Black star
2 Forever you'll be a black star
Angela estava crescendo tão rápido. Parecia que fora ontem que a pequena bruxa chegara em sua vida, com seus olhos cor de vinho curiosos, atropelando seus sentidos obstinados com sua ingenuidade. O sorriso dela ao pregar peças nele e o muxoxo que fazia sempre que ele a encontrava, mesmo que a bruxinha estivesse invisível. Depois de certo tempo, tais características foram moldadas e polidas, dando a pequena bruxa frases completas e um olhar analítico forte. Seu físico ganhara outras formas, agora com doze anos completos — ao menos fora o que Kim dissera — Angela estava mais alta, os cabelos róseos cresceram e graças aos truques de Tsubaki, ela aprendera diversas formas de arruma-lo, assim como o vicio que ganhara por tranças. O velho chapéu pontudo e caricato fora aposentado e só era usado quando ela tinha reuniões com outras bruxas. Seu velho vestido trocara de lugar por uma jardineira verde musgo e camisetas listradas (senão isso, ela adorava usar longas saias xadrez), Angela ganhara um hábito curioso de andar descalça por onde quer que fosse, dizia que isso facilitava a sua magia mas no fundo, ela não deixava de ser aquela garota arteira que ele via na companhia de Mifune.
Pensar no espadachim que colocara a prova todas as suas convicções, fazia que uma sensação de aprendizado tomasse conta de seu ser. Ele odiava ter que admitir isso, mas Mifune o ensinara muito, se não fosse pelo então tutor de Angela, talvez ele nem estivesse cuidando da bruxinha nos dia atuais. Pior, talvez ele esquecesse de quem realmente era e assim acabasse perdendo pessoas importantes para ele. Seus amigos. Sua arma, sua anchi.
Tsubaki.
Seu interior parecia florir ao pensar nela, sua grande apoiadora, aquela que nunca o abandonara e sempre tinha um bom concelho para o auxiliar. Tsubaki acabara ganhando uma figura materna ao lado de Angela, a garotinha sempre tinha a arma como um exemplo a ser seguido, ouvindo tudo o que a morena encabulada tinha a dizer e sempre que necessitava de carinho, buscava os braços da mais velha. Pensando nisso, talvez ele representasse algo como um segundo pai para ela, já que Mifune nunca deixaria o coração da bruxinha. Ao final, ele e Tsubaki acabavam sendo vistos como os pais de Angela e ele não conseguia deixar de se sentir orgulhoso por isso.
— Pensando alto?
Black Star tivera que piscar três vezes para notar que Tsubaki se referia a ele. A arma acabara de sentar ao seu lado no sofá de três lugares, que era um dos móveis de destaque da pequena sala de estar. Depois que Angela passara a ser uma figura presente naquele lugar, tudo parecia ser apertado demais, ironicamente aumentando o conforto da dupla.
— Um pouco — suspirou se acomodando nos braços da arma, que ligeiramente passara a afagar seus rebeldes fios azulados.
— Sobre?
— Nada especial.
— Black Star.
— Angela — suspirou — Ela cresceu tão rápido, Tsubaki. Era para ser assim mesmo?
A anchi riu, se divertindo da expressão frustrada do outro.
— Sim, era para ser assim mesmo Black Star. Ela não poderia ser criança para sempre. Você e eu não fomos.
— Mesmo assim, tudo parece acontecer tão rápido. Será que ela sempre vai se lembrar da gente?
O olhar triste dele fez com os afagos descessem do cabelo para seu rosto.
— Pode ter certeza.
— Como você pode ter certeza, se nem sabe no que ela pensa?
— Porque ela nunca se esqueceu do Mifune e por isso, tenho certeza de que ela não se esquecerá de nós.
Já se faziam alguns anos que os dois decidiram seguir um novo rumo, não somente como artífice e arma mas como algo a mais, e isso fizera com que a comunicação de ambos melhorasse exponencialmente. Momentos de conforto como aquele não eram raros, Black Star parecia sentir prazer em se apossar dos carinhos da morena, que sempre parecia disposta para tal.
— Tomara que esteja certa. Eu não admito que ela se esqueça de nós.
— É claro que não admite, senão você não seria o grande e poderoso Black Star — disse em tom brincalhão.
As maçãs do rosto do rapaz de cabelos azulados ganharam um vibrante tom de vermelho com o elogio.
— É, é isso mesmo.
Aquela era uma das raras tardes em que ambos tinham um pouco de sossego, podendo aproveitar a companhia um do outro, sem aulas ou treinamentos paralelos, apenas os dois assistindo a nada importante no televisor.
E apenas aquilo já era o suficiente.
Uma melodia tranquila e doce vinha a caminho da entrada, não era possível distinguir o que era cantado mas a voz era tão agradável que acabara tirando a atenção dos dois de uma interessante sessão culinária.
Angela entrava distraída, cantando baixinho, enquanto procurava pelos donos do local. Quando os encontrou na sala, deixou sua mochila sobre a poltrona, ao lado do sofá e se sentara com a dupla, que a observavam ambos cheios de curiosidade no olhar.
