Blackfyre
11 Barganhas Cruéis
Notas iniciais

Barganhas Cruéis
Valerion assistia a entrega de prêmios aos traidores de Ned, que preferiram ajudar a rainha. Imaginava que seu noivado com a princesa Myrcella seria anunciado ali, mas não poderia afirmar isso com certeza.
A olhou discretamente e recebeu um sorriso doce dela. Sorriu de volta, apesar de não sentir absolutamente nada por ela, além de uma leve afeição.
Seu olhar, então, passeou pelo salão até pousar sob Sansa Stark, que estava mais bonita do que nunca. Mas ela ainda usava o colar que Joffrey dera a ela e isso o decepcionou de leve.
Ela é ingênua demais. Os Lannister jogam o pai dela numa cela e ela vem aqui pedir alguma coisa para Joffrey. Não na intenção de manipulá-lo. Mas com a mais pura esperança que ele a ama e que seria gentil com ela.
Seria sábio desistir de Sansa Stark... mas seria também impossível.
Eu sou ainda mais tolo que ela.
Notou que muitos dos Lordes por quem Sansa passava viravam o rosto quando ela os cumprimentava. Os mesmos homens que sempre foram amáveis com ela, por ela ser filha da Mão do Rei.
A garota o olhou esperançosa e veio andando em sua direção.
—Valerion... – cumprimentou ela numa mesura.
—Senhorita Sansa. É sempre um prazer te ver. – disse amavelmente. Se recusaria a tratá-la mal por ela ser a “filha do traidor” – Está muito bonita hoje, minha senhora.
Ela sorriu parecendo verdadeiramente feliz e ficou parada ao seu lado, observando Sor Janos Flint ser promovido a Lorde, herdando um pedacinho do Norte. Esse imbecil pediu Harrenhal. Como se alguém fosse estúpido de tirar Harrenhal do meu pai num momento como esse.
Mirou novamente Joffrey, fingindo esquecer-se de Sansa, apesar de estar muito ciente da proximidade dela. Depois olhou para a rainha, que sorria gentilmente para os dois. Suspirou e voltou a olhar Pycelle, que proclamava que Lorde Janos Flynt deveria ser dono daquela terra, sucedido por seus filhos e netos, depois dele, até o fim dos tempos. A maior mentira que contam...
Notou que Joffrey o olhava com algum desdém, mas que em seguida sorriu para Sansa. Mas aquele era o sorriso que o bastardo dava antes de fazer algo cruel. Se perguntou se teria feito algo que poderia prejudicá-lo de alguma maneira, mas imaginou que não.
—Lady Sansa. – sussurrou, sem olhá-la.
—Sim, Sor Valerion? – sussurrou ela da mesma maneira.
—Não faça uma petição. Volte a seu quarto. – murmurou ainda sem encará-la. Sansa o olhou confusa, mas ele não a olhou de volta. Ficou muito quieto, fingindo prestar atenção no príncipe, mas em seguida a olhou e disse tentando mover os lábios o menos possível – Joffrey é um garoto cruel. Não peça nada a ele, ou ele lhe dará o contrário.
—Ele me ama. – discordou Sansa, num sussurro.
—Ele não ama ninguém além de si mesmo. – discordou. Mas Sansa bufou e olhou para frente, decidida – Ok... aprenda da pior maneira. – resmungou olhando para frente também.
—No lugar do traidor Eddard Stark, é o desejo de Sua Graça que Tywin Lannister, Senhor de Rochedo Casterly e Guardião do Oeste, seja nomeado como a Mão do Rei. – disse Pycelle e Cersei sorriu vitoriosa. Meu pai deveria ser a Mão do Rei. Se ela o tivesse colocado nesse posto, os Lannister estariam completamente seguros... mas ela só pensa em si mesma.— É também desejo de Vossa Graça que Sor Haegon Blackfyre receba um lugar de privilégio, no pequeno conselho, no lugar de Renly Baratheon. – Valerion piscou, chocado e surpreso – Mas como Lorde Haegon não pode continuar em Porto Real, em sua ausência, o cargo, como acordado entre a Rainha Regente e Lorde Blackfyre, será assumido por seu filho Valerion Blackfyre. – Valerion olhou para a rainha, surpreso e ela lhe dirigiu um sorriso. Ela quer me comprar. Pensou. Sorriu como se tivesse recebido a maior das honras e acenou respeitosamente para ela. Por enquanto farei tudo o que ela desejar. Pelo menos até o retorno de Lorde Tywin ou de meu pai... o que acontecer primeiro.
Valerion andou alguns passos, até ficar de frente para Joffrey e dobrou o joelho.
—Espero servi-lo bem, Vossa Graça. – disse. Joffrey o olhou com descaso e Valerion voltou a seu lugar.
—Por último, nestes tempos de turbulência e traição, a opinião do Conselho é de que a vida e a segurança do Rei Joffrey seja de máxima importância. – continuou Pycelle, que se virou para a rainha.
Cersei se levantou, como se fosse a dona de todos os Sete Reinos e sorriu de maneira quase amável.
—Sor Barristan Selmy. – disse ela e Valerion respirou fundo. Céus... o que ela vai fazer com ele?
Sor Barristan tinha estado na base do Trono de Ferro, tão imóvel como uma estátua, mas agora caía sobre o joelho e inclinava a cabeça..
—Sua Graça, ao seu comando. – disse ele se ajoelhando.
—Levante-se, Sor Barristan. – disse ela e ele o fez – Pode tirar seu elmo. – um ar de curiosidade e confusão pairou no salão do Trono e Valerion se perguntou o que a rainha tinha em mente. Sor Barristan tirou o elmo, parecendo confuso também – Serviu ao reino fielmente, por longo tempo. – disse ela – Cada homem e mulher nos Sete Reinos lhe é grato. – ela fez uma pausa, mas logo continuou – Mas é hora de por de lado sua armadura e sua espada. – Valerion se conteve para não bater na própria testa. Ficou imóvel, não movendo um músculo do rosto que fosse. Aquilo era um absurdo e quebrava todas as leis da Guarda Real. É hora de descansar e olhar para trás com orgulho de seus muitos anos de serviço.
A princípio parecia que Sor Barristan não tinha entendido. O salão ficou em profundo silêncio.
—Senhora? – perguntou Barristan e Valerion sentiu pena dele. Sansa, ao seu lado, arfou surpresa.
