Blackfyre
4 Comitiva Real
Notas iniciais

Capítulo 3
Comitiva Real
Os visitantes entraram pelo portão do castelo, como um rio de ouro, prata e aço polido. O rei veio para Winterfell.
—Ned! É bom ver essa sua cara congelada! – bradou o rei Robert puxando seu velho amigo Eddard para um abraço – Você não mudou nada!
Eddard não podia dizer o mesmo. Nos nove anos desde que se encontraram pela última vez, Robert ganhara vários quilos. Antes, o cheiro de couro e de sangue aderia à sua pele como perfume. Agora era perfume mesmo que aderia à sua pele.
—Vossa Graça, Winterfell é sua. – disse Ned assim que Robert o colocou no chão.
—Leve-me à sua cripta, Ned. Eu quero prestar meus respeitos. – disse Robert e Ned o amou naquele momento. Mesmo depois de todos aqueles anos, Robert ainda pensava em sua irmã Lyanna.
Prometa-me, Ned.
Concordou com um aceno de cabeça, afastando pensamentos sombrios e distantes, sobre uma torre, uma cama de sangue e as últimas palavras de sua irmã.
—Marido, nós temos cavalgado desde o amanhecer. Tenho certeza de que os mortos podem esperar... – disse a rainha parecendo cansada.
Robert lançou um olhar de descaso para ela e se colocou a caminho da cripta. Ned mirou a rainha Cersei, a cumprimentando com um aceno rápido de cabeça e seguiu Robert, para guiá-lo até a cripta.
Desceram os degraus e Ned pegou uma tocha para mostrar o caminho. Os passos dos dois ecoaram pelo corredor de pedra, cheio de túmulos Stark, cada um com uma estátua e a espada de seu respectivo senhor.
—Espero que tenha apreciado a viagem, Vossa Graça. – disse Ned caminhando para onde os ossos de Lyanna, sua querida irmã, repousavam.
—Eu pensei que nunca chegaríamos. – resmungou Robert, com sua voz forte ecoando pelas paredes de pedra – Do modo como falam dos meus Sete Reinos, um homem se esquece que a sua parte é tão grande quanto as outras juntas... – Ele deu uma risada que também ecoou várias vezes entre as paredes – Lodaçais, florestas e campos... onde está todo o seu povo?
—Provavelmente estavam muito acanhados pra saírem... Os reis são uma visão rara no norte, Vossa Graça. – respondeu Ned com um sorriso divertido.
—O mais certo é que estivessem escondidos embaixo da neve. NEVE, Ned. Aqui só tem neve, para todos os lados. Como será este lugar no inverno?
—Os invernos são duros, mas os Starks os suportarão. Sempre os suportamos. – disse calmamente, escutando os próprios passos ecoarem pelos corredores de pedra.
—Tem de vir comigo até o sul, Ned. Precisa experimentar o verão antes que ele fuja. Toda gente é gorda, bêbada e rica. E as moças, Ned... Juro, as mulheres perdem toda a modéstia no calor.
Ned, por um momento, se lembrou de um ano atrás, quando Jon escapulira do quarto em silêncio e voltara muito tempo depois, quando estavam sob o teto de Haegon. Se perguntou se a filha dele perdera a modéstia naqueles dias quentes. Só podia torcer para que não...
—Vossa Graça. – murmurou Ned, parando de repente – Ela está lá no fundo, com o pai e Brandon. – Sempre fazia frio ali embaixo. Seus passos soavam nas pedras e ecoavam na abóbada que se erguia sobre suas cabeças enquanto caminhavam por entre os mortos da Casa Stark. Segundo um costume antigo, uma espada de ferro tinha sido colocada no colo de todos os que tinham sido senhores de Winterfell, a fim de manter os espíritos vingativos em suas criptas. A mais antiga já há muito enferrujara até sua inexistência. Ned se perguntava se isso significava que aqueles espíritos estavam agora livres para passear pelo castelo. Esperava que não... – Aqui.
O esculpidor conheceu Lorde Rickard bem. Por isso o antigo senhor de Winterfell estava muito bem representado, colocado com uma calma dignidade, com seus dedos de pedra agarrados com força à espada que tinha em seu colo. Em vida, todas as espadas lhe tinham falhado...
E Brandon, o verdadeiro herdeiro, o mais velho, nascido para governar Winterfell... estrangulado por ordem do Rei Louco Aerys, poucos dias antes de se casar com Catelyn Tully de Riverrun. Ele estava de pé, com sua expressão de guerreiro em seu rosto, segurando com orgulho sua espada...
