BlackSwan
25 A Equipe
Notas iniciais
Os dois anos seguintes passaram rápido demais.
Às vezes eu acordava no meio da madrugada ouvindo a chuva cair sobre a floresta e demorava alguns segundos para lembrar que aquela vida realmente era minha. Porque durante muito tempo eu me acostumei a sobreviver apenas de missão em missão, sempre esperando o próximo tiro, a próxima traição ou a próxima ordem absurda vindo da CIA ou da KGB.
Então Renesmee apareceu.
E tudo mudou.
O que começou como proteção se transformou em algo muito maior do que eu poderia controlar. Em algum momento entre treinamentos na lama, noites silenciosas na varanda da casa e discussões sobre peixe no jantar, nós construímos uma vida juntos sem perceber.
Uma vida de verdade.
A coisa ficou ainda mais perigosa quando Renesmee engravidou.
Lembro perfeitamente do dia em que ela me contou. Estávamos na cozinha da casa da ilha e ela parecia nervosa pela primeira vez desde que a conheci. Nessie ficou andando de um lado para o outro durante quase dez minutos antes de simplesmente jogar o teste na minha direção e cruzar os braços esperando alguma reação.
Eu fiquei olhando aquilo em silêncio.
Então comecei a rir.
Não porque era engraçado, mas porque parecia impossível demais.
Jacob Black, agente duplo procurado internacionalmente, vivendo escondido no meio da Amazônia com uma mulher criada em laboratório e esperando um filho.
Se alguém tivesse me contado aquela história anos atrás eu teria mandado internar a pessoa.
Mas a verdade era simples.
Eu nunca tinha sido tão feliz.
A gravidez de Renesmee trouxe algo novo para nós dois. Ela continuava perigosa, absurdamente habilidosa e capaz de derrubar qualquer homem armado sem dificuldade, mas ao mesmo tempo começou a demonstrar uma delicadeza que me desmontava completamente. Nessie passava horas falando com a barriga como se o bebê já pudesse entender cada palavra. Às vezes eu chegava perto da casa depois de algum treinamento ou reconhecimento pela floresta e encontrava ela sentada na varanda conversando sozinha enquanto acariciava o ventre.
E aquilo me atingia toda vez.
Porque eu percebia que finalmente tinha algo que nunca imaginei possuir.
Uma família.
Nós estávamos seguros naquela ilha. Pelo menos era o que eu tentava acreditar. O nome de Renesmee circulava pelo submundo inteiro acompanhado de fotografias e recompensas absurdamente altas. A KGB ainda procurava desesperadamente o clone desaparecido enquanto lentamente começava a ruir por dentro.
A organização estava queimando os próprios arquivos.
E arquivos na KGB significavam pessoas.
Agentes começaram a desaparecer misteriosamente ao redor do mundo. Alguns foram encontrados mortos. Outros simplesmente sumiram sem deixar vestígios. A mensagem era clara: eliminar qualquer ponta solta ligada ao Projeto Millennium.
O problema era que meus amigos estavam entre essas pontas soltas.
Foi por isso que naquela noite nos reunimos na pequena cidade próxima ao povoado ribeirinho. O lugar era simples, escondido entre ruas estreitas e construções antigas próximas ao rio, perfeito para encontros discretos longe dos grandes centros monitorados.
Eu estava sentado em uma mesa no fundo de um bar quase vazio enquanto observava cada um deles chegando aos poucos.
Leah Clearwater foi a primeira. Continuava exatamente igual, séria, armada e com aquele olhar de quem estava pronta para quebrar o pescoço de alguém a qualquer segundo.
Depois vieram Seth, Sam Ulley, Paul Lahote, Embry, Quil Alteara e Solomon.
Minha antiga equipe inteira.
Ou o que restava dela.
Seth sentou ao meu lado soltando um suspiro cansado.
— Então oficialmente viramos os mais procurados do planeta?
— Não ainda — respondi pegando o copo de cerveja. — Mas estamos chegando lá.
Paul riu sem humor.
— Ótimo. Sempre quis entrar pra uma lista internacional.
