Blackfyre
52 Amor e Sangue
Notas iniciais

Amor ou Sangue
Robb rolou na cama, muito desperto. Tinha sonhado com Jon e isso o fizera despertar. Olhou para o lado, se perguntando quando Shiera dividiria o leito com ele novamente. Sentia falta dela e achava muito ruim não poder dormir com a esposa. Mas concordara em esperar o tempo que ela precisasse. Resmungou baixinho, sem conseguir dormir, preocupado com o dia seguinte. Uma densa nevasca caíra sobre o castelo, impedindo que a marcha para o Norte tivesse início. Aegon sugeriu que Viserion queimasse todo o caminho até a Muralha, mas achou insensato fazer isso. Preferiu esperar pelo menos sete dias. O dia anterior tinha sido bem mais quente e a neve derretera um pouco, então assim que nascesse o dia, eles iriam para a Muralha, fazer justiça por Jon e por Rickon.
Se sentou e passou as mãos pelo rosto. Se levantou e colocou um casacão de pele de urso, para andar pelo castelo. Foi até o quarto de Ned e viu que o filho dormia tranquilamente. Vento Cinzento estava deitado aos pés da cama dele, o olhando com os olhos curiosos. O lobo sempre queria dormir com Ned, apesar de passar o dia todo com Robb.
Afagou as orelhas de Vento Cinzento e suspirou mirando Ned. Ele era seu último e único herdeiro.
—O Inverno está chegando. – murmurou sombriamente.
Depois se virou e mirou a cama de Shiera. Ela e Walda dormiam na mesma cama, cada uma de costas para a outra. Andou até a esposa e a afagou no rosto, sentindo falta dela. A beijou na testa tendo completa noção do tanto que a amava e suspirou, se aprumando. Mirou Shiera e se perguntou se haveria outra mulher no mundo tão bela quanto ela. Shiera usava apenas um vestido de dormir e ele se lembrou de certa noite, quando ela ficara nua para ele pela primeira vez. Implorando que ele a levasse para o Sul, para a guerra. Graças aos deuses tinha obedecido. O que poderia ter acontecido se não tivesse concordado?
Balançou a cabeça, afastando aqueles pensamentos e se virou para voltar para o próprio quarto. Precisava dormir para liderar a marcha no dia seguinte.
Mas a noite foi inquietante e ele não conseguiu dormir direito. Por conta disso, perdeu a hora no dia seguinte, atrasando a marcha para a Muralha. Talisa e Walda ficariam responsáveis pelo pequeno Ned. As duas tinham passado os últimos dias procurando por uma ama de leite e Shiera se sentiu pronta para partir. Robb ainda não concordava com aquilo, mas sabia que era uma batalha perdida. Só iria se estressar e brigar caso insistisse em deixá-la para trás.
—Ela é um amuleto da sorte Robb... tudo começou a dar errado quando você parou de levá-la contigo. – riu Theon e Robb precisou concordar.
Aegon, a pedido de Shiera, teve a honra de liderar a marcha. Jon Umber protestou, mas Robb sempre acabava cedendo para ela. O dragão de Aegon voava sobre as cabeças das tropas, vez ou outra pousando, para rolar na neve.
—Ele sempre foi o mais carinhoso e brincalhão da ninhada. Rhaego é tímido e reservado, enquanto Drogon é o mais feroz. – explicou Aegon – Viserion é um meninão.
—Como você, irmão. – riu Shiera – Como foi que Daenerys conseguiu os dragões? – perguntou ela.
—Queimou uma bruxa, o ex marido morto, o melhor cavalo que tínhamos e se jogou na pira junto com os três ovos. Quando o fogo acabou, ela estava com os três dragões. – riu Aegon – Se Robb Stark morrer de novo, você pode tentar fazer o mesmo. Queima a bruxa vermelha que está na Muralha... como é mesmo o nome dela?
—Melissandre. – riu Shiera.
—Então. Queima a vadia, queima o bonitão aqui e o cavalo dele... depois coloca os ovos de dragão de Harrenhal no meio e pronto. Dragões. – riu Aegon.
—Bem. Eu não sei você, mas eu não entraria na pira. – riu Shiera – Sou resistente ao frio e não ao fogo. – disse sua esposa e Robb revirou os olhos sem gostar da conversa – E eu realmente espero que meu marido não morra de novo.
—Por que? Estão pretendendo ter mais um bebê? Eu posso ajudar a criar, se for o caso. – brincou Aegon e Robb o olhou semicerrando os olhos. Aegon era muito brincalhão, mas algumas vezes achava que ele não o aprovava como esposo de Shiera.
—Por favor, Aegon, você não cuida nem dos seus filhos. – riu Shiera.
—Mas foi pra mim que você mandou o pequeno Ned, não foi? – perguntou ele.
—Foi, mas foi por falta de opções. E eu queria que o vovô cuidasse dele.
—Ah, falando no vovô... eu meio que prometi metade do ouro do Rochedo para ele. Eu te falei isso? – perguntou Aegon.
—Apenas umas trocentas vezes. – garantiu Shiera e Aegon gargalhou.
—Seu avô? – perguntou Robb, tentando participar da conversa. Shiera sorriu e Aegon suspirou.
—Sim, ele é um dos homens mais importantes de Volantis. – riu ele – Um comerciante absolutamente muito rico, que espera ficar mais rico ainda.
—Eu não me importaria de dar metade do ouro do Rochedo para ele. – riu Shiera.
—Você sabe que o problema não é esse. – resmungou Aegon.
—E qual seria? – perguntou Robb, mas Aegon riu com descaso e apertou a marcha – Acho que seu irmão não gosta muito de mim. – reclamou para a esposa, que deu uma risadinha.
—É... ele não gosta. – concordou Shiera, esporeando o cavalo para acelerar. Robb os acompanhou em seguida.
Foram quase duas semanas até que chegassem à Muralha. Dias que fizeram Robb concluir que também não gostava de Aegon, mas que precisava engoli-lo, não só por Shiera, mas pelo seu dragão, mais seus dez mil homens e mais um bom número de galés e dracares. Aegon e Shiera eram muito amigos, ele pode notar, e o rapaz tinha um grande carinho pela irmã. Lembrava-se de Aegon, há muito tempo atrás, em Harrenhal, quando ele sugeriu que ele, Theon e Jon deveriam fugir o quanto antes das formalidades dos senhores, para se divertir nos arredores do castelo. Ele parecera mais divertido ali.
Provavelmente porque eu não tinha me casado com a irmã dele... Ele certamente está com ciúmes de mim.
Quando Robb viu a grande Muralha se levantar no horizonte, ficou impressionado com sua grandeza. Era a maior maravilha que já tinha posto os olhos, com mais de duzentos metros de altura de gelo, se estendendo para os lados até se perder no horizonte. Castle Black parecia apenas um pontinho na base dela. Shiera, que tinha ficado sombria desde que se colocaram a marchar naquele dia, parecia agora melancólica. Ela sofre por ele... por Jon...
Robb engoliu em seco, querendo não sentir nada ruim em relação ao irmão, mas o ciúme foi mais forte. Uma parte de si mesmo ficou aliviada por Jon estar morto e isso o fez se sentir imundo. Aegon estava olhando a Muralha, impressionado e se virou para ele.
—Tenho que dar o braço a torcer para vocês nortenhos. Isso é incrível. – murmurou ele sem seu típico tom sarcástico – E é muito bonito. – adicionou ele. Shiera concordou com um aceno de cabeça.
—Sim, é linda... Jon me contou que nos dias quentes, o gelo derrete aos poucos, fazendo a Muralha chorar. Eu gostaria de ter visto isso... – murmurou ela tristemente.
—Teremos oportunidade no futuro. – prometeu Robb e Shiera suspirou.
—Vamos? – perguntou Aegon e Viserion deu um rasante na frente deles, para então voltar a subir para o alto, fazendo barulho.
Robb concordou com um aceno de cabeça e a marcha prosseguiu. Se perguntou se a Patrulha da Noite tentaria resistir, mas logo notou que não. Um rapaz jovem abrira o portão para que eles entrassem. Marchou para dentro de Castle Black, sendo observado por homens que vestiam o negro. Procurou por rostos familiares, como tio Benjen, mas não encontrou. No lugar disso, percebeu seis corpos enforcados, incluindo o de um garoto, que não era Rickon. Os homens preparavam uma pira, enquanto outros retiravam os corpos que estavam pendurados.
—Vossa Graça. – disse um homem para Shiera, ajudando-a a descer do cavalo – Seu plano deu certo? Acabaram com os Bolton?
—Sim. – riu Shiera abraçando o homem – Oh, Edd... viemos assim que recebemos a carta de Sor Alister. – disse ela – Não tão prontamente, pois teve uma nevasca. Mas assim que o tempo permitiu... – ela olhou para os homens enforcados – Foram eles quem mataram Jon e Rickon? – perguntou Shiera.
—Sim. – respondeu o tal Edd – Sobre isso... você talvez queira se sentar. – riu o homem parecendo sem jeito – As coisas estão uma loucura por aqui.
