Blackfyre
39 Promessas
Notas iniciais

Promessas
O soldado Lannister tremia de medo, pedindo clemência. Mas não haveria clemência. O vento soprava forte ali, nas Terras Fluviais, enquanto a Irmandade Sem Bandeiras enfileirava seus prisioneiros. O rapaz olhava para o Lannister que não parecia ter mais do que quinze anos. Ele deveria ser um escudeiro, mas estava junto dos homens de Sor Gregor Clegane, o Montanha.
—O Senhor da Luz deveria escolher um campeão, Norte. Para lutar contra esses prisioneiros. Assim saberemos quem deve viver e quem deve morrer. É assim que sempre fizemos. – explicou Thoros.
—Não importa. Essa não é a maneira antiga. Eu sou um nortenho e já que vocês me devem obediência, faremos da maneira que é feita no Norte.
—O Norte fará da maneira que se faz no Norte. – riu Anguy – O Norte se lembra. – brincou ele e todos deram risadinhas. Era uma piada entre eles. Por conta do casamento feito nas Gêmeas, que ficou conhecido de Casamento Vermelho, o povo nortenho começou a jurar que jamais esqueceria a traição dos Frey e dos Bolton. Mas como ele era um nortenho sem memória, os homens o chamavam de Norte, num trocadilho abusado. Mas ele não se importou.
—Poderão fazer uma última prece, para seus deuses, depois serão enforcados por seus crimes. – decretou Norte. Os soldados Lannister pediram clemência mais uma vez, mas ele estava surdo aos seus apelos – O homem que define a pena deve ser aquele que brandirá a espada. – disse retirando sua surrada espada da bainha – Vou dar-lhes um momento para orar para seus deuses. – pouco depois Norte estava empurrando cada um deles das pedras onde estavam apoiados. A altura era curta, então nenhum quebrou o pescoço. Ficaram tremendo e morrendo aos poucos, até que não restasse vida em seus corpos.
O sol estava para se pôr quando eles voltaram para o acampamento. Estavam cansados, mas satisfeitos. Conseguiram bom aço, comida e algumas moedas, que pretendiam distribuir para aqueles que precisassem. O aço ficaria com eles.
Estavam fazendo um bom trabalho ajudando as pessoas e atrapalhando as tropas Lannister e Frey. Sempre capturavam grupos pequenos e batedores, que forneciam informações valiosas, assim como suprimentos, aço e comida. Algumas vezes umas poucas moedas também. Aquela era a vida que aqueles homens levavam com satisfação. Mas Norte não era como eles. Ele era um homem sem passado. E enquanto não recuperasse isso, não poderia entender o próprio futuro.
Estava muito cansado quando se deitou numa pedra qualquer, perto do fogo. Os membros da Irmandade preparavam a fogueira para assar uns coelhos que tinham encontrado, assim como uns gansos selvagens. Tinha sido um dia bom.
Permitiu que seus olhos se fechassem por um momento, apenas um momento, e como sempre, os fantasmas confusos de seu passado vieram lhe perturbar. Uma mulher ruiva, com um semblante sério chamava por ele, pedindo que corresse. Um homem entristecido estava ao lado dela. E ambos seguravam entre as mãos, na altura do ventre, suas respectivas cabeças. Norte não fazia ideia de quem eram essas duas pessoas, mas os dois olhavam para ele com olhares distantes e frios.
Depois sonhou com Winterfell. Sonhou que estava ao lado de uma donzela, no Bosque Sagrado. Ela estava deitada, com a cabeça na relva, usando uma folha vermelha de represeiro como um pequeno barco para seus dedos delicados e finos. Os longos cabelos negros dela lhe alcançavam a cintura fina e Norte sentia-se sempre tentado a beijar-lhe a face. Mas sempre que o fazia, ela ficava fria, pálida, morta. Sua esposa, que ele imaginava se chamar Lyssandra, havia morrido. Nunca era capaz de ver o rosto dela, então ficou a observá-la de costas, com aquele vestido fino e fresco do verão. Uma imagem que não fazia sentido, já que não se usavam roupas assim em Winterfell...
Mas depois desse sonho, veio o sonho de lobo. Sonhava que era um lobo, mirando o Norte, lá de cima da Muralha, ao lado de Lyssandra. Apenas nos sonhos de lobo conseguia ver o rosto de Lyssandra. Ela estava sempre viva e bela, com as bochechas coradas e um sorriso doce, a lhe afagar as orelhas e lhe dar abraços. Algumas vezes, quando se deitava, ela o abraçava e pedia para que ele voltasse pra ela... sempre que ela o fazia, ele levantava acampamento no dia seguinte, para marchar mais para o Norte... como se houvesse algo a chamá-lo. Algo urgente e irresistível.
Normalmente acabava acordando nesse sonho, escutando a voz de Lyssandra. Mas não foi o que aconteceu. A ficou observando enquanto ela se arrumava. Ela penteava os cabelos, pintava os lábios e mascava folhas de hortelã. Havia uma coroa em sua cabeça e anéis de ouro em seus dedos. Se perguntava o motivo de tanta pompa. Ele e Lyssandra eram camponeses. Tinham se conhecido em Harrenhal, durante um torneio. A vira dançando alegremente ao som de uma música animada e se apaixonara perdidamente. Ela dissera que a mãe dela era uma puta e que por isso jamais conhecera o pai, mas isso nunca importou pra ele. Mesmo quando ele ainda tinha um nome. Provavelmente um Snow... talvez nem isso. Mas se lembrava de ter se casado com ela, em frente a um represeiro, numa noite cheia de alegria e cerveja.
Mas então seu sonho mudou. Deixou Lyssandra se arrumando e se viu cavalgando. Estava seguindo alguém. Um homem, com pele de lobo nos ombros e uma coroa de bronze e ferro em cima dos cabelos vermelhos e ondulados. De um lado dele havia um lobo gigante e cinza. Do outro estava as costas de Lyssandra.
Norte abriu os olhos, sem saber o que aquilo poderia significar. Lembrava de encontrar sua amada Lyssandra perto do rio, gelada e morta, no meio da Mata dos Lobos. Era a última lembrança que tinha dela.
—Norte, aceita uma pata? – perguntou Thoros. Norte se sentou e esticou a mão para pegar a pata assada do coelho, que pingava uma suculenta gordura – Com que estava sonhando?
—O de sempre. O casal decapitado, Lyssandra, sonhos de lobo... e depois Lyssandra e um homem... acho que era o rei. – murmurou suspirando – Acho que eu vi as costas de Robb Stark... a mulher ao lado dele deve ser Lady Shiera. – Norte mordeu um bom bocado da coxa do coelho e quando engoliu, adicionou – Lyssandra se parecia um pouco com ela.
—Um pouco?
—Sim. Não tenho certeza... minhas memórias estão confusas. Algumas vezes não sei se estou vendo a rainha ou minha esposa. – suspirou e Thoros sorriu de maneira enigmática.
—Em breve estaremos oficialmente no Norte... tem certeza de que deseja continuar? Você pode ser um Nortenho, mas... é o único de nós. Os homens não estão acostumados com o frio do inverno nortenho.
—Faremos fogueiras. – murmurou decidido, para depois morder mais um pedaço da coxa de coelho. Thoros sorriu como se estivesse se divertindo e lhe estendeu seu corno de cerveja. Norte aceitou, tomando um gole, mas então devolveu a bebida – Você já viu a Rainha Shiera?
Thoros o olhou com atenção e sorriu interessado na conversa.
—Você já? – perguntou o sacerdote. Norte soltou um suspiro, se concentrando.
—Lembro de quando ela se casou com o rei. – disse franzindo o cenho – Lembro que a achei tão linda, que fiquei intimidado, na hora de despir a noiva... e quando eu a vi nua, em frente aos lordes enquanto eles a levavam para a noite de núpcias... eu tive ciúmes. Não queria que olhassem para ela.
—E depois? Quando o rei se encontrou só com ela? – perguntou Thoros e Norte suspirou.
