Black and Blue VI: Dressed In Black
2 And then you crossed my path (...)
You took my hand in yours
You started breaking down my walls
And you covered my heart in kisses
Parte IV
Rua da Faia, Moscou
Hermione degustava sua salada calmamente, os braços relaxados e as feições serenas, embora os pensamentos estivessem longe. Draco lhe mandara um bilhete mais cedo dizendo que precisavam conversar, mas ela chegara adiantada ao ponto de encontro e ele parecia mais atrasado do que normalmente. Àquela época do ano, ainda era possível sentar-se às mesas dos restaurantes bruxos e aproveitar a temperatura amena observando como os costumes russos diferiam de onde ela vinha.
Eles eram mais resistentes e conformados às mudanças naturais, assim como muito mais ligados às condições que sua terra natal impunha para que a atividade bruxa se desenvolvesse. Um exemplo disso era o próprio esporte, que se tratava de uma variação do Quadribol, mas jogados sob troncos de árvores invés de vassouras esteticamente pensadas. Ali mesmo, naquela rua que concentrava grande parte da população bruxa, via-se gente de toda parte, assim como criaturas muito diferentes, que os bruxos dali estavam acostumados a conviver e aceitar. Era uma oposição maciça aos costumes ingleses, onde os bruxos dominavam o mundo mágico, embora existissem criaturas tão poderosas quanto.
Àquela hora, a rua já se encontrava menos movimentada, visto que a noite caía e era iluminada não por postes com luminária, mas pequenas velas que flutuavam por toda sua extensão e surgiam de forma mágica assim que o sol se punha. Tornava o ambiente aconchegante em complemento ao clima, visto que os bruxos não poderiam desfrutar desse tipo de luxo ao ar livre no inverno. As ruas de pedra clara, ladeadas pelos prédios de formas diversas e, às vezes, muito bonitos em sua estranheza tornava tudo ainda mais familiar, era como se fosse sua própria conformidade lhe afirmando que se acostumara àquele tipo diferente de lar.
— Ei! Já está comendo? Desculpe o atraso, eu fiquei no preso no laboratório testando algumas poções.
Draco apareceu às suas costas, apressado, e não teve cerimônias ao sentar-se na sua frente e chamar a garota que anotava os pedidos. Ele parecia agitado, como se algo novo houvesse acontecido, demonstrando certo nervosismo ao contrário da inabalável tranquilidade que Malfoy sempre ostentava perante as adversidades do dia e da vida.
— Não se preocupe, é só uma salada. Ainda posso acompanhá-lo em suas panquecas doces demais.
Caçoou em referência ao prato regional que ele descobrira há alguns meses. Tratava-se de uma versão da panqueca, que tinha seus recheios baseados na cultura tradicional, como caviar e smetana, em complemento a coberturas mais “normais” aos paladares deles, como geléias, caldas e frutas da estação. Ele tinha se tornado completamente louco pelo prato e, não fosse Hermione regulá-lo em sua gula, certamente teria engordado alguns quilos.
— Bliní é doce na medida certa. – Ele retrucou, retirando o terno para ficar mais à vontade somente de colete e gravata, ambos em tons de cinza escuro, e voltando-se à garota para fazer seu pedido, exagerado demais em frutas vermelhas e chocolate, ainda que soubesse que ela fosse roubar todo o último. – Nenhum russo tem culpa pelo seu paladar exigente demais, Granger.
Reparando bem, as feições da garota que anotava o pedido não eram exata e puramente humanas. Ainda não havia parado para realmente olhá-la, mas havia algo além do normal nos olhos repuxados e muito esverdeados, na boca zombeteira e nos cabelos extremamente compridos. Era como se brilhassem a luz das velas da rua em seu castanho diferente e muito liso, emoldurando o corpo alto e esguio, que ostentava mãos compridas e um pescoço alvo, numa postura impecável.
— Será uma veela? – Perguntou distraidamente, ainda encarando enquanto a garota se retirava, lembrando-se vagamente de Fleur Delacour e de como todos os garotos ficaram encantados com a menina quando apareceu pela primeira vez em Hogwarts.
— Não há veelas nativas na Rússia. – Ele respondeu, não parecendo muito impressionado, antes de encará-la com olhos divertidos. – Mas sei de uma espécie de criatura extremamente parecida, que é capaz de atrair somente mulheres e daí tira sua força. Elas desprezam homens e tudo que é masculino. Se aquela for uma dessas criaturas, provavelmente quis me matar quando me sentei aqui.
— É mesmo? – Retornou, subitamente corada quando ele lhe levantara uma sobrancelha irônica. Sequer havia reparado que a garota a dispensara mais atenção do que percebera. Então, para disfarçar seu óbvio constrangimento, pigarreou e ajeitou-se na cadeira antes de continuar. – Então, sobre o que gostaria de falar?