— Que música é essa Angela? — perguntou Tsubaki, abrindo espaço para a garota se acomodar.
O brilho nos olhos da garota parecia confessar tudo o que ela sentia, por mais que quisesse conter isso.
— Ah, é uma música que eu compus com o Soul, na aula de música que tive hoje! Ele disse que sou quase uma autodidata, mas eu não entendi bem o que isso significa.
Tsubaki sorriu, afagando o topo da cabeça da bruxinha.
— Significa que tem facilidade para aprender as coisas.
— Mas eu não entendo as aulas do professor Stein — murmurou encarando a arma.
— Não é algo tão abrangente Angela, isso mostra a sua facilidade com notas musicais. Não significa que entenderá tudo rapidamente. Isso vem do esforço que coloca em querer aprender.
— E que música você compôs? — a curiosidade de Black Star acabou falando mais alto, cortando assim uma das clássicas "lições da Tsubaki" que sua arma costumava dar.
Sendo questionada por algo, até o momento íntimo, fez com que Angela desviasse seu olhar, que até o momento estava centrado na dupla. Ela parecia encabulada com a pergunta, e se tinha algo raro em relação a Angela, era que ela dificilmente se calava por vergonha.
— Uma música para você, Black Star — quando seus olhares se encontraram, ela suspirou tentando afugentar seu constrangimento — Eu compus uma música para você. Mas ela é simples demais, nada especial.
Se o ego de Black Star não estivesse em sua mensura correta, aquela notícia com certeza colocava tudo no lugar.
— Eu quero ouvir.
— Mas ela é simples, nem está boa.
— Como se você se importasse com isso, Angela — persistiu o guerreiro de cabelos azulados — Anda logo, você me deixou curioso!
Vendo o quão complicado seria faze-lo mudar de ideia afinal, se safar das situações com um belo chute entre as pernas dele não era mais uma solução. A bruxa suspirou e anulou toda a sua forma física, ficando invisível. Ela torcia ansiosa o final de sua trança quando começou a cantar sua composição.
E mais uma vez, a dupla ouvia a melodia suave que os cativara. Tsubaki sorriu entrelaçando seus dedos com os de seu artífice, que retribuíra o gesto imediatamente. Aos ouvidos da morena, aquilo era um ode de adoração a Black Star, mas não devido as repetições do nome dele. Era a emoção que Angela colocava na letra que deixava tudo mais surpreendente, nenhum dos dois imaginara que ela teria talento para o canto.
Soul devia algumas explicações a Black Star, assim resolvera o mesmo.
— O que acharam? — perguntou a bruxa voltando a seu estado comum, sendo visível. Um sorriso ansioso estampava seu rosto.
— Angela, isso foi lindo! — elogiou a morena afagando seus cabelos róseos.
— É, eu posso usar isso como um hino para os meus seguidores — se gabou o outro.
— Black Star!
Angela parecia surpresa. Ouvir tantos elogios vindos das pessoas que mais gostava de ter por perto era algo estranhamente acolhedor. Ela se lembrava das palavras de Soul quando disse que, para uma notava aquilo que havia composto era bonito aos ouvidos. Simples e delicado, carregando todas as emoções que a bruxa carregava consigo.
Emoções que ela não conseguia transmitir corretamente, mas que estava ali, em seu cerne.
Tudo o que aquela dupla em especial havia feito por ela, todo esse tempo.
— Vocês gostaram mesmo?
— Claro, se eu não tivesse gostado, teria dito na hora.
A anchi batera no topo da cabeça dele.
— Sim Angela, e garanto que o poderoso Black Star aqui também gostou.
— Ei!
Nenhum dos dois esperava que a bruxinha saltasse sobre eles em um grande abraço.
— Que bom que gostaram!
Black Star sorriu observando o comportamento de Angela. Se ele estava inseguro sobre ela deixar de se lembrar dele algum dia, aquela música curta mostrava exatamente o oposto.
Angela o admirava. Tanto quanto Mifune.
Ele conseguira um lugar no coração da bruxinha que não seria de mais ninguém, além dele.
— Agora que tivemos o nosso show, podemos comer alguma coisa? Estávamos esperando por você — a voz da morena acordou todos do transe.
— Cantar me deu fome.
— Tsubaki, eu quero torta.
— Certo, vamos para a cozinha.
Mais tarde, quando a luz das estrelas iluminava o céu noturno e todos na cidade estavam dormindo, a anchi que se aprontava para dormir comentou sutilmente para seu artífice:
— Ainda restam dúvidas do quanto ela gosta da gente, Black Star?
Como resposta, ele apenas riu.
— É, você estava certa.
A arma sorriu.
— Eu sei, eu sempre estou.
Enquanto Tsubaki tentava se acomodar na cama, sua companhia a abraçou pelas costas escondendo seu rosto nas madeixas negras, inspirando profundamente.
— É, você sempre está, Tsubaki.
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