BlackSwan
1 A missão
Notas iniciais
Narrado por Renesmee
O impacto do corpo contra o tatame ecoou pelo ginásio, seco e preciso, arrancando um suspiro coletivo de quem assistia ao treinamento. Eu mantive a respiração controlada, ainda na posição de ataque, observando o primeiro oponente tentar recuperar o fôlego no chão enquanto o segundo avançava com pressa, cometendo o erro clássico de subestimar o cansaço do adversário. Antecipei o movimento antes mesmo de ele completar o passo, girei o corpo com firmeza e usei o impulso dele contra si mesmo, derrubando-o com um golpe limpo que o fez perder o equilíbrio e cair ao lado do amigo. O silêncio que se seguiu durou apenas um segundo, logo substituído por risadas, comentários e o som de palmas espalhadas pelo ambiente. Eu me levantei devagar, afastando uma mecha de cabelo do rosto, como se aquilo não fosse mais do que parte de uma rotina comum.
— Você nunca pega leve, Nessie — um deles resmungou, ainda deitado, olhando para mim com uma mistura de respeito e indignação.
Esbocei um sorriso discreto, estendendo a mão para ajudá-lo a se levantar, mantendo a expressão tranquila, quase despreocupada, como se não carregasse o peso de cada movimento calculado, de cada decisão tomada em frações de segundo. Para eles, aquilo era apenas treino. Para mim, era sobrevivência.
Foi então que o celular vibrou.
O som, quase imperceptível para os outros, foi suficiente para mudar completamente o ritmo dos meus pensamentos. Eu não precisava olhar para a tela para saber que não era uma ligação comum. Havia uma diferença sutil, quase instintiva, entre uma chamada qualquer e aquela que carregava uma ordem. Ainda assim, puxei o aparelho com naturalidade, deslizando o dedo pela tela e levando-o ao ouvido enquanto me afastava alguns passos, como se apenas buscasse um pouco de privacidade.
— Swan — atendi, em tom neutro.
Do outro lado, não houve apresentação. Nunca havia.
— Compareça ao Café Lyria, 214 West 10th Street, Manhattan. Quinze minutos.
A linha caiu antes que eu pudesse responder.
Fiquei alguns segundos em silêncio, olhando para a tela já escura do celular, absorvendo o peso daquela simples instrução. Quinze minutos. Isso significava urgência. E, na minha realidade, urgência raramente vinha acompanhada de boas notícias.
Guardei o aparelho com calma e voltei na direção do grupo, já ajustando a expressão para algo mais leve, quase casual, como se nada tivesse acontecido. Um deles cruzou os braços, inclinando a cabeça com um sorriso provocador.
— Deixa eu adivinhar… mais um dos seus “compromissos misteriosos”? — disse, enfatizando as últimas palavras com um tom divertido.
— Renesmee e seus segredos — completou o outro, rindo baixo.
Soltei uma pequena risada, balançando a cabeça enquanto pegava minha garrafa de água e dava um gole demorado, comprando tempo para alinhar meus pensamentos e manter a naturalidade que sempre me salvava.
— Nada tão interessante quanto vocês imaginam — respondi, com leveza. — O trabalho chama.
— Engraçado… a gente nunca sabe que trabalho é esse — ele insistiu, arqueando a sobrancelha.
Dei de ombros, já me afastando, sem dar espaço para mais perguntas.
— Talvez seja melhor assim.
Não esperei resposta. Peguei minha mochila, caminhei até a saída do ginásio e senti o ar frio de Nova York tocar meu rosto assim que atravessei a porta. O contraste entre o calor do treino e a temperatura da rua trouxe uma clareza imediata aos meus pensamentos. Eu já não era mais apenas Renesmee, a mulher que treinava com amigos em um fim de tarde comum.
Eu era a agente.
Subi na moto com movimentos rápidos e precisos, colocando o capacete enquanto meus olhos já percorriam o ambiente ao redor por puro hábito. Nada fora do lugar. Nenhuma ameaça aparente. Ainda assim, a sensação persistia, aquela intuição silenciosa que raramente falhava.
Girei a chave, e o ronco do motor quebrou o silêncio da rua.
Quinze minutos.
Acelerei sem hesitar, deixando o ginásio para trás enquanto me misturava ao fluxo intenso de Manhattan. Os prédios altos refletiam as luzes do fim de tarde, e a cidade seguia seu ritmo habitual, alheia ao fato de que, para mim, tudo havia mudado no instante em que aquela ligação foi atendida.
Porque, quando a agência chama, não existe escolha.
Só existe missão.
A moto desacelerou com suavidade quando dobrei a esquina da West 10th Street, meus olhos já identificando o letreiro discreto do Café Lyria antes mesmo de parar completamente. O lugar parecia comum à primeira vista, exatamente como deveria ser. Fachada simples, poucas mesas externas, luz quente filtrando pelas janelas. Nada que chamasse atenção, nada que levantasse suspeitas. Perfeito.
