Blackfyre
53 Questões de Honra
Notas iniciais

Questões de Honra
Shiera estava penteando os cabelos e mirando a neve que caía lá fora. Se levantou da cadeira, deixando a escova sobre a penteadeira, e andou até a janela, para observar a neve. Cristais de gelo se acumulavam belamente na janela e ela suspirou os achando bonitos. O Norte era muito belo, sem dúvidas. Encostou a testa no vidro e fechou os olhos sentindo superfície gelada sobre sua pele.
Se virou e mirou o aposento, principalmente a cama. Lembrava da última vez que dormira ali. Estava com Jon. Uma noite de loucura e paixão. Subiu no colchão e tentou procurar pelo cheiro dele, mas não encontrou. Abraçou o travesseiro, lembrando-se daquela última noite e suspirou. Escutou alguém girar a maçaneta e se sentou, curiosa. Era Robb e isso a decepcionou. Se repreendeu por isso e desviou o olhar. Robb era seu marido e Jon foi apenas um momento louco de vulnerabilidade e paixão.
—Me pergunto se hoje eu poderei dormir com a senhora minha esposa. – murmurou Robb e Shiera engoliu em seco. Não sabia se o queria ali. Estava magoada com ele. Sabia que não era culpa dele. Sabia que tinha sido uma escolha que partira dela mesma. Mas olhar para Robb a fazia se lembrar de Roose Bolton. Não encolhido numa masmorra gelada. Mas em cima de si, a machucando e humilhando. Engoliu em seco sem saber o que fazer – Não sei se prefere dormir sozinha... – murmurou Robb – Ou talvez prefira que eu chame Jon. – murmurou ele com dor na voz e Shiera negou com a cabeça.
—Venha, senhor meu esposo. – chamou ela sem conseguir colocar muita emoção na voz. Robb fechou a porta e se aproximou. Ele se sentou e a olhou nos olhos, parecendo triste. Sabia que o estava fazendo sofrer, mas simplesmente não se sentia pronta para tê-lo de volta. Perdê-lo fora a coisa mais difícil pela qual passara. Receber os supostos ossos dele, encomendar uma estátua para a cripta e enterrá-lo... aquilo tinha sido simplesmente cruel – Vamos... dormir juntos, como manda nosso dever. – disse Shiera e Robb concordou com um aceno de cabeça. Retirou peça por peça da armadura dele, lentamente, como se não quisesse despi-lo. Como se desejasse prolongar aquele momento pela eternidade. Mas logo não havia mais armadura. Então tirou as roupas de couro, a cota de malha, a camisa branca. Notou que o peito do marido estava cheio de cicatrizes de pontas de flechas. Tocou cada uma delas e teve a impressão que poderia ver o momento que elas o acertaram, se fechasse os olhos. Seus dedos subiram para o pescoço dele, para a cicatriz no pescoço. Engoliu em seco imaginando o momento em que colocaram a corda ao redor do pescoço dele – Deve ter sido assustador... – sussurrou olhando para a cicatriz e sentiu a mão de Robb segurar seu pulso.
—Não tanto quanto a possibilidade de não ter seu amor novamente. – sussurrou ele. Shiera o olhou nos olhos. Adoráveis olhos azuis, cheios de carinho, amor e devoção. Engoliu em seco, desejando sentir o que costumava sentir ao olhar para ele, mas se lembrou de Roose, se lembrou de Robb a apertar seu pescoço, a desejar que ela nunca mais tivesse uma noite de paz. Que os fantasmas de Winterfell a assombrassem pelo resto da vida. Lembrou de como ele saiu do quarto sem nem mesmo olhar para Ned – O que eu preciso fazer, Shiera? – perguntou Robb acariciando seu rosto. Não respondeu, pois não sabia o que ele poderia fazer. Tocou Robb no rosto e o beijou nos lábios, com delicadeza. Ele a beijou de volta e a deitou na cama, lentamente. Se beijaram por um tempo, mas ela não sentia vontade de prolongar aquilo. Só queria que terminasse logo. Queria que ele ficasse feliz, claro. Queria agradá-lo. Mas simplesmente não sentiu o desejo que costumava sentir com ele. Era apenas uma obrigação. Era esposa dele. Robb a beijou por muito tempo e ela correspondeu ao beijo, mas só conseguia desejar que terminasse logo. Suspirou e quando Robb tentou colocar uma das mãos em seus seios, o segurou seu membro com firmeza. Ele a olhou surpreso e ela o puxou para cima de si. Mordeu de leve o ombro dele, pois assim não precisaria beijá-lo e fechou os olhos esperando que ele terminasse o que queria fazer. Ele não fez perguntas, parecendo satisfeito por ela ter cedido, mas em menos de dois minutos ele parou e a olhou, magoado – O que está fazendo?
—Como assim? – perguntou sem entender. Era bem óbvio o que estava fazendo.
—Está frígida. – murmurou Robb – Você não está com vontade, é isso? – perguntou ele – O que houve?
—Podemos não conversar sobre isso e terminar o que começamos? – perguntou se abraçando. Robb a olhou magoado e se sentou na cama.
—Precisamos conversar sobre isso.
—Não precisamos. – disse teimosamente – Vamos apenas cumprir com nossas obrigações e...
—Obrigações? – perguntou Robb desviando o olhar – É isso que eu sou pra você? Uma obrigação? – perguntou ele. Shiera engoliu em seco, sem saber o que responder. Robb entendeu o significado de seu silêncio e se levantou. Ele se vestiu, sem falar uma palavra que fosse e saiu, batendo a porta do quarto.
Baixou os olhos sem saber o que fazer, ou o que sentir. Se deitou novamente e se cobriu, abraçando o travesseiro e tentando dormir. Mas seu pensamento o tempo todo ia até Jon e isso só fazia com que se sentisse culpada.
**
Jon ainda estava segurando suas partes, enquanto Tormund contava a Aegon como ele trepara com um urso certa vez. O Blackfyre olhava completamente impressionado para Tormund, que adorou a atenção. Foi quando viu Robb voltar do quarto, onde Shiera estava, e vir em sua direção. Se assustou com a gargalhada dos dois que conversavam ao seu lado, mas logo voltou a atenção para o meio irmão. Robb se apoiou em seu ombro e o puxou para longe, sem dar explicações. O seguiu sem exigir alguma. Provavelmente algo ruim teria acontecido. Se perguntou se ele tinha brigado com Shiera. Parte de si desejava que não. Outra estava com inveja do irmão e tentava disfarçar esperança de curiosidade.
Robb o levou até o pátio e pegou duas espadas de treino. Ele tinha o rosto aflito e cheio de pesar. Havia raiva também e Jon teve certeza de que algo ruim tinha acontecido. Se lembrou de Robb falar que ele e Shiera não estavam bem e a parte egoísta de si mesmo desapareceu. Não queria ver Robb assim. Ele não merecia aquilo. Olhou para o irmão desejando simplesmente ajudá-lo, mas sem saber como. No entanto, Robb sabia o que precisava. Ele lhe entregou a espada de treino com um olhar desesperado, como se implorasse. Jon concordou com um aceno de cabeça e pegou a espada a empunhando. Robb fez o mesmo e não perdeu tempo em atacá-lo.