—Temo que seu serviço esteja no fim. É desejo do rei e do conselho que se alivie do seu pesado fardo. – continuou a rainha.
—O meu... fardo? – repetiu ele – Temo que... que não...
O recém nomeado lorde, Janos Slynt, falou com a voz pesada e brusca.
—Sua Graça está tentando dizer que está demitido do posto de Senhor Comandante da Guarda Real.
O alto cavaleiro de cabelos brancos pareceu encolher, ali, em pé, quase sem respirar.
—Vossa Graça. – disse ele por fim – A Guarda Real é uma Irmandade Juramentada. Nossos votos são feitos para a vida. Só a morte pode demitir o Senhor Comandante de sua responsabilidade sagrada.
—A morte de quem, Sor Barristan? – a voz da rainha era suave como seda, mas as palavras soaram em todo o salão. – A sua, ou a do seu rei?
—O senhor deixou meu pai morrer – disse Joffrey acusadoramente de cima do Trono de Ferro. – É velho demais para proteger alguém.
Valerion viu o cavaleiro olhar para seu novo rei. Nunca como agora o vira aparentar a idade que tinha.
—Vossa Graça. – disse Sor Barristan – Fui escolhido para as Espadas Brancas no meu vigésimo terceiro ano. Sempre sonhara com isso, desde o primeiro momento em que empunhei uma espada. Renunciei a qualquer pretensão à minha fortaleza ancestral. A donzela com quem ia me casar desposou meu primo, eu não tinha falta de terras ou filhos, viveria pelo reino. Foi o próprio Sor Gerold Hightower quem me ouviu os votos... de proteger o rei com todas as minhas forças... de dar meu sangue pelo dele... Lutei ao lado do Touro Branco e do Príncipe Lewyn de Dorne... ao lado de Sor Arthur Dayne, a Espada da Manhã. Antes de servir vosso pai, ajudei a proteger o Rei Aerys, e antes dele o pai, Jaehaerys... três reis...
—E todos estão mortos. – Mindinho fez notar.
—Graças aos Deuses, ou seríamos governados por loucos. – riu Valerion, por mais que achasse que Joffrey fosse mais louco que os três juntos.
—Seu tempo acabou. – anunciou Cersei Lannister – Joffrey precisa de homens jovens e fortes ao seu redor. O conselho decidiu que Sor Jaime Lannister tome o seu lugar como Senhor Comandante dos Irmãos Juramentados das Espadas Brancas.
—O Regicida! – disse Sor Barristan, com a voz dura de desprezo. – O falso cavaleiro que profanou sua lâmina com o sangue do rei que jurou defender.
Ele tem um sobrenome mais abençoado que o seu.
—Tenha cuidado com o que diz, senhor. – avisou a rainha – Fala do nosso amado irmão, do sangue do seu rei.
Lorde Varys falou, mais suavemente que os outros.
—Não esquecemos os seus serviços, meu bom senhor. Lorde Tywin Lannister concordou generosamente em lhe conceder um bom trecho de terras ao norte de Lannisporto, junto ao mar, com ouro e homens suficientes para construir uma robusta fortaleza e criados para lhe satisfazer todas as necessidades.
Sor Barristan ergueu vivamente os olhos.
—Um salão onde morrer, e homens para me enterrar. Agradeço-lhes, senhores... mas escarro na sua piedade. – ergueu as mãos e abriu as fivelas que mantinham o manto no lugar, e o pesado pano branco deslizou-lhe dos ombros e foi cair num monte, no chão. Seu capacete caiu com um alto som metálico e Valerion só achou aquilo tudo ainda mais errado. – Sou um cavaleiro. – disse-lhes. Abriu as presilhas de prata da placa de peito e também a deixou cair. – Morrerei como cavaleiro.
—Um cavaleiro nu, aparentemente. – observou Mindinho e Valerion sentiu vontade de apresentar a própria espada para ele.
Todos riram, Joffrey de seu trono, os senhores presentes, Janos Slynt, a Rainha Cersei e Sandor Clegane, e mesmo os outros homens da Guarda Real, os cinco que tinham sido seus irmãos até um momento antes. Certamente que isso deve ter sido o que mais magoou, pensou Valerion. Mais uma vez sentiu pena dele e desejou poder fazer algo, mas sabia que o mais sensato era ficar quieto. Sor Barristan estava envergonhado e corado, zangado demais para falar. Por fim, puxou a espada. Escutou Sansa ofegar. Sor Borós e Sor Meryn avançaram para enfrentá-lo, mas Sor Barristan congelou-os no lugar com um olhar que pingava desprezo.
—Nada temam, senhores, vosso rei está a salvo... mas não graças a vocês. Mesmo agora, poderia abrir caminho através dos cinco tão facilmente como um punhal corta o queijo. Se aceitam servir às ordens do Regicida, então nenhum é digno de usar o branco! – atirou a espada aos pés do Trono de Ferro – Tome, garoto. Funda-a e junte-a às outras, se quiser. Fará melhor serviço que as espadas nas mãos destes cinco. Talvez calhe que Lorde Stannis se sente em cima dela quando lhe tomar o trono.
Valerion se esforçou para não rir e observou Sor Barristan atravessar toda a sala para sair, com os passos ressoando ruidosamente no chão, arrancando ecos das paredes de pedra nua. Senhores e senhoras abriram alas para ele passar. Só voltou a ouvir sons depois de os pajens fecharem as grandes portas de carvalho e bronze às suas costas: vozes baixas, movimentos incomodados, o rumor de papéis vindo da mesa do conselho.
Isso foi um erro, Cersei.
—Ele me chamou de garoto! – disse Joffrey em tom rabugento, soando mais novo do que era. Aegon o teria chamado de idiota e eu teria concordado— E também falou de meu tio Stannis.
—Conversa fiada. – disse Varys, o eunuco – Sem significado...
—Ele pode estar conspirando com meus tios. Quero-o capturado e interrogado! – ninguém se moveu. Joffrey ergueu a voz – Eu disse que o quero capturado!
Janos Slynt levantou-se da mesa do conselho.
—Meus homens tratarão disso, Vossa Graça.
—Ótimo! – disse o Rei Joffrey. Lorde Janos saiu do salão, acompanhado por um punhado de homens, que provavelmente seriam derrotados facilmente por Sor Barristan.
—Vossa Graça. – relembrou Mindinho ao rei – Se pudéssemos recomeçar, os sete são agora seis. Falta-nos uma nova espada para a Guarda Real.