Desliguei o motor e permaneci sentada por um breve instante, observando o movimento ao redor. Pessoas passando, conversas baixas, o tilintar de xícaras sendo colocadas sobre pires. Tudo dentro da normalidade. Tirei o capacete com calma, deixando os cabelos caírem sobre os ombros, e atravessei a rua com passos firmes, controlados, como se fosse apenas mais uma cliente em busca de café no fim do dia.
O sino acima da porta anunciou minha entrada com um som suave. O aroma de grãos recém-moídos tomou o ambiente, denso e acolhedor, quase reconfortante. Me aproximei do balcão sem pressa, deslizando o olhar pelo cardápio como parte do teatro, ainda que já soubesse exatamente o que dizer.
— Vim buscar um cold brew — falei, em tom tranquilo, apoiando levemente os dedos sobre o balcão.
A atendente ergueu os olhos na minha direção, avaliando-me por um segundo a mais do que o necessário. Havia algo no olhar dela, uma atenção silenciosa, treinada, que não combinava com o papel que desempenhava.
— Claro — respondeu, com um pequeno sorriso que não alcançou os olhos. — Sua encomenda está na terceira porta à direita, no corredor ao lado.
Assenti de leve, como se aquela informação fosse absolutamente comum, e me afastei do balcão sem dizer mais nada. Dei dois passos na direção indicada antes de ouvir a voz dela novamente, baixa o suficiente para não chamar atenção de mais ninguém.
— Você conhece a Chapeuzinho?
Parei por um breve segundo, sem virar o corpo de imediato. Respirei uma vez, lenta, controlada, e então olhei por cima do ombro.
— Eu sempre vou à casa da vovó.
O silêncio que se seguiu durou menos de um segundo, mas foi suficiente. Quando me virei novamente, a atendente já havia desviado o olhar, voltando a organizar xícaras como se nada tivesse acontecido.
Segui pelo corredor indicado, o som do salão ficando cada vez mais distante a cada passo. A iluminação ali era mais baixa, o ar mais frio, o ambiente mais estreito. Uma transição sutil, mas clara, entre o mundo comum e aquele onde as regras eram diferentes.
Terceira porta à direita.
Parei diante dela, passando a mão pela maçaneta antes de girá-la. Entrei sem hesitar e fechei a porta atrás de mim, trancando-a com um clique seco que ecoou pelo pequeno espaço.
O cômodo era simples. Sem janelas, paredes neutras, uma única mesa ao centro.
E sobre ela, uma maleta.
Caminhei até a cadeira e me sentei, mantendo a postura ereta enquanto meus olhos analisavam o objeto à minha frente. Não havia marcações, nem fechaduras visíveis. Ainda assim, ao tocar na superfície, senti o mecanismo ceder com facilidade, como se já estivesse esperando por mim.
Abri.
Dentro, um notebook fino e três passaportes organizados com precisão. Peguei um deles por um segundo, observando a foto, o nome, os carimbos. Identidades diferentes, vidas diferentes. Todas possíveis.
Coloquei de volta no lugar e puxei o notebook para mais perto, abrindo-o com cuidado. A tela acendeu quase imediatamente, sem necessidade de senha, revelando uma interface limpa e silenciosa. Um único arquivo de vídeo no centro.
Cliquei.
A imagem demorou menos de um segundo para aparecer, mas, ainda assim, pareceu longa demais.
Um homem.
O vídeo mostrava diferentes ângulos, capturas de câmeras de segurança, fotos antigas, imagens em movimento. Em todas elas, havia o mesmo olhar. Firme. Atento. Difícil de ler.
A voz começou logo em seguida, neutra, objetiva, sem emoção.
— Agente Renesmee Swan.
Meu nome ecoou no pequeno espaço, fazendo o ar parecer mais denso.
— Você foi designada para uma operação de prioridade máxima. Classificação nível preto.
As imagens continuaram a se alternar na tela. O homem correndo. O homem parado. O homem observando.
— Seu alvo é um ex-agente da Agência Central de Inteligência.
Uma pausa breve.
— Codinome: Lobo.
A próxima imagem congelou por um segundo a mais.
— Nome: Jacob Black.
Senti meu corpo permanecer imóvel, mas minha atenção se intensificou de forma quase imperceptível. Havia algo naquela presença, mesmo através de uma tela, que não combinava com um alvo comum.
A voz seguiu, precisa.
— Considerado o agente mais eficiente dos últimos dez anos. Especialista em infiltração, contrainteligência e evasão. Treinado para operar em qualquer ambiente, sem suporte.
Outra pausa.