Trocaram golpes um com o outro. Primeiro timidamente. Somente Robb atacava. Ele parecia precisar exorcizar algo de si mesmo. Mas a cada golpe, a cada passo recuado, a cada bloqueio, a cada grito, parecia que ficavam mais longe da Muralha e mais próximos de Winterfell, quando eram apenas dois garotos, dois irmãos a treinarem.
Eu sou Duncan, o Alto! Lembrava de Robb falar enquanto o golpeava. Jon, que sempre fora mais baixo, retrucava: E eu sou Sor Barristan, o Ousado!
Quando eram garotos, brincando de espadas, normalmente as vitórias pertenciam a Robb. Ele era melhor lutando. O único ponto fraco dele era não saber tão bem usar o terreno ao seu redor a seu favor. Mas Jon era bom nisso. Era bom em observar buracos no chão, pedras redondas e pesadas, um toco qualquer. Algo que se poderia tropeçar e se desequilibrar. Jon sabia conduzir o oponente para uma armadilha, mas Robb era mais forte e mais preciso em seus golpes. A cada vez que aparava um golpe dele, sentia os ossos balançarem e vibrarem dentro de si. Perder o equilíbrio, mesmo num terreno bom, era fácil ao se lutar com Robb. E ele sabia esquivar bem, aparar bem.
Jon o atacou e Robb fez o mesmo. Ficaram empurrando as espadas um do outro e Jon viu ira no olhar do irmão. Por um momento se perguntou o que aquela luta significava para ele. Empurrou Robb para frente e o irmão recuou sem perder o equilíbrio para avançar imediatamente. Quase não conseguiu aparar o próximo golpe, mas o fez. O som do aço começou a chamar a atenção das pessoas, que saíam de seus lugares para ver os irmãos lutarem. Sentia centenas de olhos sobre si, principalmente os de Aegon. Os olhos violetas dele pareciam segui-lo, medi-lo.
Sempre escutara que Aegon era um guerreiro, então ele provavelmente estaria julgando os dois, medindo os dois. Sentia também o olhar de Tormund, que como um Selvagem, se interessara bastante no embate. E os Lordes do Norte, que miravam Robb com admiração e expectativa. Ele era apenas um garoto, mas era habilidoso. Certamente era. E Jon sabia disso. Crescera sendo sempre o segundo melhor.
Quando o assunto era Robb, sempre se sentia dividido. Queria ganhar aquele duelo. Queria vencer. Mas o que isso significaria para Robb? Poderia prejudicar sua campanha? No entanto... há quantos anos vivera na sombra dele? Quantos anos precisou aceitar que ele era o herdeiro de Winterfell, o filho querido e mais velho de Eddard Stark, enquanto ele era apenas um bastardo?
Escutou Theon gritar o nome de Robb e bater palmas, torcendo, enquanto os Selvagens gritavam “Snow! Snow! Snow!”. Os Lordes começaram a gritar “Rei no Norte”, a Patrulha gritou “Lorde Snow”. Os Lordes gritaram “Jovem Lobo” e a Patrulha e os Selvagens gritaram “Lobo Branco”. O som do aço continuou rasgando o ar, enquanto a neve caía mais forte. Escutou o dragão de Aegon silvar e acertou Robb nas costelas. Ele se desequilibrou e caiu de joelhos, fazendo a Patrulha gritar de alegria. Jon sentia as costas doerem, assim como os braços. Robb batia forte e não sabia se conseguiria manter o combate por mais tempo. Mas o irmão levantou e voltou a avançar, para a alegria dos Lordes.
Continuaram a lutar, mas a neve caía densamente, fazendo seus passos ficarem difíceis. Estava tentando recuar quando Robb bateu em sua espada com tanta força, que ela voou para o chão. Levantou as mãos em rendição e Robb largou a própria espada, para então ignorar os aplausos e mancar até o portão sul de Castle Black. Todos os acompanharam com o olhar e Theon tentou ir até ele, mas Jon o segurou. Trocou um olhar com ele e o rapaz entendeu que deveria ficar ali. Jon caminhou até Robb, que estava apoiado no portão, parecendo simplesmente infeliz. Colocou a mão no ombro dele e suspirou.
—Quer privacidade para conversar? – perguntou Jon. Robb concordou. O puxou para o elevador e deu sinal a Edd para que os subisse. Ficaram em silêncio até chegarem lá no topo. A nevasca caía com uma fúria sem igual e Jon começou a sentir um frio absurdo. Guiou o irmão até uma fogueira na torre de vigia e esfregou as mãos próximo ao fogo – O que houve?
Robb não respondeu de imediato. Ele se sentou ao lado do fogo, mirando as chamas, buscando algo nelas. Mas depois de alguns momentos ele bufou e desviou o olhar.
—Ela não me ama mais. – murmurou Robb, infeliz – E eu não sei o que fazer. E sei que é injusto eu dividir isso com você... – Robb suspirou engolindo em seco – Eu amo você, Jon, mas te odeio. Você sente o mesmo?
—Não digo que odeio você, Robb... jamais odiaria você. – respondeu Jon – Mas eu te invejo. – murmurou ele.
—Por que? Por que me invejaria? Eu sou apenas um saco velho de ossos, amargurado, com uma guerra para travar, sem certeza de coisa alguma.
—Você é casado com ela. – murmurou Jon.
—E? – perguntou Robb – Que vantagem tenho nisso? Estou muito perto dela, mas ao mesmo tempo, terrivelmente longe. – lamentou ele – E eu jamais a tomaria a força. Não quero fazer algo que ela não queira. E ela não me quer.
Jon engoliu em seco e olhou ao redor.
—Dê um tempo a ela, Robb.
—Para que? – perguntou o irmão, com amargura – E ela teve tempo...
—Não o suficiente. – murmurou Jon e Robb suspirou.
—Seremos rei e rainha nas aparências? Seremos apenas uma obrigação um para o outro? – Robb engoliu em seco – Eu já tive uma época em que tinha certeza que essa possibilidade era uma hipótese válida. Eu sabia que me casaria por motivos políticos e estratégicos. Eu sou o herdeiro de Winterfell... mas eu tive mais, Jon. Eu tive amor... – ele suspirou e fechou os olhos, jogando a cabeça para trás – E perdi...
Os dois ficaram em silencio por um tempo, observando a nevasca que uivava violentamente, cobrindo tudo de neve. Jon olhou para o Norte, para a floresta e notou que não conseguia enxergá-la por conta do tempo. Engoliu em seco, fazendo uma prece silenciosa, para que os deuses não permitissem que os mortos já estivessem chegando. Se lembrava de seu encontro com o Rei da Noite, em Hardhome e não estava pronto para repeti-lo. Deu um passo adiante, ainda mirando lá embaixo, tentando enxergar algo, quando escutou o silvo de Viserion. Cambaleou para trás e o dragão passou voando muito próximo à Muralha. Ficou a observá-lo voar, até sumir na nevasca e voltar a aparecer, muito longe, no horizonte, para pousar próximo ao portão sul.
