de Protetor do Norte e trarei justiça para todos...
—Trazer Shiera para cá? – perguntou Aegon.
—Shiera tem um exército de mais de mil homens. – disse Lyman – Não teremos navios para tantas pessoas. – adicionou ele e Aegon concordou.
—Meereen tem muitos navios. – disse Daenerys.
—Vossa Graça. – disse Jorah, alerta – Volantis é inimiga de Meereen. O avô de Aegon é comerciante de escravos. Os Frey são inimigos de Shiera... – Jorah o olhou muito sério – Quais as chances de isso ser uma armadilha?
—Como é? – perguntou Lyman, parecendo ofendido – Alexander é um bom homem!
—Nós precisamos da marinha de Meereen para proteger Meereen. – insistiu Jorah – Volantis pode vir nos atacar a qualquer momento, juntamente com Yunkai, que se revoltou novamente. Os Segundos Filhos só recuperaram Astapor agora... não podemos deixar a Bacia dos Escravos agora. Tudo o que você construiu, vai ruir.
—Me empreste alguns navios. Metade da frota. – pediu Aegon – Eu preciso ajudar a minha irmã...
—Quantos navios a frota de Meereen tem? – perguntou Daenerys.
—Quinhentos navios. – respondeu Sor Barristan Selmy. Daenerys o olhou pensativa.
—Duzentos navios é o suficiente para salvar sua irmã? – perguntou Daenerys.
—Posso pedir o restante dos navios para meu avô.
—E poderá fazer algo mais. – disse Daenerys se levantando e segurando suas mãos – Seu avô é um homem influente em Volantis?
—Sim... ele é um dos homens mais poderosos... por que? – perguntou fechando a cara.
—Porque você pode ir para Volantis como um enviado meu. Terá seus duzentos navios, mas eu preciso que você tente fazer a paz com Volantis.
—Meu avô não controla Volantis, Vossa Graça... – murmurou Aegon – E eu não quero ter que pedir aos governantes de Volantis que me permitam enterrar meu avô por ele ser a favor de você... como Loraq precisou fazer aqui. – adicionou muito sério – Volantis não vai cair como Meereen caiu, como Astapor caiu e como Yunkai caiu... Volantis é a filha mais velha de Valíria...
—Eu sei. – disse Daenerys – Mas eu preciso tentar...
—E se não adiantar, eles vão saber que temos navios de menos. – disse Jorah – Caso seu avô não possa ajudar, você precisará voltar com os navios. – adicionou ele e Aegon o olhou furioso.
—O que?!
—É verdade. – insistiu Jorah – Ou Meereen cairá, assim como a Khaleesi. A vida dela é a mais importante de todas. – disse ele e Aegon engoliu em seco.
—Eu vou ter que escolher qual das duas ajudar, é isso? – perguntou zangado – Não podemos deixar esse pedaço de merda e partir logo para Westeros? – perguntou olhando Daenerys – Seu trono é lá e não aqui!
—Eu não posso abandoná-los, Aegon. Se eu me for, os Mestres vão voltar a fazer escravos.
—Que se danem os escravos! – rosnou perdendo a paciência – É minha irmã e meu sobrinho.
—Ela é sua rainha, Aegon. – disse Barristan Selmy – E aqui é o reino dela, por enquanto.
Aegon olhou para Daenerys, que suspirou.
—Sor Lyman... por favor, seja meu convidado. – pediu Daenerys – Eu vou reunir meu conselho para tratar desse assunto. Terá sua resposta amanhã.
—Sim, Vossa Graça. – disse Lyman se curvando – Avisarei meus homens... estarei no porto.
Aegon desceu os degraus rapidamente e passou o braço pelos ombros do amigo, para puxá-lo para longe dos ouvidos alheios.
—Meu pai soube o que iam fazer com Robb Stark? Você tem certeza disso? – perguntou ele. Lyman concordou e lhe entregou um pergaminho – O que é isso? – perguntou Aegon.
—É de seu irmão Valerion. – explicou ele muito baixo – Tome cuidado ao abrir. Muito cuidado. – explicou ele, bem baixinho – Esteja sozinho ao ler.
Aegon guardou o pergaminho, concordando e Lyman se afastou novamente. Voltou para junto da rainha, que já se dirigia à sala do conselho. Mais uma vez ele e Jorah se olharam com ressentimento, mas nada disseram.