E Lyanna...
—Ela era mais bela do que isto. – murmurou Robert, olhando a estátua com o olhar entristecido – Tinha que enterrá-la em um lugar como este?
—Ela era uma Stark de Winterfell. Esse é seu lugar... – murmurou olhando o rosto de pedra da irmã – Eu estava com ela quando morreu... ela queria voltar pra casa.
Prometa-me, Ned.
—Eu jurei matar Rhaegar pelo que ele lhe fez.
—Você matou.
—Apenas uma vez. – rosnou Robert – Eu queria matá-lo de novo, de novo e de novo, por ele tê-la tirado de mim. Eu a amava, Ned. Por mim, não sobraria um só Targaryen vivo nesse mundo.
Prometa-me, Ned.
Ned soltou um suspiro, cabisbaixo.
—Fale-me de Jon Arryn. – pediu querendo afastar as sombras do passado de sua mente.
—Eu nunca vi um homem adoecer tão depressa. – respondeu Robert se virando para encará-lo, muito sério – Foi como um incêndio em suas tripas. Queimou-o todo por dentro. – Robert baixou os olhos, com pesar – Eu amava aquele homem...
—Nós dois. – respondeu Ned, sentindo pesar pelo momento. Olhou novamente para a estátua da irmã e novamente teve que lutar contra aquelas lembranças – Catelyn teme por sua irmã. Como ela está suportando essa dor?
—Não muito bem. – respondeu Robert, cruzando os braços – Ela levou o rapaz de volta para o Ninho da Águia. Seis anos, doente e senhor do Ninho... tinha planejado de criá-lo com Tywin Lannister, mas ela se recusou até de ouvir isso.
—Posso tomá-lo como protegido, se assim desejar. Catelyn e Lisa eram próximas quando moças.
—Uma oferta generosa, mas muito tardia. – respondeu Robert – Tywin já deu seu consentimento. Criar o rapaz em outro lugar seria uma grave afronta.
—Preocupo-me mais com o bem-estar de meu sobrinho do que com o orgulho de um Lannister. – rebateu Ned se lembrando do quão satisfeito tinha ficado ao ver o filho de Haegon derrubar Jaime Lannister do cavalo em uma justa emocionante.
—Isso é porque você não dorme com um Lannister. Ah, Ned. Você é sério demais. – riu Robert dando um último olhar para a estátua de Lyanna, antes de se virar para voltar – Você deveria se preocupar com o porquê de seu rei finalmente vir para o Norte, para Winterfell.
—Pela minha companhia, é claro. – murmurou Ned, desconversando, temendo o rumo daquela conversa. Virou-se para mostrar o caminho de volta, sentindo um aperto no peito. Winterfell era seu lugar e não desejava sair dali – E há também a Muralha. Tem de vê-la, Vossa Graça. A Patrulha da Noite é uma sombra do que já foi. Benjen diz...
—A Muralha está ali há... o que? Oito mil anos? Pode esperar mais alguns dias. – resmungou Robert – Esses são tempos difíceis. Necessito de bons homens ao meu redor. Jon Arryn serviu como senhor do Ninho da Águia, como Protetor do Leste, como a Mão do Rei... não será fácil substituí-lo.
—Seu filho...
—...é uma criança, não um líder de guerra! Um mero garoto não pode comandar o Leste. – cortou Robert – Aqueles anos que passamos juntos nos quintais de Jon Arryn... Deuses! Aqueles foram bons anos. Sentar-se em um trono é mil vezes mais difícil do que conquistar um. Estou cercado de aduladores e idiotas. Sem falar que ainda há aqueles que me chamam de Usurpador... e ainda temos um Blackfyre cada vez mais poderoso no maior castelo dos Sete Reinos. Podem dizer o que quiserem, eu não confio totalmente em Haegon Blackfyre e ele não gosta de mim tanto quanto diz gostar. Eu quero que você fique ao meu lado novamente. – Ele se calou por um momento solene e Ned desejou que ele seguisse calado – Lorde Eddard Stark, é meu desejo nomeá-lo a Mão do Rei.
A oferta não o surpreendera. Que outra razão teria Robert para viajar tão longe? A Mão do Rei é o segundo homem mais poderoso de todos os Sete Reinos. E era a última coisa no mundo que ele queria. Meu lugar é aqui, no Norte, em Winterfell...
—Vossa Graça... – Ned se colocou de joelhos, sem encarar Robert – Eu não sou digno de tal honra.