Leah cruzou os braços encostada na cadeira observando todos nós.
— Fala logo, Jacob. Você não reuniria todo mundo aqui só pra beber.
Ela estava certa.
O ambiente ficou silencioso imediatamente.
Olhei um por um antes de finalmente falar o que ninguém queria ouvir.
— A KGB começou uma limpeza interna. Eles estão eliminando qualquer agente ligado ao Millennium, ao Charlie Swan ou a mim pois sabem que eu era um agente duplo.
Sam apoiou os cotovelos na mesa.
— Já percebemos isso quando tentaram matar Solomon em Bogotá semana passada.
Solomon deu um pequeno sorriso cansado.
— Ainda estou irritado com aquilo.
— Eles vão continuar vindo — continuei sério. — E sozinhos vocês não vão durar muito tempo.
Embry soltou um palavrão baixo.
Seth passou a mão pelos cabelos claramente nervoso.
— Então quais são as opções?
Respirei fundo antes de responder.
— Ou vocês se unem oficialmente a mim… ou viram fugitivos solitários.
O silêncio que veio depois foi pesado.
Porque todos naquela mesa sabiam exatamente qual era o problema da segunda opção.
Na KGB, agentes sozinhos morreriam rápido.
O bar era pequeno, escondido entre dois prédios abandonados perto do cais. Do lado de fora parecia apenas mais um depósito velho condenado pela maresia, mas por dentro era abafado, escuro e cheio daquele cheiro de álcool barato misturado com cigarro antigo impregnado na madeira.
A iluminação vermelha acima do balcão piscava de vez em quando, deixando o lugar ainda mais decadente. Algumas mesas estavam ocupadas por homens silenciosos demais para serem clientes normais. Ninguém fazia perguntas naquele lugar. Era exatamente por isso que Seth tinha escolhido ali.
Eu permaneci encostado no balcão enquanto o copo de uísque descansava intacto na minha frente. Leah ocupava a cadeira ao lado da minha, girando lentamente o líquido da bebida como se estivesse assistindo a um espetáculo particular.
Embry foi o primeiro a quebrar o silêncio.
– Então deixa eu entender... a maldita KGB criou um clone da garota e simplesmente perdeu ela por aí?
Seth soltou uma risada seca.
– Basicamente isso.
– Isso é coisa de filme ruim – Embry passou a mão no rosto, incrédulo. – Eu também procurei essa garota depois que a informação vazou. Nada. Nem câmera, nem rastro, nem conta bancária. Parece que a menina foi engolida pela terra.
Meu maxilar travou involuntariamente.
Porque eu sabia exatamente onde ela estava.
Leah arqueou uma sobrancelha e cruzou as pernas.
– Honestamente? Se eu fosse um clone perseguido por duas agências malucas eu também sumia. E convenhamos... não devia ter opções melhores de companhia, então talvez ela tenha fugido com algum pescador feio e vivido feliz.
Embry riu alto.
– Você consegue transformar qualquer tragédia numa piada horrível.
– É um talento natural.
Seth ignorou os dois e ficou sério outra vez.
– A situação piorou rápido depois que descobriram sobre o clone. A KGB ficou completamente desestruturada. Gente desaparecendo, arquivos sumindo, agentes se matando entre si porque ninguém sabia mais quem era infiltrado.
Ele puxou uma pasta escura e bateu nela com os dedos.
– Eu consegui tirar algumas coisas de lá antes da divisão oficial acontecer.
Embry franziu a testa.
– Que tipo de coisas?
– Arquivos internos. Operações ilegais, nomes de agentes duplos, acordos financeiros, laboratórios clandestinos... coisa suficiente pra destruir o que restou deles.
Leah assobiou baixo.
– Tá carregando uma bomba dentro dessa mochila.
– A CIA sabe que esses documentos existem – Seth respondeu. – E agora que a separação foi oficializada depois que a KGab descobriu os agentes duplos enviados pela CIA... virou uma guerra fria piorada. Eles querem esses arquivos porque podem usar tudo isso como barganha.