—Aegon, eu sei que é importante pra você... – murmurou Daenerys – Mas eu não posso te colocar antes da população de Meereen... – disse ela parecendo lamentar – Eu sou a rainha deles.
—É minha rainha também. – disse sem gostar daquelas palavras – Me arrume duzentos navios e eu trarei mais mil homens para a sua causa... – ele engoliu em seco – Talvez eu até traga Harrenhal inteira... eu só preciso voltar para Westeros e... resolver essa bagunça.
—Eu não irei proibi-lo e até posso te dar uma pequena guarda... cem imaculados... – disse ela – Mais alguns homens... e alguns navios... mas não posso te dar duzentos... Jorah tem razão, Volantis se sentirá mais instigada a vir.
—Você tem três dragões. Queime os navios deles. – disse Aegon sem acreditar que Daenerys lhe daria as costas daquela maneira.
—E ter o risco de perder um deles? – perguntou Jorah – Eles não são tão grandes ainda. – adicionou ele – Os navios precisam ficar aqui para ajudar a abastecer a cidade e para protegê-la.
Aegon olhou para Daenerys, incrédulo.
—Cem Imaculados não me servirão de nada... eu preciso dos navios, minha irmã jamais concordará em vir, deixando os homens dela pra trás. Eu preciso de duzentos navios.
—Seu avô não pode... – começou Jorah e Aegon perdeu a paciência, avançando contra ele.
—Por que não diz logo o motivo para estar dificultando a minha vida, heim?! – rosnou furioso. Jorah não se sentiu intimidado. Ambos tinham basicamente a mesma altura e quase o mesmo porte físico – Fale logo que só está com ciúmes. Pare de ser um cretino por ciúmes. É a minha irmã que está precisando de ajuda. São pessoas também. Se ela agora é um Stark, ela é sua suserana, cacete. – ele se virou para Daenerys – São servos seus, também. O povo de Westeros é seu povo e enquanto você brinca de ser rainha aqui, o seu povo sangra lá. Pare de perder tempo, faça as malas e vamos embora daqui. – disse furioso e Daenerys o olhou friamente.
—Cem imaculados e dez navios. – disse ela e ele não gostou nada daquilo – E só.
—Me dê Viserion então. – pediu de repente e todo mundo pareceu chocado com isso – Se eu tiver um dragão...
—Você não tem um dragão. Eu tenho três dragões e os dragões ficarão com a mãe deles. – sibilou Daenerys. Aegon olhou para ela e respirou fundo. Depois abaixou a cabeça em sinal de obediência.
—Como quiser, minha rainha. – murmurou antes de dar as costas para ela.
Marchou para fora do salão e então seguiu para o próprio quarto. Pegou o pergaminho de Valerion e o desenrolou. Reconheceu a bonita caligrafia do irmão, mas não reconheceu a história que ele contava... falava que o pai tinha perdido o juízo e que estava fazendo coisas terríveis. Que tinha recusado ajudar Shiera e que mentiu para ela sobre sua parte da herança. Não a ajudou quando ela precisou e o abandonou em Porto Real, como refém, para que ele pudesse ficar a salvo em Harrenhal, comprando a amizade dos Lannister. Ele tivera a chance de ajudar Robb, mas se recusou. Teve a chance de ajudar Shiera, mas se recusou. Teve chance de ajudar Valerion a sair de Porto Real, mas se recusou também... e por fim Valerion contava como o pai estava doente, com acessos de fúria, sendo feito de marionete pelos Lannisters. Mas apesar disso, conspirava para colocá-lo no Trono de Ferro, mesmo que para isso fosse necessário que Shiera morresse e Valerion fosse preso. “Ele enlouqueceu, Aegon, por favor, volte e ajude Shiera. Vamos ajudá-la e colocar Harrenhal na balança. Precisamos fazer com que os Lannister paguem. Traga Daenerys Targaryen de volta para Westeros. O tempo é agora... precisamos depor nosso pai.”
Dobrou o pergaminho e o queimou numa vela. Ele precisava de homens para ajudar a irmã... e precisava de navios. Seu avô provavelmente lhe daria alguns se ele estava disposto a abandonar Daenerys, agora que ela estava nessa ideia irritante de libertar escravos. Mas fazendo isso estaria quebrando seus votos, não estaria?