—Se eu quisesse honrá-lo, deixaria que se aposentasse. Planejo fazer você gerir o reino e lutar guerras enquanto eu como, bebo, fornico a caminho de uma cova antecipada. – riu Robert parecendo sem jeito com sua reação de colocar-se de joelhos – Que droga, Ned. Podia ao menos brindar-me com um sorriso. Vem comigo para o sul e eu te ensino a rir novamente. – disse Robert o puxando para cima – Ajudou-me a ganhar esse maldito trono. Agora ajude-me a mantê-lo. Estamos destinados a governar juntos. Se Lyanna estivesse viva, teríamos sido irmãos. – Ned ainda sentia a mão de Robert segurando a sua com firmeza, mesmo agora que já estava de pé – Não é tarde demais. Eu tenho um filho, você tem uma filha. Meu Joff e sua Sansa podem unir nossas casas.
—Sansa é apenas uma criança...
—Ela não é muito mais nova que a filha de Haegon, Ned. Você colocou os olhos na menina? Pelos deuses. – Robert deu um sorriso e revirou os olhos enquanto Ned o olhava com certa censura – Sansa já tem idade o suficiente para ser prometida. O casamento pode esperar alguns anos. Agora diga que sim, maldito.
—Essas honras são tão inesperadas, Vossa Graça... posso ao menos ter algum tempo? Eu preciso falar com a senhora minha esposa.
—Sim, claro. Diga a Catelyn que durma sobre o assunto se for preciso. – Robert seguiu pelo corredor, ansioso e animado – Só não me deixe esperando muito tempo. Eu não sou o mais paciente dos homens.
Por um momento Ned sentiu-se atacado por uma terrível sensação de mau presságio. Aquele era seu lugar... ali, no Norte.
Inspirou profundamente no silêncio gelado da Cripta. Ele pode sentir os olhares dos mortos. Eles todos estavam ouvindo, ele sabia...
E o inverno estava chegando...
**
—Todos estão falando. – riu Theon. Robb sorriu, mirando Sansa, Shiera e Myrcela andarem juntas, a brincar com Lady, o lobo de sua irmã – Shiera está ainda mais bonita. Os peitos dela cresceram mais, não é? – perguntou ele. Robb concordou devorando a garota com os olhos. Não esperavam pelos Blackfyre, apesar de nem todos estarem ali. Aegon não viera, só Lorde Haegon, Lady Shiera e Valerion, que estava a brincar com Arya e Bran, e também com os lobos dos dois. Robb acariciou a orelha de Vento Cinzento e suspirou com os olhos pregados em Lady Blackfyre. Por que aquela mulher precisava ser tão bonita? E por que Jon precisava gostar dela? – Onde está Jon?
—Se escondendo por ai. No instante que viu Shiera se aproximar no cavalo, ele se esgueirou e sumiu.
—Mesmo depois de um ano? – riu Theon – Bem... se eu tivesse desistido de uma mulher dessas, eu também tentaria enfiar minha cabeça em um buraco.
—Ele sabe que a magoou. Só não sabe lidar com isso. – retrucou Robb, sabendo que não estava sendo educado com o modo como encarava Lady Shiera. Mas simplesmente não conseguia controlar os olhos e sabia que não era o único – Por isso não quer interagir com ela.
—Então ele vai ficar se escondendo até a comitiva do rei ir embora? – perguntou Theon – Jon sabia que ele não tinha um nascimento digno de uma donzela como ela. – disse Theon, estranhamente sério – Mas você tem. – E Robb finalmente tirou os olhos de Lady Shiera.
—O que?
—Você é o herdeiro de Winterfell, filho de Lorde Eddard Stark. – riu Theon – Se tem um pinto digno daquela boceta, esse pinto é o seu. – riu Theon e Robb sorriu o empurrando de leve.
—Você só sabe falar asneiras.
—Verdades, rebuscadas com meu jeitinho de ser. – devolveu Theon – Vamos, Robb. Você não tira os olhos dela desde que ela chegou.
—E ela não me olhou nenhuma vez sequer. – retrucou – Ela gostou de Jon, não de mim. – disse com algo estranho na voz.
—Mas Jon se recusou a ter uma chance. Vai fazer o mesmo? Não seja estúpido. Olhe só pra ela. – ralhou Theon e Robb obedeceu.