Lembrava-se, quando era pequeno e assistia Aegon treinar sua espada, que tinha sugerido que o irmão entrasse na Guarda Real. Aegon sorriu e disse que o reino teria mais um Regicida se o rei Robert precisasse dele para qualquer coisa.
Joffrey sorriu.
—Diga-lhes, mãe.
—O rei e o conselho decidiram que não há homem nos Sete Reinos mais capaz de guardar e proteger Sua Graça do que o seu escudo juramentado, Sandor Clegane.
—Que acha disso, Cão? – perguntou o Rei Joffrey.
Era difícil ler o rosto cheio de cicatrizes de Cão de Caça, que levou um longo momento refletindo.
—E por que não? Não tenho terras nem esposa para deixar, e quem se importaria se tivesse? – o lado queimado da boca retorceu-se. – Mas aviso que não farei votos de cavaleiro.
—Os Irmãos Juramentados da Guarda Real sempre foram cavaleiros – disse firmemente Sor Boros.
—Você acha que alguém se importa? – riu Valerion e Joffrey gargalhou para seu alívio. Aquele comentário tinha escapado. Outros se uniram a Joffrey na gargalhada e Valerion teve nojo de tudo aquilo. Ele não tinha sido consagrado cavaleiro, mas tentava honrar os juramentos da cavalaria, pois desejava ser um, um dia.
Quando o silêncio voltou a reinar, Pycelle voltou a falar para o salão.
—Se algum homem neste salão tem outros assuntos para colocar a Sua Graça, que fale agora ou se mantenha em silêncio.
Sansa vacilou e Valerion sussurrou de novo.
—Não faça isso...
Mas ela avançou um passo, depois outro e então outro. Valerion suspirou, revirando os olhos pela teimosia dela.
—Vossa Graça. – chamou ela, numa voz suave e trêmula.
A altura do Trono de Ferro dava a Joffrey uma visão melhor que a qualquer outro dos presentes no salão. Foi o primeiro a vê-la.
—Avance, senhora. – disse ele, sorrindo.
Isso pareceu encorajá-la. Sansa ergueu a cabeça e caminhou em direção ao Trono, nem devagar, nem depressa demais. Ela está tentando parecer mais segura do que realmente está...
—A Senhora Sansa, da Casa Stark! – gritou Pycelle.
Ela parou sob o trono, no lugar onde o manto branco de Sor Barristan estava amontoado no chão, ao lado de seu elmo e sua placa de peito.
—Tem algum assunto para o rei e o conselho, Sansa? – perguntou a rainha da mesa do conselho.
—Tenho. – ela ajoelhou-se sobre o manto, para não estragar o vestido, e olhou o rei com os olhos cheios de esperança – Se for desejo de Vossa Graça, peço misericórdia para meu pai, Lorde Eddard Stark, que foi Mão do Rei.
Valerion suspirou, incomodado com a ingenuidade dela. A rainha suspirou também, fingindo-se de triste, mas tinha certeza que ela estava adorando o espetáculo.
—Sansa, você me desaponta. O que lhe disse a respeito do sangue do traidor?
—Seu pai cometeu graves e terríveis crimes, senhora. – entoou o Grande Meistre Pycelle. Sim, o de tentar salvar a rainha e seus filhos.
—Ah, pobre coisinha triste. – suspirou Varys – Não é mais que uma criança inocente, senhores, não sabe o que está pedindo.
Sansa só tinha olhos para Joffrey. Ela, obviamente, depositava todas suas esperanças nele. O rei mudou de posição, olhando atentamente para ela.
—Deixe-a falar! – ordenou – Quero ouvir o que ela diz.
—Obrigada, Vossa Graça. – Sansa sorriu, um tímido sorriso para o rei e Valerion teve inveja dele.
—A traição é uma erva daninha! – declarou solenemente Pycelle. – Tem de ser arrancada, raiz, caule e semente, para que novos traidores não nasçam na beira de cada estrada.
—Então devemos arrancá-lo daqui, senhor? – riu Valerion e Pycelle o olhou ofendido – Estás a desobedecer seu rei. Não escutou que ele quer ouvir Sansa?
—Isso mesmo. Cale-se. – ralhou Joffrey olhando para Sansa e Pycelle olhou para Valerion com desdém.
—Nega o crime de seu pai? – perguntou Lorde Baelish.
—Não, senhores. – respondeu Sansa e Valerion agradeceu aos Deuses por ela não ser assim tão tola. – Sei que ele deve ser punido. Tudo o que peço é misericórdia. Sei que o senhor meu pai deve se arrepender do que fez. Era amigo do Rei Robert, e adorava-o, todos sabem que o adorava. Nunca quis ser Mão até que o rei lhe pediu. Devem ter mentido para ele. Lorde Renly, ou Lorde Stannis, ou... ou alguém, devem ter mentido, de outra forma...
O Rei Joffrey inclinou-se para a frente, com as mãos agarrando os braços do trono. Pontas de espadas quebradas projetaram-se entre seus dedos.
—Ele disse que eu não era o rei. Por que ele disse isso?
Porque é a verdade. Valerion olhou para Cersei, mas a rainha observava Sansa e não notou seu olhar.
—Tinha a perna quebrada. – respondeu ansiosamente Sansa – Doía tanto que Meistre Pycelle dava-lhe leite da papoula, e dizem que o leite da papoula enche a cabeça de nuvens. De outra forma, nunca o teria dito.
Varys disse:
—A fé de uma criança... que doce inocência... e, no entanto, dizem que a sabedoria surge frequentemente das bocas dos inexperientes.
—Traição é traição. – Pycelle respondeu imediatamente.
—Como substituto de meu pai no Conselho... – começou Valerion, calmamente – Dou meu testemunho que ultimamente Lorde Eddard não parecia bem das ideias. – mentiu deslavadamente e todos o olharam – Me chamava de Rhaegar o tempo todo e precisava que nos apresentássemos antes que nos reconhecesse. Sem falar que confessou a meu pai que não conseguia dormir direito desde que machucara a perna. Eu acredito que tudo que ele saiu dizendo por aí não passa de temporária loucura por conta do leite de papoula.
Joffrey agitava-se no trono. Cersei olhava intensamente para ele.
—Se Lorde Eddard confessasse seu crime... – disse Joffrey – Saberíamos que se arrependeu da sua loucura. – ele se levantou e Valerion notou que Sansa tinha os olhos brilhantes e cheios de expectativas. – Tem algo mais a dizer? – perguntou-lhe.