—Ela quebrou os dela primeiro. Ela me prometeu que voltaríamos pra casa... mas pelo que eu estou vendo, nunca deixaremos Meereen juntos... ela vai ficar aqui até morrer, tentando resolver os problemas daqui... – suspirou, ficando de pé e retirando sua espada da bainha – Eu sei onde vou conseguir soldados... mas vou precisar de uma frota para atravessar o mar... mas como? – andou de um lado para o outro, brandindo a espada e cortando o ar. Isso o ajudava a pensar. Talvez eles tivessem navios... talvez... talvez só precisasse evocar o compromisso de sangue... e pagar o preço. A Companhia Dourada só o seguiria se ele fosse desafiar o Trono de Ferro. Parte da companhia aceitou voltar para Westeros e se sujeitar a Robert Baratheon, mas a maior parte dela não concordou. Elas queriam que Lorde Haegon se tornasse rei, mas o acharam fraco demais para isso. Mas se a carta de Valerion estivesse correta... seu pai queria que o Trono fosse para um Blackfyre – Eu não sou um rei. – murmurou num sussurro. Engoliu em seco, sabendo o que deveria fazer. Guardou a espada e se virou para sair de seu quarto. Quando estava no corredor, escutou seu nome ser chamado. Um garoto liberto quem apareceu para chamá-lo até a Sala do Trono, pois Daenerys iria voltar a atender o povo. Mas ele tinha mais o que fazer.
Ele tinha uma Companhia para convocar.
Mas primeiro, ele foi se despedir de seu garoto favorito.
Os dragões de Daenerys ficavam onde antigamente era a arena. Eles eram livres para saírem, mas normalmente passavam a maior parte do tempo lá, já que era lá que eram alimentados. Só Drogon que parecia preferir sair para longos passeios.
Os dragões o viram assim que entrou na arena. Drogon não lhe deu atenção, Rhaegal silvou e abriu as asas, Viserion estava no ar e mergulhou para pousar ao seu lado. Ele silvou e ameaçou cuspir fogo, mas Aegon gritou com ele.
—Não! Viserion! – ralhou e o dragão silvou, parecendo zangado. Eles eram muito agressivos, os dragões, principalmente quando Daenerys não estava, mas Aegon gostava dos três – Venha aqui, garoto. – disse e Viserion se aproximou o olhando com os olhos dourados – Eu vou ter que ir embora, cuide de sua mãe, ouviu? – perguntou o afagando na cabeça. Viserion silvou de novo, como se não tivesse gostado – Cuide de sua mãe, Viserion. – repetiu para ele, mas o dragão cuspiu fogo para o ar, chicoteando a calda, nervosamente – Seja um rapaz obediente. Eu pretendo voltar a te ver depois, ouviu? – perguntou segurando a cabeça grande do dragão, que silvou baixinho – Fique calmo, seu grandalhão. – riu Aegon o afagando na cabeça – Cuide da sua mãe e dos seus irmãos, ouviu? Eu venho te buscar depois. – murmurou e Viserion silvou agitado. Ficou um tempo com ele e então se virou e saiu da arena. Logo notou que o dragão pérola e ouro voava o observando do alto. Seguiu até o porto e procurou pelo navio de Lymar. O encontrou rapidamente, pois era o navio mais diferente do porto. Lymar o olhou curioso e então encolheu quando Viserion silvou lá do alto, antes de mergulhar no mar e sair de lá com uma foca nas patas – Legal, não é?
—Aquilo é um dragão?! – perguntou ele, em choque.
—Não chamam Daenerys de Mãe dos Dragões por nada. – riu Aegon. Lymar suspirou e concordou – Em quanto tempo chegamos em Myr se partirmos hoje? – perguntou. Lymar o olhou curioso.
—Myr?
—Sim.
—Por que, Myr?
—Porque é lá que vamos conseguir navios e aliados... Daenerys não vai nos ajudar.
—Como não?! Ela não ia dar duzentos navios? – perguntou o homem e Aegon suspirou.
—Agradeça a Jorah Mormont. – resmungou dando de ombros – Eu sei que eu vou voltar pra casa... estou de saco cheio de Essos... – disse para em seguida escutar Viserion gritar – E aparentemente eu não sou o único.
**
O dia do julgamento de Tyrion finalmente chegou. Valerion estava sentado ao lado do pai, num lugar de honra. Myrcella estava sentada do seu outro lado, com os dedos entrelaçados aos seus. Seu pai não fizera o que ele queria e decidira pagar para ver. Valerion o faria se arrepender.