Os cabelos dela estavam soltos e ela usava uma capa feita de pelo de urso negro ao redor dos ombros. Os cabelos negros e ligeiramente ondulados estavam maiores do que ele se recordava, alcançando as ancas dela. O vestido, apesar de parecer quente, deixava os ombros expostos, algo muito estranho para aquela temperatura, mas Shiera não parecia preocupada com o frio. Os lábios carnudos dela formavam um adorável sorriso e os olhos violetas dela faiscavam enquanto ela conversava com Sansa e Myrcela.
Robb engoliu em seco, completamente tentado, sem saber como Jon pudera recusar aquilo. Shiera Blackfyre era mais bonita do que se era permitido ser.
—Se Jon não se importar. – disse finalmente, sem se interromper de olhar, mesmo quando a princesa e Sansa notaram seu interesse em Shiera. As duas sussurraram com a mais velha, que finalmente se virou para olhá-lo. Não desviou o olhar, encarando-a em seus olhos violetas. Por um momento quis sorrir, mas achou que ficaria mais solene sério. Mas quando ela lhe deu um meio sorriso travesso, toda sua pose se desfez, sem que pudesse evitar. Respirou fundo, com um sorriso lhe escapando os lábios. Seu coração acelerou e suas bochechas pareceram queimar. Viu Sansa falar com Shiera e desejou que a irmã o ajudasse, mas Shiera desviou o olhar, parecendo ligeiramente triste. Então ela andou até o irmão e o puxou para dentro do castelo – Tomara que ele não se importe... – sussurrou a observando se afastar. Pelos novos Deuses e pelos Antigos, que Jon não se importe...
Durante o jantar, Robb se viu obrigado a se sentar ao lado de Joffrey. Ignorou o príncipe, por achá-lo muito mimado. Seus olhos seguiam mirando outra mesa, onde Shiera e Valerion banqueteavam ao lado do pai. Os olhos de Valerion todo o tempo cruzavam a mesa e Robb se perguntou se o interesse dele por Sansa era o mesmo que sentia por Shiera. Se fosse, ele estava com um problema maior que o seu, pois os rumores eram que Sansa tinha acabado de ser prometida a Joffrey.
Robb procurou por Jon, no salão e o viu muito distante, junto com alguns homens do pai. Pegou seu copo de vinho e o bebeu de uma vez, recebendo um olhar censurador da mãe, que não gostava de vê-lo bebendo. Mas precisava de um pouco mais de coragem. Cruzou o salão, se perguntando o que Jon iria dizer. Andou até ele e o cutucou no ombro.
—Olá. – murmurou.
Jon o olhou e sorriu parecendo um tanto bêbado.
—Robb.
—Shiera está aqui. – murmurou indo direto ao assunto.
—Ela me viu? – perguntou Jon, quase em pânico – Ela está tão bonita... que os Deuses me ajudem. – resmungou Jon.
—Eu sei... o que vai fazer a respeito dela? – perguntou Robb.
—O que há de se fazer? – perguntou Jon – Ela é uma lady... eu sou um bastardo. Lady Catelyn deixou isso bem claro, me colocando bem longe da família real. – resmungou Jon com algum rancor na voz. Robb suspirou dando uns tapinhas no ombro do meio irmão.
—Se importaria se eu a chamasse para dançar? – perguntou Robb. Jon o olhou com um olhar perdido, como se tentasse domar e controlar os próprios sentimentos e estivesse tendo absoluto trabalho para isso – Eu posso ver se ela está magoada, ou se ela entende a sua posição ou...
—Não quer dançar com ela por mim. Mas por você. – disse Jon, calmamente, baixando os olhos – Dance com ela, Robb... é um direito seu. Sempre foi. Eu fui tolo por me deixar levar pelo momento com ela. Se tem alguém que deveria ficar com ela é você, não eu.
—Não sei se seria capaz disso, Jon. – murmurou Robb aproximando a cabeça – Não quando é tão óbvio o que você sente e pensa. – disse mirando Jon com paciência – Você deveria falar com ela.
—Eu não farei isso. Só vai deixar tudo mais difícil. – resmungou Jon – Ela não precisava ter vindo. Já estava tudo bem resolvido.
—Você colocou seus sentimentos numa cova, irmão. Mas não os enterrou. – murmurou Robb – Não vai existir homem no mundo que julgue você por sonhar com ela. Ou por ter alimentado esperanças...
—Existe. Eu mesmo. – cortou Jon – Eu vou dar uma volta. – resmungou o rapaz – Preciso respirar um pouco. – ele o olhou e se levantou. Fantasma se aprumou ao lado dele, silencioso como sempre – Eu falei com tio Benjen. – disse ele e Robb o olhou curioso – Eu quero servir a Patrulha da Noite.
