BlackSwan
22 Instruções
Notas iniciais
Passei o restante da madrugada no sofá da sala cercado por notebooks, celulares criptografados e contatos que eu evitava usar sem extrema necessidade. A cada nova tentativa frustrada, minha irritação aumentava um pouco mais. Nenhuma resposta da CIA. Nenhum sinal de Charlie. Nenhuma movimentação registrada dos Cullen. Era como se todos simplesmente tivessem desaparecido do mapa em poucas horas.
E isso não acontecia sem motivo.
Fiz chamadas rápidas usando linhas seguras, troquei mensagens codificadas e até acionei um antigo contato dentro da inteligência russa que me devia favores suficientes para vender a própria alma. Nada. Absolutamente nada.
O silêncio era a pior resposta possível.
Porque quando organizações como a KGB conseguem apagar completamente o rastro de alguém… normalmente significa que não pretendem deixar testemunhas.
Passei a mão pelo rosto cansado e me levantei do sofá sentindo o corpo inteiro pesado. A cidade lá fora começava a clarear aos poucos, Manhattan despertando lentamente enquanto eu continuava preso naquela madrugada infernal.
Fui até a cozinha e preparei outro café forte tentando pensar em alguma brecha que ainda não tinha visto. Precisava existir alguma. Charlie não era homem de ser capturado facilmente. Carlisle também não. E os Cullen tinham dinheiro, contatos e recursos suficientes para desaparecer do planeta se necessário.
Mas, ainda assim, o silêncio continuava.
Tomei um gole do café quente e caminhei lentamente pelo apartamento, indo até o quarto. A porta estava entreaberta. Empurrei devagar sem fazer barulho e entrei apenas o suficiente para vê-la.
Renesmee dormia profundamente na minha cama.
A iluminação fraca da manhã atravessava parcialmente as cortinas, desenhando sombras suaves pelo quarto enquanto ela permanecia imóvel entre os lençóis. Os cabelos ruivos estavam espalhados pelo travesseiro de forma desorganizada, e a expressão finalmente parecia tranquila depois do pânico que carregava desde que chegou ali. Dormindo daquele jeito, ela parecia impossível de associar à palavra arma. Parecia apenas jovem. Vulnerável até.
Mas o mais estranho era a sensação que aquilo causava em mim.
Porque eu deveria estar vendo um problema biológico criado pela KGB.
Só que não era isso que eu via.
Eu via uma garota que atravessou o país sozinha procurando alguém em quem confiava sem nem entender direito por quê.
Fiquei parado alguns segundos observando ela dormir até perceber o detalhe que mais me incomodou naquela noite inteira.
Ela parecia segura ali.
Segura comigo.
O celular vibrou na minha mão antes que eu pudesse continuar pensando demais.
Olhei imediatamente para a tela e saí do quarto sem fazer barulho, fechando parcialmente a porta atrás de mim enquanto caminhava até a sala.
Havia recebido uma mensagem anônima, abri e dentro tinha apenas um endereço.
Brooklyn.
Pier 19.
E abaixo dele uma única frase:
“Se quer respostas, venha sozinho."
Fiquei olhando para a tela em silêncio enquanto o café esfriava lentamente na minha mão, porque, naquele tipo de situação, ou aquilo era uma oportunidade ou era exatamente o tipo de armadilha mortal que eu ensinaria Renesmee a nunca aceitar.
Cheguei ao Pier 19 pouco depois do amanhecer, mantendo o carro algumas ruas distante antes de seguir o restante do caminho a pé. O lugar era exatamente o tipo de ponto morto usado por agentes antigos para trocas discretas. Velho, silencioso e esquecido pela maior parte da cidade. O cais ainda estava parcialmente coberto pela névoa vinda do rio, e o cheiro de ferrugem, água salgada e madeira úmida dominava o ambiente.