—Só que... se me ama, concede-me esta gentileza, meu príncipe. – ela disse. O Rei Joffrey olhou-a de cima a baixo.
—Suas doces palavras me comoveram. – disse o rei e Valerion duvidou piamente disso – Farei como pede... Mas primeiro seu pai tem de confessar. Tem de confessar e dizer que eu sou o rei, ou não haverá misericórdia para ele.
—Ele o fará! – disse Sansa, com o coração tomado por tola esperança – Ah, eu sei que o fará.
**
Theon tinha matado mais um corvo que enviava mensagens das Gêmeas para qualquer outro lugar. Shiera e Robb estavam lado a lado, observando o rio. O sol estava quase tocando a superfície da água a tingindo de amarelo e laranja, o que lhe dava um bonito desenho.
—Não podemos arriscar que Lorde Walder diga aos Lannister sobre nossa posição. – Disse Lady Catelyn a Robb e a Theon – Então continue derrubando os corvos.
—Sim, Lady Stark. – disse Theon.
—Lorde Frey é juramentado ao meu avô. Como não podemos contar com seu apoio? – perguntou Robb.
—Pelo mesmo motivo que não é certeza que poderemos contar com Lorde Blackfyre. – respondeu Roose Bolton – Eles podem alegar lealdade à Coroa.
—Não espere nada de Walder Frey e nunca será surpreendido. – disse Catelyn e Shiera concordou com ela.
—Julga que ele pretende nos trair pelos Lannister, senhora? – perguntou Robett Glover em voz grave.
Catelyn suspirou.
—A bem da verdade, duvido que o próprio Lorde Frey saiba o que pretende fazer. Tem a cautela de um velho e a ambição de um jovem, e nunca pecou por falta de astúcia. – respondeu Shiera, pois passara longas semanas com Walda, nas Gêmeas, a brincar no rio e a rir de Walder Negro, enquanto ele tentava lhe arrancar beijos ou favores. Conhecia bem aquelas pessoas.
—Temos de ter as Gêmeas! – disse Robb acaloradamente – Não há outra maneira de atravessar o rio. Bem sabe.
—Sim. E Walder Frey também sabe, pode estar certo disso. – disse Lady Catelyn.
—Vejam! – disse Shiera apontando para dois soldados que se aproximavam a cavalo, ainda muito longe, com bandeiras de paz.
—Meu pai apodrecendo uma masmorra... – resmungou Robb – Quanto tempo até tirarem a cabeça dele?
—Bastante, se Cersei tiver um pingo de juízo, meu amor. – respondeu Shiera. Robb suspirou desesperançado e ansioso e ela segurou sua mão em silencioso apoio.
—Precisamos cruzar o Tridente e precisamos fazê-lo agora! – rosnou ele.
—Basta ir até seus portões e dizer que cruzarão! – disse Theon com sua habitual confiança fácil – Temos cinco homens para cada um dele! Podemos tomar as Gêmeas!
—Sim, mas a que custo? – perguntou Shiera – Violência nem sempre é o melhor caminho. Uma criança vê um obstáculo e a primeira coisa em que pensa é correr à sua volta ou pô-lo abaixo. Um senhor tem de aprender que por vezes as palavras são capazes de alcançar o que as espadas não são. – disse recordando de quando seu pai dissera isso a Aegon, em outra vida, muitos anos atrás, quando ainda nem sonhara com Jon Snow, com o Inverno e com monstros de gelo com olhos azuis brilhantes.
—Sábias palavras, minha senhora. Não teremos tempo de tomar a força. – concordou Lorde Umber – Tywin Lannister marcha ao norte bem agora. Ele nos pegará por nossa retaguarda se tentarmos.
—Os Freys controlaram a travessia por 600 anos. – disse Lady Catelyn – E por 600 anos, nunca falharam no controle.
—Não é possível tomar as Gêmeas, de qualquer maneira. – adicionou Shiera – Mesmo se tivéssemos mais tempo.
—Preparem meu cavalo. – disse Robb e Shiera o olhou com preocupação.
—Entre nas Gêmeas sozinho e ele te venderá aos Lannisters! – disse Lorde Umber.
—Ou te jogará em uma masmorra... ou cortará sua garganta! – disse Theon e Shiera não duvidou de nenhuma daquelas coisas.
Os soldados Frey estavam cada vez mais próximos.
—Meu pai faria tudo pela segurança de nossa travessia. – disse Robb – O que fosse preciso. – ele fez uma pausa, olhando para os soldados que se aproximavam – Não posso ter outros homens negociando por mim.
Shiera olhou para Lady Catelyn, pois sabia que ela se ofereceria para ir. Tinha visto aquilo em sonho e sabia que Lorde Frey se recusaria a ajudá-la. Então precisava mudar aquilo. Eu preciso fazer a diferença...
—Eu concordo. – disse Lady Catelyn e todos a olharam. – Eu irei.
—Não! – disse Robb.
—Não pode! – disse Theon a olhando surpreso.
—Conheço Lorde Walder desde que eu era uma menina. – insistiu Catelyn.
—Eu digo o mesmo. – adicionou Shiera e Robb segurou sua mão com firmeza.
—Não. Nenhuma das duas fará isso! – ralhou ele.
—Lorde Walder é amigo da minha família. – insistiu Shiera – Ao contrário dos Tully, que há anos desprezam o homem. E aquele que vem, se não me engano, é Sor Stevron, herdeiro de Walder Frey. Eu o conheço desde que nasci, também. – adicionou – O homem que o acompanha é neto dele. Eu conheço todos os Frey, minha senhora. Eu já jantei diversas vezes em seus salões. Se querem ter alguma chance de convencer Walder Frey a cooperar, é comigo. – adicionou.
—Suponho que sonhou com isso. – riu Roose Bolton, sem encará-la e Shiera teve vontade de amassar a cabeça dele com uma pedra.
—Confie em mim, Robb. Me deixe ir, com a sua mãe. – disse olhando para Lady Catelyn. Robb as olhou com preocupação e a senhora mais velha concordou com um aceno de cabeça.
Os senhores do Norte reclamaram e temeram, mas Robb lhes confiou aquela missão.
Logo estavam em seus respectivos cavalos, seguindo os dois Frey para as Gêmeas.