Robb piscou com surpresa.
—Você? Vestir o Negro? – perguntou Robb – Uma coisa é se proibir de ter uma donzela de nascimento alto, Jon. Outra é se proibir de ter uma mulher... tem certeza disso?
—Sim. Eu estou pronto para fazer meu juramento... – murmurou Jon lhe dando uns tapinhas nos ombros – Dance com ela, Robb... – suspirou Jon antes de sair do salão.
Robb soltou um suspiro e contou até dez, antes de andar até Lady Shiera. Ela conversava com o irmão, parecendo animada. O pai dos dois, no entanto, parecia um tanto sombrio, mirando o próprio copo de vinho.
—Lady Shiera. – disse quando ficou próximo o suficiente.
Shiera o olhou e sorriu, os cabelos enfeitados com tranças e um diadema com um dragão de ouro.
—Sor Robb.
—Me concede uma dança? – perguntou ele.
—Se meu pai permitir.
—Dance. – disse Haegon sem tirar os olhos do próprio copo, como se estivesse vendo o destino do mundo na superfície do líquido vinho.
Shiera sorriu um sorriso que não alcançou seus olhos e se levantou, lhe estendendo a mão. A guiou para onde outros dançavam e dançou com ela, simplesmente bêbado pela beleza dela.
—Lembro que dizia que gostaria de conhecer o Norte... o que achou?
—Se eu soubesse que vocês criavam animais selvagens como animais de estimação, teria pedido para vir antes. Seus lobos são tão lindos. – respondeu ela suavemente – Qual o nome do seu?
—Vento Cinzento. Ele é o mais rápido de todos os filhotes. – respondeu com orgulho. Shiera sorriu e concordou com um aceno de cabeça – Ele é o maior, também.
—Entendi. – riu Shiera.
—Engraçado que ache interessante que tenhamos lobos de estimação... quando vocês têm ovos de dragão em seu castelo.
—Quem disse que temos mais de um? – perguntou Shiera com um sorriso travesso – E mesmo se tivéssemos quinhentos deles... são apenas pedras. Ovos. Aegon até tentou chocar um deles, mas não teve sucesso. – disse ela.
—E o que seu pai disse quando ele tentou fazer isso? – perguntou Robb.
—Oh... ele não gostou nenhum pouco. Disse que dragões são para conquistadores, coisa que não somos. – disse ela – Aegon e papai tiveram uma briga tão ferrenha que Aegon foi embora para Essos sem nem se despedir. – disse ela com um olhar distante – Papai não foi o mesmo desde então. Está sempre assim... cabisbaixo. – Robb a girou no mesmo eixo e a puxou um pouco mais para perto, para dançar mais próximo dela.
—Sinto muito por isso. – murmurou – Então foi por isso que ele não veio. Eu pensei que ele tinha ficado para administrar o castelo...
—Não. Papai deixou um velho amigo como castelão. – Shiera suspirou e sorriu – Fiquei sabendo que o seu pai provavelmente será a nova Mão do Rei. – disse Shiera – É uma grande honra e uma terrível dor de cabeça, não é?
—Por que? – perguntou Robb, caminhando com o braço cruzado com o dela, ambos se encarando durante a dança.
—Aegon diz que o rei Robert é um péssimo rei. – murmurou ela – E que ele tinha pesar pela próxima Mão do Rei. – explicou ela – Robert não para de gastar e não se preocupa em governar. Ele só quer... – ela deu uma risadinha – Palavras do meu irmão... Comer, beber... fornicar javalis e caçar putas... ou seria o contrário?
—Isso é traição. – riu Robb – Eu poderia prendê-la por isso, sabia?
—Oh, estou em apuros? – perguntou Shiera e Robb a puxou mais para perto, colocando a mão em sua cintura, esquecendo completamente o decoro.
—Nem imagina o quanto.
—Oh... Sor Robb! Por favor. – riu Shiera corando de leve e o empurrando no peito. Robb a soltou, corando de leve, surpreso com a própria audácia.
—Perdoe-me. Foi o vinho. – murmurou sem jeito. Shiera sorriu sem jeito e respirou fundo, retomando seu ar travesso.
—Perdoarei se me mostrar seu lobo. – disse ela.
Robb sorriu e lhe ofereceu o braço. Ela o aceitou e os dois andaram para fora. Olhou o vestido dela, que deixava os ombros de fora. Seria um vestido sensual para se usar no sul, mas no norte parecia simplesmente loucura.