—E então fica confuso. – disse ele – Só consigo pensar em Lyssandra. Quando estou atravessando um campo florido, e vejo lavandas, eu penso nela... Lyssandra cheirava a lavanda e groselha. Ela adorava groselha. Os lábios dela ficavam muito vermelhos e doces... eu me lembro disso.
—Você amava sua esposa, não é, Norte?
—Perdidamente. – sussurrou ele – Mas não consigo lembrar de tudo. Lembro que brigamos... quando ela morreu, estávamos brigados. Eu não pude me desculpar com ela.
—Por que brigaram? – perguntou Thoros e Norte suspirou.
—Eu não sei.... Mas... Mas lembro de observá-la... lembro de vê-la triste. Mas estávamos zangados um com o outro... e então eu bebi muito... para tomar coragem... queria fazer as pazes com ela... – ele engoliu em seco e Thoros seguiu o encarando – Mas ela tinha morrido... se jogou no rio, pois eu a fazia infeliz.
—Você a amava, Norte. É o que importa.
—Será mesmo? – perguntou ele tirando uma adaga da bota e suspirando. Jogou o osso de coelho na fogueira e começou a limpar as unhas com a ponta da adaga – Acho que era mais importante que ela soubesse que eu a amava... talvez ela não tivesse tentado se matar.
—Você tem certeza que ela morreu? – perguntou Thoros, num sussurro quase inaudível.
Se lembrava... lembrava de encontrá-la morta, na floresta. Pálida e fria... logo ela, que era sempre tão quente quanto um dia ensolarado de verão.
—Eu quem a encontrei. A abracei perdido em dor e chorei. Ela não respirava e o coração não batia. No meio da Mata dos Lobos... morta afogada... morta de tristeza...
—Tem certeza? – insistiu Thoros e Norte suspirou.
—Se ela ainda vive, é prisioneira dos Bolton... e se é prisioneira dos Bolton, provavelmente estará desejando morrer. Ela era bonita, Lyssandra. Os homens seriam cruéis com ela. – disse infeliz – Por isso espero que tenha mesmo morrido afogada... para que tenha tido um enterro... sem mais sofrer nas mãos dos outros.
Thoros deu um grande gole em seu corno de cerveja e suspirou. Ficaram alguns segundos em silêncio, até que o sacerdote resolvesse falar.
—Vamos levantar acampamento? – perguntou ele. Norte deu de ombros.
—Para onde? – perguntou ele. Thoros sorriu e lhe estendeu a mão, para que levantassem.
—Para uma taverna. É hora de escutar uma certa música.
—Anguy conhece todas as músicas. – resmungou Norte.
—Mas são poucos os que têm a perícia para tocá-la... acho que é hora de irmos para Porto Branco. Amanhã atravessaremos o Gargalho e marcharemos para...
—Norte. – cortou Norte com um sorriso empolgado – Nós finalmente iremos para Norte?
—Para o Norte, meu jovem... para seu futuro.
**
Sansa olhou pela janela pela décima vez naquela manhã. Usava o vermelho e preto da casa Blackfyre. As roupas de Shiera não mais lhe serviam, então agora lhe emprestavam as roupas de Rohanne. Sansa nunca imaginara que lhe concederiam essa gentileza, levando em consideração seu status de fugitiva, mas muitos no castelo a olhavam como se ela já fosse a senhora dali. O castelão, Naerys Otherys, a chamava para que ficasse a par de todos os assuntos do castelo, desde a parte administrativa, até questões de picuinhas entre as pessoas comuns.
A ruiva já conhecia o castelo como a palma de sua mão. Apenas o quarto do senhor do castelo lhe era proibido, assim como as masmorras. Todos os outros cômodos estavam ao seu dispor, graças à carta que Valerion lhe entregara. O senhor Naerys lhe deixava ler todas as cartas que os corvos traziam. Como Harrenhal não tinha um Meistre, era o velho quem cuidava dos pássaros. Mas os olhos dele estavam já muito cansados, então ele pedia que ela lesse para ele e o ajudasse a tomar decisões. Eles conversavam sobre hipóteses e mais hipóteses sobre o rumo da guerra e sempre que uma carta nova chegava, com uma nova notícia, ele a chamava para mais uma longa conversa de hipóteses novas.
No início aquela tarefa se mostrou maçante. Mas agora que já se passara um mês, aprendera a gostar bastante. Sentia que estava aprendendo como as regras daquele jogo sangrento funcionavam.
“Valerion quer casar contigo. Quer que a senhorita seja a senhora desse castelo. Então preciso ensinar-lhe a pensar como a senhora desse castelo. E para ser senhora de Harrenhal, não basta apenas ser boa com danças e sorrisos. Já que não sabes lutar, preciso que saibas tramar.”
Logo ela teria que sair para cavalgar. Naerys não estava interessado em ser discreto sobre a presença dela ali.
“Que os leões venham.” Dissera ele.
Mas se vierem, seriam os muros de Harrenhal grandes o suficientes para deter Tywin Lannister...?
Sansa bufou, ansiosa, e mirou outra vez a janela. Mas não via cavalos. Ele demora tanto... por que demora tanto?
Foi quando bateram na porta. Sansa se virou e viu sua pequena irmã, Arya. Ela usava roupas masculinas, tinha sua pequena espada no quadril – aparentemente um presente de Jon. Uma adaga na coxa, um arco nas costas. Os cabelos curtos caíam sobre seus olhos cinzentos. Quem as olhasse jamais diriam que eram irmãs.
A verdade era que nunca tinham agido como tal. Eram inimigas e implicavam sempre uma com a outra, mas as coisas tinham mudado. O destino trouxe Arya a Harrenhal há tempos atrás, onde ela ficou sobre a proteção de Lorde Haegon. Ele a nomeou seu escudeiro e a treinou como se fosse um garoto, pela alcunha de Arry. Mas quando ele partiu para Porto Real, junto de Myrcella, que nunca reconheceu Arya, a menina loba ficou sobre os cuidados de Naerys. Cada irmã recebeu um treinamento diferente. Sansa estava sendo treinada para pensar. Arya para lutar.
“Os Stark serão vingados quando tiverem mente e corpo para isso. Temos aqui mente e corpo.” Disse ele apontando de Sansa para Arya.
Graças a todas as desventuras de ambas, as rixas haviam desaparecido. Arya não era sua melhor amiga, nem de longe. Mas já não havia brigas idiotas entre as irmãs. O lobo solitário morre no inverno, mas a matilha sobrevive... Robb morreu porque estava só. Bran porque estava quebrado e Rickon porque era muito jovem. Mas eu tenho Arya e ela tem a mim. E nós vamos proteger uma a outra até o final.
—O que houve? – perguntou Sansa. Arya suspirou e cruzou os braços, encostando-se no batente da porta.
—O Velho Tartaruga. – respondeu ela e Sansa concordou com um aceno de cabeça – Ele quer falar com você.
—Certo. – murmurou simplesmente – Só comigo?
—Ele quase nunca fala com a gente ao mesmo tempo. – disse Arya dando de ombros. Sansa concordou e se virou para andar até a irmã.
—O que pretende fazer agora? Vai passar um tempo com Gendry? – perguntou com um sorrisinho e para sua total satisfação a irmã caçula corou.
—Não. Pra que eu iria ficar olhando o Gendry martelar um monte de espadas idiotas?
—Hum... porque ele é um charme sem a camisa? – perguntou num tom inocente e Arya lhe deu um sorrisinho travesso. As duas irmãs deram risadinhas e Arya negou com a cabeça.
—Não. Eu vou treinar a minha dança. – disse ela, decidida e Sansa suspirou.
—Está certo. Não é como se eu estivesse surpresa. – riu ela.
—Eu lembro do quanto você ficou tonta por conta do Joffrey. Eu não quero passar por isso, obrigada...
—Mesmo ele sendo interessante quando está todo sujo de suor, trabalhando na forja?
—Nop.
—Nada passa pela sua cabeça? – insistiu querendo saber se sua irmãzinha já estava prestando atenção nos rapazes, mesmo que Gendry fosse mais velho.