Quando o Senhor da Travessia recebeu Shiera e Catelyn no grande salão do castelo oriental, rodeado por vinte e um filhos sobreviventes, trinta e seis netos, dezenove bisnetos e numerosas filhas, netas, bastardos e bastardos-netos, lembrou-se de Aegon falar que Lorde Walder Frey poderia tirar um exército das próprias calças.
Lorde Walder tinha noventa anos, uma mirrada fuinha cor de rosa, de cabeça calva e manchada, demasiado artrítico para se erguer sem ajuda. A última esposa, uma moça pálida e delicada de dezesseis anos, caminhou ao lado da sua liteira quando o trouxeram para o salão. Era a oitava Senhora Frey, se não tivesse perdido as contas.
—É um grande prazer voltar a vê-lo depois de tanto tempo, senhor. – disse Catelyn. O velho a olhou de soslaio com uma expressão de suspeita.
—Ah é? Duvido. Poupe-me das suas palavras doces, Senhora Catelyn, sou velho demais. Por que está aqui? Será o seu rapaz orgulhoso demais para vir ele próprio apresentar-se? Que farei eu com a senhora?
—Conversar, espero. – riu Shiera sorrindo docemente e o velho finalmente a olhou, a reconhecendo. Estava se vestindo de maneira muito mais simples do que costumava e seu colar de joias estava escondido por sua manta de pele de lobo – Já faz quase um ano que não o vejo, Lorde Walder. Pequena Walda estaria aqui? Gostaria tanto de rever minha melhor amiga.
—Pelos Sete... o que você faz aí, Shiera? Pensei que estivesse na corte... ou em Harrenhal. – murmurou Walder parecendo verdadeiramente surpreso.
—Acontece que eu me casei com Robb, faz algum tempo. – respondeu calmamente.
—E não me convidou? – perguntou ele.
—Nem mesmo meu pai foi convidado, senhor. Ou meus irmãos, ou amigos. Me casei pela guerra. Uma aliança entre Harrenhal e Winterfell.
—Pois Haegon não me disse nada disso. – resmungou Walder.
—O que acha que faço aqui? – perguntou amavelmente – Uma mensagem dessas não pode ser enviada por um corvo. Rochedo Casterly está próximo demais e há soldados Lannister por toda parte... escutei até que algum deles andaram incendiando seus campos.
Lorde Frey a olhou com os olhos espremidos e disse a contra gosto.
—Pois suas orelhas andam escutando demais, como sempre.
Lorde Frey era irascível, tinha uma língua aguçada e maneiras bruscas. A idade o tinha tornado pior que nunca, ao que parecia. Precisaria escolher as palavras com cuidado e fazer o possível para não se ofender com as dele.
—Pai! – disse Sor Stevron em tom reprovador – Atente ao gênio. As Senhoras Stark estão aqui a nosso convite.
—Perguntei-lhe alguma coisa? Ainda não é Lorde Frey, e não o será até que eu morra. Pareço-lhe morto? Não ouvirei instruções vindas de você.
—Isso não é maneira de falar na frente de nossas nobres convidadas, pai. – disse um dos filhos mais novos.
—Agora até meus bastardos acham-se no direito de me dar lições de cortesia! – queixou-se Lorde Walder. – Falarei como bem entender, malditos. Já hospedei três reis ao longo da minha vida, e rainhas também, julga que preciso de lições de gente como você, Ryger? Sua mãe ordenhava cabras da primeira vez que lhe dei minha semente! – Wlader Frey rechaçou o jovem corado com um movimento súbito de dedos e fez um gesto para dois de seus outros filhos. – Danwell, Whalen, ajudem-me a sentar na cadeira. – Ergueram Lorde Walder da liteira e o transportaram para o cadeirão dos Frey, uma cadeira elevada de carvalho negro, cujo espaldar estava esculpido como duas torres ligadas por uma ponte. A jovem esposa subiu timidamente para junto dele e cobriu-lhe as pernas com uma manta. Depois de se sentar, o velho acenou para que Catelyn e Shiera se aproximassem e deu-lhes um beijo em suas mãos, seco como papel – Pronto! – anunciou – Agora que observei a cortesia, senhoras, talvez meus filhos me deem a honra de calar a boca. Por que estão aqui?
—Para lhe pedir para abrir os portões, senhor. – respondeu Catelyn polidamente. – Meu filho e os senhores seus vassalos estão muito impacientes para atravessar o rio e prosseguir caminho.
—Para Riverrun? – soltou um risinho abafado – Ah, não é preciso dizer, não é preciso. Ainda não sou cego. O velho ainda consegue ler um mapa.
—Para Riverrun. – confirmou Catelyn. Não havia motivo para negar – Onde teria esperado encontrá-lo, senhor. Ainda é vassalo de meu pai, não é?
Era melhor que ela não tivesse jogado isso na cara dele...
—Heh – disse Lorde Walder, um ruído a meio caminho entre uma gargalhada e um grunhido – Chamei as minhas espadas, sim, chamei, aqui estão elas, você as viu nas muralhas. Era minha intenção marchar assim que todas as minhas forças estivessem reunidas. Bem, enviar meus filhos. Eu já estou há muito para lá das marchas, Senhora Catelyn. – olhou em volta em busca de confirmação e apontou para um homem alto e curvado de cinquenta anos. – Diga-lhe, Jared. Diga-lhe que eram essas as minhas intenções.
—Eram, senhora. – disse Sor Jared Frey, um dos filhos de sua segunda mulher. – Pela minha honra.
Como se tivesse alguma.
—Será culpa minha que o tonto do seu irmão tenha perdido sua batalha antes de nos podermos pôr em marcha? – recostou-se nas almofadas e franziu as sobrancelhas, como que desafiando-as a contestarem a sua versão dos acontecimentos. – Disseram-me que o Regicida o atravessou como um machado atravessa queijo podre. Por que haveriam meus rapazes de correr para o sul para morrer? Todos aqueles que foram para o sul estão de novo correndo para o norte.
Shiera mirou Lady Catelyn e notou que ela não gostara nada de ouvir aquilo, mas a senhora manteve a calma e disse:
—Mais uma razão para que possamos chegar a Riverrun, e depressa. Onde podemos conversar, senhor?