— Como você sabe, minha mãe ficou aqui na última semana. – Ele começou em tom conciliador, pois, mesmo após aqueles anos, Narcissa Malfoy somente suportava Hermione, como um cavaleiro suporta insetos durante sua cavalgada porque é impossível livrar-se deles. Durante este tempo, não foi à casa de Draco e nem viu Scorpius, pois ele estava entretido com a companhia da avó. Apesar de tudo, a senhora mimava o neto tanto quanto fizera com o próprio filho e o fato de não haver mais Astoria em sua vida fazia com que a mulher estivesse se mostrando extremamente superprotetora em relação ao garotinho, segundo palavras do próprio Draco. – Conversamos a respeito de como iremos prosseguir a partir de agora, tanto pessoal como profissionalmente. A fábrica de poções já está estabilizada no mercado russo e agora... Sem Astoria...
— Ela quer que volte para o Reino Unido. – Concluiu facilmente e sem muita surpresa. Também era óbvio que a visita de Narcissa não se resumiria ao conforto de Draco e Scorpius. Ela tinha algo certeiro em mente e nunca escondera que tirar Hermione da vida de seu filho era uma de suas prioridades. – Não há momento mais conveniente, não é?
— Sei que não pensa nisso, em voltar. Mas... Será melhor para Scorpius ter mais companhia familiar... E feminina. – Estreitou os olhos na direção do homem, a tensão antes distante agora habitando todos os seus músculos, sua salada completamente esquecida e os olhos de Malfoy brilhando receosos sobre as velas que iluminavam a rua. – Podemos considerar os prós e contras, civilizadamente?
— Isso não soa como você, soa como Narcissa. – Declarou em tom baixo, mas firme, pois já tinha uma ideia concebida sobre o assunto e, civilizadamente, não havia sequer o que considerar para ela. Então, lentamente arrastou a cadeira e levantou-se sob as feições exasperadas de Draco. – Eu lhe disse que poderíamos procurar uma escola para Scorpius, para que ele pudesse se entreter, e até uma semana atrás isso estava bem para você.
— Mas eu não havia visto da perspectiva que ela me mostrou. – Ele retrucou, tão baixo quanto ela. – Scorpius não terá uma referência materna daqui para frente. No Reino Unido, suas avós e sua tia estão completamente à disposição. Elas terão tempo de verdade para se dedicarem a Scorpius, poderão dar a ele uma atenção que... Que teria se Astoria estivesse aqui.
— O que você não entende, Draco, é que elas devem continuar sendo apenas avós e tia, não mães dele. Elas não devem tomar para si esse papel, sequer é saudável, sequer é respeitoso com Astoria! – Disse exasperada. – Deve se conformar que a referência familiar de Scorpius será você e que ele crescerá, sim, sem uma referência materna, que isso irá moldar a personalidade dele porque fará parte de sua história. Não quer dizer, necessariamente, que será ruim, apenas diferente do que é o ideal. Que esse... Esse será o ideal de vocês.
— Então é isso? – Ele perguntou quando fez menção de virar as costas. – Vai dizer o que quer e ir embora, simplesmente porque não aceita outro tipo visão sobre o que acha correto? Narcissa também está certa, quer goste dela ou não.
— Não tente me provocar! – Retrucou em razão à insolência dele, pois Draco conhecia seus pontos fracos e sabia que ela odiava ter alguém que lhe mostrasse que estava errada. – Se acha que ela tem razão, então vá, volte para o Reino Unido. Isso é o que eu tenho a dizer, ainda civilizadamente, antes que você tome qualquer decisão. Para mim, não há o que considerar. Nunca irei voltar a viver lá, não importa o que diga.
Deu as costas a ele de forma desnecessariamente histérica, caminhando rapidamente em direção aonde pudesse aparatar com tranquilidade, sua respiração um caos e seus pensamentos revoltados. Com Draco, consigo mesma. Não deveria ter perdido o controle dessa maneira, mas detestava vê-lo tão a mercê da mãe, ainda que houvesse conquistado sua almejada meia liberdade ao mudar-se para Moscou e, em tese, ver-se livre dos caprichos de Narcissa.
De qualquer forma, devia ter se preparado para o fato de que ela tentaria fazer algo para afastá-la de seu filho. Haviam se passado mais de três anos e até então a mulher simplesmente anuíra ao que considerava errado. Sangues-puros não deveriam exacerbar o envolvimento com nascidos-trouxas após a guerra, esse era o veredicto entre eles, segundo o próprio Draco lhe contara anos antes. Eles mostravam-se tolerantes, como lhes era exigido, mas nada além disso, pois não eram obrigados a tanto. Hermione e Draco ultrapassaram uma linha tênue imposta por algo maior que eles mesmos, ainda que não houvessem ultrapassado os limites aos sentimentos platônicos entre si.