Entrei no galpão indicado pela mensagem já com a arma escondida sob a jaqueta e os sentidos atentos a qualquer movimentação estranha. O interior era enorme e frio, iluminado apenas por algumas lâmpadas antigas penduradas no teto alto. O espaço inteiro estava tomado por fileiras de armários metálicos públicos, daqueles usados décadas atrás por trabalhadores do porto antes do lugar ser praticamente abandonado.
Meus passos ecoavam pelo corredor estreito enquanto eu observava cada detalhe ao redor.
Silêncio demais.
Nenhum movimento.
Nenhum som além do metal rangendo com o vento.
Continuei avançando até um armário específico chamar minha atenção imediatamente.
Meu nome estava nele.
BLACK.
Parei diante do armário estreitando os olhos enquanto analisava a estrutura. Aquilo tinha claramente a assinatura de Charlie Swan. Discreto, paranoico e teatral ao mesmo tempo.
— Espero sinceramente que isso não exploda — murmurei sozinho.
Puxei a pequena porta metálica, mas ela não abriu. Havia um painel digital simples exigindo senha.
Claro que havia.
Cruzei os braços tentando pensar como Charlie pensaria. O velho era obcecado por códigos ligados à família e espionagem antiga. Não usaria algo óbvio, mas também não escolheria nada impossível para alguém próximo dele descobrir.
Observei o teclado por alguns segundos antes de uma possibilidade surgir.
Se aquilo realmente era para mim…
Então Charlie esperava que eu entendesse.
Respirei fundo e comecei a analisar as marcas quase invisíveis ao redor do painel, pequenos desgastes deixados pelo uso constante de determinadas teclas. Um truque antigo de espionagem. Simples. Eficiente.
Quatro números.
Testei a combinação baseada na data da morte de Elizabeth Swan.
Nada.
Soltei um pequeno suspiro.
Então pensei na única pessoa que realmente movia Charlie Swan desde aquela conversa na ilha.
Renesmee.
Digitei a data de nascimento dela e o painel apitou imediatamente.
A trava abriu.
— Claro… — murmurei.
Abri o armário devagar esperando qualquer coisa. Arma, dinheiro, documentos, talvez até algum dispositivo rastreador da KGB.
Mas havia apenas um envelope pardo.
Olhei rapidamente ao redor mais uma vez antes de pegar o envelope e fechar o armário imediatamente. Não fiquei ali nem mais um segundo. Saí do galpão no mesmo ritmo controlado com que entrei, mas o instinto já gritava que aquele lugar podia virar uma armadilha a qualquer momento.
Entrei no carro e só então abri o envelope.
Dentro havia uma carta escrita à mão.
Charlie Swan.
Meu estômago revirou antes mesmo de começar a ler.
“Jacob.
Se você está lendo isso, então provavelmente estou morto.”
Fechei os olhos por um breve segundo antes de continuar.
“Não desperdice tempo tentando me encontrar. Proteja a Renesmee. Treine ela. Você ainda não faz ideia do que aquela garota é capaz de fazer.”
Continuei lendo em silêncio enquanto a cidade despertava lentamente do lado de fora do carro.
“Ela possui habilidades que vão surpreender você. Ensine ela a usar isso para ajudar pessoas. Não deixe o mundo transformar minha filha na arma que a KGB queria criar.”
A última linha estava mais tremida que o restante da carta.
“Ela confia em você. E isso pode salva-la.”
Abaixo da carta havia um mapa dobrado.
Peguei devagar e abri sobre o volante, eram coordenadas, uma localização fora de Nova York.
Isolada, totalmente escondida.
Fiquei olhando para aquilo por alguns segundos antes de soltar um longo suspiro cansado, então liguei o carro.
Porque, gostando ou não…
Charlie Swan tinha acabado de jogar a vida da filha completamente nas minhas mãos.