—Estamos conversando agora. – queixou-se Lorde Frey. A cabeça malhada e rosada dardejou em volta. – O que estão todos olhando? – gritou para a família. – Saiam daqui. As Senhoras Stark desejam falar-me em privado. Pode ser que tenham planos para a minha fidelidade, heh. Vão, todos, encontrem algo de útil para fazer. Sim, você também, mulher. Fora, fora, fora – enquanto os filhos, netos, filhas, bastardos, sobrinhas e sobrinhos jorraram da sala, inclinou-se para perto de Catelyn e confessou – Estão todos à espera de que eu morra. Stevron espera há quarenta anos, mas continuo a desapontá-lo. Heh. Por que haveria de morrer só para que ele seja um senhor, pergunto. Não o farei.
Shiera deu uma risadinha honesta se lembrando de Walda resmungar que o avô já estava biruta e caduco e que deveria morrer logo, mesmo.
—Tenho toda a esperança de que sobreviva até os cem anos. – disse olhando divertida para ele.
—Isso os irritaria, não há dúvida. Ah, não há dúvida. Bem, o que queriam dizer?
—Queremos atravessar. – disse-lhe Catelyn.
—Ah, sim? Isso é ser direto. Por que haveria eu de deixar? – Por um momento a ira de sua sogra relampejou.
—Se fosse suficientemente forte para subir a uma das vossas ameias, Lorde Frey, veria que meu filho tem vinte mil homens junto de suas muralhas.
—Serão vinte mil cadáveres frescos quando Lorde Tywin chegar aqui. – disparou o velho em resposta. – Não tente me assustar, senhora. Seu esposo está numa cela de traidor qualquer debaixo da Fortaleza Vermelha, seu pai está doente, pode estar morrendo, Jaime Lannister tem seu irmão a ferros. Que tem a senhora que eu deva temer? Aquele seu filho? Se der um filho meu para cada um dos seus, ainda terei dezoito depois de os seus estarem todos mortos.
Shiera abriu a boca para responder, mas Lady Catelyn falou primeiro.
—O senhor prestou juramento perante meu pai! – recordou-lhe Catelyn. Ele inclinou a cabeça para um lado, sorrindo.
—Ah, sim, disse algumas palavras, mas também prestei juramentos à coroa, assim me parece. Joffrey é agora o rei, e isso faz da senhora, do seu rapaz e de todos aqueles tontos lá fora nada mais que rebeldes. Se eu tivesse o bom-senso que os deuses deram aos peixes, ajudaria os Lannister a fervê-los a todos.
—E por que não o faz? – ela desafiou. Lorde Walder bufou de desdém.
—A resposta tem olhos violetas. – resmungou ele e Shiera recebeu um olhar dele – Eu soube que seu pai a tinha prometido ao Stark, mas imaginei que ele iria revogar isso no exato momento que os Stark desafiaram o Trono de Ferro.
—Alguns planos meu pai só dividiu com seus filhos. – disse calmamente – Outros ele foi revelando aos poucos a bons amigos. Ele sempre lhe confidenciou que não aprovava Tywin Lannister, não é?
—Lorde Tywin, o orgulhoso e magnífico, Protetor do Oeste, Mão do Rei, ah, que grande homem este é, ele e o seu ouro para lá e para cá, e leões para cá e acolá. Aposto que se comer feijão demais dá peidos tal como eu dou, mas nunca o ouvirá admitir tal coisa, ah, não. Que tem ele para ser tão empolado? Só dois filhos, e um deles é um monstrinho retorcido. Se lhe der um filho meu por cada um dos dele, ainda terei vinte e meio quando todos os dele estiverem mortos! – soltou um cacarejo. – Se Lorde Tywin quiser a minha ajuda, bem pode pedi-la.
Ele só quer ser paparicado...
—Eu estou pedindo a sua ajuda, senhor. – disse Catelyn humildemente, entendendo aquilo – E meu pai, meu irmão, o senhor meu marido e meus filhos pedem pela minha voz.
Lorde Walder brandiu o dedo ossudo na cara dela.
—Poupe suas palavras doces, senhora. Palavras doces ouço de minha esposa. Já a viu? Tem dezesseis, uma florzinha, e o seu mel é só para mim. Aposto que me dá um filho em menos de um ano. Talvez faça dele herdeiro, isso não irritaria os outros?
—Estou certa de que lhe dará muitos filhos. – disse sua sogra. A cabeça, dele oscilou para cima e para baixo.
—O senhor seu pai não veio ao casamento. Cá para mim, é um insulto. Mesmo que esteja morrendo. Também não veio ao meu último casamento.
—Meu pai sempre veio a todos os seus casamentos aos quais foi convidado, senhor. – disse Shiera – E sempre o convidou para todas suas festas, as minhas e as dos meus irmãos. E nunca deixou de lhe enviar presentes no aniversário de seu nome. Meu pai sempre lhe foi um bom amigo!
—Mas também brinca me chamando de o Atrasado Lorde Frey, sabe? Julgará que perdi o juízo? Que estou meio morto e a cabeça já não funciona bem? Não estou, garanto, hei de sobreviver-lhe tal como sobrevivi a seu pai e ao seu. – disse ele se voltando para Lady Catelyn – Sua família sempre se cagou para mim, não negue, não minta, sabe que é verdade. Há anos fui visitar seu pai e sugeri um casamento entre o seu filho e a minha filha. Por que não? Tinha uma filha em mente, uma querida jovem, só alguns anos mais velha que Edmure, mas se seu irmão não se engraçasse com ela, tinha outras que ele podia escolher, novas, velhas, virgens, viúvas, o que quisesse. Não, Lorde Hoster não quis ouvir falar disso. Deu-me doces palavras, desculpas, mas o que eu queria era ver-me livre de uma filha. E sua irmã, esta é tão má como o pai. Foi, ah, há um ano, pouco mais que um ano, ainda Jon Arryn era Mão do Rei, fui à cidade assistir à participação de meus filhos no torneio. Stevron e Jared estão já velhos demais para a arena, mas Danwell e Hosteen participaram, Perwyn, também, e dois dos meus bastardos experimentaram o corpo a corpo. Se soubesse como iam me envergonhar, nunca me teria incomodado a fazer a viagem. Que necessidade tinha eu de cavalgar toda aquela distância para ver Hosteen ser derrubado do cavalo por aquele cachorrinho do Tyrell? O rapaz tem metade da idade dele, chamam-no Sor Margarida, ou qualquer coisa do gênero. E Danwell foi derrubado por um cavaleiro menor! Há dias em que pergunto a mim mesmo se aqueles dois são realmente meus filhos. Minha terceira mulher era uma Crakehall, e todas as mulheres Crakehall são umas vacas. Bem, não importa, ela morreu antes do seu nascimento, que lhe interessa isto? Ah! Estava falando de sua irmã. Propus que o Senhor e a Senhora Arryn criassem dois dos meus netos na corte, e ofereci-me para criar o filho deles aqui nas Gêmeas. Serão os meus netos indignos de serem vistos na corte do rei? São bons rapazes, calmos e bem-educados. Walder é filho de Merrett, deram-lhe o nome em minha honra, e o outro... heh, não me lembro... pode ter sido outro Walder, que andam sempre a chamá-los Walder para que eu os favoreça, mas o pai dele... qual deles era o pai dele? – seu rosto enrugou-se. – Bem, fosse quem fosse, Lorde Arryn não o quis, e nem ao outro, e por isso culpo a senhora sua irmã. Gelou como se eu tivesse sugerido vender o filho a uma trupe de saltimbancos ou fazer dele um eunuco, e quando Lorde Arryn disse que a criança ia para Pedra do Dragão, para ser criada com Stannis Baratheon, ela saiu precipitadamente da sala sem uma palavra de desculpa, e tudo o que a Mão pôde me dar foram lamentos. De que servem lamentos?