Assim que sentiu sobre seus pés o conhecido chão de sua casa, ouvindo somente o ruído das águas do Rio Ruza lá fora e o familiar tic-tac do relógio que ficava em seu quarto, desabou sobre o sofá. A contragosto desfez-se dos calçados, abraçando os joelhos e descansando o rosto entre eles, respirando fundo afim de se acalmar. Quando episódios dessa magnitude ocorriam, Draco estava sempre ao seu lado para lhe ajudar a superar. Com uma dose de vodca, palavras reconfortantes ou meramente sua presença.
Havia passado por muito para que pudesse considerar-se aquém do trauma provocado por Greyback. Podia-se dizer que não se lembrava mais constantemente de todas aquelas sensações, que o lobisomem não tinha mais sucesso em deixá-la vulnerável e desconfiada a todo o momento, especialmente quando dividia a sala com um homem estranho ainda que tudo tivesse vindo à tona quando o visitara em Azkaban. Ficara trêmula e nervosa durante alguns dias, mas ele estivera lá para dizer que ia passar, assim como passara um dia.
Estar em Londres ou no Reino Unido não ajudava, era uma conclusão a que havia chegado sozinha, após passar alguns dias lá devido à semana mais difícil de Astoria – e consequentemente também de Draco – a qual também fora sua última. Era, simplesmente, angustiante e claustrofóbico. Sentia como se a qualquer momento Greyback pudesse atingi-la de alguma forma, ainda que estivesse preso no que seria, provavelmente, a prisão mais segura do mundo. E, se havia algo que odiava, era essa vulnerabilidade forçada em que ele a colocara. A Inglaterra lhe representava isso de forma constante, imparável, ainda que houvesse se hospedado em Stratford-upon-Avon. Não, não poderia voltar para o lugar que a tornava um produto de Greyback.
Respirou fundo, descansando a cabeça contra o encosto do sofá, olhos fechados, corpo tenso, encolhido em incômodo e agonia pela situação nova a qual não reagira nada bem. E se Draco realmente fosse embora? E se ele a deixasse em Moscou? Se tudo que passaram até ali não dissesse muita coisa a ele e tivesse que lidar sozinha com seu desequilíbrio? Estaria preparada para uma nova vida sem o ponto de equilíbrio constante que era Draco Malfoy? Hermione não tinha ideia de como isso poderia ser, pois, desde que tudo acontecera, ele estava lá, bem ao seu lado, todas as vezes em que precisara ou se deixara cair.
Não houve lágrimas, mas a angústia a dominou por completo até que a escuridão da própria casa fizesse com que seus olhos pesassem. Sequer tentou lutar contra, seu corpo imerso em anestesia voluntária. Quando percebera, encontrava-se completamente embolada contra si mesma no sofá, a brisa fria da noite adentrando pela janela no que já deveria ser madrugada alta, devido à escuridão e o silêncio latente que apenas tal horário permite, a campanhia soando de forma incômoda por todo o ambiente.
Levantou-se desnorteada, provavelmente seu rosto, cabelos e roupas demonstravam externamente a bagunça interna em que se encontrava, e encaminhou-se à porta. Não foi surpresa alguma vê-lo ali àquela hora, mas, por um momento, não soube o que poderia dizer ou fazer. Draco trajava as mesmas roupas, o mesmo semblante temeroso, tenso, e carregava uma sacola parda com o logo do mesmo local onde estiveram mais cedo. Não tinha ideia de onde fora, mas não havia voltado para casa até aquele momento. Por enquanto, apenas poderia imaginar em silêncio, visto que ele parecia tão desconfortável e deslocado quanto ela.
Por isso, ainda sem se pronunciar, somente abriu mais a porta e deu espaço para que ele adentrasse sua casa e, como tantas vezes fizera, colocasse o que trazia sobre a bancada espaçosa da cozinha. Panquecas, provavelmente – ainda que Hermione o abominasse pelo doce das mesmas – em um acordo de paz que sempre era selado com uma comida qualquer. Eles não concordavam em tudo e nem tinham receio de dizer o que pensavam um do outro em voz alta, mesmo que as chances de ofender fossem grandes, por isso não eram raras as vezes em que chegavam nesse ponto.
— Eu não tomaria qualquer decisão antes de falar com você. – Ele murmurou, quase distraidamente. – Mas acho que sabia o que diria antes mesmo de mencionar qualquer coisa sobre Narcissa.
— Entendo seus motivos, Draco, ainda que não concorde com eles. – Respondeu, cruzando os braços inquietamente e engolindo em seco perante os olhos cinza tempestuosos. – Sei que está preocupado com Scorpius, mas eu... Eu não acho que seja o ideal para aquilo que você buscou ser, para aquilo que lutou para conquistar ao se mudar para longe da sua família. Narcissa está tomando as rédeas novamente e você está, simplesmente, concedendo. Por medo. Está deixando sua liberdade se esvair ao passo que sua família e os Greengrass querem tomar o controle novamente, pois sabem que é o momento propício para tentar fazê-lo.