Tinha jurado ser testemunha de Cersei e falar como Tyrion sempre ameaçara matar Joffrey, mas não iria ser isso o que faria.
Jaime Lannister quem trouxe Tyrion para frente do Trono de Ferro, na intenção de assumir sua posição como réu. Sentiu Tyrion olhá-lo, mas desviou o olhar do amigo, como se tivesse vergonha de encará-lo.
A medida que Tyrion ia para seu lugar, as pessoas da corte o chamavam de regicida, mas Tyrion apenas ria de desdém das acusações... Tywin Lannister estava de pé ao lado do rei Tommen, que estava com seu real traseiro no Trono de Ferro. Myrcella apertou seus dedos, ansiosa pelo julgamento.
—Não foi meu tio quem fez isso... ele é bom. – lamentou ela baixinho em seu ouvido – Por favor, Valerion... não testemunhe contra ele. – pediu sua noiva e ele suspirou.
Algemaram Tyrion ali na frente de todos, como se ele fosse capaz de tentar matar a todos ali a qualquer momento... seu amigo Tyrion... aquele que tinha lutado para manter todos ali vivos...
Tommen se levantou e falou em alto tom.
—Eu, Tommen da Casa Baratheon... Primeiro de meu nome. Rei dos ândalos e dos primeiros homens. Lorde dos Sete Reinos... – Tommen se calou, engolindo em seco, parecendo ansioso – abstenho-me doravante esse julgamento. Tywin da Casa Lannister, Mão do Rei e Protetor do Reino será meu substituto. – explicou Tommen e Valerion suspirou – Com ele, Príncipe Oberyn Martell e Lorde Mace Tyrell. – ele fez uma pausa e respirou fundo – Se julgado culpado... – Tommen engoliu em seco mirando o tio – Que os deuses punam o réu...
Então ele desceu os degraus e foi se sentar ao lado da mãe, seguido de dois guardas da Guarda Real.. Tywin Lannister se sentou no Trono de Ferro e Mace e Oberyn se sentaram em confortáveis poltronas, cada uma de um lado do trono.
—Tyrion da casa Lannister. – chamou Tywin e todos ficaram em profundo silêncio – A Rainha Regente acusa-o de regicídio. Você matou o rei Joffrey? – perguntou ele calmamente.
Tyrion respondeu como se fosse uma criança levada respondendo a pergunta dos pais sobre quem tinha quebrado o jarro favorito da sala.
—Não... – ele mirava os próprios pés, como que sem muita esperança de ser acreditado...
—Sua esposa, Lady Sansa, o matou? – perguntou Lorde Tywin.
—Não que eu saiba. – respondeu ele dando de ombros e Valerion até riu do jeito dele. Myrcella o olhou e sussurrou.
—Você acha que Sansa matou Joffrey?
—Tenho certeza que não. – respondeu Valerion.
—Como ele morreu, então? – Tywin continuou o interrogatório enquanto seu pai o olhava feio.
—Entalado em sua torta de pombo. – respondeu Tyrion e Valerion segurou-se para não sorrir. As pessoas pareceram desconcertadas com a resposta, mas Tywin não se abalou.
—Então você culpa os chefs?
—Ou os pombos, mas não eu. – rebateu Tyrion e Myrcella respirou fundo, angustiada. Alguns da corte deram risadinhas e Cersei as olhou como se fosse matá-los com o olhar.
—Chame a primeira testemunha. – ordenou Tywin.
O primeiro a depor foi Meryn Trant. Ele contou como Tyrion já tinha acertado um tapa na cara de Joffrey e como já tinha ameaçado o jovem rei antes. No dia em que Joffrey lhe acertara uma seta no braço...
—E quando eu tentei defender o rei, ele ameaçou me matar. – concluiu Trant e Tyrion sorriu
—E por que não conta a essas pessoas o que Joffrey estava fazendo? – pediu ele – Por que não conta, Valerion? Como ele estava apontando a besta contra você e Sansa, enquanto Trant e Cão de Caça tentavam matar vocês dois...
—SILÊNCIO! – ordenou Tywin e Tyrion se calou – Você só falará quando chamado.
—Isso é verdade? – perguntou Myrcella e Valerion concordou. Notou que seu pai o olhava com interesse, antes de fuzilar Tywin com o olhar.
Meistre Pycelle deu um longo e aborrecido relato de todos os seus venenos e falou que um deles foi usado para matar o rei. E que Tyrion tinha esses venenos em seu poder, pois os tinha roubado quando o expulsou do Conselho.