Passei em algumas lojas antes de voltar para o apartamento. Nada sofisticado, apenas lugares discretos onde ninguém lembraria do meu rosto depois. Comprei roupas básicas para Renesmee, alguns casacos, sapatos, produtos de higiene e outras coisas que eu sinceramente nunca imaginei precisar escolher para alguém. A situação inteira era absurda demais para parecer real. Em menos de quarenta e oito horas eu tinha saído de agente infiltrado da KGB para uma espécie de guarda-costas improvisado de um experimento humano que dormia na minha cama e agora dependia de mim para continuar viva.
Enquanto dirigia pelas ruas de Manhattan, pensei várias vezes em como minha vida teria sido mais simples se eu tivesse ignorado Charlie Swan naquela ilha.
Mas já era tarde demais para isso.
Quando entrei no apartamento, encontrei silêncio outra vez, porém dessa vez não era pesado como antes. A porta fechou atrás de mim e imediatamente percebi Renesmee parada perto da grande janela da sacada nos fundos do prédio. Ela observava a cidade com uma atenção quase encantada, como se Manhattan inteira fosse algo vivo diante dela.
E talvez, para alguém como ela, realmente fosse.
Ela falou antes mesmo de eu dizer qualquer coisa.
— Eu sempre quis conhecer a cidade de verdade.
Parei por um instante segurando as sacolas nas mãos.
Claro.
Ela sabia que eu tinha chegado antes mesmo da porta abrir.
Precisava me acostumar com isso.
Deixei as sacolas sobre o sofá e, pela primeira vez desde que tudo começou, abaixei a guarda de verdade. Não como agente. Não como infiltrado da CIA. Apenas… eu e caminhei lentamente até ficar ao lado dela diante da janela.
— E aí? — perguntei. — O que achou?
Renesmee sorriu sem tirar os olhos da cidade.
— É linda.
Então franziu levemente o nariz antes de completar:
— Mas muito barulhenta.
Aquilo me arrancou uma risada baixa.
Ela continuou observando o horizonte como se estivesse escutando coisas invisíveis para qualquer pessoa normal.
— Tem uma mulher chorando três prédios depois daqui — comentou de repente. — Um cachorro latindo duas ruas abaixo… alguém queimou alho no restaurante da esquina…
Balancei a cabeça rindo de leve.
— Você realmente escuta tudo isso?
Ela finalmente olhou para mim.
— Às vezes eu queria não escutar.
Aquilo me pegou mais do que deveria.
Desviei o olhar por um segundo antes de lembrar das compras.
— Trouxe algumas coisas pra você.
Os olhos dela seguiram imediatamente para as sacolas no sofá. Renesmee caminhou rápido até elas com uma animação genuína que parecia completamente incompatível com tudo o que estava acontecendo ao nosso redor. Ela começou a abrir uma por uma observando as roupas, os sapatos e os outros itens como alguém que recebia algo importante de verdade.
— Jacob… — murmurou olhando as peças. — Obrigada.
Então levantou um dos sapatos me olhando com curiosidade — Como você sabia que isso ia servir?
Cruzei os braços tentando parecer casual.
— Sou um agente certo.
Ela soltou uma pequena risada e então fez algo que me pegou completamente desprevenido.
Renesmee simplesmente se aproximou e me abraçou.
Meu corpo inteiro travou por um segundo. Porque eu não estava acostumado com aquilo.
Afeto espontâneo não fazia parte do meu mundo há muito tempo.
Fiquei imóvel tempo suficiente para perceber que ela realmente estava esperando alguma reação minha. Então, contra todo o meu instinto treinado de manter distância emocional de qualquer pessoa, acabei retribuindo o abraço devagar. E aquilo foi estranho. Estranho porque pareceu natural demais. Afastei levemente o rosto do cabelo dela antes de falar:
— Você precisa se trocar.
Ela levantou os olhos imediatamente.
— Por quê?
Soltei um suspiro curto antes de responder.
— Porque precisamos asair daqui.
A expressão dela mudou imediatamente.
— O que aconteceu?
Olhei rapidamente para a janela, para a cidade e depois de volta para ela.