—Não sente frio, milady? – perguntou enquanto andavam até o canil, onde os lobos estavam.
—Não. – respondeu Shiera – Aegon dizia que temos o sangue quente. Quase nunca sentimos frio. – explicou ela. Robb concordou com um aceno de cabeça.
—Algo interessante para se ter aqui no norte. – ele retirou uma luva e a tocou no pescoço – E não é que você está quente? Imaginei que estaria gelada.
—É como eu disse. – riu Shiera.
Quando chegaram nos canis, Robb chamou Vento Cinzento e o tirou da corrente. O lobo pulou de alegria e ele o acariciou no pescoço.
—Vento Cinzento. Essa Lady Shiera. Uma amiga. Ela quer te conhecer. – disse Robb o acariciando na orelha. Shiera se aproximou e ofereceu a mão para que ele cheirasse. Vento Cinzento assim o fez e a lambeu nos dedos.
—É um prazer conhecê-lo. – riu ela – Ele é lindo. – adicionou ela.
Robb sorriu e os dois ficaram fazendo agrados em Vento Cinzento, até que uma septã apareceu.
—Lady Shiera! – ralhou ela. Shiera se levantou de uma vez – Como se já não bastasse aquele momento inapropriado no salão, agora vem se esconder no canil? Com um rapaz?!
—Septã Venira... Eu só estava...
—Para dentro agora mesmo! E saiba que eu vou falar sobre isso para seu pai! – ralhou ela – Isso é o que acontece quando se convive o tempo todo com um bastarda como Talisa Rivers.
—Sim, cometemos o terrível crime de nos divertir. – rebateu Shiera. Ela se virou para Robb e sorriu sem jeito – Desculpe... mas eu preciso voltar.
—Tudo bem... – disse com um sorriso no rosto – Posso acreditar que poderemos conversar de novo amanhã? Sob os olhares atentos da minha irmã Arya, ou do seu irmão...
—Eu adoraria. – riu Shiera – Obrigada pela dança, Robb. – ela se abaixou e acariciou Vento Cinzento – Lindo! Você é muito lindo! – então ela baixou o tom de voz e sussurrou no ouvido dele algo que Robb não escutou, mas Vento Cinzento a lambeu na bochecha, a fazendo sorrir – Eu também gostei de você.
—Shiera! Não deixe esse bicho...
—Eu já estou indo! – ralhou Shiera, impaciente. Ela revirou os olhos e apertou seus dedos em despedida. Robb a beijou nas costas das mãos e ela se foi, com Septã Venira. Quando as duas se afastaram, Robb se sentou no chão e Vento Cinzento se sentou ao seu lado.
—O que achou dela? – perguntou Robb. Vento Cinzento lambeu sua mão em resposta – Eu concordo. – riu Robb – Como eu concordo... – sussurrou.
Depois de um tempo voltou para o castelo e se trocou, trazendo Vento Cinzento para o quarto, por mais que sua mãe não gostasse disso. Porém, antes de se deitar, a porta de seu quarto se abriu e sua mãe entrou.
—Robb. Nada de deixar esse bicho na sua cama! – ralhou ela. Vento Cinzento soltou um ganido, que pareceu um resmungo e desceu imediatamente – E então?
—O que? – perguntou constrangido.
—Eu vi, Robb.
—Viu o que? – perguntou sem conseguir não sorrir. Sua mãe sorriu também – Lady Shiera?
—Sim. Há algo que queira me contar? – perguntou sua mãe.
—Nada que bons olhos não tenham visto. Ela é bonita e eu a conheci no torneio. Achei que seria educado chamá-la para dançar. – disse ele.
—Só isso? – perguntou sua mãe se sentando em sua cama, com um olhar curioso.
—Por enquanto sim... – respondeu ele – Eu a chamei para passear comigo amanhã, já que a septã dela brigou conosco por andarmos sozinhos por aí. Mas você não deveria ficar tão empolgada com isso. – riu Robb.
—Eu fiquei empolgada quando Lorde Blackfyre se empolgou. – devolveu sua mãe e Robb a olhou surpreso – É um homem que acredita nos sinais, Lorde Blackfyre, ao contrário de seu pai. – riu Lady Catelyn – Ele disse que havia sonhado com um dragão negro e um lobo branco, em frente a um represeiro. – explicou ela – Ele tinha desistido desse sonho, mas ao ver vocês dois dançando, bem... – Lady Catelyn sorriu bondosamente – Qualquer um veria o quanto estavam envolvidos naquela dança... – Robb coçou o queixo, constrangido por ter chamado tanta atenção – De qualquer maneira, Lorde Haegon perguntou a seu pai se você já tinha uma prometida e então passou a noite nos dizendo o quão adorável Shiera era. E vou dizer que é muito fácil concordar com ele.