—Grande Meistre. – chamou Tywin – Você examinou o corpo do rei. A morte por envenenamento é incontestável?
—Sim. – respondeu a ratazana e Valerion notou que seu pai fez uma careta de desgosto ao escutá-lo – Incontestável... Foi usado um veneno chamado Estrangulador para matar a criança mais nobre que os deuses colocaram neste mundo.
Tyrion ficou em silêncio, mas Valerion precisou se conter para não gargalhar.
—Vocês me pagarão por isso. Quando se acharem seguros e felizes, essa alegria virará cinza em sua boca e você saberá que sua dívida foi paga. – narrou Cersei, pouco depois, contando sobre as ameaças de Tyrion para com ela.
—Seu próprio irmão disse isso? – perguntou Mace Tyrell. Cersei concordou com um aceno de cabeça.
—Antes da Batalha de Água Negra. – respondeu ela – Eu o confrontei por planejar colocar Joffrey na linha da frente. – ela respirou fundo – Quando o ataque começou, Joffrey ficou nos parapeitos por acreditar que sua presença seria inspiradora.
—Tyrion disse... “E a dívida será paga”. – murmurou Oberyn e quase não foi capaz de escutá-lo – Que dívida?
Cersei respirou fundo.
—Eu soube de uma de suas cadelas na Torre da Mão. Eu pedi-lhe para restringir seus atos libidinosos ao bordel. – ela respirou fundo – Isso o desagradou.
Tyrion negou com um aceno de cabeça, mas nada disse.
—Obrigado, Majestade... pelo corajoso testemunho. – disse Mace Tyrell.
Depois foi a vez de Varys falar como Tyrion ameaçara Joffrey numa reunião do Conselho... a mesma reunião em que Tywin quase matara Valerion por conta do vinho... Varys contou palavra por palavra, como Valerion sabia que ele contaria.
—A notícia da morte de Robb Stark pareceu desagradá-lo. – disse Varys e Valerion respirou fundo – Talvez seu casamento com Sansa Stark o tenha tornado afável aos nortenhos. – e a corte ficou abalada com isso, fazendo comentários e chamando Tyrion de traidor.
—Pode ir, Lorde Varys. – disse Tywin.
—Pai... – disse Tyrion – Posso fazer uma pergunta à testemunha?
Varys parou seu passo e todos miraram a Mão do Rei.
—Uma. – respondeu ele.
—Certa vez você disse... – começou Tyrion – que sem mim esta cidade teria caído. Disse que a história não me citaria, mas você não me esqueceria. – ele mirou Varys nos olhos – Você esqueceu, Lorde Varys?
Varys deu um sorriso até simpático e suspirou.
—Infelizmente, milorde... eu jamais esqueço nada. – então ele se curvou e saiu.
Depois de um recesso de uma hora, todos voltaram a seus lugares. Jaime conversou por alguns momentos com Tyrion e então se afastou. Todos se sentaram e o julgamento recomeçou.
—Convoquemos a próxima testemunha. – Disse Tywin Lannister – Sor Valerion da casa Blackfyre. – Myrcella segurou seus dedos com firmeza, mas ele se desvencilhou com delicadeza. Seu pai lhe lançou um olhar penetrante, mas desviou o olhar dele e se dirigiu ao lugar onde as testemunhas falavam – Você jura pelos deuses dar um testemunho verdadeiro? – perguntou Tywin. Valerion olhou para Olenna Tyrell, que pareceu ligeiramente surpresa, mas em seguida olhou para Lorde Tywin.
—Sim, meu lorde. – respondeu em alto e bom tom.
—O que você tem a dizer, Valerion?
Valerion respirou fundo e olhou para Tyrion.