— Manhattan não é segura pra você.
Dirigi pelas ruas de Manhattan enquanto a cidade começava a mergulhar novamente no caos habitual do início da manhã. Táxis buzinando, sirenes distantes, pessoas atravessando ruas sem olhar e uma quantidade absurda de estímulos que fariam qualquer pessoa comum enlouquecer depois de algumas horas. Mas Renesmee parecia fascinada por tudo aquilo. Sentada no banco ao meu lado usando roupas novas e ainda com os cabelos parcialmente úmidos, ela observava a cidade pela janela como uma criança conhecendo o mundo pela primeira vez.
E talvez fosse exatamente isso.
Ela acompanhava tudo com atenção exagerada. Os prédios, os anúncios luminosos, os vendedores ambulantes, até mesmo os sacos de lixo acumulados perto das calçadas pareciam despertar curiosidade nela. Era estranho ver alguém geneticamente criado para ser uma arma reagindo daquela forma diante de algo tão comum.
Mantive uma das mãos no volante enquanto ligava o tablet acoplado ao painel do carro. A tela acendeu imediatamente pedindo autenticação. Digitei uma sequência longa de códigos sem diminuir a velocidade e esperei alguns segundos até o sistema responder.
Uma voz feminina ecoou dentro do veículo.
— Sequência de cancelamento de missões iniciada.
Renesmee desviou os olhos da janela apenas por um instante.
— O que é isso?
Continuei olhando para a estrada.
— O começo de um problema enorme.
A verdade era simples. Ao ativar aquele protocolo eu basicamente colocava minha posição dentro da CIA em risco. Agentes infiltrados não simplesmente desapareciam com experimentos humanos fugitivos sem explicação.
Segundos depois o sistema vibrou novamente.
Mensagem de voz recebida.
Apertei o comando no volante e a voz masculina surgiu imediatamente.
— Licença concedida, agente Black. A CIA aguarda justificativa.
Ignorei completamente a mensagem e desliguei o áudio antes que viessem novas perguntas. Não existia explicação boa o suficiente para justificar o que eu estava fazendo.
Olhei rapidamente para o lado.
Renesmee continuava observando a cidade como se nem tivesse ouvido metade daquilo. Naquele momento ela encarava dois homens brigando por um saco de lixo na esquina de uma lanchonete.
E sorriu.
Soltei uma risada baixa sem conseguir evitar.
Ela virou imediatamente na minha direção.
— O quê?
Balancei a cabeça ainda rindo de leve.
— Você está admirando lixo.
Renesmee voltou a olhar para fora da janela.
— Eu nunca vi lixo em Nova York antes.
Aquilo era tão absurdamente sincero que me deixou sem resposta por alguns segundos.
Ela apoiou o braço na porta do carro observando as ruas passarem rapidamente diante dos olhos antes de perguntar algo que eu sabia que viria cedo ou tarde.
— Quando vamos procurar minha família?
O sorriso dela desapareceu um pouco ao fazer a pergunta, e aquilo bastou para me lembrar da realidade no meio daquele momento quase normal.
Apertei levemente o volante antes de responder.
— Recebi uma mensagem do Charlie.
Renesmee virou o rosto imediatamente na minha direção.
— Ele está vivo?
— Não sei — respondi com honestidade. — Mas ele deixou instruções.
Ela permaneceu em silêncio esperando que eu continuasse.
— Ele pediu pra eu levar você para um lugar.
Franziu o cenho imediatamente.
— Que lugar?
Soltei um pequeno suspiro enquanto o trânsito avançava lentamente diante de nós.
— Ainda não sei.
Olhei rapidamente para ela antes de completar:
— Mas nós vamos descobrir juntos.
Renesmee me observou por alguns segundos em silêncio antes de finalmente assentir de leve. A Com aquela atitude, percebi algo que talvez fosse o mais perigoso de tudo.
Ela confiava em mim completamente e eu já estava começando a me acostumar com isso.
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