—Shiera! – gritou uma voz. Robb sentiu todos os pelos de sua nuca se arrepiarem. Os homens da Patrulha abriram caminho e um outro rapaz, vestindo roupas marrons se aproximou. Shiera o olhou em choque e o rapaz sorriu para ela.
—Mas... me disseram... – ela piscou confusa.
—Eu disse que estava tudo uma confusão. – riu Edd e Theon fez uma careta.
—Oh... isso não vai ser bom. – resmungou ele.
—As pessoas não morrem mais? É isso? – perguntou Aegon – Aquele não é Jon Snow? Eu me lembro dele.
Robb engoliu em seco e viu Jon correr até Shiera para abraçá-la e girá-la no ar, às gargalhadas. Num primeiro momento, ela estava chocada demais, mas em seguida ela o abraçou parecendo aliviada. Um pequeno monstro egoísta começou a crescer dentro de si. Notou as mãos de Jon na cintura de sua esposa e não gostou nenhum pouco da intimidade deles. Lembrou do que tinham dito, sobre eles estarem juntos algum tempo atrás, quando todos pensavam que estava morto.
Jon olhou apaixonadamente para Shiera e ela para ele e Robb se fartou de tudo aquilo. Desceu do cavalo, furioso e enciumado, se aproximando dos dois. Mas antes que os alcançasse, Jon o olhou. Primeiro ele parecia simplesmente surpreso e em choque. Ele largou Shiera e o olhou no fundo dos olhos. Os dois se olharam intensamente e Jon sorriu, com os olhos enchendo-se de água. Aquilo desarmou Robb por um momento. Sua fúria deu espaço para outras coisas. Para risadas entre treinos de espadas, entre piadinhas enquanto Bran treinava o arco e segredos sobre garotas. Jon se aproximou parecendo absolutamente fez e o abraçou, não deixando opção a Robb que não fosse fazer o mesmo. Abraçou seu irmão, feliz por ele estar vivo, preso numa loucura de sentimentos alternados.
—Eu pensei que estava morto. – lamentou Jon, parecendo emocionado.
—Eu pensei o mesmo de você. – disse Robb sentindo um nó na garganta. Robb afastou o irmão o olhando – O que está acontecendo?
—Eu acho que posso explicar. – escutou uma voz conhecida e se virou. Era Thoros de Myr – Digamos que o Senhor da Luz tinha planos para ele. – explicou o sacerdote e Robb se lembrou que tinha enviado a Irmandade sem Bandeiras para a Muralha – Infelizmente não pude fazer muito pelo seu irmão caçula.
—Você foi trago de volta. – murmurou Robb para Jon, que concordou com um aceno de cabeça – Eu também. Eu fui morto nas Gêmeas, mas fui trago de volta por Sor Beric Dondarion. – explicou para Jon – Você... você perdeu suas memórias? Se lembra de seus últimos dias? – perguntou Robb com o monstrinho ciumento dentro de si arranhando-o por dentro novamente. Jon piscou, mirou Shiera e então corou parecendo constrangido – Aparentemente se lembra. – rosnou. Jon engoliu em seco e Shiera desviou o olhar.
—Achávamos que estava morto. – murmurou Jon.
—Acho que não é o momento para conversarmos sobre isso, não é? – perguntou Theon.
—Puta que pariu! – gritou Aegon – Thoros?! É você? – perguntou ele e Thoros o olhou.
—Aegon Blackfyre! – riu Thoros e Aegon foi até ele para abraçá-lo – Já faz alguns anos, não é? – perguntou Thoros e Aegon sorriu.
—Esse é o desgraçado mais bêbado de toda Westeros. – riu Aegon e Viserion voou sobre a cabeça deles, fazendo os desacostumados gritarem de susto – E esse é o Viserion, apresentações feitas... o que acham de uma bebida para comemorar que viemos aqui para porra nenhuma? Ou apenas para ver o clima escroto do triângulo amoroso ali. – riu ele apontando para Robb, Jon e Shiera. Os três desviaram os olhares constrangidos e Aegon gargalhou novamente – O que você tem de mais forte, Thoros?
—No momento, a minha fé. – riu ele e outra mulher apareceu, olhando ao redor. Depois ela andou até Shiera, que pareceu ficar tensa.
—Shiera Blackfyre. – disse ela com uma voz que marcava presença – Precisamos conversar sobre o destino do mundo. – disse ela e Shiera engoliu em seco.
—Não quero conversar com você, Melissandre. – disse ela e a mulher, suspirou. Ela usava roupas vermelhas, tinha os olhos vermelhos e uma gargantilha com um rubi reluzente. Tinha o rosto em formato de coração e as maçãs do rosto proeminentes. Ela era uma mulher muito bonita, mas havia algo de perigoso nela.
—Mas é preciso. Você também tem o dom de ver, não tem? Precisamos conversar. – explicou ela – Thoros me contou coisas preocupantes. – disse ela e Shiera engoliu em seco. Robb sentiu a esposa lhe lançar um olhar cauteloso.
—Se não for contra a vontade do meu esposo, irei.
A mulher a olhou surpresa e até Robb o fez.
—O dragão foi domado? – perguntou a mulher – Vossa Graça. Se importa? – perguntou ela. Robb olhou para Shiera e concordou com um aceno de cabeça – Pronto. Vamos?
Shiera suspirou e foi andando ao lado da mulher e Jon se aproximou.
—Cuidado com ela. – disse ele e Robb olhou para o meio irmão sem saber como se sentir em relação a ele – Ela é perigosa. E tem a mania de querer colocar fogo nas pessoas.
—Imagine se escutasse a conversa que tivemos a caminho para cá. – riu Aegon – Essa daí que é a Melissandre? – perguntou ele. Thoros concordou com um aceno de cabeça – Dá até vontade de começar a acreditar no Senhor da Luz...
Thoros deu uma gargalhada e passou o braço pelos ombros do rapaz.
—Eu senti falta desse cretino. – murmurou ele – Vamos. Eu tenho um pouco de cerveja preta bem forte nas minhas coisas. Vamos beber e você me conta sobre esse dragão que está voando ao nosso redor.
—Claro, claro. Sem problemas. – riu Aegon.
Robb se virou para Jon, ignorando o cunhado.
—Senhor Comandante da Patrulha... – começou e Jon negou com a cabeça.
—Não sou mais o Senhor Comandante. Minha vigia acabou. – disse Jon e Robb piscou – Fiz um juramento de servir a Patrulha até a minha morte. Eu morri. – ele olhou para os enforcados – Morri pelas mãos dos meus irmãos... não sinto mais responsabilidade alguma por esse lugar. – disse calmamente.
—E o que pretende fazer então? – perguntou Robb. Jon suspirou enquanto Edd ajudava a organizar as tropas, para arrumar lugares para todos.
—Não sei. – confessou Jon, enquanto se afastavam aos poucos – Mas acho que vou começar pedindo desculpas. – disse ele e Robb engoliu em seco – Jamais trairia você desse jeito, Robb. Sabe disso, não sabe? – perguntou Jon e Robb suspirou – Nós dois pensávamos que você estava morto. Nós dois tentamos resistir ao que sentíamos. Eu realmente sinto muito. Se sequer sonhasse que você estava vivo, jamais teria tocado em um fio de cabelo dela.
—Você faz ideia da posição que me colocou? – perguntou Robb zangado – Não esperaram nem mesmo meu corpo apodrecer.
—Você se casou com ela sabendo que eu a amava.
—Você disse que não se importava! – rosnou Robb.
—E você sabia que não era verdade. – disse Jon – Mas eu nunca guardei rancor de você por isso. Eu vim para a Patrulha e você casou com ela. Eu jamais teria chance com ela então você aproveitou. Eu fiz o mesmo. Você estava morto. Ela estava aqui, comigo. Passamos por muitas coisas juntos, lutamos juntos, brigamos juntos, barganhamos juntos. Eu tentei fingir que nada estava acontecendo, mas foi impossível, Robb. – Jon engoliu em seco e murmurou miseravelmente – Eu a amo, Robb...
—Quantas vezes? – perguntou Robb e Jon suspirou.
—O que? – perguntou ele corando violentamente. Robb o olhou furioso.
—Quantas vezes vocês... – Ele o olhou sem conseguir terminar a frase. Só de pensar a respeito sentia o sangue ferver.
—Que importância...
—Quantas? – cortou zangado. Jon suspirou e desviou o olhar.
—Duas noites. – respondeu Jon e Robb engoliu em seco.
Ficaram em silêncio, com o frio puxando suas capas. Olharam as tropas e a Muralha, absorvendo a situação.
—Se eu estivesse morto. O que você faria agora? – perguntou Robb. Jon engoliu em seco e baixou o olhar – Pediria para que ela o legitimasse e se casaria com ela? – perguntou o ruivo e Jon suspirou.
—Robb... pare com isso. – pediu Jon – Não importa o que eu faria. Importa o que vou fazer. Eu queria juntar forças para ajudar Shiera a se livrar dos Bolton...
—Por que não a impediu de voltar para Winterfell? Sabe o que aconteceu com ela em Winterfell? – perguntou Robb. Jon suspirou.
—Eu imagino. – respondeu ele. Robb negou com a cabeça.