—A única coisa que passa pela minha cabeça é que eu queria que fosse a cabeça do Joffrey que ele estivesse martelando... ou Cersei, ou Cão de Caça, ou Sor Gregor, ou...
—Entendi o seu ponto. – cortou Sansa e Arya deu de ombros com uma carinha de estranha satisfação. As duas irmãs se separara no pátio, onde Arya rumou para a parte onde as arqueiras treinavam. Sansa seguiu para a torre dos corvos, que era onde Naerys costumava ficar. Subiu os degraus apressadamente, sentindo as coxas fraquejarem de leve, mas logo alcançou a porta. Respirou fundo e entrou na sala circular, cheia de gaiolas, cada uma com um par de corvos. Naerys estava alimentando as aves, colocando grãos para elas. Sansa sorriu gentilmente e o Velho Tartaruga a olhou gentilmente – Senhor Naerys. – cumprimentou fazendo uma mesura.
Naerys era uma um homem muito velho, com um pescoço comprido e curvo, como o de uma tartaruga. Além disso a idade o tinha encurvado e podado seus movimentos. Ele era trêmulo e flácido, mostrando que num passado tinha sido gordo, mas que perdera peso rápido demais. Não havia apelido para ele melhor do que Velho Tartaruga. Mas ele era um homem inteligente e gentil. Quando falava de Lorde Haegon, Aegon, Valerion ou Shiera, sua voz era sempre repleta de calorosa nostalgia. Era mais do que óbvio o amor que ele sentia pela família Blackfyre. Ele podia não ter uma corrente no pescoço, mas Sansa só conseguia lembrar-se de Meistre Luwin ao olhar para ele.
—Minha cara Lady Sansa... – disse ele com os dedos trêmulos, enquanto jogava alguns grãos para um corvo que não estava preso em uma gaiola – Sei que já disse isso mais de uma vez, mas as cores dos Blackfyre a favorecem. – Sansa sorriu, orgulhosa de si – Oh, quando o senhorzinho a ver, vai morrer de tanto suspirar. – Naerys deu uma risadinha cheia de saudades e Sansa sorriu novamente – Pena que não sabemos quando isso vai acontecer... – adicionou ele parecendo um tanto quanto triste.
—Valerion deve estar chegando a qualquer momento. – disse Sansa, esperançosa. Naerys soltou um longo suspiro e se sentou com alguma dificuldade numa cadeira. O corvo que estava solto pulou para o ombro dele e olhou curioso para a donzela.
—Receio que não. – disse Naerys com um pergaminho nas mãos trêmulas. Sansa andou até ele e ergueu a mão para pegar o papel, mas o velho sorriu gentilmente – Acredito que não saberá ler esta, minha senhora. Valerion e Shiera... eu quem ensinei as letras para eles... aprenderam rápido, ao contrário de Aegon. Mas os enfadava que eu soubesse ler todos os segredos que eles escreviam. Então eles...
—Inventaram um código só dos dois. Eu sei. – disse Sansa abrindo o pergaminho e reconhecendo a letra bonita de Valerion – Ele me ensinou, lá em Porto Real. Era como conversávamos, depois que ele foi proibido de falar comigo.
—Oh... você conhece... – murmurou ele, sem jeito.
—Sim, só preciso de um papel para transcrever. – disse ela com segurança – Você também conhece o código?
—Ele enviou-me... por você... naquela carta. – disse o Velho Tartaruga, arfando um pouco – Poupe-se do trabalho, minha jovem... eu posso dizer o que tem ai...
Sansa suspirou olhando o velho.
—Pode me dizer o que tem na carta, mas gostaria de ficar com ela... sinto tanta falta do meu amor. Ter essa carta escrita por ele me faria sofrer menos de saudades.
—O que significa que não confia plenamente em mim e vai conferir para ver se não mudei ou omiti informações. Muito bom. – manteve o rosto baixo, fingindo que lia a carta, para que dificultasse que o velho lesse suas reações – Eu teria acreditado se não soubesse tudo o que já passaste... e se não soubesse o quanto pode ser astuta. Myrcella dizia que você era apenas uma garota sonhadora... mas vejo que as coisas mudaram, não é mesmo?
Sansa suspirou ainda mirando a carta.
—Valerion precisará ir para Dorne? Por que para Dorne?! – perguntou zangada, mirando Naerys. O velho apenas suspirou.
**
Myrcella olhou-se no espelho, terminando de se arrumar para o velório do avô e do sogro. Valerion cancelara sua viagem de volta para Harrenhal, para enterrar o pai. Haviam dois suspeitos para o assassinato de ambos: o Príncipe de Dorne, Oberyn Martell e novamente seu tio, Tyrion Lannister.
Mas pelo menos dessa vez ninguém tinha sido preso. Valerion, Oberyn e Tyrion estavam há horas de viagem quando Tywin Lannister e Haegon Blackfyre morreram. Sua mãe desconfiava que tudo tinha sido culpa de Tyrion, mas Myrcella não acreditava nisso.
A garota ficou de lado, admirando sua silhueta no espelho, procurando por uma barriga que provavelmente levaria meses para surgir... isso se tivesse engravidado. Respirou fundo, alisando o ventre e escutou a porta se abrir. Era sua mãe.
As duas estavam num clima muito gélido. A rainha não aprovava seu noivado com o jovem dragão e ainda estava magoada por seu comportamento de proteger Valerion, mesmo depois dele confessar ter assassinado Joffrey.
A mais nova desviou o olhar do da mãe e pegou o colar que ganhara do falecido Lorde de Harrenhal. Combinava perfeitamente com o vestido negro que estava usando, pelo luto que precisava demonstrar. Mas fez questão de colocar joias enfeitadas com rubis, para mostrar que em breve seria uma Blackfyre. Por conta do sangue Lannister, joias de rubis era o que não lhe faltavam.
—Está bonita, meu bem. – murmurou sua mãe, num tom que demonstrava que ela vinha com a intenção de fazer as pazes.
—Obrigada. – disse pegando um pouco de perfume.
—Myrcella... precisamos conversar. – disse a rainha e Myrcella se virou para a mãe. O rosto cheio do orgulho dos leões. E em breve serei um dragão...
—Mamãe, se for pedir novamente que eu me afaste de Valerion...
—Não. Não vou pedir isso. – disse a rainha e Myrcella a olhou com interesse – Lorde Haegon declarou mais de uma vez que Valerion Blackfyre era seu herdeiro. Os Blackfyre são uma família extremamente rica, quase tão rica quanto nós. – disse a rainha a olhando com atenção – O Trono de Ferro é de Tommen, mas a guerra não acabou. A irmã dele ainda tem forças no Norte e Varys reportou que ela e Stannis estão negociando uma aliança. Theon Greyjoy é o herdeiro das Ilhas de Ferro e os homens de ferro têm a maior frota de Westeros. – Cersei veio se aproximando com o olhar sério. Ela usava um belo vestido negro, com detalhes simples, mas bonitos. Até as joias dela eram de ônix negro e ouro, para mostrar o luto que sentia pela morte de Tywin Lannister. Os cabelos dela eram muito dourados e a pele era muito pálida, contrastando demais com o negro da roupa, lhe dando até um aspecto um tanto quanto doente. Myrcella ficara meses em Harrenhal, aproveitando o sol das Terras Fluviais. Por isso sua pele tinha um aspecto róseo e não parecia ficar tão enferma em trajes negros. Myrcella notou também algumas rugas nas laterais dos olhos da mãe, indicando que ela já não era mais tão jovem – Os homens das Terras Fluviais devem lealdade a Walder Frey, pois ele herdou o título de Protetor. Mas ele não aspira lealdade. Ele não é querido. Os Tully, com Peixe Negro, defendem Riverrun com todas as forças e muitos das Terras Fluviais ainda olham os Tully como se eles fossem os suseranos verdadeiros. A guerra não acabou, Myrcella. E o nosso maior trunfo era seu avô e agora ele está morto. – adicionou Cersei e Myrcella piscou, absorvendo todas aquelas informações. Não era exatamente algo novo para ela, poderia ter inferido tudo aquilo... mas ainda não entendia o motivo de sua mãe estar lhe contando aquelas coisas. Normalmente o assunto política era evitado nos jantares em família. Sempre era Joffrey ou Tommen quem precisavam escutar aquele tipo de coisas. A ela ofereciam os melhores conselhos sobre bordados, recepções, vez ou outra, aulas de história e as fofocas do reino. Mas Myrcella sentia que aquela conversa tomaria um rumo muito mais interessante – Os Tyrell não são de confiança e eles são nossos maiores aliados, agora que Haegon Blackfyre morreu. – Cersei se aproximou e alisou os cabelos da filha, que sentia um frio na barriga ao receber aquele olhar penetrante dos olhos verdes da mãe – Precisamos que Valerion Blackfyre esteja ao nosso lado, Myrcella... ou seu irmão não será rei por mais tempo que Joffrey foi... e só você pode fazer isso... fazer com que Valerion fique conosco.