— Estou sozinho, Hermione. – Draco sussurrou; as mãos contra a bancada e a cabeça baixa, os cabelos claríssimos caindo em uma cascata que cobria sua testa. – Em um país distante, com costumes diferentes dos nossos, uma esposa morta e um filho para criar. Qualquer um estaria com medo.
Então, suspirou e descruzou os braços, pois ele desarmava qualquer um daquela forma. Era óbvio que, após a morte de Astoria, ele não se acostumaria facilmente ao status de pai viúvo. Draco fora criado para ser chefe de família enquanto sua mulher deveria cuidar da família, efetivamente. Ele mudara, mas esse tipo de concepção geralmente está intrincado no inconscientemente humano. Agora, ele deveria verdadeiramente ser pai e isso poderia ser assustador do ponto de vista dele.
Aproximou-se lentamente, postando-se ao seu lado de forma hesitante. A meia-luz da cozinha tornava-o maior e, a situação como um todo, mais intimidador, mas obrigou-se a rodeá-lo como os braços pela cintura e apoiar a cabeça contra suas costas. Era possível sentir sua frustração há quilômetros. Draco não se moveu, mas também não se esquivou. Sabia que, na cabeça dele, aquilo tudo muito provavelmente era uma faca de dois gumes, embora sempre tentasse lhe mostrar outra perspectiva.
— Eu continuo aqui. – Declarou, seu tom baixo e temeroso por todas as opções que se formavam em sua cabeça, caso ele realmente partisse, de Moscou e de sua vida. – Eu disse que estaria e continuo aqui. Nós vamos dar um jeito, como sempre fizemos nesses últimos tempos, nós dois. Você não está sozinho.
Então, o viu e o sentiu calmamente voltar-se a ela, após um suspiro cansado, seus olhos analisando cada traço de seu rosto, muito próximo, intimidador agora de forma a fazer seu coração perder algumas batidas. Parecia hesitante por alguns momentos, somente analisando-a, como que pra fazer valer aquilo que ela dissera, arranjando seus cabelos ao redor de seu rosto, até estacar os dedos em seu queixo, confortável ali ao mesmo tempo em que rodeava seu pescoço, as mãos frias contrastando com sua pele quente.
— Não consigo mais querer estar. – Murmurou ele, capturando seus olhos de forma que era impossível desviar e tentar sair daquele magnetismo pelo qual implorava em certos dias.
I thought life passed me by
Missed my tears, ignored my cries
Life had broken my heart, my spirit
And then you crossed my path
You quelled my fears, you made me laugh
Then you covered my heart in kisses
Rio Moika
Anos antes
Eles seguiram pelo canal lentamente em um dos barcos que percorriam vários trajetos rio acima e abaixo pela Fontanka. Apesar de não ser exatamente conhecida por aquele tipo de transporte, Moscou ainda explorava o turismo navegável no meio da antiga e luxuosa cidade. As casas e prédios que rodeavam os canais tinham aparência conservada e expunham certa magnificência àquela hora do dia, quando o sol já se encontrava se pondo e as luzes da rua começavam a ser acesas para que as pessoas caminhassem fascinadas encarando os sobrados de diferentes cores.
Draco encontrava-se ao seu lado, extremamente calado para alguém que, sabia, adorava aquela parte da cidade. O loiro adorava o fato de que Moscou podia ser tão luxuosa quanto Paris, embora fosse bem menos repleta de turistas e, por isso, pudesse conhecer os pontos turísticos sem estar rodeado de pessoas para macular suas belezas particulares. Nunca se esqueceria de sua narração sobre a visita de 10 minutos ao Museu do Louvre e a quantidade de pessoas que o impedira de apreciar realmente as obras mais importantes. No fundo, ele ainda era um elitista antissocial.
Porém, seu silêncio dessa vez se devia a outro motivo. A partir do contato de pessoas influentes e, ainda assim, com algum custo, conseguiram agendar uma visita a Raspútin Volkov, o bruxo russo que desenvolvia estudos sobre a maldição que assolava os Greengrass há gerações. A intenção era que ele examinasse Scorpius e pudesse determinar, com algum grau de certeza, se ele poderia manifestar a mesma doença – pois nada tirava de sua mente que se tratava de uma doença genética, não uma simples maldição.
Por isso, Draco encontrava-se temeroso, o menino em uma de suas pernas, encantado com as luzes e as pessoas que o rodeavam. Em seu interior, enquanto encarava os olhinhos brilhando em empolgação do bebê que passara há poucas semanas dos doze meses, praticamente quicando no colo do pai em vontade de explorar todo aquele mundo ao seu redor, rezava a Merlin que estivesse tudo bem. Não sabia o que diria ao pai dele caso a resposta que buscavam fosse negativa e perturbadora, embora houvesse tentado pensar com calma. Nada lhe vinha à mente, nada poderia ser dito a um pai que recebia uma notícia como aquela, ainda mais enquanto acompanhavam Astoria definhando em impotência e inércia forçada.