—Não faz ideia do que Roose fez com ela. – disse Robb – Você desrespeitou minha morte, deitando-se com ela e quando ela mais precisou de você, você não fez nada.
—Eu tinha uma missão. Aqui. Na Muralha. Eu ia voltar com ela. Eu ia ficar com ela, mas me proclamaram Senhor Comandante da Muralha. Os votos...
—Os votos não impediram você de se deitar com ela. – rosnou Robb.
—Os votos não dizem respeito a se deitar com mulheres. Apenas sobre se casar e ter filhos. Eu não tinha feito nenhum dos dois. – garantiu Jon – Eu ia abrir mão da Patrulha para ir com ela, dizendo que minha rainha me convocava. Um voto por outro. Mas como a Muralha passou a estar sobre minha responsabilidade, eu não pude ir embora. – Jon suspirou, parecendo triste – Eu implorei para que ela não fosse pra lá, mas ela tinha um plano. Um plano que deu certo, aparentemente... – murmurou ele, cabisbaixo. Robb engoliu em seco e mirou uma das torres de Castle Black. A torre em que Shiera tinha ido com Melissandre.
—Sim, deu certo... mas a que preço? – perguntou Robb. Jon suspirou e passou as mãos sobre o rosto.
—Robb. – o olhou sentindo-se perdido – Eu não vou mais ficar na Muralha. – disse ele – Eu quero ir com você, lutar ao seu lado. Quero vingar nosso pai e nossos irmãos. – Jon engoliu em seco – Sei que está bravo comigo, eu entendo. Mas por favor. Você é minha família. – ele colocou a mão em seu ombro e engoliu em seco – Permita-me ficar ao seu lado. Permita-me ser seu soldado. – pediu ele e Robb respirou fundo.
—Você é meu irmão. – murmurou Robb o olhando. Jon era muito parecido com seu pai. Os cabelos escuros o rosto comprido, os olhos de tempestade. Respirou fundo e colocou a mão no ombro dele – Ficarei feliz em tê-lo ao meu lado, Jon. – disse sabendo que aquilo era apenas meia verdade – O aceito como meu conselheiro, como meu soldado de confiança. Confiaria minha vida a você, Jon. Confiarei minha vida a você. Confiarei em seus conselhos, confiarei em seus instintos. Quero ter você ao meu lado em todas as batalhas que tivermos. Lutaremos como os irmãos que sempre fomos, mas que fingíamos que não éramos, para não aborrecer minha mãe. – disse Robb. Jon sorriu aliviado – Eu ficaria muito feliz de ter você comigo, em Winterfell. E caso o pior aconteça comigo... de novo... – os dois deram uma risadinha – Eu seria grato se você cuidasse da minha família. – Robb suspirou e olhou o irmão, que parecia feliz com o que ele tinha dito – Mas quero algo em troca.
—O que? – perguntou Jon o olhando com expectativa.
—Fique longe de Shiera. – disse Robb engolindo em seco, sentindo aquele monstro ciumento lhe arranhar por dentro. Jon esbugalhou os olhos, surpreso – Fique longe dela, não fale com ela, não toque nela, não olhe pra ela. Não pense nela, se for possível. Se me jurar isso, o perdoarei por tudo o que aconteceu no passado e o aceitarei, Jon. Caso contrário, não haverá o que ser feito. Eu não vou suportar ver de novo a cena que vi agora pouco. – disse Robb – Ainda mais depois de tudo o que aconteceu entre vocês. Eu e Shiera não estamos bem. – disse Robb e Jon suspirou, baixando a cabeça.
—Robb... eu não estou tentando de roubá-la de você. – murmurou Jon, franzindo a testa – Eu a amo, mas eu sei que ela não me pertence. Ela pertence a si mesma. Eu a considero uma boa amiga. Não faça uma restrição dessas. – pediu ele e Robb negou com a cabeça.
—Esses são meus termos, Jon. Se quiser fazer parte dos meus homens, vai ter que dobrar o joelho e seguir as minhas ordens. Se desobedecê-las... – Robb levou a mão até o cabo da espada e Jon recuou um passo. Os dois irmãos olharam nos olhos um do outro por um longo momento de tensão. Jon, depois de um longo momento, desviou o olhar e murmurou a contragosto.
—Responderei amanhã, quando estiver de partida. – respondeu ele.
—Devo ficar aqui durante uma semana. – respondeu Robb – Dividirei minhas tropas pela Muralha, usando alguns dos castelos... soube que você e Shiera reformaram alguns que estavam fechados, não é?
—Sim. – murmurou Jon. Robb respirou fundo.
—Vou guarnecer esses castelos, por um tempo. Mandei um corvo para Harrenhal há alguns dias. Espero uma resposta ainda.
—Posso saber o que se passa? – perguntou Jon, cauteloso.
—Pedi ajuda do castelão do Castelo. Vou expulsar todo e qualquer aliado Lannister do Norte, vou reconquistar as Terras Fluviais, matar os Frey que sobraram nas Gêmeas... – Robb respirou fundo – Com as forças Nortenhas de um lado e as de Harrenhal do outro, as Gêmeas serão derrotadas facilmente. – explicou ele – Então marcharemos para o Rochedo, onde passarei cada Lannister à espada. Vou conquistar Casterly Rock e então tomar Porto Real.
—Pretende se sentar no Trono de Ferro? – perguntou Jon, surpreso.
—Não, mas vou tirar os Lannister de lá. – respondeu Robb, determinado – Eles vão pagar por tudo o que fizeram à nossa família. – adicionou ele – Não me importa quem ficará com o Trono de Ferro. – Robb olhou para Jon – Talvez fique com Aegon, se ele o quiser.
Jon concordou com um aceno de cabeça.
—Certo. – murmurou Jon – É um grande plano bem complicado.
—O Norte está conquistado de novo. As Gêmeas estão desguarnecidas. Quero recuperar Riverrun também, devolvê-la a nosso tio. – suspirou Robb – Os Frey vão sair de lá. E eu tenho Petyr Baelish preso. Ele foi nomeado Lorde de Riverrun pelo Trono de Ferro. Mas não darei reconhecimento às palavras de um reles bastardo. – olhou para Jon e sentiu o estômago saltar – Digo... Tommen ou Joffrey...
—Não se preocupe, Robb. – riu Jon, mansamente – E Shiera? Vai levá-la com você durante todo o caminho? – perguntou Jon e Robb concordou.
—Nunca mais vou deixá-la para trás. – prometeu ele.
**
Sentia um gosto muito amargo na boca. Seu corpo pesava toneladas e simplesmente não conseguia se mover. Alguém mexia em suas costas, mas não sabia o motivo para isso. Tentou abrir os olhos e notou que estava afundado na penumbra. As cortinas fechadas, apesar de que não parecia haver luz lá fora. Era noite, provavelmente... havia apenas uma fonte de luz, provinda de uma vela, ao seu lado. Respirou fundo, cansado, mole e pesado. Não conseguia se mover. Seus lábios estavam dormentes e tinha a impressão de que a língua era grande demais para sua boca.
Tentou mexer os pés, ou as mãos, mas não conseguiu. Estava deitado de bruços, sentindo alguma dificuldade para respirar. Aos poucos, a sensibilidade em seu corpo voltava, mas ainda era uma grande dificuldade mover um músculo que fosse. Começou a sentir algumas câimbras e gemidos de dor foram escapando de sua garganta. Mãos massagearam suas pernas e seus braços, enquanto alguém mexia em suas costas, molhando-as com toalhas úmidas e macias.
Começou a distinguir vozes. Naerys, Tyrion, Oberyn e Arianne. Notou que era a mulher e Oberyn quem massageavam suas pernas e braços, aliviando as câimbras. Naerys cuidava de suas costas e Tyrion bebia vinho, sentado em uma cadeira ali perto. Mas por mais que tivesse conseguido distingui-los entre si, não conseguia entender o que falavam. Sua cabeça estava pesada demais e as vozes deles pareciam desconexas. Tinha impressão de que tudo não passava de um sonho estranho.
Em algum momento estava só no quarto, com luz entrando pela janela. Estava dolorido, sonolento e com a cabeça pesada, como se tivesse bebido demais. Mas o corpo parecia mais leve e foi capaz de se levantar. O fez com muito cuidado, sentindo as costas arderem e repuxarem. Engoliu em seco, ficando de joelhos na cama, tentando entender o que raios tinha acontecido. Seu corpo exalava um doce odor de óleo perfumado. Seus braços estavam macios e brilhantes, provavelmente por conta do óleo. Seu tronco estava enfaixado, num curativo novo e limpo. Estava completamente nu e dando uma boa olhada em si mesmo, notou o quanto tinha emagrecido. Se levantou da cama, ainda se sentindo cansado e zonzo, para ir até o armário e pegar um calção e uma camisa macia. Se vestiu com cuidado e lentamente, sentindo as costas arderem a cada movimento brusco. Depois foi até a janela respirar o ar frio da manhã.
O vento gelado bateu em seu rosto e Valerion engoliu em seco. Estava fazendo um dia muito frio e aparentemente teria nevado durante a noite. Não uma nevasca violenta, mas o suficiente para colorir de branco as copas das árvores.