—Como? Seduzindo-o? – perguntou magoada, virando o rosto – Agora quer me usar dessa maneira? – perguntou furiosa, voltando-se para o espelho.
—Não será preciso seduzi-lo. – disse Cersei – Eu jamais a usaria dessa maneira. Você é minha filha e não um cavalo que eu posso vender. – Myrcella viu a mãe se aproximar para arrumar melhor o colar em seu pescoço – Valerion é um cavalheiro de uma canção. Homens assim não precisam ser necessariamente seduzidos. Apenas cobrados. Você foi prometida a ele. Ele lhe deve a própria honra, Myrcella, não o deixe se esquecer disso. E já que o ama, como diz que ama... então seja o pescoço dele.
Myrcella olhou para a mãe, completamente confusa.
—Ser o pescoço? – perguntou ela, franzindo o cenho.
—Ele será a cabeça. Comandará a família, dará as ordens. Mas você deve ser o pescoço... que é quem vira a cabeça para onde deseja. – explicou Cersei – Precisa aprender a lidar com ele, para ganhar a confiança dele e o afeto dele. E então guiá-lo, Myrcella. Deve fazer com que ele esqueça Sansa Stark, completamente, ou a cadela irá ter tudo o que você sempre desejou... incluindo ele.
Myrcella respirou fundo e mirou-se no espelho.
—Como posso competir com Sansa Stark? Ele a colocou num pedestal... – resmungou Myrcella – O que eu faço, mamãe?
—Eu gostaria de ter essa resposta pra você. – suspirou sua mãe, ao seu lado – Eu gostaria de ter superado Lyanna Stark. Mas você tem algo a seu favor que eu não tive.
—O que? – perguntou Myrcella.
—Sansa Stark está viva, ela não é um fantasma. Então você tem alguém para derrotar. Eu tive apenas um fantasma insuperável. Você tem uma rival. Derrote-a. – disse Cersei antes de soltar um longo suspiro – Ou os lobos vão matar a todos nós.
Myrcella engoliu em seco e observou a mãe. As duas trocaram um olhar profundo e a garota voltou a se arrumar, sentindo algo pesado no fundo do estômago.
Quando ficou pronta, acompanhou a mãe para fora, sendo seguidas pelas damas de companhia, principalmente Taena de Myr, uma dama de companhia de sua mãe. Myrcella não deu atenção às suas damas, no caminho para o Septo de Baelor, onde o avô estaria sendo velado. Lorde Haegon também estaria lá, a pedido de sua mãe, uma grande honra para qualquer lorde, mesmo que Lorde Haegon não fosse nenhum pouco devoto à Fé dos Sete.
Myrcella seguiu com os olhos inquietos por todo o castelo, até encontrar quem procurava. Era Bry quem andava de um lado para o outro, completamente inquieto. A princesa escorregou para longe da mãe, que a olhou brevemente, mas acabou sem criar caso. Myrcella apressou o passo e logo Bry a viu, fazendo uma mesura bem treinada.
—Princesa Myrcella. É uma...
—Vamos pular essas formalidades, está bem? – perguntou ela, inquieta – Onde está Valerion? – perguntou olhando para o escudeiro de seu amado – Eu gostaria de ajudá-lo agora, nesse momento difícil. – pediu ela e Bry concordou.
—Sor Valerion está no porto, se preparando para o velório de Lorde Haegon. – explicou Bry – Ele mandou que eu não o seguisse.
—Por que no porto? – perguntou Myrcella – O pai dele foi levado para o Septo.
—Sim, mas Sor Valerion vai dar o funeral dos piratas ao pai. Um desejo antigo do velho, aparentemente. – disse Bry, dando de ombros.
—Valerion vai jogá-lo no mar? – perguntou surpresa.
—Parece que sim. – respondeu Bry. Myrcella respirou fundo e se virou para andar apressada, até uns guardas Blackfyre. Estava sendo seguida de perto por Arys Oakheart, membro da guarda real que sempre a seguia – Senhora... vai ir até o porto? E o senhor seu avô?
—Vovô pode esperar. – disse com urgência e sentiu a mão de Sor Oakheart em seu ombro.
—Princesa... acha mesmo prudente...
—Sor Arys, por favor. – disse rispidamente – Eu estou indo para o Porto e conto com a sua proteção.
Sor Arys, que era sempre muito gentil, apenas suspirou e concordou.
—Claro, princesa.
Myrcella então foi até os guardas Blackfyre, que se curvaram imediatamente.
—Desejo que me levem até Valerion. Parece que ele está no Porto.
—Soubemos disso, Vossa Graça. – murmurou um soldado qualquer.
—Então não vamos perder tempo. – disse decidida e liderando a marcha. Os soldados Blackfyre a seguiram imediatamente, fazendo com que Sor Arys ficasse em completo contraste, com sua armadura branca, absolutamente diferente das armaduras negras dos outros soldados.
Levou tempo demais até chegar no porto, mesmo que as ruas estivessem livres. Quando deixou a liteira, logo viu Valerion, em um dracar, a mirar o mar com o olhar distante. Deixou seus homens para trás, até mesmo Arys, pois queria conversar a sós com o cavalheiro. Subiu no dracar e se aproximou do rapaz, mas ele não pareceu notar. Ainda mirava o mar com um olhar perdido e infeliz. Seus cabelos prateados balançavam ao vento de maneira harmoniosa. Os olhos violetas brilhavam, entristecidos, melancólicos. Ele usava a armadura que tinha usado na batalha contra a Montanha e segurava o elmo de dragão embaixo do braço.
Myrcella suspirou e se aproximou mais um passo, mais um e mais outro depois, até estar ao lado dele. Só então Valerion pareceu notá-la, pois ele se afastou para ficar de joelhos de maneira absolutamente respeitosa.
—Vossa Graça. – murmurou ele com a voz quase ausente. Myrcella o puxou para cima e colocou as duas mãos nas bochechas de seu amado, suspirando ao olhar para ele – Eu... – ele engoliu em seco – Minhas condolências... pelo seu avô...
—E as minhas, pelo seu pai. – disse antes de abraçá-lo. Valerion largou o elmo no chão, para sua surpresa, e a abraçou de volta, afundando o rosto em seus cabelos, a pegando completamente desprevenida – Eu sinto muito, Valerion...
—Eu estou sozinho. – sussurrou ele – Eu estou com medo. Aegon quem deveria estar aqui... não eu. – disse ele e Myrcella notou que Valerion tremia – Eu sou o caçula de três. Aegon nasceu pra comandar. Ele foi treinado pra isso. Shiera sabe fazer isso também... eu... eu não passo de um garoto assustado. Onde eu estava com a cabeça? – perguntou ele a puxando mais para perto e suspirando. Myrcella o abraçou mais forte e suspirou também.
—Você não está sozinho, Valerion. Eu estou aqui. – disse suavemente e ele a afastou de uma vez, para olhá-la com atenção.
—Você não entende. Você é um leão. – disse Valerion e Myrcella bufou – Eu vou enterrar meu pai, e nenhum dos meus irmãos estará comigo, porque são todos inimigos do reino, caçados pela sua família. Todas as garantias que seu avô nos prometeu caíram por terra. Tommen não saberá cumpri-las, pois sua mãe não vai querer cumpri-las. E o que você vai poder fazer? – perguntou ele, zangado, com os olhos brilhantes e cheios de água.