Jon suspirou e mirou Robb, que estava do mesmo jeito que antes. Com a cabeça jogada para trás e um olhar de infelicidade total.
—Robb. – chamou e o irmão o olhou preguiçosamente – Eu entendo a sua dor. – murmurou Jon – Mas temos outras prioridades. Infelizmente não é tempo para nos preocuparmos com isso. – disse Jon e Robb franziu o cenho – Os mortos estão vindo.
—Do que está falando? – perguntou Robb.
—Você não sabe? Shiera não te contou? – perguntou surpreso. Robb apenas negou com a cabeça.
—Mal conversamos nesses últimos dias. – confessou ele. Jon se abaixou ao lado do irmão e suspirou.
—Então há coisas importantes que você precisa saber. Importantes e urgentes. – disse Jon – Coisas que vi além da Muralha, que parecerão loucura e mentiras.
—Nós dois voltamos da morte, Jon. Acha que eu vou duvidar de alguma coisa que você diga? – perguntou Robb e Jon baixou a cabeça, sorrindo.
—É... você tem razão. – riu ele e Robb suspirou o olhando com atenção – Eu preciso falar com Robb Stark, Rei no Norte, senhor de Winterfell... e não Robb, o garoto de coração partido, certo?
—Pros Sete Infernos com isso. – ralhou Robb se sentando mais ereto – Eu vou precisar buscar a droga da coroa? – perguntou ele e Jon negou com a cabeça – Então diga.
—Se lembra das lendas sobre a longa noite? Sobre os Caminhantes Brancos? – perguntou Jon e Robb concordou franzindo o cenho – Não eram lendas, Robb... eu os vi. Eu lutei contra um deles. Eles ressuscitam os mortos e os obrigam a lutar ao lado deles. Por isso eu trouxe os Selvagens para cá. Cada Selvagem morto daquele lado – disse apontando para o norte – volta como um soldado deles. Um soldado dos mortos. Pode cortar a cabeça deles fora que continuam lutando. – murmurou muito sério e Robb o olhou sombrio.
—Os Caminhantes Brancos estão voltando? – perguntou Robb. Jon concordou – Se lembra... se lembra quando o pai matou aquele homem? Aquele desertor? – perguntou Robb – Poucos meses antes da vinda do Rei Robert a Winterfell? – perguntou ele.
—Sim. Ele falou isso. Ele disse que viu os Caminhantes Brancos. – concordou Jon – Ele estava certo, Robb.
Robb o olhou com seus grandes olhos azuis e engoliu em seco.
—Eu acredito em você. – disse seu irmão ficando de pé e colocando a mão em seu ombro – E nós vamos enfrentar esse perigo juntos. – disse ele com firmeza. Jon sorriu e abraçou seu meio irmão. Robb fez o mesmo e os dois se soltaram para lançar um olhar preocupado para o horizonte ao norte.
**
—Minha cara princesa Myrcella. – leu Myrcella reconhecendo a letra bem feita de Valerion. Estava em sua torre, apesar da porta estar aberta e ela ter total autorização para ir onde desejasse, dentro do castelo – Palavras não seriam suficientes para explicar o quanto sinto sua falta. Eu fui preso, torturado, ferido, humilhado e rasgado. Me fizeram confessar coisas que fiz e que não fiz. Mas juro não tê-la difamado. Mesmo sendo cortado pelos açoites, mesmo desprovido de água e comida. Não conseguiram de mim uma só palavra que a desonrasse. Não sei se essa carta chegará a suas mãos. Apenas desejava explicar que não foi um plano meu fugir de Porto Real. Eu não estava em condições de fugir, ou de tramar algo. Eu estava apenas existindo. Meus homens e aliados me resgataram e conseguiram me tirar da cidade. Estou a salvo em Harrenhal, recuperando-me de minhas feridas. Espero voltar a Porto Real para rever-te. Juro que meus últimos dias ao teu lado não foram mentiras, mas confesso que houve coisas que menti e omiti. Eu ajudei Sansa Stark a fugir de Porto Real, porque a amava. Provavelmente ainda a amo... – Engoliu em seco e sentiu os olhos encherem-se de lágrimas. Abraçou a mensagem, soltando um soluço, mas respirando fundo em seguida, para voltar a ler – Mas garanto-lhe que com ela não tenho romance algum. Soube que tua mãe está te mantendo presa, e rezo para que seja mentira. Rezo para que estejas bem. Sinto sua falta e espero revê-la. Com carinho, Valerion Blackfyre. – Terminou de ler a carta suspirou – Com carinho... – repetiu de olhos fechados. Ficou repetindo aquilo mentalmente por algum tempo e então bufou. Se levantou e finalmente deixou sua torre. Correu pelo castelo até o próprio quarto e escreveu uma resposta. Com o coração acelerado, pegou uma faca e cortou um pequeno cacho de seus cabelos. Depois o prendeu com uma fita na mensagem, a enrolando. Respirando fundo, foi para o gabinete de Meistre Pycelle e o encarou.
—Princesa Myrcella. – murmurou ele a olhando com atenção, com a voz cansada, alisando a pequena barba que crescia fracamente, muito diferente da antiga, que Tyrion tinha cortado – No que posso servi-la?
—Preciso que envies uma carta. Uma carta a Harrenhal. – disse com urgência – Em segredo absoluto. Nem mesmo meu tio pode saber disso. – disse se referindo a tio Kevan. O Grande Meistre a olhou com desconfiança e Myrcella andou até ele – Sei que passaste por problemas com minha mãe, mas pelos Sete, quem não passou? – perguntou ela – Tenho aqui algo apenas para teus olhos. Algo meu e teu. Eu sou o futuro da casa Lannister, Pycelle, mais do que nunca preciso de tua lealdade. – disse estendendo a mensagem. O meistre abriu a fita e com cuidado para não perder o cacho, leu sua mensagem com os olhos apertados. Depois concordou com um aceno de cabeça e se levantou, prendendo novamente a mensagem no cacho e indo até os corvos. Myrcella o observou prender a mensagem em um corvo qualquer, mais lentamente do que ela gostaria, mas logo sua mensagem estava voando pela janela – Obrigada, Meistre Pycelle. Lembrarei a meu irmão, o rei, que pode sempre contar com teus sábios conselhos. – disse determinada.
—É sempre um prazer servir a Casa Lannister. – respondeu ele. Myrcella se virou para sair, mas escutou o velho pigarrear – Princesa, seria sensato que me deixasse inspecioná-la. Por conta da gravidez. – explicou ele e ela o olhou constrangida – Feche a porta e deite-se, princesa. Precisamos cuidar de sua gestação. Preciso saber de quanto tempo está, fazer um exame de toque, para saber como seu útero está aguentando a gestação, além de que precisamos conversar sobre seus hábitos alimentares daqui pra frente. – explicou ele com suave gentileza. Myrcella engoliu em seco e se lembrou que Valerion não confiava em Meistres – Por favor. – disse ele calmamente.
Fechou a porta e então o olhou constrangida.