—O Inverno chegou. – sussurrou sentindo o vento frio. As pessoas trabalhavam lá embaixo, andando apressadas de um lado para o outro, tirando a pouca neve que cobria o chão de pedra do caminho. Valerion coçou os olhos e se virou para pegar algumas folhas de menta, para mascar. Depois se sentou na cadeira e pegou os livros de Harrenhal. Conferiu a quantidade de mantimentos que tinham guardado e como estavam os armazéns, de acordo com as anotações de Naerys. Fez algumas contas rápidas, notando que teriam comida o suficiente para dez anos de inverno. Ou doze, se fossem mais rígidos. Fechou o registro de comida e foi olhar o dos camponeses. Quantas pessoas dependeriam de Harrenhal? – Teremos pessoas de menos para alimentar, e comida demais, acredito. – murmurou surpreso, pensando em como a situação era diferente em Porto Real. A cidade tinha pelo menos vinte vezes mais pessoas do que os arredores de Harrenhal. Provavelmente mais, na realidade. E o número só tendia a crescer. E eles não teriam comida para mais do que quatro anos. E como Cersei conseguira se prender e prender Loras e Margaery, provavelmente não teriam os Tyrell para ajudar a manter a cidade. Pensou em Myrcella e engoliu em seco – Não vou deixá-la desse jeito. – murmurou se levantando. Andou de um lado, para o outro. Se perguntou se tinham mandado uma resposta para a Muralha. Robb estaria esperando que ele o ajudasse a derrubar as Gêmeas. Walder Frey fora um amigo de seu pai, mas Robb era esposo de sua irmã. Não achava correto tirar a fortaleza dos Frey, mas eles tinham cometido um crime terrível. Mataram seus convidados, depois de servir pão e vinho para eles. Se sentou novamente e pegou tinta, pena e papel. Escreveu para Robb que ele era o Lorde de Harrenhal, que Sansa e Arya estavam sãs e salvas no castelo. Que iria marchar para as Gêmeas, para ajudar a tomar a fortaleza. Escreveu que poderiam se considerar aliados e perguntou se ele estaria interessado em ajudá-lo a tomar Porto Real, para colocar alguém competente na administração do lugar – Mas quem? – se perguntou passando a pena de leve sobre a bochecha. Pensou primeiramente em si mesmo. Já tinha se imaginado várias vezes sentado no Trono de Ferro. Mas isso significaria o quê para Harrenhal? Era sua responsabilidade... Deixaria para Aegon? Tanto ele quanto o irmão sabiam que ele seria um péssimo administrador. E se ele quisesse tentar o Trono de Ferro, quem seria sua rainha? Margaery? Sansa? Arianne? Myrcella? Não fazia ideia. Cada uma delas vinha com uma aliança diferente. Margaery teria a fartura de Jardim de Cima, além de uma excelente parceira para administrar os Sete Reinos. Sansa era seu grande amor, e significaria uma grande aliança com o Norte. Região que ganhava mais e mais poder, agora que tinha sido unificada. No entanto, o Norte tinha tido baixas demais, a verdade era essa. Mesmo que boa parte das forças de Stannis tenham se juntado a eles, o Norte ainda era o elo fraco naquela guerra. Arianne traria Dorne, que tinha comida, soldados descansados, dez mil espadas. Uma região forte e inteira, que ainda não tinha perdido um veado de prata com a guerra. Pelo contrário. A economia Dornesa lucrava vendendo o que as regiões tocadas pela guerra já não podiam mais produzir. Sem falar que Arianne era muito bonita. Bufou se curvando para a mesa. Myrcella teria a força dos Lannister. Jamais seria tolo a ponto de esquecer desse detalhe. Myrcella, com Tommen morto, era a herdeira de Tyrion. Se matassem todos os Lannister, menos Tyrion e Myrcella, todo o ouro e poder de Casterly Rock poderiam estar à disposição. Poderia sentar-se no Trono de Ferro, com Tyrion como sua mão e Myrcella como esposa... mas o que isso significaria para todos os outros? Shiera e Robb aceitariam isso? Ou Sansa? Ou a própria Myrcella concordaria em abrir mão do Norte? E dar as costas aos Martell e os Tyrell lhe parecia uma péssima ideia... – Talvez o Trono de Ferro não seja pra mim – murmurou sozinho. Mas então seria pra quem? Daenerys Targaryen? Pensou nisso por um momento. Conquistar o Trono para uma mulher que nunca sequer tinha pisado em Westeros lhe parecia uma coisa tola. Mas Aegon a apoiava. E ele tinha um enorme exército e um dragão. E pelo que tinha escutado, a Targaryen ainda tinha mais dois. Engoliu em seco sem saber o que fazer. Reivindicar o Trono seria ter que lidar com a possibilidade de enfrentá-la algum dia. E como se derrota uma mulher que tem três Dragões, um exército de Dothrakis, Imaculados e mais a Companhia Dourada? – Talvez ela possa ser Rainha e eu o Rei. Harrenhal é o castelo mais poderoso dos Sete Reinos, eu tenho um contingente poderoso de tropas... e acho que poderia convencer o Norte a se aliar a nós. – murmurou ficando de pé.
Mas isso significaria esquecer de vez de todas as outras mulheres.
A verdade é que não se importava tanto com Margaery ou com Arianne. Mal conhecia a dornesa e Margaery era simplesmente a irmã de seu amigo, com quem ele tivera um momento. Nada mais do que isso. Myrcella era muito mais importante. E nem precisava falar de Sansa. Andou novamente até a janela, se curvando e apoiando as mãos no parapeito. Suspirou sem saber o que fazer, e antes que pudesse concluir alguma coisa, a porta se abriu. Virou-se e notou que era Arianne. Por um momento achara que seria Sansa, então apenas desviou o olhar.
—Parece decepcionado, meu Lorde. – riu a mulher, se aproximando lentamente. Seu quadril redondo e hipnotizador, movendo-se sedutoramente a cada passo.
—Apenas pensei que era outra pessoa. – disse simplesmente.
—E é por isso que se decepcionou? – perguntou ela. Valerion respirou fundo e se virou para encará-la. Ela trazia uma tigela com um unguento estranho, além de uma garrafinha com um líquido transparente e viscoso dentro. Fez uma educada e singela mesura e Arianne colocou as coisas que trazia em cima de uma cômoda ao lado de sua cama. Depois ela foi até um armário e pegou ataduras e panos limpos – Eu vim trocar seus curativos, meu Lorde. Normalmente é Lady Sansa, ou Naerys quem fazem isso, mas ambos parecem ocupados com os afazeres diários do castelo. Tivemos neve essa noite e precisamos correr atrás para não perdermos a última colheita. Em tempos como esse, cautela e comida nunca são demais, não acha?
—E seu tio? E Tyrion?
—Tyrion está com Naerys, o ajudando com as obrigações do castelo. Aquele anão é bom com essas coisas tanto quanto é bom em esvaziar um copo de vinho. Por favor, meu Lorde, deite-se. – pediu ela – Espere. – adicionou ela quando ele estava indo para a cama – Precisamos tirar suas roupas.
—Oh, claro. – disse rindo. Arianne o ajudou a tirar a camisa, com muito cuidado e sem parecer querer tirar uma casquinha, como imaginou que ela faria.
—Com licença. – disse ela desatando os cordões de sua calça – Ficará mais fácil de limpar os cortes mais próximos da lombar. Não precisa se despir, apenas abaixar um pouco a calça, está bem?
—Ah, sim, claro. – disse constrangido, respirando fundo, tentando controlar a imaginação. Arianne teve alguma dificuldade com o nó do cordão de sua calça e os dois riram um tanto sem jeito disso – Precisa de ajuda com isso?
—Realmente deu um nó de marinheiro aqui, meu Lorde.
—Valerion. – riu ele e Arianne o olhou com um sorriso gentil – Pode usar só Valerion.
—Está bem. – riu ela finalmente conseguindo desatar o nó. Estava para baixar a calça de leve, quando escutou alguém tossir para limpar a garganta.
—Estou atrapalhando? – perguntou Sansa e Valerion sentiu o coração na garganta. Olhou para si mesmo e depois para as mãos de Arianne em seus calções.
—Não, de forma alguma, meu bem. Você trouxe as toalhas limpas? – perguntou Arianne como se nada de demais tivesse acontecido.
—Sim, eu trouxe. – sibilou Sansa jogando as toalhas em cima da cama.
—Obrigada. – riu Arianne, para em seguida olhá-lo com divertimento – Pode se deitar, Valerion. Ou talvez fosse melhor tirar logo suas ataduras. Abra os braços, sim? – pediu ela tentando desenfaixá-lo. Tentou parecer inocente e repetiu para si mesmo que de fato o era. Não tinham feito nada de errado ali. Mas o olhar frio de Sansa o fazia sentir-se culpado.
—O que aconteceu comigo? No jantar? – perguntou Valerion, tentando desviar do olhar censurador de Sansa.
—Você foi envenenado. – respondeu Arianne. Valerion respirou fundo – Por sorte tínhamos dois peritos em venenos aqui.