Robb engoliu em seco, recordando-se dos olhos violetas de Shiera.
**
—O que?! – perguntou Shiera. Valerion soltou um suspiro, mas manteve-se em silêncio. Aquilo simplesmente não fazia sentido. Seu pai sempre dissera que não faria aquilo. Então por que? E, principalmente, por que agora? – Mas... mas papai! Não. Eu me recuso!
—Você é minha filha e fará como eu disser. – retrucou seu pai, muito sério. Haegon não era um homem sério. Ele era bem risonho e cheio de brincadeiras. Mas ultimamente ele parecia sombrio. Shiera dizia que era por conta da briga que ele tivera com Aegon, mas Valerion tinha suas dúvidas. Seu pai já andava mais silencioso, quieto e arredio muito antes de brigar com Aegon. Se é que tinham mesmo brigado, porque quando Aegon brigava com alguém, nem todas as paredes de Harrenhal eram capazes de esconder. Nada tirava de sua cabeça que seu pai tinha enviado Aegon para uma missão. Uma missão tão secreta que nem mesmo ele ou Shiera tinham permissão para saber – Robb é um bom garoto...
—Mas eu não gosto dele! – gritou Shiera, escandalizada. Ela não era acostumada a ter seus desejos negados. Valerion soltou outro suspiro, olhando pela janela. Ele também não estava nada feliz. Tinha caído de graças por Sansa Stark, mas aparentemente ela estava noiva de Joffrey e seguiria para o Sul com Lorde Eddard, enquanto ele teria que ficar em Harrenhal... a menos que... – O senhor me prometeu! Me prometeu que iria...
—Jon Snow não lhe trará nada a não ser um coração quebrado. – disse seu pai, num tom calmo e baixo.
—Mas...
—Eu ouvi que o garoto irá para o norte, para se unir à Patrulha da Noite. – disse seu pai, calmamente, se sentando na cama de Shiera para massagear a perna – Não há nada que eu possa fazer se ele prefere uma vida casta a...
—Isso não é verdade! Eu vi um futuro muito diferente para Jon Snow. – disse Shiera teimosamente – Eu o vi, liderando um exército, na neve. E ele usava as roupas de um Stark, não as de um patrulheiro. Ele não usava o negro!
—O mundo está prestes a dar muitas reviravoltas, Shiera. Eu quero o melhor pra você. – rebateu seu pai – Tywin queria convencer-me de que um casamento entre você e Joffrey ou Tommen seria uma boa ideia. Eu precisava de alguém forte para te proteger dos Lannisters e um Stark, herdeiro de Winterfell é um pretendente aceitável, se comparado a Tommen. Graças aos Deuses Sansa foi prometida a Joffrey no seu lugar. Eu detesto aquele garoto.
—Eu ouvi dizer que ele é cruel. – concordou Valerion – Bran me falou muito bem do irmão mais velho. Robb não parece ser uma má pessoa, irmã.
—Não importa se ele é boa ou má pessoa! Eu amo Jon Sno...
—Você não sabe o que é amar! – rosnou seu pai parecendo perder a paciência – Sentiu uma pequena paixão pelo bastardo, nada mais do que isso. Eu até tentei dar uma chance a ele, mas o garoto não quis. Respeite a decisão dele.
—Mas o senhor não respeita a minha! – disse sua irmã com lágrimas nos olhos – Eu não vou me casar com Robb Stark por um mero capricho seu!
—Eu vi no sonho. Um dragão e um lobo, em frente a um represeiro...
—Que seja Valerion e Sansa Stark! – rebateu Shiera.
—Não me importaria, nem um pouco, Shiera... mas Sansa Stark foi prometida a Joffrey. – disse Valerion, contrariado – E não me venha com ideias sobre Arya. – resmungou antes que sugerissem algo do tipo – Ela é uma boa garota, mas muito nova.
—Os anos passam, Valerion. Daqui alguns anos ela será uma linda donzela e você estará pronto para se casar.