O canal apresentou, naturalmente, uma interseção, onde seguiram o caminho da esquerda e um parque tomara o lugar das construções, ao mesmo tempo em que a presença de pessoas começava a se tornar mais escassa. Dali, não precisaram navegar por muitos metros até que seguissem um caminho particular, que surgira a partir do aceno específico do remo. Tratava-se de um empregado particular do próprio bruxo, que os levara pelas águas do Rio Moika, cada vez mais frias e escuras, visto que anoitecia e as árvores do parque passaram a cobrir o canal de pequena largura, produzindo sombras que fizeram com que Scorpius finalmente se sentasse e se comportasse, completamente recostado contra o corpo do pai.
Finalmente, então, o barqueiro posicionado à frente da embarcação com lugares para seis pessoas, estacou perante um cais de madeira com uma escada que desapareceria sob as águas e esperou que descessem com cuidado. Ultrapassaram o cais e seguiram pela estrada de paralelepípedos, ricamente iluminada por charmosos postes balizadores que, em vez de lâmpadas, continham velas amarelas em seu interior. O caminho terminava em um edifício que, provavelmente, datava do século 17, e que se estendia por boa parte da largura do terreno.
O palacete possuía três andares, diversas janelas com detalhes em dourado encimadas por gárgulas retratando várias criaturas bruxas, todas brancas e certamente feitas sob encomenda pelo mesmo artista, pois seguiam o mesmo estilo arquitetônico. Apesar da opulência, o lugar fora todo pintado em um verde claríssimo, o que quebrava um pouco da imponência que o prédio impunha aos novos visitantes. Uma escada larga, de poucos degraus, levava a porta alta, de madeira maciça e aparência pesada, onde uma mulher jovem, de cabelos cor de areia milimetricamente separados, penteados e presos os esperava.
— Senhor, senhora. – Cumprimentou educadamente. – Volkov já os espera.
O hall era enorme, não continha muitos móveis, somente uma mesa redonda apoiando um vaso que cultivava uma espécie muito suspeita de flor púrpura, com espinho em seus caules grossos e folhas duras. Arqueou uma sobrancelha questionadora, apertando Scorpius contra seu corpo, enquanto davam a volta e subiam pela larga escada de mármore, centralizada no meio do ambiente, que fazia uma curva à direita, onde um corredor de muitas portas os aguardava. Entretanto, a mulher que os guiava andava com a confiança de quem conhecia o ambiente há muito tempo, o que a tranqüilizava.
Percebeu que o corredor, tão iluminado quanto o restante da casa, possuía vários quadros e tapeçarias na parede, provavelmente sendo aquela a propriedade de uma antiga família russa. Ouvira que os Volkov, apesar de ser um dos clãs mais ricos da Rússia, viviam reclusos e quase nunca faziam aparições públicas. Não sabia se, além do próprio Raspútin, havia algum outro herdeiro vivendo ali, pois não tinha nenhuma informação, mas lhe parecia claro que poucas pessoas realmente moravam no palacete que praticamente os engolia enquanto seus passos ecoavam pelo chão de mármore claríssimo.
O homem alto encontrava-se de costas a eles quando adentraram o novo e espaçoso cômodo, que provavelmente serviria para receber visitas. Tratava-se de uma grande sala, com diversos sofás e tapetes espalhados por seu espaço, cortinas elegantes bloqueando as janelas e pequenas mesas decoradas com objetos de aparência cara e antiga. Ainda assim, a figura que se voltara a eles lentamente retratava toda aquela tradição de forma perfeita, inalcançável e intimidadora. Raspútin Volkov tinha cabelos muito brancos que chegavam lisos aos ombros, barbas acinzentadas, que destacavam o queixo proeminente, um nariz fino, aquilino demais pelo tempo, e olhos escuros e penetrantes.
Trajava vestes bruxas tradicionais em tons de marrom, do terroso ao mais profundo da capa de aparência pesada, bordada com finos fios de ouro que se destacavam perante a iluminação do ambiente e combinavam com os anéis que ele usava nos dedos, assim como a corrente no pescoço que carregava um pingente com um símbolo que a lembrava algo, mas que imediatamente não associara a nada tão comum. Apesar de tudo, o senhor sustentava feições serenas enquanto os encarava detidamente, quase como se um mínimo sorriso insistisse em repuxar-se sozinho no canto de seus lábios muito finos devido a um pensamento qualquer que houvesse passado por sua mente.
— Os Malfoy. – Seu andar e seus movimentos eram lentos devido a idade avançada. – Ouvi muito a respeito de vocês. Há tempo demais, receio. Mas, pelo que ouvi, nunca esperei que alguém da linhagem de... Abraxas, não? ... Viesse morar em nossa distante terra.
— Os negócios da família me trouxeram à Rússia. Poções. – Pronunciou-se Draco, apertando levemente e mão enrugada e comprida do senhor. – Esta é Hermione Granger.