—Eu estarei aqui pra você, Valerion, como sempre. – disse Myrcella, com todo o carinho que conseguiu juntar – E irei interceder por você com a minha mãe e com o meu irmão. Eles precisam de você. Eles precisam de Harrenhal. Não tenha dúvidas de que eles vão ser generosos com você.
—E com minha irmã? Vão abrir mão da metade do reino pra ela? E quanto a Aegon? Quando ele vier com Daenerys e metade de Essos com ele? O que vai ser de mim? Serei só mais um refém, de novo! – disse ele se afastando, parecendo angustiado. Myrcella suspirou e se aproximou mais do rapaz, que voltava a virar o olhar para o mar – Ele me deixou de novo. Falou que eu teria minhas respostas, mas só tenho mais dúvidas em minha mente. – ele tirou a espada da bainha e a olhou parecendo inconsolável – Aegon deveria liderar Harrenhal, não eu...
—Valerion. – chamou Myrcella e o rapaz a olhou – Você é capaz. Seu pai acreditava que era. E eu acredito que seja. – a loira suspirou e o abraçou ao redor do braço – Então vamos. Seu pai iria querer que você fosse se despedir dele.
Valerion suspirou, parecendo mergulhado em dor. Mas aquilo só o deixava mais bonito, em sua opinião.
—Eu... eu não estou pronto pra vestir o manto dele. – disse ele e Myrcella suspirou – Eu não posso fazer isso sozinho. – ele sorriu tristemente, como se sentisse pena de si mesmo – Não devo estar nem perto do homem que você conheceu. – adicionou ele.
—Não. Mas eu estou gostando disso. – disse Myrcella e Valerion a olhou confuso – Parece que estou vendo você de verdade pela primeira vez. Confuso e perdido demais para tramas, teatros e frases ensaiadas. Puramente você.
—Deve ser um tanto decepcionante. – murmurou ele, desviando o olhar.
—Não. Você me abraçou e se abriu comigo. Você assumiu que precisa de ajuda e até disse que não se sente seguro com a minha família. – riu Myrcella – Venha, Valerion. Vamos juntos. Eu serei seu braço forte e vou te proteger, enquanto você não tem cabeça pra isso. Somos uma equipe.
Valerion engoliu em seco e se afastou, para pegar o próprio elmo. Ele guardou a espada na bainha e suspirou, olhando tristemente para o mar. Myrcella entendia em parte o que ele sentia. Também era órfã de pai. E tinha perdido um irmão e um avô. Também se sentia pesada, com o fardo de um nome importante nas costas. Talvez o golpe tivesse sido maior nele, então estaria ali para ele. Jamais o deixaria partir...
—Você é um homem de sorte, Valerion. – disse uma voz vinda de trás dos dois. Valerion e Myrcella olharam e notaram que era Oberyn Martell. Ele vinha numa caminhada sensual, com um sorriso divertido, mirando o casal. Valerion o olhava parecendo infeliz, mas Myrcella respirou fundo erguendo a cabeça, balançando a juba dourada para trás – Uma doce princesa, que tem tanto afeto por você. – Oberyn sorriu para os dois – Eu vim apressá-lo, Valerion. E convidá-lo para um passeio. Precisamos conversar. Mas, depois... teremos tempo para isso depois...
Valerion suspirou, infeliz, mas concordou com um balançar de ombros. Myrcella abraçou o braço de seu prometido e guiou a caminhada. Valerion manteve os olhos no chão, até que chegaram na liteira. O príncipe Oberyn preferiu ir na própria liteira, com a dornesa que o acompanhava. Myrcella sentou-se ao lado de Valerion e entrelaçou os dedos com os dele. Valerion a olhou e lhe lançou um sorriso triste, para em seguida lhe beijar a testa.
—Obrigado, Myrcella. – sussurrou ele. Ele se afastou minimamente, a olhando nos olhos. Os olhos violetas dele a deixavam tonta. Ele suspirou, a afagando no rosto, de maneira carinhosa e ela se perguntou o que passava pela mente dele – Meu pai queria muito que eu me casasse com você. – sussurrou ele e ela prendeu a respiração – Mas ainda não estou pronto pra isso... por favor. Me permita um tempo... – ele se afastou e passou a mão pelos cabelos sedosos – Eu tenho muita coisa para pensar agora.
—Eu entendo. – suspirou Myrcella e Valerion fechou os olhos, jogando a cabeça para trás – E eu espero.
**
Oberyn observou Valerion mirar o pai com um olhar muito perdido. Por um momento se perguntou se ele estaria pronto para seu destino, quando a hora chegasse. E também se perguntou se Arianne gostaria dele o suficiente para concordar com o plano de Doran. Sabia que ela iria gostar de Aegon, mas Valerion... Valerion era um garoto de uma canção e não um homem que uma Dornesa ardente iria aprovar.
Mas pelo bem de Dorne, ela irá aprová-lo. E então os Lannister saberão que não são os únicos que pagam as suas dívidas.
O Septo de Baelor estava lotado. Completamente lotado. O reino viera oferecer seus cumprimentos aos falecidos. Haegon faria falta, certamente. Não haviam muitos que não sentiam muita empatia pelo Lorde de Harrenhal. E Oberyn tinha certeza de que Valerion passaria pelo mesmo. Ele já era muito popular, o rapaz.
Haegon e Tywin estavam lado a lado, no centro do Septo. Cada um com as cores e o brasão de suas respectivas casas, com pedras com olhos desenhados em seus rostos. Jaime Lannister guardava o corpo do pai, o olhando com feições duras e perplexas. Como se a morte do grande leão fosse mais confusa do que triste. Cersei parecia da mesma maneira, ainda tentando entender o que se passava. Tyrion olhava o pai, mas o olhar não parecia alcançá-lo. Parecia, antes, atravessá-lo. Estava lá, mas não o enxergava.
Mas Valerion, ao lado de sua doce prometida, olhava para o pai em profunda infelicidade. Podia ver no olhar dele todo o sofrimento que sentia. Haegon sempre dissera que Valerion era o melhor dos três filhos em esconder os próprios sentimentos, então só podia pensar que os outros dois eram extremamente explosivos, pois o rapaz parecia prestes a cair de joelhos, em prantos.
Mas não o julgou. Não fizera o mesmo com sua irmã? Com sua doce Elia. Estuprada, arrancada de seus filhos e morta?
Oberyn olhou novamente para Valerion e então para Myrcella. Tommen fora coroado rei, mas seu reinado seria curto. Duraria apenas o suficiente para que o casamento entre o dragão e princesa acontecesse. E então ela morreria também. Valerion seria o rei e o único que poderia contestá-lo seria Stannis, que não duraria por muito tempo. Valerion selaria a paz com o Norte e unificaria o Reino. Stannis não teria como derrotá-lo. Os Tyrell jamais se uniriam a Stannis... E Dorne, em troca de seu apoio, ofereceria Arianne, ainda antes que os Tyrell propusessem sua rosinha. Ela poderia ser entregue a qualquer outro homem. Mas Arianne de Dorne seria a rainha de Westeros.
Só não quero que a história se repita... com uma Stark roubando o brilho de Dorne novamente.
Sansa Stark deveria ser mantida bem longe e ele acreditava que a própria Cersei faria de tudo para ajudar nisso... claro, antes de perder a filha. Depois, não haveria mais Lannisters. Todos morreriam, incluindo o anão. Mesmo que ele fosse o melhor de todos eles. Mesmo que tivesse prometido a Haegon que Tyrion seria poupado. Ninguém seria poupado. A Casa Lannister pagaria com sua existência por tudo o que fizera a Elia.
**
—Ela quer falar com você. – disse a bastarda e Jon a olhou, curioso. Talisa Rivers lhe lançou um sorriso divertido, enquanto brincava com Ned. Rickon soltou um muxoxo, segurando sua espada de madeira e o escudo. Jon sorriu para ele e lhe bagunçou os cabelos.