Embry balançou a cabeça lentamente.
– Então o clone virou o gatilho de tudo isso.
– Sim.
O silêncio caiu pesado depois disso.
Eu continuei quieto, observando cada um deles falar sobre Renesmee como se ela fosse apenas um nome perdido dentro de um relatório confidencial.
Mas pra mim ela tinha deixado de ser isso fazia muito tempo.
Eu conseguia lembrar dela dormindo no meu peito naquela manhã. O jeito como segurava minha camisa mesmo dormindo, como se tivesse medo de acordar sozinha.
Leah me encarou de repente.
– Você tá muito calado, Jacob.
Seth também percebeu.
– É verdade – ele estreitou os olhos. – Você normalmente já teria xingado metade das agências do planeta até agora.
Embry apoiou os braços nos joelhos.
– Tá escondendo alguma coisa?
Meu coração bateu pesado uma única vez.
Lento.
Perigoso.
Porque naquele instante eu percebi que talvez estivesse chegando a hora em que eu não conseguiria mais manter Renesmee escondida nem deles.
O bar parecia menor depois da pergunta de Seth.
O barulho das garrafas atrás do balcão, a música baixa e até as conversas distantes começaram a soar abafadas enquanto os três me encaravam esperando uma resposta.
Eu permaneci imóvel, observando lentamente o líquido âmbar dentro do meu copo.
Leah foi a primeira a perder a paciência.
– Ah, não. Nem vem com essa cara de quem tá escondendo um cadáver.
– Leah... – Embry murmurou.
– Não, fala sério – ela continuou, apontando discretamente pra mim. – O Jacob desapareceu do nada meses antes dessa bomba toda explodir. Sem aviso, sem explicação, sem contato direito. Agora ele aparece parecendo um criminoso cansado e acha que ninguém vai perceber?
Embry apoiou os braços na mesa.
– Ela tem razão. Muito antes da KGB desmoronar você já tinha pulado fora, Jake.
Eu continuei em silêncio.
Porque qualquer resposta errada mudaria tudo.
A cadeira ao meu lado arrastou no piso gasto quando Sam finalmente se aproximou da mesa. Eu nem tinha percebido ele entrando no bar. Isso por si só já dizia muito sobre como minha cabeça estava longe dali.
Sam apoiou as mãos sobre a mesa e me encarou sério.
– Se vamos trabalhar juntos, não pode existir segredo entre nós.
A frase ficou pesada no ar.
Seth cruzou os braços.
– O que você tá escondendo?
Meu olhar passou lentamente por cada um deles.
Leah desconfiada.
Embry inquieto.
Seth pronto pra sacar uma arma se fosse necessário.
Sam apenas esperando a verdade.
Soltei o ar devagar antes de finalmente falar.
– Tem uma coisa que a KGB quer.
O silêncio foi imediato.
Embry franziu a testa.
– Que coisa?
Eu ergui os olhos na direção dele.
– Alguém.
Todos ficaram tensos quase ao mesmo tempo.
Leah descruzou os braços.
– Jacob...
Seth arregalou os olhos como se tivesse ligado os pontos antes dos outros.
Embry soltou uma risada curta, incrédula.
– Não. Não, espera aí. Só falta você dizer que a garota tá com você.
Eu não respondi.
E foi exatamente aquilo que destruiu o resto da dúvida.
O sorriso de Embry morreu devagar.
Leah piscou duas vezes, completamente surpresa.
Seth soltou um palavrão baixo.
Sam permaneceu imóvel, mas o olhar dele endureceu imediatamente.
– Meu Deus... – Leah murmurou.
Embry passou a mão no rosto sem acreditar.
– Você ficou maluco.
Continuei encarando a mesa.
Porque depois de tanto tempo escondendo Renesmee do mundo inteiro... falar aquilo em voz alta parecia tornar tudo mais perigoso.
Sam foi o primeiro a recuperar a voz.
– Onde ela está?
– Segura.
– Jacob – ele falou firme. – Onde. Ela. Está?
Meu maxilar travou.
– Não vou dizer.