—Terei que tirar a roupa? – perguntou envergonhada e o velho concordou com um aceno de cabeça.
**
Uma semana tinha passado desde que tinham chegado na Muralha. Robb, como Rei do Norte, aproveitou esse tempo para fazer pequenas arrumações nos castelos. Sabia que seu exército nortenho não era composto apenas de soldados, mas de homens simples, capazes de fazer os mais diversos trabalhos. Então os incumbiu de várias tarefas pequenas, reformando o máximo que conseguiu ao menos três castelos da Muralha. Além disso, se inteirou de tudo o que Jon havia feito enquanto era Lorde Comandante, incluindo o grande pedido de empréstimo ao Banco de Ferro.
—Winterfell, quando o verão chegar, vai precisar de muita comida. Agora que os Selvagens concordaram em viver conosco sob nossas regras, eles podem produzir e a Muralha venderá o que sobrar para Winterfell. – explicou Robb, enquanto andava ao lado do irmão e Edd Doloroso, mirando o Norte selvagem do outro lado da Muralha, muitos metros abaixo de seus pés – Com esse dinheiro vocês podem ir pagando o empréstimo. Shiera pode nos ajudar a convencer Harrenhal a pagar parte da dívida também, afinal é pelo bem do reino. – Jon concordou com um aceno silencioso de cabeça.
—O Trono de Ferro poderia pagar também, uma parte. – disse Edd.
—Até onde eu sei, o Trono deve muito mais do que os Sete Reinos juntos. – murmurou Jon e Edd fez uma careta – Foi por isso, inclusive, que o Banco concordou em nos fazer um empréstimo.
Robb interrompeu o passo olhando adiante. Jon e Edd o imitaram. Shiera vinha quase correndo em direção a eles, com um sorriso feliz. Aegon estava ao lado dela, parecendo igualmente feliz. Já fazia tanto tempo que não a via sorrir daquela maneira, que sorriu achando-a maravilhosamente linda, mesmo que estivessem sem conversar há sete dias. Shiera parou sua corrida, parecendo não aguentar de felicidade. Ela olhou dele para Jon e suspirou com um sorriso resplandecente, lhe estendendo uma mensagem.
—De Harrenhal! – disse ela. Robb sorriu, amando vê-la tão feliz, e se colocou a ler a mensagem. Logo, a felicidade dela o contagiou absurdamente. Era uma mensagem de Valerion, falando que Harrenhal se juntaria ao Norte, com duas boas notícias. Arya e Sansa estavam com ele, sãs e salvas. Além delas, Dorne também os ajudaria contra o Trono de Ferro. Ele pedia que o avisasse quando marchariam, pois ele planejava recuperar Riverrun antes de partir para as Gêmeas – Sansa e Arya estão bem, assim como meu irmão. Estão todos em Harrenhal e nos esperam para atacar as Gêmeas. – disse Shiera para Jon e Edd – Ele nos encontrará depois de tomar Riverrun do que restou dos Frey.
—Riverrun não foi tomada pelos Frey. – disse Aegon – Peixe Negro ainda está defendendo o castelo. Valerion provavelmente vai pegar os Frey desprotegidos. Será um massacre.
—Mal posso esperar para ver Valerion de novo. Estaremos todos reunidos! – disse ela batendo palmas, parecendo completamente diferente daquela mulher melancólica e infeliz que ela estivera sendo – Não é maravilhoso? – perguntou ela e Aegon sorriu.
—É tão bom te ver sorrir assim. – murmurou Robb e Shiera o olhou constrangida. Por um momento ela pareceu se lembrar que estivera infeliz e um pouco de sua felicidade murchou – Por favor, não pare. – riu Robb – São excelentes notícias. Vou avisar os homens. Em dois dias marcharemos para o Sul. – ele se virou para Jon – Você vem, não é?
Jon o olhou sabendo que aquela não era uma pergunta simples. Ele sabia das condições. Robb observou seu irmão mirar Shiera e ela lhe lançou um sorriso cheio de carinho. Aegon o olhou com intensidade e Jon suspirou.
—Vou. – disse ele para Robb, que o olhou severamente – Creio que os termos são os mesmos de antes. – murmurou ele.
—Termos? Que termos? – perguntou Shiera, olhando de um para o outro. Robb concordou com um aceno de cabeça, a ignorando.
—Está de acordo?
Jon olhou para Aegon e sorriu.
—Não. – respondeu ele – Sor Aegon, a Companhia Dourada aceitaria minha espada? – perguntou Jon e Aegon piscou, surpreso – Soube que ela nunca teve problemas com bastardos.
Robb olhou para o meio irmão, pego de surpresa e Aegon sorriu.
—Sempre há espaço para uma boa espada. Ainda mais quando nos referimos a um bom aço valiriano. – riu ele. Robb sentiu raiva no momento, mas Jon o olhou divertido, como se estivesse lhe pregando uma peça – Mas saiba a quem estará concordando em servir, caso entre. – disse ele misterioso e Shiera olhou confusa para o irmão.
—Do que raios estão falando? – perguntou ela.
—Tenho certeza de que você será um excelente intermediador. – concordou Jon estendendo a mão para ele. Aegon sorriu, a apertando.
—Eu gosto de você, Jon Snow. Fico feliz que finalmente esteja honrando as suas bolas. – riu ele e Jon sorriu parecendo constrangido. Ele lhe lançou um olhar um tanto culpado e Robb respirou fundo, antes de sorrir.
—Está bem, Jon... mas faça alguma gracinha e eu corto sua cabeça.
—Me lembrarei disso.
—Será que alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?! – perguntou Shiera mais do que nunca parecendo consigo mesma, com a voz autoritária de quem se achava dona do mundo. O vento bateu gelado entre eles e Robb engoliu em seco. Era hora de voltar para a guerra. E ela recomeçaria nas Gêmeas.
**
A neve ainda caía sobre suas cabeças quando eles se colocaram em marcha. Valerion engoliu em seco, segurando as rédeas de sua égua. Um enorme exército se preparava para marchar. E seria ele quem os lideraria.
Oberyn estava ao seu lado, numa posição de honra, afinal era um príncipe de Dorne. Arianne viria junto, apesar dele não ver motivos para isso, além da teimosia dos Dorneses em tentar empurrá-la para ele. Sansa e Arya também estariam no começo da marcha, afinal eram peça fundamental na aliança entre Winterfell e Harrenhal. Tyrion era seu conselheiro de confiança, então o manteve por perto também.
Alguns dos vassalos não gostaram disso, principalmente Lorde Whent, mas não deu importância. Eles teriam que aceitar a decisão dele.
Levaram muito tempo para alcançar Riverrun. Sete dias inteiros. Estava muito frio, com muita neve. Avançaram mais lentamente do que desejaria, mas logo puderam ver o exército Frey ali na frente. Eles ainda tentavam fazer Peixe Negro deixar o castelo, ameaçando Edmure Tully. Valerion liderou o ataque às forças e no cair da noite, os Frey estavam todos mortos, Edmure ferido, mas vivo. Valerion o colocou sob os cuidados de um septão qualquer e foi conversar com Peixe Negro. O conhecia desde criança e sempre o achara um homem impressionante.