— Atualmente classificado como altamente perigoso.
As imagens começaram a mudar mais rápido agora. Registros apagados. Locais vazios. Rastros interrompidos.
— Jacob Black desapareceu após ser acusado de traição. Desde então, evitou todas as tentativas de rastreamento, os últimos agentes que aceitaram a missão de captura-lo não obtiveram sucesso, entre eles seus próprios companheiros de missão.
A tela exibiu a última imagem. Um close do rosto dele. Olhos escuros, atentos. Quase… conscientes.
— Sua missão é localizar e capturar o alvo.
O vídeo reduziu o brilho por um segundo.
— Use qualquer meio necessário.
A tela ficou preta.
O silêncio tomou conta da sala novamente, pesado, absoluto.
Apoiei os cotovelos sobre a mesa, entrelaçando os dedos enquanto mantinha os olhos fixos no reflexo escuro da tela desligada. O nome ainda ecoava na minha mente, acompanhado daquela sensação incômoda que raramente surgia.
Não era medo.
Era outra coisa.
Algo mais próximo de um aviso.
A tela permaneceu escura por alguns segundos, refletindo apenas a minha própria imagem distorcida, enquanto o silêncio preenchia cada canto do pequeno cômodo. Então, como se a missão ainda tivesse mais uma última instrução a entregar, o brilho do notebook voltou de forma súbita, revelando uma nova linha de comando piscando no centro da tela.
— Esta mensagem será autodestruída em dez segundos.
A contagem começou imediatamente.
Meu olhar não vacilou. Já havia visto aquilo antes, mais vezes do que conseguiria contar, e ainda assim havia sempre algo naquele momento que exigia rapidez e precisão. Inclinei-me levemente para frente, puxando os passaportes para mais perto de mim enquanto a contagem seguia.
9… 8…
Peguei o primeiro documento, abrindo-o com cuidado, analisando a identidade ali apresentada. Nome, nacionalidade, histórico limpo. Uma vida inteira construída em páginas que não existiam até aquele momento. Fechei-o com firmeza e passei ao segundo, repetindo o processo com a mesma atenção, gravando cada detalhe, cada informação que poderia ser necessária.
7… 6…
O terceiro passaporte trazia uma variação sutil, outro nome, outro país, outra história. Todos com o mesmo rosto. O meu. Guardei os três juntos, deslizando-os para dentro da mochila com um movimento rápido e seguro, já me levantando da cadeira enquanto o tempo se esgotava.
5… 4…
O som quase imperceptível de um mecanismo interno sendo ativado começou a se formar dentro do notebook, um leve estalo seguido de um zumbido baixo, crescente. Eu já não precisava olhar para a tela para saber o que aconteceria a seguir. Dei um passo para trás, ajustando a mochila sobre o ombro e me posicionando próxima à porta.
3… 2…
O zumbido se intensificou por um breve instante, e então cessou.
Um estalo seco cortou o ar, seguido por um som abafado de implosão interna. A tela do notebook se apagou completamente, e um leve fio de fumaça começou a subir da carcaça, carregando consigo qualquer vestígio da informação que havia sido exibida segundos antes. Nenhum arquivo, nenhum registro, nenhuma prova.
Missão entregue. Rastros eliminados.
Observei o objeto por um instante a mais, certificando-me de que o processo havia sido concluído, antes de girar a maçaneta e destrancar a porta. Meu rosto já não carregava nenhuma expressão além da neutralidade habitual, aquela que me permitia atravessar qualquer ambiente sem ser notada.
Ao abrir a porta, o som do café voltou a preencher meus ouvidos, como se nada tivesse acontecido, como se aquele corredor não escondesse um mundo completamente diferente logo ao lado. Dei alguns passos de volta ao salão principal, mantendo o ritmo calmo, controlado, enquanto meus pensamentos já se reorganizavam em torno de um único ponto.
Jacob Black.
O nome ainda carregava um peso estranho, difícil de ignorar, como se algo naquela missão estivesse desalinhado desde o início. Ainda assim, não havia espaço para dúvidas. Não naquele momento.
Passei pelo balcão sem dizer nada, sentindo por um segundo o olhar da atendente sobre mim, discreto, avaliativo. Não precisei confirmar nada. O simples fato de eu sair por aquela porta já era a resposta.
Empurrei a porta do café e fui recebida novamente pelo ar frio de Nova York. O movimento da rua continuava o mesmo, alheio a qualquer coisa que tivesse acontecido ali dentro. Ajustei o zíper da jaqueta, coloquei o capacete e subi na moto com a mesma precisão de sempre.
O motor rugiu ao ganhar vida.
E, enquanto eu me misturava ao trânsito mais uma vez, havia apenas uma certeza clara em minha mente.
A caçada havia começado.
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