Leah soltou uma risada nervosa.
– Claro que não vai. Porque aparentemente você adotou uma arma biológica procurada por duas agências internacionais.
– Ela não é uma arma.
A resposta saiu rápida demais.Forte demais. E aquilo só piorou tudo.
Embry me encarou como se estivesse vendo outra pessoa sentado naquela cadeira.
– Você tá envolvido emocionalmente.
Eu permaneci quieto.
E o silêncio respondeu por mim outra vez.
O motor da lancha cortava o mar escuro enquanto eu mantinha os olhos atentos ao redor. O vento frio batia contra meu rosto, mas minha mente ainda estava presa naquele bar.
No silêncio que tomou conta da mesa quando eu revelei a verdade.
Renesmee estava comigo.
Minha esposa.
Mãe da minha filha.
Eu ainda conseguia ver a expressão de choque deles quando me levantei e fui embora antes que começassem a fazer perguntas demais.
Não importava há quanto tempo fossem meus amigos. Algumas informações eram perigosas demais até pra eles.
Por isso eu tinha tomado cuidado no caminho inteiro.
Troquei de rota duas vezes.
Apaguei rastros.
Observei embarcações ao redor.
Passei quase quarenta minutos verificando se alguém estava me seguindo antes de finalmente permitir que a ilha aparecesse no horizonte escuro.
Só quando enxerguei as luzes pequenas da casa entre as árvores senti meu peito aliviar de verdade.
Lar.
Diminuí a velocidade da lancha até alcançar o pequeno cais escondido entre as pedras. O mar batia suavemente na madeira enquanto eu prendia as cordas e desligava o motor.
O silêncio da ilha era diferente do resto do mundo, era calmo e seguro.
Subi os degraus de madeira devagar, sentindo o cheiro da maresia misturado ao perfume das flores espalhadas perto da casa. E então ouvi uma música baixa e antiga, um sorriso escapou automaticamente dos meus lábios. Aproximei-me da varanda e balancei a cabeça, divertido.
– Nessie, eu cheguei.
A música continuou por mais alguns segundos antes de ouvir passos leves dentro da casa.
Quando abri a porta, meu coração simplesmente desacelerou.
Renesmee estava no meio da sala segurando Charlie nos braços enquanto dançava lentamente pela casa.
A luz amarelada deixava o cabelo ruivo dela ainda mais bonito, caindo pelas costas em ondas suaves. Charlie gargalhava baixinho no colo da mãe, agarrada na blusa dela com as mãozinhas pequenas. E por um instante o mundo inteiro deixou de existir.
Renesmee virou o rosto na minha direção e sorriu daquele jeito que ainda acabava comigo.
– Você demorou.
– Tive que ter cuidado.
Charlie abriu um sorriso instantâneo ao me ver.
– Papá!
Aquela simples palavra ainda tinha o poder de destruir qualquer parte ruim do meu dia.
Me aproximei delas devagar enquanto Nessie diminuía os passos da dança. Inclinei-me primeiro na direção da minha filha, beijando o alto da cabeça dela. O cheirinho de bebê misturado ao perfume suave de Renesmee me atingiu imediatamente.
Era minha casa, minha família e minha vida.
Segurei o rosto de Nessie com carinho e selei nossos lábios devagar e sem pressa, como alguém que ainda não acreditava completamente que aquilo era real.
Ela sorriu contra minha boca.
– Tudo bem? – perguntou baixinho.
– Agora tá.
Charlie soltou uma reclamação manhosa no meio dos nossos braços, arrancando uma risada de nós dois.
Renesmee ajeitou nossa filha entre nós enquanto eu passava um braço pela cintura dela.
E então voltamos a dançar lentamente pela sala pequena da casa.
Charlie ria no meio de nós dois enquanto Nessie encostava a cabeça no meu ombro.
Lá fora existiam guerras, agentes, perseguições e pessoas procurando pela mulher que eu amava.
Mas ali dentro...
Ali dentro ela era só minha esposa dançando comigo enquanto nossa filha gargalhava entre nós.
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