—Naerys é muito bom com antídotos. – disse Sansa se aproximando e pegando uma faca para cortar de uma vez as bandagens. Arianne não pareceu se importar. Ela estava girando lentamente ao seu redor, desenrolando-o aos pouquinhos, com um sorriso cativante e misterioso. Mas Sansa foi mais prática e apontou para a cama, para que se deitasse. Valerion obedeceu e se deitou. Sansa sentou-se na cama ao seu lado e mergulhou uma toalha fina na tigela de unguento, para então molhar seus cortes nas costas – Ele reconheceu prontamente o que tinham colocado no seu copo e lhe administrou o antídoto.
—O curioso é que aquele veneno não é do tipo que mata rápido. – disse Arianne se sentando em cima de suas coxas, para limpar suas feridas. Sansa a olhou escandalizada e ele sentiu-se em pânico – Não acho que foi uma tentativa de homicídio. Mas um recado.
—Que tipo de recado? – perguntou Sansa com uma veia saltando na têmpora. Engoliu em seco tentando se concentrar no que elas falavam e não na maneira como Arianne estava sem cima de suas pernas, tocando sua pele com uma toalha macia.
—É mais fácil entender um recado quando se é a pessoa que o recebeu. – respondeu Arianne – Quem acha que pode ter sido?
Não tinha sangue o suficiente em sua cabeça, para ajudá-lo a pensar.
—Eu não sei. – murmurou e sentiu que Arianne se curvava sobre si, para pegar a garrafa com o líquido transparente.
—Deve estar bem dolorido, Valerion. Vou massagear seus braços e pernas. Meu tio disse que provavelmente estaria dolorido e cheio de câimbras, estou certa?
Queria mentir e falar que estava bem, mas realmente estava muito dolorido.
—Sim. Está, minha senhora. – murmurou sabendo que Sansa iria ficar brava.
—Acho que pode lidar com ele sozinha, não é? – perguntou ela obviamente zangada.
—Sim, acho que posso. Imagino que deve ter muitas coisas para fazer... como organizar seu retorno a Winterfell, não é mesmo? – perguntou Arianne se levantando para então se sentar no colchão e massagear suas pernas – Aposto que está morrendo de saudades de casa. Dizem que Winterfell é um lugar lindo.
Mirou o rosto de Sansa e notou que ela pareceu ficar ligeiramente triste. Ela provavelmente sentia falta de casa.
—É... lá é lindo. – murmurou Sansa, soltando um suspiro – E quente. Pode parecer absurdo, mas é bem mais quente que Harrenhal. – sussurrou ela.
—Eu não sinto saudade de casa. Gostei tanto das Terras Fluviais. – murmurou Arianne soltando um longo suspiro, enquanto Valerion fechava os olhos, amando a massagem dela – Aqui é tudo tão verde. E a neve? Hoje pela manhã corri pelo pátio e fiz uma guerra de bolas de neve com minhas primas. – riu ela – Foi muito divertido. – ela suspirou enquanto apertava a batata de sua perna direita – Já brincou alguma vez de guerras de bolas de neve, Valerion?
—Já, em Winterfell... com os irmãos mais novos de Lady Sansa. – respondeu relaxando sob os cuidados das duas – Winterfell é um lugar deveras muito belo. – murmurou – Onde está Oberyn? – perguntou Valerion respirando fundo – E Tyrion?
—Oberyn Martell estava se exercitando no pátio. – respondeu Sansa com a voz gélida – Tyrion estava bebendo por aí. – murmurou ela.
Valerion concordou e se virou lentamente. Arianne estava de joelhos, sentada sobre as próprias pernas, o olhando intensamente.
—Vou procurá-los. Já descansei demais. – disse se levantando da cama – Sansa, creio que marcharemos para as Gêmeas. – disse indo até o papel que tinha escrito para Robb – Encontraremos seu irmão lá, depois de tomarmos a fortaleza. – explicou ele entregando o papel para ela – Peço que tanto a senhora quanto a sua irmã venham comigo, assim poderemos garantir a reunião da família Stark. – riu ele.
—Você quer tomar Porto Real. – murmurou ela lendo a mensagem.
—Atacaremos por Terra. Seu irmão irá pelo mar, com a Frota de Ferro. Tomaremos Porto Real dos Lannister e eu vou estripar os malditos que fizeram isso nas minhas costas, além de dar aos Lannister o que eles merecem. – disse cruzando os braços.
—O que dará a Myrcella? – perguntou Sansa. Sentiu o estômago saltar de susto.
—Apenas o que ela merece. – respondeu evitando olhá-la.
—E o que significaria isso? – perguntou Sansa o olhando firmemente.
—Por que se importa? – retrucou a olhando de volta – Não é como se fosse mudar algo em sua vida, não é? Myrcella nunca me fez mal, pelo contrário. Sempre me ajudou e cuidou de mim. Sou grato a ela e não quero vê-la machucada. Ela é sobrinha de Tyrion. Quero cortar a cabeça de Cersei, mas Myrcella não deve ser machucada. – ele bufou – A entregarei aos cuidados do tio. Ela pode voltar a Casterly Rock.
—Acha mesmo que meu irmão concordará com isso? – perguntou Sansa e Valerion a olhou curioso – Acha que ele será gentil com a irmã de Joffrey, com a filha de Cersei, depois do que eles fizeram comigo e com meu pai? Robb vai querer todos eles mortos.
—Seu irmão ficará querendo. – retrucou simplesmente – Myrcella não será machucada. – disse firmemente – Cersei e Jaime não me importam, mas nenhum Stark fará mal algum a Myrcella e a Tyrion. Eles nunca fizeram nada contra vocês.
—Tyrion me tomou como esposa, contra a minha vontade.
—Pare com isso, Sansa. Ele desejou essa união tanto quanto você. E até onde eu fiquei sabendo, ele não encostou em um fio de cabelo teu. Ele nunca te machucou, nunca te fez mal.
—Não posso dizer o mesmo de Myrcella. – rosnou Sansa se levantando e andando até ele – Ela me fez mal, ela me feriu. Exibindo o noivado com você, roubando você de mim! – disse ela.
—Myrcella não me roubou de você! – disse zangado. Sansa o olhou descrente – Você quem não me quis mais!
—Você se deitou com ela! – disse Sansa o empurrando e Valerion cambaleou fraco para trás – Você se apaixonou por ela. E agora a está protegendo!
—Estou. Sou grato a ela. Não consegue entender isso? – perguntou Valerion – E deveria baixar o tom para falar comigo, Sansa. Se não fosse por mim, ainda estaria lá. Ainda estaríamos os dois lá. – disse zangado e ela o olhou furiosa – Você não passa de uma garota mimada que faz escândalo quando não consegue o que quer.
Sansa o olhou magoada e deu meia volta, para sair do quarto. Valerion bufou e caminhou até sua camisa e então mirou Arianne, que ainda estava ali. Tinha se esquecido completamente dela.
—Complicado, não? – perguntou ela. Valerion bufou novamente e se aprumou. Não disse uma só palavra à Dornesa. Pegou a mensagem que enviaria a Robb e foi até a Torre dos Corvos, para pedir que Naerys mandasse a resposta para a Muralha.
**
Myrcella estava sentada na janela, mirando a manhã fria e cinzenta que fazia. Soltou um longo suspiro e deitou a cabeça no parapeito, vendo as pessoas andarem agasalhadas lá embaixo. Fazia mesmo bastante frio. Se enrolou no lenço colorido que tinha e afagou a própria barriga. Valerion ainda não tinha vindo lhe salvar, mas sabia que era apenas questão de tempo. Ele conseguira fugir das mãos daqueles lunáticos e agora viria buscá-la. E quando ele viesse, contaria a ele a verdade. Teriam um filho e ela viveria feliz ao lado dele, em Harrenhal, bem longe da corrupta Porto Real. Se agarrava a essa esperança e era isso que lhe dava forças todos os dias.
Sentia que definharia se não fosse esse pensamento. Não sentia fome, pois estava triste, mas se obrigava a comer, pensando em como seu bebê com Valerion seria. Pensando que não estava comendo por si mesma, mas por ele. Sentia em suas entranhas que seria um menino. Um lindo menino, herdeiro do grande castelo de Harrenhal. Herdeiro dos Blackfyre e, talvez, um herdeiro ao trono, se Tommen matasse Margaery.