—Ollie, treine com Rickon. – pediu Jon e o garoto de Vila Topeira se aproximou. Cão Felpudo rosnou e Rickon partiu para cima do garoto, com fúria e energia e o garoto camponês quase foi ao chão – Firmeza nos pés, Ollie. Mantenha o escudo firme e alto. – aconselhou com firmeza e Ollie concordou nervosamente. Jon mirou Talisa Rivers novamente. Ela vinha acompanhada de dez Imaculados, mais alguns homens Karstark e Umber. O herdeiro de Robb brincava com os cachos de Talisa, a olhando com atenção. Os olhos violetas de Shiera e os cabelos vermelhos e encaracolados de Robb. Jon se aproximou do sobrinho e o afagou na bochecha, recebendo um adorável sorriso inocente. O garoto era muito simpático com todos, sem parecer sentir medo de nada, mesmo dos Lobos Gigantes. Fantasma adiantou-se e cheirou a saia de Talisa e logo Vento Cinzento, que fazia parte da guarda do herdeiro, veio farejar o irmão albino. Jon olhou o lobo, esperando encontrar o olhar do irmão, mas Vento Cinzento o ignorou – O que Shiera quer? – perguntou num tom baixo, para Talisa.
—Vai ter que perguntar para ela. – respondeu a dama de companhia e Jon suspirou, um tanto sem jeito. Não conversava com ela, de verdade, desde aquele dia em que foram negociar com Mance. Shiera o evitara desde e então e ele fizera o mesmo. Por mais que, quando se encontrassem por acidente, trocassem olhares demorados e sorrisos. Precisavam manter-se a uma certa distância, ou tudo poderia acabar em desastre – Mas talvez fosse melhor pentear esses cabelos. – riu Talisa tirando um pano do decote – E secar esse suor...
—Sou um homem da patrulha, não um lorde metido em roupas de cetim. – riu Jon segurando o pulso dela com delicadeza – E Shiera sabe disso.
—Ok. Um pouco de sujeira pode ser interessante. – riu Talisa de maneira provocadora e Jon sentiu o rosto esquentar de leve. Lembrava que Ygritte dissera uma vez que homens não deveriam cheirar a flores. Mas ele gostava do cheiro de flores, principalmente de lavanda... Shiera cheira a lavanda — Você não vai deixar a Rainha do Norte esperando, vai, Jon Snow?
Jon suspirou e negou com a cabeça, para então rumar até a Torre do Rei. Era o melhor lugar de Castelo Negro, já que a Torre do Lorde Comandante tinha pegado fogo. Shiera já estava hospedada lá muito antes de Stannis chegar. Houve alguma negociação para que ela dividisse a torre com a família de Stannis, mas Shiera se recusou e disse que a Muralha tinha outros castelos para que Stannis colocasse sua família.
Aqueles dois vão se matar, se não arrumarem logo uma trégua...
Mas não haveria trégua enquanto a Muralha não escolhesse logo um Lorde Comandante. Assim as negociações entre os três poderiam acontecer e tudo se arrumaria. Mas a Muralha ainda não tinha se decidido. Era necessário que um dos candidatos tivesse ao menos um terço dos votos de todos os irmãos. Janos Slynt, Cotter Pyke e Denys Mallister eram os principais candidatos. Cotter Pyke e Denys Mallister se odiavam e todos sabiam, mas ambos concordavam que Janos Slynt era uma péssima escolha, que, porém, vinha ganhando mais e mais apoio. Jon não queria imaginar o inferno que sua vida iria virar se Janos Slynt se tornasse Senhor Comandante. Provavelmente não iria viver muito, na verdade... Com Bolton tendo tomado Winterfell, numa aliança com os Lannister, Janos provavelmente teria sua cabeça arrancada na primeira oportunidade, por ser filho de Eddard Stark. E Rickon e Ned estariam em um perigo gigantesco. Só podia torcer para que Shiera já estivesse bem longe quando finalmente a Patrulha escolhesse seu próximo Lorde Comandante.
Jon respirou fundo, subindo os degraus que levavam para a Torre do Rei, ou Torre da Rainha, como alguns já começavam a chamar. A Torre do Rei era uma torre redonda de 30 metros de altura, com merlões no topo, de onde podia-se observar o portão e o começo da escada de madeira que sobe a Muralha. A porta de entrada era feita de carvalho cravejado com ferro. Embora reservada para convidados de honra, ou Reis, nenhum Rei visitou a torre por mais de 100 anos, até ter sido recentemente ocupada pela Rainha do Norte.
Sentiu o estômago remexer-se de leve, com nervosismo. A última vez que ficara sozinho com ela... respirou fundo e sacudiu a cabeça, afastando aqueles pensamentos. Ele era um homem da Patrulha da Noite e tinha feito seus votos. Não iria descumpri-los. Terminou de subir os degraus e então se viu em frente à porta. Theon estava lá, junto dos grandes Lordes do Norte. Grande Jon Umber, Karstark e Maege Mormont. Basicamente o Conselho de Guerra de Shiera. Hoster Rivers estava lá também, assim como alguns homens que outrora foram de Lorde Haegon, como a arqueira e o Zoltan, o homem baixo e largo, com imenso nariz. Reconheceu também Lorde Blackwood e Lorde Bracken, que haviam sobrevivido ao Casamento Vermelho, que na verdade deviam sua lealdade aos Tully. Mas como Edmure havia sido capturado nas Gêmeas, eles estavam ali. Ainda havia os dois filhos de Lorde Manderly, Wylis e Wendel. Wylis era o mais novo, apenas um escudeiro, enquanto Wendel já era um homem feito. Tinha perdido a orelha e tinha um ferimento muito feio na lateral do rosto, causado por uma flecha, no Casamento Vermelho. Todos acharam que ele não sobreviveria, mas ele estava lá, firme e forte.
A cada dia que passava, mais nortenhos se dirigiam à Muralha, para se unir ao exército de Shiera. O Norte se lembra, diziam eles. A cada dia ela ficava mais e mais poderosa, o que deixava Stannis visivelmente desconfortável.
—Jon, que bom que veio. – disse Theon se aproximando e colocando a mão em seu ombro – Acabamos uma reunião agora. A rainha precisa conversar com você. – ele se aproximou e falou num tom mais baixo – Seja gentil, ela descobriu que o pai morreu em Porto Real. E está desesperadamente preocupada com o irmão.
Jon olhou para o rapaz e concordou com um aceno de cabeça.
—Sabe o que ela quer comigo? – perguntou franzindo o cenho e a senhora Mormont se aproximou para beliscá-lo na bochecha.
—Um amigo, num momento difícil, imagino. – respondeu ela – Viúva, com um filho pequeno, um reino para reconquistar, exilada e órfã, com um irmão refém e outro desaparecido. Ela precisa de um amigo, Jon.
—Ela precisa é de uma boa fo... – começou Hoster, mas Zoltan o acertou com tudo nas bolas e o rapaz calou-se, caindo de joelhos no chão, completamente sem ar.
—Um amigo. – repetiu Maege Mormont e os Lordes do Norte começaram a se afastar – Theon, chame a guarda da Rainha.
—Eles já estão vindo. – respondeu Theon, ajudando Hoster a se levantar. Logo Jon se viu só, mirando a porta. Ficou ali até que uma tropa de vinte Imaculados finalmente apareceu, para fazer a guarda da Torre do Rei. Haviam mais, lá embaixo, certamente. E por toda a escadaria. Jon suspirou e bateu na porta, antes de abri-la.