A noite foi quente, num banquete comemorativo. Tinha sido uma vitória fácil. Mandara matar todos os Frey, pois pretendia riscar aquela família da história e só por insistência de Tyrion, permitiu que Genna Frey fosse mantida como refém. Genna era irmã caçula de Kevan Lannister e poderia ser usada como moeda de troca, de alguma maneira.
—Ela era como uma mãe para nós. Principalmente para mim. – disse Tyrion – Até Cersei tem um imenso carinho por ela. – garantiu o anão e Valerion cedeu.
Ficou observando a festa, sentindo-se satisfeito por aquela vitória, apesar de saber que tinha sido uma vitória óbvia. Tinha quase vinte mil homens, contra no máximo mil dos Frey. Não tinha a menor chance de perderem aquela disputa. Sansa sentou ao seu lado novamente e ele se perguntou se Myrcella teria tido a chance de receber sua carta.
Provou um pedaço de faisão e provou de sua cerveja, gostando do clima alegre de vitória. Partiria em dois dias para as Gêmeas e se fosse possível, tomaria o castelo antes mesmo que Robb chegasse. Dividiria suas forças ao meio, mandando metade contornar o Ramo Verde, para que cercassem o castelo pelos dois lados. Sabia que seria uma conquista muito mais difícil que Riverrun, mas não hesitaria por conta disso.
Depois de comer, pediu licença aos companheiros e decidiu ir até o Septo. Ainda não tinha agradecido aos deuses por ter conseguido escapar das mãos do Alto Pardal. Passara um bom tempo sem saber se teria vontade de voltar a seguir seus deuses, mas assim que entrou no pequeno Septo de Riverrun, sentiu que nada do que passara em Porto Real o afastaria de sua religião.
Acendeu uma vela para cada um dos Sete e rezou para cada um deles, deixando a Donzela por último. A ela pediu que deixasse seu coração não falar mais alto que sua mente. Mas assim que terminou de pedir isso, a vela se apagou e ele entendeu aquilo como um “de maneira alguma”.
Ficou olhando a imagem da Donzela, belamente esculpida em mármore branco. Não conseguia deixar de pensar no quanto parecia Lady Sansa. Sorriu achando-se idiota por isso e suspirou, escutando alguém fazer o mesmo atrás de si.
—O que pedes a ela? – perguntou Sansa Stark. Olhou para ela e sorriu.
—Que pare de me atormentar com amores. – respondeu voltando a olhar a estátua – Eu sou um Lorde, preciso pensar como um. E não como um garoto apaixonado. – respondeu ele e Sansa ficou ao seu lado.
—Sentes que ela atendeu teu pedido? – perguntou Sansa e ele sorriu a olhando.
—Acredito que ela está a rir de minha pessoa, na verdade. – respondeu olhando para a Donzela – Me pergunto se ainda rezas para a Donzela... – murmurou. Sansa respirou fundo, olhando para a estátua.
—Rezo. – respondeu ela – Peço que ela pare de me atormentar com amores. – respondeu Sansa e ele baixou o rosto, com um sorriso sem jeito. Ela fez o mesmo – Eu sou uma mulher agora, preciso pensar como uma adulta para sobreviver nesse mundo e não como uma garotinha boba e apaixonada.
—Sentes que ela a escutou? – perguntou e Sansa sorriu segurando sua mão.
—Acho que não é só de ti que ela ri. Mas quem somos nós para discutir a vontade dos deuses? – respondeu Sansa. Valerion segurou a outra mão dela e a beijou com carinho – Nós tivemos dias difíceis. – disse ela. Ele concordou – Eu não gosto de brigar contigo. Me lembro da primeira vez que brigamos, quando mandaste Lady embora... salvaste a vida dela. – murmurou ela à moda sulista. Era quase engraçado escutá-la falar daquele jeito.
—Eu e essa minha mania de querer te ajudar. – resmungou e Sansa sorriu, se aproximando.
—Você... você disse que eu demorei a te dar atenção. É verdade. Eu fui tola. E continuo sendo. – disse ela e ele a olhou com carinho – Você sempre foi meu cavalheiro galante. Sempre foi você quem cuidou de mim, que me protegeu... que me amou. Mas as coisas nunca davam certo. E sempre acontecia algo para nos separar... eu comecei a me perguntar se era um sinal para que eu desistisse de você. – ela suspirou – E então você me ajudou a fugir e eu te esperei e esperei. – ela o olhou nos olhos e ele derreteu mirando aqueles olhos azuis – Esperei tanto, mas você nunca voltou. – ela se aproximou mais um passo – E eu me perguntei se era o meu destino, ficar longe de você... e então eu decidi que eu quem faria meu destino. Por isso fui te salvar e eu estava certa. Mas então... então veio Myrcella.
—Sansa... – começou pensando em Myrcella.
—Mas não importa. – disse ela o olhando nos olhos – Desde que diga que me ama. – disse ela e ele sorriu – Diga que me ama e eu não terei ciúmes. Diga que me ama e que me quer e eu serei sua. – disse ela e ele sorriu mais ainda.
—Valerion. – disse alguém os interrompendo. Olhou para a porta e notou que era Tyrion – Sinto muito... mas tem algo para você. – disse ele estendendo um pergaminho – Veio de Porto Real. – adicionou ele.
Sansa bufou e o olhou significativamente.
—Lerei depois. – disse querendo que Tyrion saísse, mas o anão deu um passo adiante.
—Me parece urgente. – insistiu ele e Valerion o olhou, enfadado. Foi quando viu o cacho. Soltou-se de Sansa e caminhou até a mensagem.
—Você leu? – perguntou desatando o nó e segurando o cacho dourado, se perguntando o que aquilo significava.
—Não. – respondeu Tyrion – Mas me preocupou.
Valerion concordou e desenrolou o pergaminho.
“Se me amas como diz, virá a Porto Real, com uma escolta pequena, jurará lealdade a Tommen e se casará comigo muito em breve. Tommen perdoará todo e qualquer crime que tiver cometido, lhe devolvendo seus títulos e seu cargo no Pequeno Conselho. Estarei aguardando sua prova de amor, junto com o nosso bebê que cresce forte em meu ventre. Por favor, não demore. A Fé Militante quer invadir o castelo e nos capturar. Se eu não estiver casada com você, eles vão me matar, por favor, meu amor, me salve, me ajude. Eu imploro. Não sei se tenho muito tempo. Com amor, Myrcella.”
—O que a mensagem diz? – perguntou Sansa e Valerion sentiu-se doente. Mirou a ruiva e depois a estátua da Donzela. Amassou a mensagem, pensando em Myrcella, presa pela fé, sofrendo o que ele sofreu. Ela está grávida? Engoliu em seco sentindo a responsabilidade por seus atos inconsequentes pesar em seus ombros – Valerion?
Olhou para Sansa, sabendo o que precisava fazer. Andou até ela e a puxou para um beijo. A beijou apaixonado e ávido. Ela o beijou de volta, a princípio parecendo confusa, mas em seguida simplesmente se deixou levar. A beijou tendo certeza de quem amava mais. Tendo certeza de quem era a eterna dona de seu coração.