Catelyn franziu as sobrancelhas, inquieta.
—Mas meu senhor... – começou Shiera, mas Lorde Frey a cortou.
—Seu pai é diferente, eu bem sei. Levou três de minhas netas para Harrenhal, e três de meus netos foram escudeiros de Aegon, que consagrou dois deles cavaleiros, o terceiro ainda está com ele, eu acho. Outros dois foram para Pedra do Dragão com Valerion. E ele fez com que Walda fosse levada contigo para Porto Real, para viver com a corte. Seu pai até pensou em casar Valerion e Walda, até Tywin começar a sugerir que a princesa Myrcella seria uma boa esposa para seu irmão. E eu confesso que nenhuma das minhas netas, filhas, sobrinhas ou bastardas serviriam para competir com a princesa... Mas quando Valerion voltou para casa, assim como você, seu pai devolveu meus netos e fugiu pouco depois para Porto Real e eu fiquei sem nada aqui, com aqueles inúteis me enchendo o saco e ocupando meu espaço!
—Tinha entendido que o filho de Lysa deveria ser criado com Lorde Tywin no Rochedo Casterly. – disse Catelyn Stark, voltando ao assunto anterior.
—Não, era Lorde Stannis. – disse Walder Frey num tom irritável. – Julga que não distingo Lorde Stannis de Lorde Tywin? São os dois uns rolhas de poço que se acham nobres demais para cagar, mas deixe isso, eu sei ver a diferença. Ou será que me julga muito velho para me lembrar? Tenho noventa anos e lembro-me muito bem. E também me lembro do que se faz com uma mulher. Aquela minha esposa há de me dar um filho em menos de um ano, aposto. Ou uma filha, que isso não se pode controlar. Menino ou menina, há de ser vermelho, encarquilhado e aos berros, e o mais certo é que lhe queira chamar Walder ou Walda.
Shiera não se importava com o nome que a Senhora Frey daria ao filho.
—Jon Arryn ia criar o filho com Lorde Stannis, tem certeza disso? – insistiu Lady Catelyn.
De que isso importa?
—Sim, sim, sim. – disse o velho – Só que morreu, portanto, que importa? Disseram que querem atravessar o rio?
—Queremos. – disseram ao mesmo tempo.
—Pois bem, não podem! – anunciou Lorde Walder vivamente. – A menos que eu deixe, e por que haveria de deixar? Os Tully e os Stark nunca foram meus amigos. – recostou-se na cadeira e cruzou os braços, com um sorriso afetado – E o senhor seu pai se trancou em Harrenhal e não respondeu aos meus corvos. Que ele quebre o pescoço e demorem dias pra acharem o cadáver dele! O que eu não duvido que tenha acontecido.
—Lorde Walder. – resmungou Shiera – O que você quer? Não me enrole. Conheces meu gênio. Diga o preço. Eu sou uma Blackfyre e estou disposta a pagar.
Lorde Walder a olhou como se tivesse um plano ardiloso em mente. Não mudou de expressão. O encarou esperando uma resposta. O velho Frey sorriu de maneira divertida e olhou para seu ventre com os olhos brilhantes de cobiça.
—Disse que se casou faz algum tempo, não é? – perguntou ele e Shiera concordou – Imagino então que o pequeno lobinho já tenha enfiado o pau entre suas pernas várias vezes, não é? – perguntou ele novamente e Shiera corou de leve, mas manteve a pose e não perdeu a compostura. Frey queria lhe irritar, ou lhe deixar embaraçada, para que não pensasse direito, ou para intimidar. Mas aquilo não funcionaria com ela.
—Eu e Robb consumamos nosso casamento, sim. – respondeu calmamente.
—Então é questão de tempo até você começar a parir cachorrinhos, heh. – riu Lorde Walder Frey e sentiu uma veia pulsar em sua têmpora pelo modo descortês dele, mas manteve a calma.
—Logo irei dar um herdeiro para o Norte, sim. – respondeu solenemente e Lorde Frey riu de novo.
—Dizem que as mulheres sempre sabem... o que acha que será? Um menino ou uma menina? – perguntou ele.
—Espero que um menino, meu senhor. Para assegurar a linhagem do meu marido. Mas ainda não sinto nada, pois não estou grávida. – respondeu calmamente. Ou ao menos é o que eu espero.
—Será mesmo? – perguntou ele a olhando atentamente – Talvez seja o tempo que eu não a vejo, mas acho que suas tetas estão mais recheadas do que me lembro. – ele suspirou a olhando, esperando que ela reagisse, mas seguiu o olhando como se ele lhe tivesse feito um elogio galanteador – Pois bem. Meu preço... eu quero que meu caçula seja escudeiro de seu marido. – disse Lorde Frey, como se perdesse a paciência. Como se o tivesse irritado por não ter se ofendido – Com o devido tempo espero que ele seja consagrado um cavaleiro.
—Claro. Robb aceitará com prazer. Ele ainda não tem um escudeiro. – respondeu Shiera, tranquilamente e sentiu a tensão que Lady Catelyn transbordava, de pé, ao seu lado – É Olyvar, não é? – perguntou ela apenas para que Lorde Walder soubesse que ela sabia quem era seu filho caçula. Era uma maneira de “provar” que não o desprezava e nem a sua família.