—Ele não vai matar Margaery, pois a amava e aquela história sobre ela e Valerion provavelmente era mentira. – se levantou e esticou as costas – E tem mais. Mesmo que seja verdade, não importa. Eu sei que naquela época Valerion não me amava. Ela ainda era noiva de Joffrey. Talvez tenha acontecido quando eu ainda estava em Harrenhal. – suspirou sozinha e alisou novamente a barriga, com um sorriso tranquilo – Tenho certeza que ele poderá explicar. Não vou me enfurecer como da outra vez. Tudo vai dar certo. Eu só tenho que manter a calma. – suspirou novamente enquanto afagava o próprio ventre e se jogou nas almofadas que haviam ali. Pensou em sua primeira noite com Valerion e sentiu-se calorenta. Tinha sido ali, naquela torre. Suspirou deitando de lado e afagando a barriga novamente, se perguntando se seu bebê seria capaz de sentir suas carícias e todo o amor que já tinha por ele – Como será que você vai ser? – perguntou sonhadoramente – Sabe. Há muitos anos atrás, um rei Targaryen prendeu suas três irmãs aqui nessa torre. Todas eram donzelas e ele queria que elas permanecessem assim. – suspirou contando aquela história para seu bebê – Uma das irmãs, inclusive, era esposa dele. – Myrcella suspirou – Mas ele as trancou aqui assim mesmo. Foi Baelor. O mesmo rei que construiu aquele grande septo, onde seu pai estava preso. – riu Myrcella se perguntando de que maneira gloriosa Valerion deveria ter escapado – A mais nova era meramente uma criança, chamada Elaena. Ela era muito esperta e de personalidade forte. A do meio era Rhaena, muito bela e devota, que acabou se tornando uma septã. E a mais velha, a esposa do rei Baelor, era uma guerreira destemida. Seu nome era Daena. – narrou Myrcella – Mas mesmo presas aqui, Daena conseguiu fugir e engravidou. Por anos perguntaram quem era o pai da criança dela, mas ela guardou segredo. Ela teve um filho forte e belo. Um grande guerreiro. E quando ele cresceu o suficiente para se tornar um cavaleiro, o rei Aegon o reconheceu como seu filho e o presenteou com a espada Blackfyre. Quando esse rei Aegon morreu, ele legitimou todos os seus bastardos e esse garoto, chamado Daemon, fundou sua própria casa, Blackfyre. Foi assim que sua família nasceu, meu amor. – murmurou para a barriga. Suspirou desejando que seu corpo mudasse logo. Sentia os seios maiores, mas sua barriga ainda estava reta e sem mudanças significativas, que denunciassem sua gravidez. Mas a maior prova de que estava realmente grávida era a falta de seu sangue lunar. Já haviam duas luas desde a última vez que ele viera, quase três. Sorriu feliz e escutou alguém tentar abrir a porta. Ficou de pé e empinou o nariz, para mostrar que não estava quebrada. Sua determinação era de ferro e seu orgulho era sua maior arma. Sou uma Lannister, afinal. A porta se abriu e um senhor entrou. Não um senhor qualquer, mas seu tio avô Kevan. Ele a olhou com os olhos cansados, ele inteiro parecia cansado. Mas seus olhos verdes eram dóceis e ela sabia que ele não estava ali para uma disputa – Tio Kevan. – disse desfazendo a pose defensiva. Kevan suspirou e andou até ela, para afagá-la nos cabelos.
—Myrcella, perdoe-me por demorar tanto para vir tirá-la deste lugar, mas foi preciso. – disse o tio. Myrcella sentiu uma vertigem e mirou o tio, com cautela.
—Veio me tirar daqui?
—Sim, mas primeiro precisamos conversar e ser absolutamente sinceros um com o outro. – disse seu tio e Myrcella se permitiu ser guiada até a mesa. Seu tio puxou a cadeira e ela se sentou. Ele se sentou ao seu lado, parecendo abatido e cansado. Ele sempre estava cansado e abatido, desde que seu avô morrera, mas agora era ainda mais evidente – E para deixá-la confortável, eu começarei, está bem?
—Sim.
—Myrcella. Seu avô teve três filhos. Jaime, Cersei e Tyrion. Jaime está na Guarda Real e não pode mais herdar um veado de prata que seja de Casterly Rock. Sua mãe é uma mulher, então vai para o final da fila da herança. O próximo é seu tio Tyrion, que se mostrou um traidor da coroa. Seu irmão o destituiu do direito de herança de Casterly Rock, o que faz com que sua irmã seja a herdeira de Tywin. Você entende isso?
—Sim. – respondeu simplesmente, porque aquilo era apenas lógico – Mas como assim meu tio se mostrou um traidor? – perguntou Myrcella – É aquela história idiota dele ter matado Joffrey?
—Não, dessa vez não teve nada a ver com Joffrey. – disse tio Kevan e Myrcella o olhou curiosa – Joffrey morreu então não tem o que herdar. Tommen, por ser homem, tem mais direito de herança do que você pelo Rochedo. Mas Margaery está presa no Septo pela Fé Militante, assim como Loras Tyrell e sua mãe.
—O que? – perguntou surpresa – Minha mãe?
—Sim. Eles a acusam de muitas coisas. – concordou seu tio e Myrcella piscou chocada – Como incesto, adultério e de tentar matar o seu pai, Robert Baratheon. Ela, dizem os homens do Alto Pardal, orquestrou com meu filho, Lancel, um plano para matar Robert. – seu tio suspirou tristemente, novamente – Eu sou o único irmão vivo de Tywin. Lancel, se arrependeu de tudo o que fez e entrou para a Fé Militante. Ele quem acusa sua mãe de todos esses crimes e eu sinto muito por isso. – explicou seu tio. Myrcella engoliu em seco – Seu irmão acusou Valerion Blackfyre de traição, por ter se deitado com Margaery antes do casamento de Joffrey e o destituiu de seus títulos também.
—Alguém sabe do paradeiro dele? – perguntou Myrcella. Tio Kevan concordou.
—Ele está em Harrenhal, pelo que os passarinhos de Varys disseram. – explicou ele e Myrcella sentiu um aperto no peito. Ele fora embora e a deixara pra trás? – Muito ferido. Mal aparece para seus vassalos. Oberyn Martell e seu tio Tyrion se uniram com Sansa Stark para resgatá-lo daqui de Porto Real. Eu dei uma boa olhada no rapaz antes dele sumir. Ele não estava em condições de fugir ou tramar. O destruíram enquanto ele era refém. – explicou ele e Myrcella engoliu em seco, chocada.
—Mas... mas agora... ele...
—Ele está vivo. Dizem que a relação dele com Sansa Stark não é a das melhores e que Oberyn Martell está empurrando a sobrinha para ele.
—Sansa estava em Harrenhal esse tempo todo? – perguntou Myrcella e seu tio concordou com a cabeça.
—Sim. – respondeu ele – Eles mantiveram essa informação em absoluto segredo, mas agora sabemos que as duas irmãs Stark estavam lá esse tempo todo. – explicou ele e Myrcella baixou os olhos, infeliz.
—Eu... tio... eu me sinto tão estúpida, eu... – disse se abraçando e seu tio lhe estendeu um papel – O que é isso? – perguntou querendo chorar, mas determinada a não fazê-lo.
—Uma carta, de Harrenhal. – disse ele – Para você. – explicou tio Kevan e Myrcella esticou as mãos, mas o tio levantou o papel – Eu lhe entregarei a carta depois que responder minhas perguntas, Myrcella. Com sinceridade. Fui sincero contigo e agora preciso que sejas comigo. – Myrcella respirou fundo e concordou com um aceno de cabeça – Estás grávida de Valerion Blackfyre?
—Estou. – respondeu firmemente.
—Essa gravidez foi fruto de um estupro? – perguntou ele e Myrcella negou veemente com a cabeça.
—Não, tio... – murmurou sentindo-se pela primeira vez constrangida por seus impulsos. Pela primeira vez sentia o constrangimento por sua falta de decoro – Eu e Valerion... nós estávamos dormindo juntos há algum tempo. Achei que não teria problema, visto que iríamos nos casar em breve.
Seu tio respirou fundo e concordou com um aceno de cabeça.
—Você consegue compreender a irresponsabilidade disso, Myrcella? – perguntou seu tio e ela o olhou chorosa – Você o ama, eu sei. Todos sabem. Desde o torneio de Harrenhal já se sussurrava isso. Seu pai não gostou disso nenhum pouco, pois ele não confiava tanto em Haegon, pela admiração que ele tinha por Rhaegar. – explicou seu tio e Myrcella engoliu em seco – Casar-se por amor é coisa de açougueiros, leiteiros, padeiros. De camponeses. De gente que briga nas ruas pelo pedaço mais fresco de ratazanas, Myrcella. Essas pessoas casam por amor. Pessoas com sobrenomes casam por responsabilidades. São negócios. Compromissos. Estratégias. – disse ele – Mas você, Myrcella. Você é uma princesa. – disse seu tio e ela baixou os olhos – Uma princesa com chances de herdar o Trono de Ferro e Casterly Rock. Você é a herdeira de Tommen. Sua responsabilidade era muito maior do que as das filhas dos Lordes de Westeros. – continuou Kevan Lannister – Você pode ser a melhor chance de Westeros de alcançar a paz. Tommen é fraco. É bobo. E sem Tywin para lapidá-lo... Pelos Sete, eu não sei se conseguiremos... eu farei o meu melhor para guiá-lo. Eu vou tirar sua mãe daqui, como você mesmo tentou. Você é firme, corajosa e esperta, Myrcella. – disse seu tio – Mas você se prejudicou engravidando de um traidor da coroa. Você sabe a história de Daemon Blackfyre e a princesa Daenerys Targaryen? – perguntou ele. Myrcella concordou com um tímido aceno de cabeça – Eles eram apaixonados, mas o rei Daeron a casou com um Martell, o que provocou a ira de Daemon, mas que selou a aliança com Dorne, evitando guerras.
—E causando outras. – retrucou Myrcella – Cinco rebeliões Blackfyre.