Eu não sou um canalha. Não sou um maldito canalha. Não posso virar as costas para ela. Olhou Sansa nos olhos e ela sorriu para ele.
—Eu amo você. – disse sentindo o coração pesar. Pensou em Myrcella, encolhida, presa, humilhada. Açoitada. Pensou em seu bebê. Pelos Sete. Ela estava grávida... – Céus, Sansa, eu amo você. – disse infeliz e ela notou que havia algo estranho em sua voz.
—O que houve? – perguntou ela e ele deu meia volta, andando a passos rápidos – Valerion! – gritou ela, mas não parou. Logo encontrou-se com Tyrion, que tinha um semblante preocupado.
—Valerion? – perguntou ele. Lhe entregou a carta de Myrcella e respirou fundo – O que a carta dizia?
—Eu preciso voltar pra Porto Real. – disse infeliz, com um nó na garganta.
—O que?! Não! – disse Tyrion.
—Eles a matam se eu não voltar. – explicou Valerion, pensando no que poderia acontecer com Myrcella – Eu preciso voltar e tirá-la de Porto Real... Tyrion... – ele engoliu em seco e Tyrion o olhou, chocado – Eu não posso ajudar o Norte. – lamentou ele e Tyrion pareceu ainda mais confuso – Eu vou me casar com Myrcella.
—Mas... eu acabei de ver você e Sansa...
—Ela está grávida. – disse Valerion, completamente infeliz e Tyrion o olhou em choque.
—O que? – perguntou Sansa. Olhou para o lado e notou que ela o tinha seguido. Voltou o olhar para Tyrion.
—Leve Sansa e Arya para o irmão delas. – pediu a Tyrion – Deixarei meus homens sob seu comando.
—Valerion, não volte lá. Pode ser uma armadilha. – disse Tyrion e Valerion negou com a cabeça.
—É a letra dela e o cabelo dela. – disse infeliz e Tyrion o segurou pelo pulso.
—Você está se precipitando! Escute, ela é minha sobrinha e eu a amo. Eu a amo como se fosse minha filha. E mesmo assim eu aconselho que você espere! – insistiu Tyrion e Valerion engoliu em seco lembrando das palavras dela. “Estarei aguardando sua prova de amor, junto com o nosso bebê que cresce forte em meu ventre. Por favor, não demore. A Fé Militante quer invadir o castelo e nos capturar. Se eu não estiver casada com você, eles vão me matar.”
—Leve-as para Winterfell... – pediu novamente, se virando para sair, mas Sansa correu para segurar seu braço.
—Não! Não vá! – pediu ela com dor no olhar – Por favor. Fique comigo! Você prometeu! Prometeu que me levaria a Winterfell. Prometeu que se uniria a meu irmão! – choramingou ela – Não faça isso comigo, Valerion. – ela segurou seu rosto e o beijou e ele sentiu vontade de morrer. Sentiu vontade de ser um ingrato e virar as costas para Myrcella e para seu bastardo, mas jamais teria coragem para tal ato – Não fuja de mim. Não me deixe pra trás. Venha comigo, por favor. – chorou Sansa – Não volte para as garras deles. – implorou ela e ele a beijou de novo, mergulhado em dor.
—Vá para o Norte e explique a situação para minha irmã. – pediu Valerion, amargurado – Diga que eu sinto muito. – pediu enquanto Sansa negava com a cabeça, veemente, tomada pelo pranto –Eu vou fazer o possível e o impossível para que haja um acordo de paz. Juro.
—Não vá, Valerion, por favor. – pediu Sansa, enquanto Tyrion terminava de ler a mensagem.
—Se você for, não vai poder sair de Porto Real novamente. – avisou Tyrion – Deixe que eu volto para Porto Real, em seu lugar. Eu negociarei com meu tio e levarei Myrcella sã e salva para Casterly Rock. – disse ele – Tio Kevan jamais concordaria em deixar que Myrcella fosse pega pela Fé Militante. – sugeriu Tyrion balançando o bilhete.
—E sobre o bebê...? Eu... – ele engoliu em seco.
—Nem mesmo sabemos se é verdade que ela está grávida. – disse Sansa – Pode ser apenas uma desculpa. Uma mentira! – disse ela e Valerion negou com a cabeça.
—Myrcella não mentiria assim. – murmurou ele.
—Valerion. Você poderia ao menos esperar uma noite. Você está muito abalado e de cabeça quente. – disse Tyrion – Nos dê um tempo para pensar sobre isso! – disse o anão e Valerion o encarou – Não vá agora. Eu, Lady Sansa, Oberyn, os Lordes vassalos de Harrenhal e você discutiremos isso com calma, amanhã.
—Não. Não quero que isso se espalhe. – murmurou envergonhado – Eu a desgracei. – lamentou pressionando os olhos – Se eles a pegarem, a Fé... eu nunca irei me perdoar. Vocês viram o que eles fizeram comigo...
—Lady Sansa. – disse Tyrion, com vigor – Lorde Valerion teve um dia difícil e cansativo. Você poderia ter a doçura de levá-lo para o quarto? Esse castelo é do seu tio, afinal. Os criados irão ajudá-la se pedir. – disse o anão e ela abraçou Valerion ao redor do braço.
—Irei levá-lo. – disse ela determinada.
—Aproveite e tente colocar algum juízo na cabeça dele.
Valerion estava aéreo e não relutou. As memórias de quando estava sendo açoitado o atingiram e ele sentiu que estava prestes a entrar em pânico, imaginando Myrcella pela mesma situação que tinha passado. É tudo culpa minha. Tudo culpa minha! Sansa falou brevemente com alguns criados e logo achou o lugar onde ele iria passar a noite. Um quarto simples e pequeno, mas com muito conforto. Ela o ajudou a se sentar e a tirar a armadura. Ela tirou todas as peças metálicas vermelhas e as colocou no chão. Ficaram em silêncio por um tempo, até que trouxeram uma tina com água quente. Sansa dispensou as criadas e o ajudou a se despir. Estava tão transtornado que nem se deu conta que estava nu na frente dela. Se deixou guiar para a tina e tentou esquecer suas angústias. Mas foi em vão.
Sansa lavou seu corpo e lavou seus cabelos. Ela massageou seus ombros e depois ficou afagando seus cabelos com carinho. Só depois de muito tempo pareceu voltar a si. Se acalmou e agradeceu baixinho à sua donzela, que sorriu amavelmente.
—Você realmente se importa com ela... – sussurrou Sansa. Valerion engoliu em seco e concordou. Sansa suspirou, sentada num banquinho do lado de fora da tina – Meu pai teve um bastardo.
—Jon Snow. – murmurou baixinho – Minha irmã era apaixonada por ele, mas ele partiu o coração dela. – murmurou engolindo em seco. Sansa concordou com um aceno de cabeça.
—Sinto muito por isso.
—Está tudo bem... – murmurou preocupado.