— Tenho a impressão de que nos conhecemos há bastante tempo, Srta. Granger. – O homem relanceou a ela lentamente, visto que havia trocado algumas cartas antes que pudessem realmente ir até o local de reclusão do homem, que se voltou ao bebê em seus braços. – Você deve ser Scorpius.
— Sim, como Hermione contou por carta, a mãe encontra-se com a maldição que sempre aterrorizou sua família. – Disse Draco. – Parece ser algo de que nenhum deles pode fugir.
— Não maldição. – Corrigiu Raspútin. – Prefiro que trate como uma condição. Já estudei o suficiente para entender que não é resultado de qualquer influência externa. A doença do sangue... Nasce conosco.
— O senhor...?
— Não, não. – Ele abanou lentamente com a mão e pegou Scorpius de seu colo, quase como se tivesse dificuldade em lidar com seu peso. – Mas conheci muitos bruxos que tiveram de lidar com ela. Como a senhorita, também cheguei à conclusão da variação de leucemia, a doença dos trouxas. Por algum motivo, entretanto, provavelmente devido à magia que corre por nosso corpo, nos protegendo, nos tornando diferentes e mais fortes... A doença contornou essa barreira. Somos humanos, no final de tudo, não?
— Então... – Draco pensou rapidamente enquanto Raspútin andava para longe com Scorpius. – Ainda que nosso sangue mágico nos torne mais fortes, ele também dá a condição para que a doença nos acometa de forma mais grave, exatamente por que...
— Nosso corpo se defende com maior eficácia do que os humanos normais, sim. – Complementou Raspútin. – O cerne da questão é este, mas nem tudo se resume a fórmulas exatas na vida. Existem muitas variáveis...
— O senhor quer dizer... Não é porque Astoria, a mãe de Scorpius, desenvolveu a doença que ele vá necessariamente desenvolver, é isso? – Perguntou Hermione temerosamente ao vê-lo abrir o armário e de lá tirar uma poção que desconhecia.
— A senhorita contou na carta que nem todas as gerações da família Greengrass manifestaram qualquer traço da doença, até Astoria... – Ele despejou a poção na boca de Scorpius e viu Draco retesar-se, temendo que algo pudesse acontecer a seu filho, mas inerte devido à calma do homem que somente olhava Scorpius como se encarasse um espécime muito diferente de criatura, uma figura potencial para estudo, ela sabia. Pesquisadores sempre tiveram a péssima mania de encarar seus objetos de estudo sem qualquer traço de humanidade. – Como bruxos que nascem filhos de pais completamente trouxas.
— Sim.
— Eu estudei a árvore genealógica da família Greengrass. – Comentou ele, os olhos ainda em Scorpius, entretido. – Não há muito aqui a respeito de famílias bruxas inglesas, somos mais próximos da Europa Oriental, como bem sabem. Pelo que pude ver, nunca estiveram muito interessados em tentar solucionar o problema...
— Não há solução. – Retrucou Draco, firmemente, pois ele estava simplesmente cansado de toda a situação envolvendo Astoria. – Nenhuma cura que possa reverter o quadro de Astoria ou impedir que meu filho fique da forma... Definhe do jeito que a mãe está definhando.
— Eu não posso dar a resposta que deseja, Sr. Malfoy. – Declarou Raspútin, ainda com os olhos no garotinho em seus braços. – Sei que a Srta. Granger o trouxe aqui para tentar lhe dar alguma tranquilidade a respeito da saúde de seu filho... Mas Scorpius parece um bebê saudável e deve crescer assim. Geralmente, os sintomas aparecem cedo em bruxos, justamente por virem com mais força... A natureza não nos concedeu nenhuma graça nesse ponto.
— Então... Nossa vinda aqui serviu apenas para sanar sua curiosidade a respeito de Scorpius e de minha família? – Questionou Malfoy, frustradamente, embora o senhor somente houvesse repuxado os lábios em tranquilidade.
— A poção que Scorpius tomou foi criada com a ajuda de um Mestre. Ela detecta pequenos pontos onde a doença do sangue já existe e se instalou no corpo... – Explicou o homem, ajeitando a capa ao redor do corpo após entregar o bebê a Hermione. – Ou seja, Scorpius é saudável. Mas não irei lhe dizer, senhor Malfoy, a probabilidade em estatística de que Scorpius pode manifestar a maldição.
— É o que vim para saber.
— Eu seria um charlatão se o dissesse. – Declarou Raspútin, como que dando o assunto por encerrado. – Não por estar mentindo, mas por colocá-lo em situação de agonia. Nenhum pai ou mãe vive com tranquilidade tendo isso em mente.
— Mas...
— Draco. – Hermione apertou o braço do loiro, impedindo-o de levar o senhor até as últimas consequências. Possivelmente, entendia porque o homem optara pela solidão de um refúgio só dele e do luxo exacerbado. – Vamos embora.