—Seis se contarmos com a de agora. Shiera Blackfyre tem o Norte, Aegon tem uma companhia de mercenários com dez mil soldados treinados, além de um enorme dragão. E Valerion está de volta no castelo mais bem guarnecido e protegido de todos os Sete Reinos. Graças a ele a aliança entre os Lannister e os Tyrell está enfraquecida. Ele desvirginou Margaery, desvirginou você e ainda te deixou um bastardo. Como eu posso oferecer você para atrair aliados com você apaixonada e grávida por um homem desses? – perguntou seu tio com decepção na voz. Myrcella baixou os olhos, repreendida, mas em seguida os levantou.
—Eu não sou algo para ser oferecido, tio. Eu posso ser uma princesa e sei que tenho responsabilidades para com o Reino, para com Tommen. Mas eu estava garantindo que teríamos o mais importante dos Blackfyre ao nosso lado. Isso não conta? Sim, eu o amei, mas o que teríamos a ganhar com nossa aliança não era pouco. Harrenhal tem dinheiro e comida. Tem soldados. Tem aço. Tem contatos. Valerion era, além de tudo isso, uma esperança para conseguirmos aplacar a ira nortenha, já que Shiera Stark era a governante deles. Eu posso ter deixado meu coração falar alto demais e eu posso ter me precipitado, mas eu sempre pensei no reinado de Tommen também. – disse se defendendo. Seu tio suspirou e concordou com um aceno de cabeça.
—Eu preciso que seja muito sincera comigo, Myrcella. E preciso que pare de escutar o coração e que comece a pensar racionalmente. Preciso de uma resposta racional e fria agora. – disse ele e Myrcella engoliu em seco – Se ele tivesse que escolher entre você e Sansa Stark, quem ele escolheria? – perguntou Kevan. Myrcella engoliu em seco e tocou o ventre. Tentou se concentrar e pensar friamente. Ficou uns bons segundos em silêncio, pensando naquilo e então mirou seu tio.
—A mim. – respondeu convicta – Porque eu estou grávida. E as chances dele dispensar Sansa Stark para ficar comigo seriam ainda maiores se minha mãe estivesse bem longe de nós, bem longe de Tommen, bem longe do Trono. Ele odeia a minha mãe e sabe que a recíproca é verdadeira, tio. – disse realmente acreditando no que dizia. Seu tio suspirou e lhe entregou o bilhete.
—Bem, então vamos dar as boas novas para Valerion e pedir que ele venha se apresentar novamente. Se ele voltar, com poucos homens, para um casamento discreto em Porto Real, ele será restituído de tudo o que lhe foi tirado. Ele precisa se casar com você o quanto antes. Sem festas sem ostentações. Apenas fazer você Senhora de Harrenhal. Com isso a aliança entre nós será garantida. Eu estou trabalhando na revitalização da aliança com os Tyrell. Se tudo der certo, nós vamos consertar toda a bagunça que Cersei fez. Vamos fazer as pazes com os Blackfyre e com os Tyrell e acabar de uma vez por todas com a bagunça que está acontecendo no Norte.
—Que bagunça? – perguntou confusa – Achei que tudo tivesse se resolvido. Shiera não dobrou o joelho e se casou com Bolton? – perguntou confusa e seu tio suspirou.
—Bem... as reviravoltas parecem fantásticas demais para que possamos acreditar nelas... mas temo que as coisas no Norte não estejam tão bem resolvidas como pensávamos que estavam.
**
A música tocava nos salões de Castle Black. Isso por si só já era algo estranho. A Muralha não era um lugar para canções alegres, ainda mais como aquela. Não era música que se tocaria no grande salão de Winterfell, ou no grande salão de qualquer outro castelo. Era uma música agitada, vulgar, simples, algo que tocaria numa taverna de estrada, ou numa vila pequena, num dia quente de primavera. Onde os camponeses chamariam as senhoras para dançar e ousariam ser ousados. Ousados como ele fora com Shiera, anos atrás, em Harrenhal, quando ela colocara sua mão em seu quadril e o puxou para tão perto que poderia tocar o nariz no dela. Quando giraram e pularam animados, sem imaginar todo o desenrolar de um futuro sangrento e trágico.
Aquela noite, em Castle Black, lhe lembrou a noite em que, para sua infelicidade, notara que o irmão gostava de Shiera. Da noite em que Catelyn Tully o colocou bem longe da mesa dos Stark, para deixar claro que ele era um bastardo e não tinha o direito de se sentar próximo de seus filhos, próximo do rei e dos convidados mais solenes... como os Blackfyre.
Naquela noite, Shiera estava tão distraída e ausente quanto agora. Ela batia palmas no ritmo da música e sorria quando alguém lhe dizia alguma coisa. E sempre alguém vinha lhe falar algo, fosse um cumprimento ou um pedido para dançar, que ela recusava polidamente. Ela estava muito abatida, com olheiras e olhos evasivos. O sorriso não alcançava seus olhos e não se sustentava por muito tempo. Ainda podia ver um pequeno hematoma na lateral do rosto. Ela tentara esconder com os cabelos, mas estava ali. Mas mesmo assim, mesmo parecendo tão infeliz e tão distante, era, sem dúvidas, a coisa mais linda que havia naquela maldita Muralha.
Jon bebeu seu caneco de cerveja e a olhou novamente, sem saber o que fazer. Quando fora trago de volta por Melissandre, quando executou os amotinados, quando colocou de lado o manto da Patrulha da Noite, só conseguia pensar em como queria reunir os Lordes para ir contra a Casa Bolton. Em como queria salvá-la. Em como queria vê-la, tê-la, beijá-la. Sussurrar em seu ouvido todo o amor que sentia por ela. E então ela veio com o Norte e ele ficou aliviado, pois ela sobrevivera. Ela estava de volta. Viva. A pegou nos braços sem se importar com as regras de conduta. Não se importou por ser um bastardo e por ela ser uma rainha. A olhou completamente apaixonado, pronto para tentar ser dela e tomá-la para si. Não tinha o menor interesse de governar o Norte. Não ligava para aquele posto. Só queria poder ter a chance de tentar. De tê-la, de amá-la. De poder ter a chance de acordar todos os dias e o rosto dela ser a primeira visão de seu dia.
Mas assim que estava prestes a se entregar de vez a todo aquele sentimento que manteve contido, viu Robb. Seu coração encheu-se de alegria, é claro. Esqueceu do que significava Robb estar vivo. Só sabia que estava com o irmão de volta. Seu irmão favorito. Seu melhor amigo. Mas logo encontrou mágoa e rancor nos olhos azuis dele e a realidade lhe acertou de maneira tão fria e dura quanto as lâminas de todos os amotinados.
Sabia que Robb estar vivo significava ficar longe dela. Ela era a esposa de seu irmão e ele não tinha o menor direito de desejá-la. Sentia-se um traidor por tudo o que fizera e tudo o que ainda gostaria de fazer. Engoliu em seco, admirando Shiera, desejando mais do que qualquer coisa poder estar ao lado dela. Nunca sentira tanta inveja de Robb. Os dois estavam sentados lado a lado, do outro lado do salão. E quando Robb entrelaçou os dedos com os dela, a olhando com amor e devoção, Jon desejou nunca ter voltado da morte. Sentir inveja de Robb era horrível. Observou o irmão beijar a mão dela e sussurrar mais uma vez em seu ouvido. Engoliu em seco, observando as mãos deles e tentou pensar em outra coisa.
—Como é mesmo o nome dos símbolos que vocês usam? – Perguntou Tormund. Jon o olhou confuso – Digo... as famílias, elas têm têm símbolos, não têm.
—Os brasões?
—Isso. Brasões. E da sua família é um lobo, não é? – perguntou ele e Jon bufou.
—Não sou um Stark. – resmungou.
—Mas seu irmão é um lobo?
—Sim. Por que?
—Porque ele está quase mijando na garota. – riu Tormund olhando Robb. Jon engoliu em seco – Ele a puxa o tempo todo, a beija o tempo todo, não a solta nem por um minuto. É como se estivesse gritando: estão vendo? Ela é minha, toda minha. E hoje à noite eu vou foder a boceta dela! – Tormund deu uma gargalhada e Jon quis morrer. Ela é esposa dele. É o direito dele. Não tenho o direito de ter ciúmes...— Ela é bonita, aquela mulher. Como é mesmo o nome dela?
—Shiera. Shiera Blackfyre... – Ele suspirou – A mais bela mulher de todo o mundo. – sussurrou se lembrando do torneio de Harrenhal, quando Lorde Blackfyre lhe perguntou quem era a mais bela donzela de Westeros.
—Shiera? Mas... será possível? A Shiera que Ygritte tanto desejava matar? – perguntou Tormund e Jon baixou o olhar – Eu me lembro quando você apareceu na nossa tenda, quando achou que eu era Mance... – Tormund coçou a barba – Mance perguntou o motivo de você se unir a nós... você perguntou se ele se lembrava de ver você, lá em Winterfell... se ele se lembrava onde tinham colocado você. Imagino que a senhora Stark colocou você bem longe daquela ali.