—Não estaria tão certo disso. – resmungou Valerion – E qual o problema de casar Shiera com Tommen? – perguntou ele – Eu não entendo, pai. Ele é um bom partido. Provavelmente será o herdeiro de Casterly Rock, já que eu duvido que Tywin deixará que Tyrion herde o castelo.
—Só porque é um estúpido. – murmurou seu pai indo até a janela e cruzando os braços, com um olhar sombrio – Tyrion poderia ter sido um excelente herdeiro se Tywin o tratasse com alguma dignidade. – seu pai soltou um suspiro – Tempos difíceis se aproximam. É como os Stark dizem, o inverno está chegando... e se quisermos sobreviver a esse inverno, devemos nos unir a eles. A menos que eu esteja muito enganado.
—Una-se você a eles! – rosnou Shiera. Ela correu até a porta e Valerion se levantou para segurá-la, mas seu pai o interrompeu.
—Deixe-a. – disse ele. Valerion o olhou curioso e deu de ombros – Preciso falar com você.
—O que houve? – perguntou Valerion.
—Para todos os que perguntarem, você é o herdeiro de Harrenhal. – disse seu pai, muito sério. Valerion piscou, surpreso.
—Por que? Vai retirar o direito de herança de Aegon? Por conta de um ovo de dragão?
—Não. – respondeu seu pai – Porque só assim nos protegeremos do que está por vir...
—E o que está por vir?
Seu pai ficou em silêncio, olhando as janelas por alguns segundos. Um vento gelado bateu a porta por onde Shiera tinha fugido e tremeluziu a lareira.
—Guerra. Sangue. Frio. E morte... principalmente morte. – murmurou seu pai – Vá procurar sua irmã.
—Sim, senhor... – murmurou surpreso. Valerion saiu do quarto, assustado com aquilo. Primeiro tinha sido Shiera com aquelas previsões agourentas. Agora seu pai. Só podia acreditar nelas... e torcer para estar preparado. Não lutava como Aegon, tampouco tinha sua coragem e liderança. Não era astuto como a irmã e nem tinha seu dom de sonhar, ou seu talento com o arco. Se sentia simplesmente comum demais para ser um Blackfyre. Algumas vezes se perguntava se era mesmo um, apesar de seus olhos não deixarem dúvidas. Desceu as escadas, procurando por sua irmã e a encontrou do lado de fora. Andou até ela e a abraçou, tentando confortá-la – Escute o pai... ele só quer o melhor para você.
—Mas... mas eu amo Jon, Valerion... eu já o amava antes mesmo de conhecê-lo... – sussurrou ela, inconformada – Ele não entende. Como ele poderia entender? Eu não quero me casar com Robb Stark.
—Por que não? – perguntou Valerion – Se Jon vai para a Muralha...
—Eu preciso impedi-lo! – disse Shiera se afastando.
—Você precisa respeitar a decisão dele. – discordou a olhando com afeição – Se ele deseja ir para a Muralha, cabe a você aceitar.
—E se eu não desejo ser de ninguém, a não ser dele, devem respeitar minha decisão. – ela se virou e se abraçou, com o vento lambendo seus longos cabelos negros – Prefiro morrer seca e intocada a ser de outro homem por escolha de nosso pai.
Valerion suspirou e ficou ao lado da irmã.
—Não somos bastardos, irmã. Somos nobres. Muitas vezes não podemos escolher nosso futuro. Muitas vezes nosso futuro não passa de política... é o preço a se pagar por toda a mordomia que temos. – explicou ele e Shiera não o olhou – Eu sinto muito, Shiera... mas se papai diz que é melhor casar com Robb, eu não vejo motivos para discordar dele. Você se envolveu com Jon Snow durante três dias, há um ano atrás. E ele nem mesmo se dignou a te cumprimentar aqui. Ele fugiu de você todo o tempo. Ele não te quer. Ou prefere garotos, ou é louco, eu não sei... mas foi a decisão dele e não de papai. – Valerion entrelaçou os dedos com os da irmã – Vamos, irmã, eu vou levá-la para seu quarto... sei que vai dormir com Sansa, não é?
—Sim.
—Então fale bem de mim... e muito mal de Joffrey, ok?
—Eu acredito que seja tarde demais para que ela possa escolher, Valerion. E mesmo se ela pudesse... seria escolher entre o príncipe e o segundo filho de um lorde rico. – murmurou sua irmã o olhando com ternura.
—Eu sei... mas faça-me esse favor... e eu prometo falar com Jon Snow.
Shiera sorriu e afastou uma lágrima das bochechas, antes de abraçá-lo com alívio.
Fale com o autor