—Eu conheci Tyrion pelas histórias que minha irmã contava sobre ele. – disse calmamente – O melhor Lannister que Tywin conseguiu colocar no mundo. – riu ele e a rainha lhe dirigiu um olhar terrível – Minha irmã viveu aqui em Porto Real antes que eu viesse e ela me contou coisas sobre todos... coisas que eu tive como confirmar na minha curta estadia aqui. – ele respirou fundo – Ela disse que Myrcella era doce e adorável, uma garota que eu deveria conhecer... – disse olhando Myrcella, que sorriu – Sim... minha irmã sempre tentou incentivar um romance entre nós... – ele fez uma pausa – Contou como Tommen era um bom garoto, sempre gentil... como amava seus gatos e era tímido, sempre corando quando ela falava com ele... – ele olhou para Jaime – Contou como Jaime era bravo e galante... que até lembrava Aegon, algumas vezes... – depois olhou para Tywin – Ela contou sobre o senhor também, Lorde Tywin, pois ela o vira uma vez... aqui, em Porto Real... ela se perguntava o motivo de não ser você a Mão do Rei, no lugar de Jon Arryn... Robert escutava você... ou pelo menos foi o que pareceu a ela... – Valerion suspirou – Ela também contou de Cersei... como ela era uma amável rainha... até alguém sugerir um casamento entre Joffrey e Shiera... então... as palavras dela não foram muito gentis... – Valerion suspirou – E ela me falou de Joffrey. Céus... – ele sorriu – Ela me falou tão mal de Joffrey... que eu não acreditei nela. Eu pensava: não é possível que exista um garoto tão escroto... – e a corte pareceu uma loucura – quanto esse que Shiera está descrevendo... – Valerion suspirou.
—Vá direto ao ponto, Sor Valerion. – ralhou Mace Tyrell.
—Pycelle pode narrar toda sua aborrecedora lista de venenos. Vocês podem escutar os relatos da minha irmã. – riu Valerion – Que se casou obrigada com um nortenho. E depois precisou se esforçar ao máximo para proteger o filho que esse casamento forçado criou. Porque é isso que os pais fazem, protegem seus filhos. – disse sem encarar o próprio pai – Mesmo que isso signifique morrer por eles... – Valerion suspirou – Joffrey era uma pessoa terrível e um rei pior ainda...
—CALE-SE! – gritou Cersei ficando de pé.
—Mas não foi Tyrion quem o matou. – continuou Valerion com um sorriso sereno no rosto, enquanto a corte falava sem parar. Olenna Tyrell segurou o pulso de Margaery, que o olhou em pânico – Fui eu. – concluiu e todos se calaram de uma vez – Eu botei o veneno na taça de Joffrey. – disse calmamente, enquanto todos o olhavam com incredulidade – Joffrey ameaçou matar minha irmã e entregá-la a todos os soldados de seu exército. Joffrey bateu na minha amiga Sansa Stark, ele a humilhou e atirou uma flecha em mim enquanto mandava seus soldados me atacarem e despirem Lady Sansa aqui, na frente de todos vocês. Joffrey era covarde, tão covarde, que não teve nem mesmo coragem de enfrentar Stannis...
—Cale-se! – ordenou Tywin, mas Valerion não se calou.
—Quando ele abandonou seus homens, eu troquei de lugar com ele e lutei em seu lugar. Por isso fui promovido a cavaleiro.
—Prendam ele! – ordenou Tywin enquanto Tyrion o olhava completamente chocado.
—E eu matei Joffrey por ordem dos Sete. – disse enquanto Meryn Trant se aproximava. Mas sua declaração foi tão repentina que até mesmo o truculento homem estacou – Os deuses me deram a ordem de poupar o reino. E eu exijo um julgamento por combate para provar minha inocência. Os deuses me salvarão se acharem que eu fiz certo. – ele suspirou – Os deuses não abençoam aqueles que quebram suas leis mais sagradas. E que eu morra caso os deuses me declararem culpado.
—Prendam ele! – gritou Cersei.
—E eu quero deixar algo claro. – olhou mais uma vez para Olenna – Eu fiz tudo sozinho. – piscou para ela e sentiu Meryn Trant puxar seu gibão.
—Valerion Blackfyre. – rosnou Tywin o olhando com fúria – Eu o considero culpado e o condeno a morte! – rosnou Tywin.
—Você não pode me condenar. É um direito meu pedir um julgamento por batalha. E mais. Eu ainda posso escolher a Muralha. – disse calmamente. Trant o puxou mais força e Myrcella correu até si.
—Vovô! Dê a ele o direito de... – começou Myrcella.
—ELE MATOU O SEU IRMÃO! – gritou Cersei se levantando e Valerion sorriu.
—Mas ele deve ter o direito de se defender! – gritou Myrcella.
—Ele tem o direito de apelar aos deuses. – concordou Tyrion – Se ele diz que os deuses deram a ele essa missão, ele pode se provar numa batalha.
—Está na lei. – concordou Margaery Tyrell.