O homem pareceu contrariado, mas não discutiu, colocando Scorpius em seu colo após o menino lhe chamar em sua língua infantil e estender os braços em sua direção. Despediram-se do Sr. Volkov, ambos a contragosto, pois a intenção da visita era determinar se Scorpius poderia desenvolver a doença ou não, mas o homem se recusara a dar uma resposta definitiva. Eles já tinham uma resposta relativa, incompleta, e nela Scorpius, por ser filho de alguém que diretamente desenvolvera a doença, tinha grandes chances de seguir pelo mesmo caminho, embora ainda não houvesse nada em seu corpo que mostrasse isso, como detectara a poção.
— Sr. Malfoy. – Chamou Raspútin quando já se encontravam à porta ao lado da governanta. – Ele se parece muito com você.
Nenhum dos dois soube exatamente o que aquilo quis dizer, mas ambos caminharam em direção à saída cheios de pensamentos que os dirigiam à tantas direções que não poderiam mensurar. A dúvida os amedrontava, tinha certeza que Draco estava paralisado em tensão enquanto esperavam o barco e ele apertava o menino contra si, embora pudesse justificar o ato devido à brisa fria trazida pela copa alta das árvores centenárias que os rodeava.
— Ele é saudável, Draco. – Arranjou inutilmente os cabelos loiros e lisos do menino. – Não se preocupe, ele é.
— Eu não sei o que faria se...
Ele não completou a frase, obviamente contrariado pela perspectiva, suspirando provavelmente pela própria demonstração de fraqueza. Draco já havia passado por inúmeras experiências como pai, mas talvez nenhuma tão marcante e tão preocupante quanto aquela. Talvez esse fosse exatamente o sentimento de ser pai ou mãe: o medo, o amor, a proteção, a frustração por não poder fazer mais, toda essa profusão de sensações ao mesmo tempo. Então, ao contrário do que se passava em seu coração, sorriu pacificamente, apoiando a testa em seu ombro em um suspiro, exatamente como ele gostava de fazer.
— Eu sei.
I was hopeless and broken
You opened the door for me
Yeah, I was hiding and you let the light in
Parte V
Úlitsa Kosygina
Sentada à mesa do espaçoso escritório de Draco, Hermione rabiscava rapidamente mais uma tradução. Havia descoberto seu talento, com toda certeza, e sempre se distraía empenhando-se naquela tarefa. Logo que Hermione se mudara, ele tentara fazer com que fosse trabalhar em sua empresa, para que pudessem conversar com mais frequência, passar mais tempos juntos. No entanto, ainda que gostasse de poções, nascera para escrever, estudar, conhecer. Absorvia qualquer tipo de informação com muita facilidade e, por isso, conseguira um emprego como tradutora muito rapidamente, assim que se habilitara para tanto em Moscou. Agora, anos depois, já podia escolher as obras com as quais gostaria de trabalhar e priorizar.
Abaixo da folha que escrevia, dezenas outras já prontas e revisadas para serem entregues no dia seguinte. Detestava não cumprir prazos e aquele já havia sido prorrogado devido ao grande volume de obras que chegavam à ela. Porém, toda sua concentração caiu por terra quando a voz soou alta e a fez rasurar uma parte considerável do que já havia feito. Olhou atônita em direção à larga porta de duas folhas, onde ele lhe levantava uma sobrancelha e fechava cuidadosamente, desfazendo-se da pasta que carregava nos ombros.
— Por que não se fez notar, Malfoy? – Perguntou indignada, olhando de forma desanimadora para o papel.
— Não sabia que havia resolvido ficar aqui. – Ele tentou justificar, tirando o terno e esparramando-se no sofá próximo às grandes janelas que davam para o extenso jardim enquanto com um feitiço preparava um drink.
— Scorpius sentiu sua falta e o elfo me chamou pela lareira. Há três dias. – O olhou incisivamente, soltando a caneta e levantando-se para fazer um copo de conhaque para si. – Não faz muito tempo que Astoria se foi, Draco, não deveria se ausentar assim.
Ele não retrucou, o que a fez voltar-se para analisá-lo detidamente, encostando-se ao longo aparador de madeira sobreposto por um grande e caro quadro bruxo. Sob a iluminação quase escassa do escritório, o homem aparentava um aspecto ainda mais cansado do que inicialmente notara. Olheiras preenchiam o campo abaixo de seus olhos, os cabelos não se encontravam tão arrumado como de costume, a gravata fora de lugar e, além de tudo, lhe parecia mais magro.
Não sabia se era impressão ou somente a falta dele durante a última semana, considerou cerrando minimamente os olhos, no que ele pareceu incomodado ao tomar um gole de seu uísque. O clima havia ficado estranho, novamente, após Hermione esquivar-se de qualquer investida romântica quase um mês antes e, desde então, ele intensificara as viagens de trabalho ao Reino Unido – o modo bruxo de transporte deixava as coisas mais fáceis.