—Foi. – murmurou Jon se lembrando da Senhora Catelyn vindo falar com ele antes mesmo do rei chegar. “Se os Blackfyre vierem, eu o quero bem longe deles, de todos eles. Você é um bastardo e não vai passar a perna em Robb. Você nem deveria estar aqui”. Engoliu em seco e deu mais um gole em sua bebida – Ela mandou que eu ficasse bem longe de Shiera... A Senhora Catelyn estava trocando cartas com Lorde Haegon há meses, mesmo antes de Jon Arryn morrer...
—Quem é Jon Arryn? – perguntou Tormund.
—Não importa. – murmurou Jon.
—E o que você vai fazer sobre aquela mocinha ali? – perguntou Tormund olhando para Shiera.
—O que eu posso fazer? Ela é esposa do meu irmão. – Lamentou Jon.
Baixou os olhos, infeliz e suspirou segurando a caneca vazia. Sentiu alguém colocar a mão em seu ombro e isso o fez levantar a cabeça.
—Jon Snow, o Bastardo de Winterfell. – riu Aegon Blackfyre. Soltou um muxoxo desviando o olhar e Aegon continuou – Se importa de trocar algumas palavrinhas, Snow? – a verdade era que se importava. Não queria perder um segundo da visão de Shiera, que agora sussurrava algo no ouvido do esposo. Mas se obrigou a levantar. Aegon sorriu e o guiou para fora. O seguiu e os dois andaram pelo pátio, onde os homens costumavam treinar espadas. Naquele momento estava tudo vazio, com exceção de alguns selvagens que riam e bebiam alegremente. Jon mirou o céu e notou que nevava bastante. Se abraçou sentindo frio e mirou Aegon, que estava de armadura, mas sem a proteção de couro. Normalmente usava-se couro por baixo da armadura, para não congelar dentro dela, mas Aegon, assim como Shiera, provavelmente não sentia frio – Essa é minha primeira vez na Muralha. – disse Aegon, distraidamente – Bem... na verdade eu já a tinha visto uma vez, mas de longe, na Baía das Focas. Estava num navio, caçando baleias. Eu vi a pontinha do lugar... Acho que era Atalaialeste. Não me impressionou muito, não do navio... mas quando chegamos aqui... Ela é maior do que parece. É incrível, não é? – perguntou ele e Jon concordou com um aceno de cabeça – Viver aqui deve ser muito difícil. – disse Aegon e Jon concordou.
—Sim, é mesmo. Os invernos são cruéis no Norte, principalmente na Muralha. – concordou Jon.
—Eu tive dois invernos na minha vida. – murmurou Aegon – Aqui em Westeros, digo... Quando eu vim pra cá pela primeira vez, estava gelado como agora. Mas estávamos em Porto Real. Lá eu conheci Rhaegar Targaryen. Tinha escutado várias histórias sobre ele, mas nenhuma estava à altura. Ele era impressionante, gentil, bondoso... e mesmo assim, um guerreiro habilidoso, corajoso e destemido. – suspirou Aegon e Jon discordou, lembrando-se do que ele tinha feito com sua tia Lyanna – A primeira vez que coloquei os olhos nele foi quando estávamos numa taverna qualquer. Escutei a melodia de uma harpa e uma voz maravilhosa cantando. Corri para ver quem era e imaginei que deveria ser um bardo de Lys. Usava roupas nobres, claro, e tinha soldados com ele, em armaduras brancas. O sangue valiriano que corria nele era óbvio. E ele cantava uma música muito triste. Nunca decorei a letra, mas a melodia ficou em minha cabeça. Ele me impressionou tanto que me emocionei. Eu era apenas um garotinho, mas chorei como uma garotinha, sem entender coisa alguma da letra da música, apenas que era linda. – Ele se calou por um momento – O Bardo tinha uma harpa de prata que me pareceu impressionante também. Tudo nele era assim. E quando ele terminou de tocar, todo mundo na taverna chorava e todo mundo lhe jogou moedas. Implorei ao meu pai que me desse uma moeda, para que eu oferecesse ao bardo e meu pai concordou. Me deu um dragão de ouro inteiro e eu corri até ele, para entregar. Eu era apenas um moleque e não sabia de bosta nenhuma, mas nunca me ocorreu que eu não podia chegar perto do bardo. Não prestei atenção no fato de que ninguém se aproximava. E quando eu toquei no braço dele, para entregar a minha moeda, um dos homens dele me puxou pela orelha. – Aegon deu um sorriso – Mas o bardo mandou que ele me soltasse e eu ofereci a moeda para ele. Ele era gentil e perguntou meu nome. Perguntou o motivo de eu estar naquela taverna e eu disse que tinha vindo para pedir que o Rei aceitasse minha família naquelas terras. E quando eu falei que era Aegon Blackfyre, todos se afastaram do meu pai. Homens tiraram as espadas e estavam prontos para nos prender, mas o bardo, que na verdade era Rhaegar, os proibiu. Nos ofereceu uma refeição quente e conversou conosco durante horas. Naquela taverna simples, na rua mais pobre de Porto Real. Os homens se preocupavam mais com ele do que ele mesmo. E todos o olhavam com tanta admiração e respeito que eu não entendia o motivo dele precisar andar com escolta. Ninguém jamais iria querer machucar um homem daqueles. – Aegon suspirou profundamente – Eu perguntei quem eram aqueles homens que andavam com ele e meu pai me explicou que eram a Guarda Real. E eu desejei naquele momento ser um daqueles homens quando crescesse. Pois Rhaegar era um rei que eu gostaria de lutar por. Eu lamentei ver Aerys, ele não era nada como o filho dele. E quando meu pai voltou da guerra, falando que Rhaegar tinha morrido, eu chorei no colo de minha mãe. Em todas as brincadeiras com meus amigos, eu sempre queria ser Rhaegar Targaryen, o príncipe dragão. Meu pai sonhou comigo vestindo o branco, então me treinou. Me treinou muito com a espada. E eu me tornei o que sou hoje. Mas não tinha menor vontade de dedicar a vida ao vagabundo do Robert. Ele era um péssimo rei. Parti para Essos, atrás de Viserys, o irmão caçula de Rhaegar. Talvez eu encontrasse nele aquilo que eu queria ver de novo. Mas Viserys, por mais que parecesse fisicamente com Rhaegar, por dentro era como Aerys. E eu o odiei. A irmã dele era uma coitada. Muito bela... absolutamente bela. Mas uma coitada, que ele vendeu a um bárbaro qualquer na tentativa de conseguir um exército para retomar os Sete Reinos. – Aegon suspirou e Jon se perguntou onde ele queria chegar com toda aquela história – Eu passei a protegê-la e a lutar por ela... ela tinha aquilo que Rhaegar tinha e eu prometi vestir o branco para protegê-la.
—Antes ou depois de se apaixonar por ela? – perguntou Jon e Aegon sorriu.
—Antes e depois. – riu Aegon – Mas então escutei que minha irmã estava em perigo. – Aegon olhou para o lado e Jon seguiu seu olhar. Shiera voltava para sua torre, deixando a festa – E fiquei dividido... entre meus irmãos e a mulher que eu amava. No final escolhi o sangue... Se eu escolhesse amor, o que pensariam de mim? Que monstro eu teria sido? Deixar meus irmãos para trás. Obrigá-los a servir Daenerys e pelos deuses... eu sei o quanto Shiera é teimosa. Invocou que é uma rainha e não vai abrir mão disso... eu tentei convencê-la, mas ela não quer ceder. Diz que faz pelo filho. Mas bem, agora eu tenho que lidar com seu irmão, Robb Stark. Ver se ele tem mais juízo. – Aegon suspirou – Então eu sei como se sente agora. Ter que escolher entre seu irmão e a mulher que ama.
Jon engoliu em seco, sentindo simpatia por Aegon, que tinha os olhos tristes apesar de sorrir. Respirou fundo e concordou com um aceno de cabeça.
—Você escolheu sangue. – murmurou Jon – Se arrepende? – perguntou curioso.
—Não sei se me arrependo. – murmurou Aegon – Mas sei que não terei paz comigo mesmo. Eu voltei pelos meus irmãos. Eu vou tirar Valerion das mãos de Cersei. Mas depois eu vou sentar com meus dois irmãos e nós vamos conversar. Eu não vou abrir mão da minha felicidade por uma questão de teimosia da parte deles. Cresci escutando histórias de casamentos infelizes, feitas em prol de um bem maior. Foda-se o bem maior. Se eu não respeitar meus sentimentos e a mim mesmo, como irei respeitar os outros? Obrigar todos a serem infelizes porque eu sou infeliz fica muito fácil e tentador. – murmurou Aegon – Ela te ama, a Shiera... e eu amo a minha irmã. E sinceramente seu irmão é um pé no saco. – riu ele e Jon deu uma risada tímida – Mas pelo menos ele honrou isso aqui. – disse Aegon lhe acertando um tapa repentino nas bolas. Jon perdeu o ar e caiu de joelhos na neve, sentindo dor, completamente surpreso com a ação do rapaz – Está na hora de parar de se esconder atrás de honra, dever e votos, Jon. Está na hora de ser corajoso e lutar por aquilo que você quer. Caso contrário sua vida vai ser exatamente isso. Estar de joelhos, sofrendo com as bolas doloridas, sem voz e sem dignidade alguma...
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