—Isso. – riu ele com um sorriso presunçoso. – Quanto à sua irmã por casamento... Arya Stark, se não me engano... a que não foi prometida a Joffrey... eu quero ela casada com um dos meus filhos.
—Creio que Elmar seria perfeito. – retrucou ela escutando Lady Stark respirar pesadamente – Eles tem a mesma idade se não estou enganada... – adicionou como se não estivessem falando algo mais sério do que uma sobremesa para o jantar.
—Que seja. Pode ser Elmar... sim... ele vai servir... quarto filho da minha sétima esposa... vai servir. Vai servir.
—O que mais, Lorde Frey? – perguntou sabendo que só iria piorar a partir dali.
Lorde Walder Frey olhou novamente para seu ventre e ela soube exatamente o que ele iria querer.
—Quando você finalmente tiver o primeiro dos vários cachorros que virá a ter... eu quero que ele ou ela seja prometido a um de meus filhos ou netos. Robb Stark poderá escolher qual, quando a guerra acabar, ou quando nascer... o que acontecer primeiro. Me garanta isso e eu deixarei os homens de seu marido passarem, além de entregar meus homens ao exército dele, com exceção de uns 400 que ficarão nas Gêmeas para proteger a travessia e para garantir que ninguém persiga vocês. – ele a olhou com seus olhinhos malvados e Shiera nem notou qual foi o exato momento que tinha levado a própria mão para o ventre – Esse é o meu preço. Está disposta a pagar?
Shiera respirou fundo.
—Bem... da minha parte, não vejo problema. – disse fingindo calma. Virou-se para Lady Stark e a olhou tentando fingir que estava tudo bem e que não estavam falando sobre vender seus filhos a ele – O que me diz, Lady Catelyn? Arya é sua filha. Não acho que Robb se importará em pegar Olyvar como escudeiro, nem em fazer um acordo de casamento para nosso primeiro lobinho. – a olhou sem saber se ela concordaria – Está de acordo com os termos de Lorde Frey?
Lady Catelyn suspirou e olhou para o velho.
—Acho que os termos são razoáveis. – disse ela e Shiera se segurou para não soltar um suspiro de alívio –Não tenho objeções.
—Heh... ótimo. – Lorde Frey as olhou com um sorriso vitorioso no rosto – Ah, mais uma coisa.
Shiera engoliu em seco, contendo a ira e o nojo que sentia por aquele homem que a vira crescer e brincar naquele castelo.
—Sim? O que mais?
—Você me disse que seu pai está de acordo sobre ir contra os Lannisters. – disse ele.
—Sim, apesar de eu não saber qual é a posição dos meus irmãos sobre isso. – respondeu sem saber se Valerion ainda estava em Porto Real. Se Cersei tivesse um pingo de bom senso, não deixaria seu irmão sair de lá – Meu irmão é refém em Porto Real. Então essa é uma informação de extremo sigilo, confiada apenas aos bons amigos do senhor meu pai.
—E se Valerion for contra essa investida? A quem seu pai irá apoiar? – perguntou Lorde Frey. Shiera sabia que seu pai iria escolher Valerion, pois ele era seu herdeiro na falta de Aegon. Mas não podia simplesmente responder isso.
—Se Valerion for contra, ele estará com problemas. – respondeu como se tivesse absoluta certeza disso – Aegon virá pelo mar, quando a hora chegar, com a maior frota que Westeros já viu. E ele terá muitos soldados, além da princesa Targaryen. Valerion não poderá enfrentar o Norte e Aegon ao mesmo tempo. Ele terá que usar o bom senso, o que nós dois sabemos que ele tem de sobra.
—Aegon estará voltando para Westeros? – perguntou Lorde Frey, parecendo ainda mais interessado – Então podemos pensar em mais um arranjo...
—Não. – o cortou imediatamente – Eu disse que meu irmão voltará com a princesa Targaryen. – adicionou sabendo que Aegon ficaria furioso se arranjasse uma Frey pra casar com ele – Ele não se casará com outra mulher além dela.
—Claro que irá. Ele é o verdadeiro herdeiro do seu pai. Ele...
—Aegon vestirá o branco, para proteger a princesa que ele colocará no Trono de Ferro antes de concordar com um casamento arranjado. Lorde Walder, o senhor conhece meu irmão tão bem quanto eu. Ninguém decide o que ele faz além dele mesmo.
Lorde Frey concordou com um aceno de cabeça.
—Bem... se for o caso... então vou exigir que...
—Se não for contra, adoraria levar três de suas filhas comigo, como minhas damas de companhia. – cortou Shiera , deixando claro que ele já pedira o suficiente – Já que está querendo se livrar das filhas. Posso até tentar arrumar bons casamentos para elas, apesar de não poder prometer isso. – disse tranquilamente – Pequena Walda, é claro, é uma das três que desejo trazer comigo. As outras duas podem ser de sua escolha, Lorde Frey.
O velho sorriu, parecendo satisfeito.
—Que seja. Assim está bom. Assim está bom. – disse ele parecendo verdadeiramente satisfeito.
—Então eu voltarei para junto do meu marido para dar a notícia. Esperamos atravessar o rio antes que o sol termine de desaparecer no horizonte.
O resto foi só regateio.
Um sol vermelho e inchado pendia, baixo, sobre os montes ocidentais quando os portões do castelo se abriram. A ponte levadiça foi descida, guinchando, a porta levadiça ergueu-se, e Shiera e a Senhora Catelyn Stark avançaram para irem juntar-se a Robb e aos senhores seus vassalos. Atrás delas vinham Sor Jared Frey, Sor Hosteen Frey, Sor Danwell Frey e o filho bastardo de Lorde Walder, Ronel Rivers, à frente de uma longa coluna de lanceiros, fileira atrás de fileira de homens arrastando os pés com cotas de malha de aço azul e mantos cinza-prateados. Suas damas de companhia a estariam esperando do outro lado do rio, no outro castelo.
—Você agiu bem. – disse Lady Catelyn. Shiera engoliu em seco, sentindo um amargo gosto na boca – Não é fácil concordar com algo assim. – continuou ela – Prometer um filho que ainda nem nasceu...
—Lorde Frey terá uma faca no estômago antes de ter um filho meu. – rosnou furiosa, esporando o cavalo para se unir a Robb, que avançava a galope ao seu encontro, com Vento Cinzento correndo ao lado de seu garanhão.
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