Shiera estava de pé, usando um vestido muito bonito, negro, com bordados vermelhos, que formavam desenhos que remetiam a chamas e fumaça. Os cabelos estavam soltos, caindo em pesados e perfeitos cachos por suas costas expostas por um decote nada comportado, principalmente para o Norte... ainda mais na Muralha. O decote terminava quase nas ancas e o vestido era apertado, mostrando muito bem o contorno do corpo dela. Um vestido do verão de Harrenhal. Nenhum pouco nortenho, nenhum pouco Stark. Shiera estava de costas, mirando a janela, com um semblante melancólico, que lhe dava um ar mais austero. Ela estava bela, como sempre, usando o colar que sempre usava, que pertencera a senhora sua mãe. Ela não usava nenhuma coroa no alto da cabeça, ao contrário do que sempre fazia. A coroa estava posta de lado, em cima de uma mesa. Lady, a loba de Sansa, cochilava tranquilamente ao lado da cama, sem parecer notar que ele tinha entrado no quarto. Fantasma caminhou até a irmã e se deitou ao lado dela, pousando a cabeça sobre a dela e os dois lobos ficaram quietos e em silêncio, observando o que estava por vir. A lareira crepitava de maneira aconchegante, afastando o frio de leve. Jon fechou a porta atrás de si e baixou o rosto, respeitosamente, juntando as mãos em frente ao corpo.
—Vossa Graça. – murmurou e Shiera se virou para olhá-lo – Soube de sua perda. Eu realmente sinto muito. – murmurou. Shiera concordou com um aceno de cabeça e se aproximou.
—A Muralha já escolheu um novo Lorde Comandante?
—Não. – respondeu Jon – Mas a preferência por Janos Slynt vem crescendo. Ele não gosta de você, tome cuidado.
—Ele odeia você. – riu ela, tristemente.
—Mas você é livre pra ir. – sussurrou ele. Shiera sorriu tristemente novamente e suspirou.
—Livre? – perguntou ela – Engraçado... a última coisa que eu me sinto, é livre. Me sinto presa por tantas correntes, que algumas vezes é difícil respirar. – murmurou ela e Jon baixou a cabeça – Parece que eu vivi uma vida inteira desde aquele dia em que eu lhe entreguei meus brincos... desde o dia em que eu me encontrei com você, numa torre qualquer e lhe chamei de Sor Represeiro. – sussurrou ela. Jon levantou o olhar para os olhos dela, surpreso com o rumo da conversa – Uma vida inteira desde aquele dia, embaixo do represeiro, onde eu jurei que...
—Shiera. – sussurrou querendo que ela parasse – Vossa Graça... – disse desviando o olhar dela – Em que posso ajudar? Pra que me chamou?
Shiera baixou os olhos e se afastou dele. Senti-la fazer isso pareceu roubar-lhe até mesmo o calor da lareira. O corpo dela era mais quente que o fogo, mais acolhedor, mais tentador.
—A Muralha precisa de mais pessoas para mantê-la. Pelo menos se quisermos guarnecê-la novamente, precisaremos dos selvagens. – ela o olhou novamente, mas não era o olhar de sempre. Não era o olhar da mulher. Era o olhar da Rainha. E ele se sentiu intimidado por isso. É melhor assim. Não devemos dar força ao nosso desejo. Ou ele irá nos consumir. Temos nossa honra e nosso dever. E ela era casada com Robb...— Eles conhecem você, Jon. Eu não quero que eles desistam de seus deuses. Eu quero mantê-los seguros, do lado certo da Muralha. Mas se eles querem isso, eles precisam arcar com a responsabilidade disso. Eu preciso que lutem por mim. E eu vou precisar de Winterfell. Eu preciso que eles se unam a mim. – disse ela com dor na voz – Meu irmão é refém em Porto Real, eu não tenho notícias de Aegon. Meu pai está morto. Eu estou sozinha, Jon. – a voz dela vacilou de leve, mas ela respirou fundo – Minhas amigas ficaram para trás. Eu estou deixando tudo para trás, para forjar uma aliança nova. Mas eu preciso que eles lutem por mim, ou vamos todos morrer. Eu não posso proteger a todos de Melissandre e seu deus ciumento. – disse Shiera.
—Eu não posso fazer nada por você, Shiera. – murmurou Jon, tristemente – Eu sou apenas um homem da Patrulha da Noite. Eu não tenho homens, eu não tenho espadas, eu não...
—Eles conhecem você, Jon. – disse Shiera – Eles conhecem você. Eles gostam de você. Mance gosta de você. Você o admira. Converse com ele... tente convencê-lo a...
—Ele não vai se ajoelhar, Shiera. – disse Jon, cansado daquela conversa. Tinha explicado isso a Stannis mais de uma vez, mas parecia que simplesmente se recusavam a ouvi-lo.
—Você poderia ao menos tentar... – murmurou ela se abraçando e virando o rosto – Por que você nunca se dispõe a tentar? Por que sempre encara as coisas como se fosse uma batalha perdida? A única vez que eu te vi correr riscos, foi quando meu irmão te entregou a própria armadura e cavalo... depois disso você... você apenas... – Shiera o olhou com mágoa e ele engoliu em seco – Por que nunca me escolhe, Jon?
Jon desviou o olhar e suspirou.
—Eu sou apenas um bastardo. – murmurou infeliz.
—E eu sou a Rainha do Norte. – disse ela se aproximando da própria mesa e pegando a própria espada – Se ajoelhe, Jon. – pediu ela e Jon piscou confuso – Jure lealdade a mim e se levante como Jon Stark, de Winterfell. – disse ela e ele piscou surpreso.
—O que?
—Eu sou sua rainha. – disse ela – Ned é apenas um bebê. Rickon apenas um garotinho. – explicou ela – Bran está provavelmente morto, Sansa está casada com Tyrion Lannister e Arya desapareceu há tempos, provavelmente está morta também. Janos Slynt está prestes a se tornar o Lorde Comandante da Patrulha. Stannis faz tudo o que aquela louca diz. E eu sonhei com as profecias dela. Ela quer queimar alguém de sangue real, Jon. Sangue de rei... para fazer suas magias perversas. Eu tenho menos homens que Stannis.
—Seus soldados são melhores que os dele.
—Mas eu não tenho a magia dela.
—Tem a sua própria magia... – começou Jon.
—Não sentir frio?! – perguntou ela, zangada – Isso não vai fazer os soldados de Stannis morrerem. A cada dia que passa, eu estou mais próxima da morte. Seja pelas mãos dos meus inimigos, seja pelas mãos dos meus protegidos. O mesmo vale pra Ned. E ele é apenas um garotinho, o inverno está chegando, os Outros estão chegando e a Guerra nos está ferindo por demasiado. Eu preciso de alguém forte ao meu lado, Jon. – disse ela com firmeza – Jure lealdade a mim e eu te faço um Stark.
—Eu jurei... – ele engoliu em seco – Eu jurei lealdade à Patrulha da Noite até o dia da minha morte, Shiera. De que valeria meu juramento a você se eu quebrasse esse?
Shiera o olhou magoada novamente e voltou a colocar a espada em cima da mesa.
—Entendi. – murmurou ela – Então recusa-me. – disse ela olhando para a parede.
—Não há nada que eu possa fazer. Eu estou preso por um juramento...
—Jurou a mim, em frente a um represeiro, muito antes de jurar qualquer coisa à Patrulha da Noite. – lamentou ela, sem encará-lo.
—E nunca hei de quebrar tal juramento, Shiera. – murmurou se aproximando dela. Suas mãos tremiam de nervosismo. Seu coração batia acelerado. Colocou-se atrás dela e a segurou pelos braços, de maneira gentil – Meu pensamento estará sempre em ti. Meu coração será pra sempre teu. Eu juro novamente, como jurei antes.
—De que adianta, se não posso contar com você? – perguntou ela, sem encará-lo – Palavras são vento. Passam por nós e então se vão... e nunca mais as teremos de novo. De nada valerão. – Ela se virou para encará-lo – De que me valerão suas palavras, Jon Snow, quando eu estiver encarando a própria morte? Quando terminarem de tirar tudo de mim? E não sobrar nada? – Jon desviou o olhar, sem saber o que responder – Eu não tenho poder para derrotar os Bolton. Nem para tomar Winterfell de volta. Eu não tenho poder para proteger Rickon, nem para proteger Ned. Pelos deuses. Eu deveria ter morrido naquele rio. – disse ela se afastando e indo em direção à janela – Robb deveria ter casado com uma Frey. Assim ele estaria vivo. Ele lideraria o Norte e eu nunca iria ter precisado da sua ajuda. Eu queria que você nunca tivesse ido a Harrenhal, pois eu jamais teria ido a Winterfell e nunca teria conhecido nenhum de vocês Stark. Eu estaria em Porto Real, com meu irmão, o ajudando. Ou talvez em Harrenhal, a salvo, protegida, com um coração inteiro.