—Minha mãe nunca gostou de Jon, nem mesmo o aceitou... mas teve que conviver com ele, pois papai o trouxe para Winterfell e o criou com a gente. Arya o amava. – disse Sansa e Valerion a olhou – Ele sempre fui muito cuidadoso e gentil com a gente. Ele sabia que não era como nós, mas mesmo assim nos amava. Minha mãe o desprezava, mas todos nós gostávamos muito dele. Mesmo eu, que nunca tive uma relação profunda com ele, tinha um carinho muito grande por ele. Eu o via como meu irmão, por mais que não admitisse isso para minha mãe. – ela suspirou e Valerion concordou com um aceno de cabeça – Winterfell era bem grande para ela e para Jon Snow. Eles se evitavam e tudo ficou muito bem, durante muito tempo. – disse Sansa e Valerion a olhou se perguntando onde ela queria chegar com aquilo – Harrenhal é bem grande. – disse ela e ele sentiu um calafrio – Se quiser criá-lo lá, não me importarei. Desde que a mãe dele não fique lá. A mande para Casterly Rock e quando ele tiver idade para se separar dela, o traga para Harrenhal. – disse ela e ele a olhou completamente surpreso – Eu o tratarei com carinho, porque ele é seu. – ela engoliu em seco com os olhos enchendo-se de água – Serei melhor com ele do que minha mãe foi com Jon. – prometeu ela – E o bebê de Myrcella poderá crescer com nossos filhos. Eles serão amigos, como Jon e Robb foram. – garantiu ela e Valerion suspirou.
—Não sei se teria coragem para fazer isso com você. – murmurou ele.
—A outra opção é desistir de mim e ficar com ela. – disse Sansa. A olhou cheio de conflitos – Eu sei que você dá valor à sua honra e à sua palavra. Eu sei que você cogitou ou talvez ainda esteja cogitando fugir para Porto Real, para resgatá-la e casar com ela. – Sansa suspirou e lhe afagou no rosto – Eu estou aqui, completamente vulnerável, implorando que você não faça isso. Se tem pelo menos um pouco da afeição que sempre jurou ter por mim, fique. – pediu ela descendo os dedos de seu rosto para sua mão. Entrelaçaram os dedos e Sansa o beijou no punho – Fique, comigo. Por favor.
Engoliu em seco, pensando em Myrcella. Pensando nos açoites, pensando no horror que poderia ter causado a ela.
—Conseguiria continuar me amando se eu desse as costas para uma garota dessa maneira? – perguntou ele. Sansa engoliu em seco e concordou.
—É a guerra. – disse ela com a voz trêmula – Eles te obrigaram a isso, Valerion, obrigaram você a fingir ser alguém que você não era. A viver uma mentira para sobreviver. Eu sei porque precisei fazer o mesmo. Eles te colocaram em uma situação onde você não tinha opções e agora estão querendo que pague por isso. Não volte para Porto Real. Venha comigo para o Norte. Para junto de seus irmãos. Tyrion tem razão. Seu tio jamais deixaria que tocassem em Myrcella. Ela estará a salvo na Fortaleza Vermelha. – disse Sansa. Valerion suspirou sentindo-se culpado mesmo assim.
—Eu deveria ter fugido contigo, aquela noite. – murmurou infeliz – Eu deveria ter voltado para Harrenhal no dia em que Joffrey morreu. Mas eu tive medo do que aconteceria com meu pai... – ele suspirou – Se eu soubesse que ele tentaria se matar meses depois... eu não teria ficado em Porto Real e tudo teria se desenrolado de maneira diferente.
—Tyrion estaria morto. – murmurou Sansa – Você ficou e salvou um inocente. – murmurou ela lhe afagando os nós dos dedos.
—É... talvez. – murmurou infeliz. A olhou nos olhos e recebeu um olhar gentil – Perdoe-me por toda essa situação. – disse constrangido – Eu a desonrei.
—Você fez o que foi necessário para sobreviver. Se Tyrion não fosse gentil, poderia ser eu a estar grávida. – disse ela e Valerion concordou com um aceno de cabeça – Ele gosta muito de você, o Tyrion.
—Ele é um bom amigo. – murmurou de volta.
—É... ele é ok... para um Lannister. – Respondeu ela e os dois deram uma risadinha. Ficaram em silêncio e Valerion suspirou, notando o quanto estivera sujo antes do banho – Como era? – perguntou Sansa. A olhou sem entender e ela sorriu – Com Myrcella? Era bom? – perguntou ela corando horrores, ficando quase da mesma cor dos cabelos. Sorriu e suspirou, constrangido.
—Para um homem... sexo, mesmo quando é ruim, é bom. – respondeu se lembrando de quando Aegon lhe falara aquilo, anos atrás – Myrcella tinha muito fogo. Eu tentava evitar, porque não queria usá-la mais do que já a estava usando. Não era justo com ela... mas ela sempre me levava ao meu limite. – murmurou constrangido – Eu queria não ceder aos encantos dela, mas a cada vez que eu cedia, mais difícil era resistir... e chegou um momento em que eu me perguntei se a amava. Eu realmente me apaixonei por ela... mas nunca a amei... – murmurou engolindo em seco – A resposta para minhas dúvidas veio a mim quando eu te vi naquele navio. – ele deu um sorriso triste – Se lembra do Torneio da Mão? – perguntou ele.
—Sim. – respondeu ela. Valerion deu um sorriso tímido e desviou o olhar – O que? – perguntou Sansa, parecendo curiosa.
—Eu cogitei seriamente repetir o que Rhaegar Targaryen fez com sua tia Lyanna... se eu ganhasse o torneio, a coroaria Rainha do Amor e da Beleza... e talvez a sequestrasse... um dragão sequestrando uma loba. A história se repete. – riu ele e Sansa arqueou as sobrancelhas.
—Sabe que Rhaegar estuprou minha tia, não sabe? – perguntou ela e ele a olhou sem acreditar naquilo.
—Meu pai e meu irmão conheceram Rhaegar Targaryen. Eles sempre duvidaram disso. – murmurou Valerion e Sansa o olhou curiosa – Rhaegar era o exemplo de bom príncipe. – murmurou ele – Foi obrigado a se casar por uma aliança. Teve dois filhos com sua esposa, mas então ele se apaixonou por uma mulher que já estava prometida a outro. – Valerion suspirou mirando o teto – Meu pai acredita que ele não a sequestrou. Ele acredita que ela fugiu. Mas isso foi demais pro ego de Robert. Tão mulherengo... perder sua prometida para outro... deve ter sido uma facada no orgulho... e então Aerys fez o que fez com seu tio e com seu avô. – Valerion suspirou novamente.
—Então... por que ela morreu? – perguntou Sansa.
—No parto? Por que Rhaegar demorou tanto para se unir a seus homens na guerra? – perguntou ele – Talvez o príncipe desejasse ver o filho nascer... mas quando viu o caminho que a guerra tomava... ele precisou ir embora... e morreu. – Valerion a olhou com atenção – Robert viveu para contar a história que desejasse. – explicou ele e Sansa suspirou.