—Ele tem mesmo esse direito. – disse Olenna e Mace encolheu em sua poltrona de juiz.
—Eu concordo com o garoto. – disse Oberyn Martell e todos o olharam com espanto – Se ele diz que foram os deuses quem lhe deram essa missão, então talvez tenha sido. Ele pode tentar se provar num combate valendo a vida.
—Eu... eu concordo. – disse Mace, olhando Tywin com receio – O que acha, Tywin?
—E quem será seu campeão? Aegon Blackfyre? – perguntou Tywin.
—Evidentemente. – sorriu Valerion.
—Não. – disse Tywin e Valerion sentiu um frio lhe subir a espinha. Sabia que aquilo poderia vir a acontecer... respirou fundo e entrelaçou os dedos com os de Myrcella, para acalmá-la – Se os deuses deram uma missão a você, você quem precisa se provar. Você afirma ser o campeão deles, não é? – perguntou Tywin – Eu concordo com a ideia de você ter um julgamento por combate. Mas você terá que lutar por si só.
—Vovô... mas...
—E está decidido. Tyrion, você está inocentado das acusações. – disse Tywin e Valerion suspirou – Valerion, você está confinado a uma cela e ficará lá até o dia de seu combate.
—Onde não será bem alimentado nem terá tempo pra se preparar? – perguntou Lorde Haegon se pronunciando pela primeira vez. Ele nem se deu ao trabalho de se levantar.
—Os deuses se encarregarão disso se o que ele diz for verdade. – declarou Tywin – Levem-no.
Myrcella se usava de escudo para que Meryn Trant não o atacasse. Tyrion estava sendo solto por Jaime Lannister e veio correndo ao seu encalço assim que se viu livre.
—Seu garoto tolo! – sibilou ele e Valerion suspirou.
—Não achou que eu te daria as costas, achou, velho amigo? – perguntou enquanto os capas douradas pegavam seus pulsos para torcê-los em suas costas – Mas seja mais cortês para comigo, me visite em minha cela. Você não precisa... fingir que não é meu amigo... – disse sentindo dor ao ser puxado de uma vez.
—MYRCELLA! – gritou Cersei, que se aproximava furiosa – Saia de perto dele! Ele matou seu irmão! – gritou ela e Myrcella deu as costas para a própria mãe, com lágrima nos olhos. Ela o seguiu, junto de Tyrion, até sua cela. A Guarda Real a seguiu e quando Cersei a puxou pelo pulso de uma vez, Myrcella gritou.
—ME LARGA! EU VOU COM ELE! – disse ela com lágrimas nos olhos. Valerion suspirou, sentindo-se triste por Myrcella... mas nada disse. Talvez fosse precisar dela... Cersei parou no mesmo lugar e Valerion a olhou. Ela parecia em completo choque.
Quando foi jogado em sua cela, Myrcella o abraçou com força e Tyrion fechou a porta.
—Você é louco?! – perguntou ele e Valerion sorriu, abraçando Myrcella.
—É minha culpa! – chorou Myrcella e Valerion piscou confuso – Eu pedi para que não testemunhasse contra meu tio... mas... mas assumir a culpa por algo que não fez... eu nunca pensei... oh, Valerion... – ela o abraçou mais apertado – Você fez por mim, não foi?
—Como sabe que eu não matei Joffrey? – perguntou curioso, a afastando de si. Myrcella respirou fundo.
—Porque você ficou todo o tempo ao meu lado. Não tinha como você ter feito isso. Eu teria notado. – explicou ela – Eu vou falar com meu avô...
—Se fizer isso, o machado vai descer sobre o pescoço de Tyrion. – murmurou Valerion – Não se preocupe... eu vou lutar pela minha inocência e pela dele. Garland não vai lutar por Cersei. Cão de Caça já não está mais na Guarda Real... Tywin não vai permitir que Jaime lute tampouco... ele passou muito tempo preso e cativo, ainda não se recuperou. Quem mais se arriscaria a matar o herdeiro de Harrenhal, com meu pai aqui? Por Cersei, que não inspira afeição por ninguém.
—Gregor Clegane. – respondeu Myrcella, ficando completamente pálida. Valerion sentiu um calafrio.
—Ele não estava morto? – perguntou confuso.
—Não. Apenas foi feito refém... mas foi libertado por Lorde Frey. – respondeu Myrcella e Valerion se lembrou da Montanha... ele era um monstro. Engoliu em seco e respirou fundo.