—Shiera... – murmurou.
—Saia daqui! – gritou ela, furiosa – Eu me arrependo do dia em que te conheci, do dia em que me apaixonei por você! Me arrependo de todas as lágrimas que escorreram dos meus olhos, enquanto eu dormia com Robb, porque eu queria que ele fosse você. Robb merecia ter tido meu coração por completo. Ele era um homem de verdade... e você... você não sabe de nada, Jon Snow!
Jon engoliu em seco, sentindo o peso daquelas palavras. Shiera arfou de uma vez escondendo o rosto com as mãos, perdida em dor, perda e sofrimento. Sabia o que ela estava sentindo, pois passara pelo mesmo. Sabia a dor que ela sentia. Cada parte dela.
—Eu sinto muito...
—Eu mandei sair daqui! Vá embora! – gritou ela e ele não conseguiu se mover. Não podia deixá-la ali, naquele estado. Sentia-se completamente responsável por boa parte do sofrimento dela.
—Eu queria dizer que me arrependo também, Shiera, mas eu estaria mentindo. – sussurrou ele e ela o olhou com o rosto inchado e vermelho... mas ainda assim, maravilhosamente bela. Será que ela conseguia ficar menos do que linda? – Eu queria dizer que preferiria nunca ter amado você. Que preferiria nunca ter beijado você. Que preferiria nunca ter dançado com você, recebido seu favor, recebido seus olhares e sorrisos. Eu queria poder dizer isso, mas eu jamais mentiria pra você. Jamais. – disse ele se aproximando.
—Vá embora! – disse ela se afastando um passo, mas ele se aproximou dois. Ela se afastou mais um, mas ele não permitiu que a distância aumentasse. Quando ela ficou com as costas pregadas na parede, ele a envolveu com os braços e a puxou para si. Ela não teve resistência. Nenhum dos dois tinha forças para isso. A beijou apaixonadamente, como naquele dia, embaixo do represeiro. Sentiu a mulher suspirar em seus braços e sentiu que não havia outro lugar que gostaria de estar mais do que ali. Shiera o envolveu ao redor do pescoço e ele passou as mãos pelas costas nuas dela, fazendo com que ela se arrepiasse – Frio.
—Pensei que não sentisse frio. – riu nos lábios dela.
—Oh, cale a boca, Jon Snow. Não estou com frio. Suas luvas estão molhadas de neve derretida. – resmungou ela o afastando com censura no olhar – Você está todo molhado de neve derretida. – adicionou ela passando a mão pelo vestido e afastando as pequenas gotículas que a tinham molhado – E agora eu estou molhada. – adicionou ela e ele baixou a cabeça, rindo do comentário de duplo sentido. Shiera corou ao notar o que tinha dito e o olhou sem jeito – Digo, molhada de neve, não de... de outras coisas! – adicionou ela enquanto ele retirava as luvas – É preciso mais do que um beijo insolente para... eu nem sei o motivo de estar me explicando. Eu lembro que mandei você ir embora! – ralhou ela e ele sorriu de novo.
—Como quiser, Vossa Graça. – murmurou ele e ela cruzou os braços – Mas permita-me apenas dizer algumas palavras?
Shiera o olhou impaciente.
—O que?
—Prometo pensar em sua proposta. Vou conversar com Meistre Aemon, está bem? – perguntou ele e a expressão dela aliviou-se um pouco – Eu não sou responsável pela Patrulha. Se o Meistre disser que eu posso fazer isso, eu o farei. Eu me ajoelharei, jurarei lealdade e farei o que Vossa Graça deseja. E antes mesmo de falar com o Meistre, eu falarei com Mance. Já aviso que será improdutivo, mas eu farei o que estiver ao meu alcance. – prometeu e Shiera finalmente deu um sorriso sincero e sem tristeza – Está bem assim? – Shiera sorriu novamente e correu para pular em seus braços, de maneira nada régia. Jon acabou escutando a própria risada, de uma maneira que não se lembrava mais de ouvir. E só foi silenciado quando os lábios doces dela tocaram os seus. A beijou de volta a apertando contra si, mas logo se lembrou de um pequeno detalhe – Espere... não quero molhar seu vestido. Já anda por aí desprotegida, vai acabar ficando doente. – disse preocupado.
—Se não quer molhar meu vestido com suas roupas molhadas, tire suas roupas molhadas. – disse ela com seu jeitinho mandão e Jon a olhou surpreso.
**
Lyman estava olhando o mar, com um olhar longínquo. Alexander Frey estava ao seu lado, sentado numa cadeira, ignorando o balançar do navio. Aegon estava em seus aposentos, recluso e sem humor para nada. Completamente diferente do que costumava ser. Lyman soltou um suspiro e mirou novamente o dragão cor de pérola mergulhar e pescar um peixe qualquer. Aegon o mandava voltar para Daenerys todos os dias, quando não tinha ninguém da Companhia Dourada olhando, mas o dragão se recusava a voltar e ficava agressivo e violento. Morria de medo do dia que ele resolvesse colocar fogo nos navios. Estavam há dias no mar aberto, rumando para Westeros, e não teriam como sobreviver caso a criatura resolvesse queimar tudo.
—Nyessos vai ficar furioso quando souber que Aegon lhe passou a perna. – resmungou Alexander – Os deuses ainda vão punir Aegon por seus ardis. – adicionou o velho Frey e Lyman suspirou mirando o dragão.
—Não diga isso, Sor... sem Aegon, estaremos todos mortos. – resmungou ele.
—Se Aegon quer tirar os Lannister do Trono de Ferro, deveria conquistar o Trono de Ferro pra si mesmo. Ele só está juntando mais inimigos. Nyessos não deixará isso em branco. Escreva minhas palavras.
—Sor. Aegon não é mais um garoto. Ele é um adulto responsável e leal aos seus votos. E ele é leal à rainha dele...
—Ele está sendo leal a uma boceta. Nada mais do que isso. – resmungou o velho sem se importar em baixar a voz. Lyman olhou por cima do ombro, mas não havia sinal do Blackfyre – E a vadia não deve nem fazer ideia do que ele está fazendo. Vai vir atrás de nós, com dois dragões e nos...
—Ela não vai fazer isso. Ela não vai deixar Meereen nunca.
—Então que Aegon governasse Westeros, no lugar de conquistar os Sete Reinos praquela ingrata, vadia. – rosnou Alexander olhando para as velas negras, com o dragão vermelho nelas – Esse dragão deveria ser negro e não vermelho. Não precisamos de mais Targaryens loucos no trono. Se ele ao menos fosse se casar com ela...
—Ele talvez mude de ideia. Talvez ela peça que ele case com ela... – sugeriu Lyman e Alexander cuspiu no chão, indignado. Lyman olhou novamente por cima do ombro e viu que Aegon finalmente saía das cabines para vir se unir a eles – Mas tem que admitir que aquela armadura ficou impressionante nele.
—Branco? Um Blackfyre vestindo o branco? Pra proteger um Targaryen ainda por cima? Isso me cheira a desastre. – rosnou o Frey. Aegon continuou se aproximando, com sua espada na bainha, os cabelos compridos, soltos, caindo por seus ombros. Tão alto e forte quanto um cavaleiro da Guarda Real deveria ser – Haegon vai morrer de desgosto. Isso sim. Aquele ali deveria ser seu herdeiro. Não um escravo de boceta. É Jaime Lannister tudo de novo. Eu lembro o quanto Tywin ficou furioso. Não vai ser diferente com Haegon, pode ter certeza.
Lyman suspirou e olhou para o rapaz, que mirava o mar com um olhar determinado.
—Bem... aparentemente Lorde Haegon vai ter que lidar com isso.
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