—Que histórias acredita que contarão sobre nós? – perguntou Sansa. Valerion engoliu em seco e a olhou nos olhos.
—Que uma certa loba de Winterfell domou o dragão negro, o salvando de Porto Real e o roubando da princesa. Bem que eu escutei que vocês Starks descendem de Bael, um bardo selvagem que sequestrou a única filha de um rei Stark e a engravidou.
—Acha que farão músicas sobre o nosso amor, como a que fizeram sobre nossos irmãos? – perguntou ela, sonhadoramente.
—Sabes que fui eu quem escreveu aquela música, não sabes? – perguntou e Sansa revirou os olhos, sem acreditar – Eu falo a verdade. Eu precisava dar um alerta a Shiera. Aquela música, a melodia, é uma melodia que Aegon nos ensinou. A letra pode falar sobre um lobo e uma senhora de olhos violetas, mas há um pouco de nós dois ali também. – riu ele e Sansa o olhou surpresa.
—Está falando a verdade? – perguntou ela, surpresa.
—Sim. E caso não escrevam uma música sobre meu amor por você, eu mesmo o farei. – prometeu e Sansa suspirou logo antes de soltar um bocejo – Estás cansada?
—Sim. – respondeu ela – Mas tudo bem.
—Pode ir dormir, minha senhora. – riu Valerion sentindo o coração acelerar. Sansa o olhou nos olhos e negou com a cabeça.
—O conheço o suficiente para saber que vai fugir se eu te deixar sozinho aqui. – rebateu ela e ele negou com a cabeça.
—Não irei. – garantiu, mas não tinha muita certeza disso. Sansa negou com a cabeça e se levantou, para ir pegar um pano macio para que ele se secasse.
—Tome. Vou procurar roupas nos armários. – disse ela deixando o pano sobre a cadeira em que estivera sentada, para então lhe dar as costas e caminhar até o armário. Aproveitou para sair da água e se cobrir. Sansa pegou uma camisa de linho e uma calça folgada e as colocou sobre a cama. Não eram vestes dignas de um Lorde, mas era melhor do que suas roupas ensanguentadas. Vestiu a calça com cuidado e então Sansa se virou para ajudá-lo a vestir a camisa – Um de seus cortes se abriu novamente. – murmurou ela e ele deu de ombros.
—Não tive muito tempo para deixá-los fechar. Só vou me recuperar de vez quando as batalhas terminarem. – murmurou e Sansa suspirou o abraçando.
A abraçou de volta, gostando do cheiro dela e ela o olhou nos olhos. Não resistiu e se curvou para beijá-la. Sansa o beijou de volta e os dois se abraçaram. A afagou na curva da cintura e Sansa o acariciou na nuca. Sentiu os pelos dos braços arrepiarem-se e acabou a puxando mais para perto. Sansa fez o mesmo, dando passos para trás, até que chegassem na cama. Ela se sentou e o puxou para beijá-lo de novo. Acabou deitando em cima dela, para mergulhar naquele beijo tão sonhado e ficaram assim, entregues, por muito tempo. De maneira respeitosa, pois não se permitiu cair em tentação com ela, além de que Sansa não lhe deu liberdades também.
Mas isso não significou que não atiçasse seu desejo. Ficaram trocando beijos até dormirem. Mas no meio da noite, ele despertou. A culpa pelo que tinha feito com Myrcella era grande demais para lhe dar alguma paz. Por isso se levantou e foi até o cinto. Prendeu Dragonblood na cintura e deu um último olhar a Sansa Stark. Saiu o mais silenciosamente possível do quarto e se esgueirou pelo castelo. Marchou até os estábulos, a procura de sua égua e quando a encontrou, tratou de selá-la.
—O que está fazendo? – perguntou uma voz vinda da escuridão, que o fez saltar de susto. Era Arya – Está fugindo? – perguntou ela e Valerion sorriu.
—Antes que tente me envenenar de novo. – disse subindo na égua. Arya sorriu divertida e suspirou.
—Você é esperto, mas nem tanto. Fui eu quem te envenenei, mas você aparentemente não entendeu o motivo. – riu ela. Valerion engoliu em seco e subiu no cavalo.
—Você quis passar um recado. “Nos traia e eu mato você”. – disse calmamente e Arya pulou para o chão, retirando uma pequena espada fina da bainha.
—Bem... foi esperto o suficiente para saber “quem” e o “motivo”. Mas estúpido a ponto de achar que era um blefe. – disse ela e Valerion bufou.
—Eu vou voltar para Porto Real e tentar fazer uma proposta de paz. – disse simplesmente.
—Acha que Cersei vai aceitar fazer paz conosco? Que vai aceitar nossos termos?
—Cersei está presa. – retrucou.
—E quão diferente dela Myrcella é? – perguntou Arya. Valerion bufou e sacou sua espada, pulando para o chão.
—Eu não quero fazer isso, mas se não sair da minha frente, vai se machucar. – rosnou. Arya sorriu como se achasse a ameaça divertida.
—Tente. – desafiou ela.
Pensou em Myrcella, nua, numa cela suja e escura, com homens a açoitá-la. E se ela perdesse o bebê por conta da tortura? Nunca iria se perdoar.
—Saia da frente, Arya Stark, ou eu vou matar você. – rosnou falando absolutamente sério.
—Eu quero ver você tentar.
Avançou sem perder mais tempo. Ela aparou o golpe e numa velocidade impressionante e com um invejável movimento de pés, ela esquivou de seu golpe o rodeando, para atacar suas costelas. Conseguiu pular para longe, mas não o suficiente e sua camisa de linho rasgou, manchando-se de vermelho. A olhou impressionado e voltou à postura de luta.
Arya quem avançou, com uma perícia impressionante. Ela lutava para matá-lo. Naerys provavelmente a tinha treinado com seus pequenos vermes sem rosto. A técnica de Bravos, da Casa do Preto e do Branco. O lugar onde seu pai aprendera a lutar. Mas Valerion, no fundo, não estava disposto a matá-la e isso era extremamente desvantajoso. Arya o cortou mais duas vezes, uma no peito e outra na barriga. Ela exibia um sorriso irritante e ele bufou irritado. Mais uma vez fez pose de luta, sentindo o corpo reclamar pelo esforço. Arya o atacou novamente e ele esquivou e recuou. Quando ela avançou com um golpe frontal, esquivou e a segurou no braço. Em questão de segundos a acertou com o punho de Dragonblood, quebrando o braço dela e lhe arrancando um grito. A socou no rosto, a jogando no chão e ela o olhou surpresa, com a boca ensanguentada.
—Continue treinando. – pediu para ela, engolindo em seco – E me mate no momento certo. – disse embainhando Dragonblood, para então voltar a montar – Eu ainda não posso morrer. Eu preciso salvar Myrcella. E desculpe pelos golpes, mas é que eu não te vejo como uma lady. Você é uma assassina. Uma das boas. – disse sentindo o sangue escorrer por seus ferimentos. Esporeou o cavalo e saiu a trote, sentindo dor. Estava há muitos dias de Porto Real, mas faria de tudo para chegar lá, ou ao menos morreria tentando.
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