—Bem... nesse caso... eu vou torcer para que meu plano dê certo. – disse cabisbaixo.
—Que plano? – perguntou Myrcella.
—Que meu pai me tire daqui... quando ele te tirar daqui. – disse olhando para Myrcella. A garota corou.
—Como assim?
—Não acha mesmo que eu desisti do nosso casamento apenas por conta desse pequeno empecilho, acha? – perguntou se sentindo um cretino... mas aquele era o Jogo dos Tronos...
Myrcella o olhou apaixonadamente e pulou em seus braços. A abraçou com carinho e mirou Tyrion, que o olhava desconfiado.
—Eu não acho sensato tirar Myrcella daqui. – disse Tyrion.
—É, mas você me deve a sua vida, anão... de novo. – riu Valerion – Não se esqueça disso.
—E o que quer que eu faça por você? – perguntou Tyrion.
—Deixe Porto Real. – pediu Valerion – Eu quero que você fique vivo. Cersei com certeza vai continuar perseguindo...
Mas a porta se abriu de uma vez e eles se calaram. Era Tywin Lannister.
—Seu garoto abusado... parece que a lição que eu lhe dei no outro dia não foi suficiente. – rosnou ele e Valerion sorriu.
—Sinto muito, Sor. – disse ainda abraçado com Myrcella, que olhava o avô com insegurança – Mas eu sou um homem devoto aos deuses.
—Quando você colocou o veneno na taça de Joffrey? – perguntou ele.
—Não interessa o “como” ou o “quando”. – disse calmamente – O que importa é que fui eu.
—Não foi você. – insistiu Tywin fechando a porta – Mas você sabe quem foi.
—Sei? – perguntou curioso.
—Por que ficou olhando insistentemente para a mãe de Mace Tyrell e para a filha dele? Você piscou para elas. Mace até ousou a votar antes de mim por conta disso. Você sabe de alguma participação dos Tyrell na morte de Joffrey? – perguntou ele e Valerion sorriu, com Myrcella ainda em seus braços.
—Não sei do que você está falando, mestre Tywin. – disse sorridente e Tywin bufou.
—Quando vai aprender a não me desafiar? – perguntou ele num sibilo.
—Tome cuidado, Lorde Tywin... Joffrey também se achava intocável... – disse com um sorrisinho. Tywin bufou e se retirou em seguida. A desconfiança estava plantada e enraizada. Agora só precisava que os Tyrell mordessem a isca e o ajudassem... e para isso precisaria de Tyrion – Seu pai desconfia dos Tyrell... o melhor seria que eles não ficassem sabendo disso. – disse afagando a cabeça de Myrcella, mas mirando Tyrion.
O anão concordou com um aceno de cabeça e saiu da cela. Myrcella, no entanto ficou.
—Eu estou com medo... e se você morrer? – perguntou ela. Valerion suspirou e a afagou na cabeça.
—Confio que você levará meus ossos para Harrenhal. – disse ele – E que me dará um enterro digno... chore por mim, para ficar parecendo que alguém se importa... e interceda pela minha irmã e pelo meu irmão ao seu irmão, o rei Tommen. – explicou e Myrcella suspirou.
—Eu juro. – disse ela e ele sorriu a beijando na testa – Varys conhece todas as passagens secretas do castelo... talvez ele consiga me trazer aqui... às escondidas... eu te trarei comida. Você deve se exercitar e se fortalecer. – sussurrou ela e Valerion concordou com um aceno de cabeça.
—Conto com você... – murmurou. Myrcella suspirou e lhe roubou um beijo nos lábios. A beijou de volta, se perguntando se voltaria a ver Sansa. Tinha feito o que prometera a ela. A tirara do castelo e a levara em segurança para Harrenhal. Declarara que ela deveria ter poder para comandar sua parte e a parte de Shiera, que Aegon tinha lhes deixado, das tropas de Harrenhal, para poder apoiar o Norte... mas ele não a encontraria no caminho, como tinha dito em carta... não mais. Torcia para que ela entendesse. Com esse pensamento, eu me sinto um pouco menos culpado caso eu... empurrou Myrcella contra a parede da cela e a beijou com fulgor. Ela o beijou da mesma maneira, mas abriram a porta novamente. Era a Guarda Real – Acho melhor você ir, princesa. – disse com um sorrisinho. Myrcella o olhou preocupadamente, mas concordou e saiu, o deixando sozinho ali.
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