Continuavam a conversar, mas agora os diálogos mais simples de antes começavam a ser preenchidos por silêncios desconfortáveis, o que a desagradava ao extremo, pois eles não eram assim. Esse relacionamento estranho e cheio de tatos não fazia parte do que eram nem mesmo quando o que os afastava eram o ódio infantil e o preconceito de toda uma linhagem em seus ombros. Enfrentarem-se, mutuamente como costumavam fazer, tornava-se mais difícil quando tinha que encará-lo consciente de que o magoara e de que ela o estava levando a esse patamar devido aos seus receios pessoais.
— O que está acontecendo?
— Nada.
A resposta evasiva após engolir todo o uísque que tinha no copo a obrigou a levantar uma das sobrancelhas. Não conseguia desgrudar os olhos ou tomar seu próprio drinque, ele por inteiro soava errado aos seus ouvidos naquele momento. Seus olhos caíram para o líquido no copo sem gelo, revirando-o pensativamente, recusando-se a conscientemente cair naquela espiral desnecessária e esperada que, Hermione sabia, não podia mais evitar. Não conseguia mais separar a paixão da gratidão que sentia pelo homem à sua frente, não sabia se isso era bom ou ruim, não conseguia culpar-se pelo fato de estar arruinando o que construíram, ainda que não fosse romântico, por medo, pelas cicatrizes não fechadas que possuía dentro de si.
Desviou o foco para seus pés descalços, lentamente sentindo a textura do extenso tapete persa de fundo amarelo ocre, que ocupava mais de metade da luxuosa sala particular. A essa altura, ouvindo insistentemente a voz de Astoria ecoar em seus ouvidos, insinuando algo que não gostaria de saber, que não era, minimamente, de sua conta, já se sentia como uma intrusa. Aquela não era sua casa, Draco nitidamente queria descansar e Hermione não tinha intenção alguma de alimentar sua imaginação ou qualquer diálogo pedregoso, que poderiam vir a ter.
— Tenho que ir.
Colocou o copo intocado sobre a bancada e dirigiu-se à escrivaninha para buscar seu sapato e organizar os materiais de trabalho na bolsa de couro. O silêncio habitou completamente o ambiente, desapontando-a, até que chegasse ao arco da porta e ele a chamasse novamente. Embora tivesse os olhos sobre os objetos decorativos da espaçosa mesa de centro, parecia pesar as palavras que viriam.
— Eu não tinha... A intenção de complicar as coisas assim. – Draco apoiou os cotovelos sobre os joelhos, encarando o chão pensativamente. – E, da mesma forma, não queria que se sentisse obrigada a qualquer coisa por que, supostamente, tem uma dívida comigo. Você não tem. – Prendeu a respiração, receosa pelo que viria a seguir. Estaria ele a dispensando de sua promessa de reciprocidade? Finalmente, Draco a encarou, demonstrando seriedade em seus olhos de matizes azuis. – Eu gostaria, sim, de transpor essa barreira que construiu em torno de si mesma para... Se proteger de fraquezas sentimentais, evitar a necessidade de se abrir e confiar novamente, mas não irei forçá-la, sequer é meu direito, porque sei que essa não é a maneira correta de... Ter você.
Engoliu em seco, não encontrando forças o suficiente para desviar os olhos. Era a primeira vez que ele era tão sincero sobre toda a situação não terminada que vinham vivendo há anos. Eles cederam à razão, várias e várias vezes, primeiro por Astoria, então por Scorpius e, agora, Hermione optava por indeterminá-los em nome de sua sanidade. Não queria arriscar perdê-lo, caso as coisas dessem errado. Há quatro anos se acertavam à sua própria maneira, não soltavam as mãos um do outro, não agiam com menos do que reciprocidade.
Antes que pudesse calcular, contudo, já se encontrava fora do escritório, encostada à porta de madeira, que batera às suas costas de modo abrupto, em uma fuga covarde, respirando rapidamente. Depois de tudo, não poderia viver em uma realidade onde não o tivesse para segurá-la, caso tudo entre eles fosse um desastre, esse era o problema do tipo de declaração que ele acabara de fazer. Então, a voz de Astoria novamente, apertando seu coração, seus olhos, sua garganta fechada em pânico, egoísmo e dor: “ele teve uma amante enquanto não tinha nenhuma de nós”.
Não sabia quanto disso era verdade, mas incomodava e vinha à sua mente o tempo todo ao encará-lo àquela distância, tanto física quanto mentalmente. Draco poderia ter estado com alguém no Reino Unido durante aqueles dias, era realista o suficiente para tanto. Na Rússia, Astoria não o tinha, Hermione o afastava e, mesmo depois da morte da primeira, inconscientemente continuava ferindo-o em nome da cicatriz que se fechava aos poucos em seu peito. Nunca realizara que poderia ser egoísta assim, mas grifinórios sempre tiveram um fraco para ser o centro de seus próprios mundos.
Forçou-se a respirar fundo e deixou cair os sapatos que apertava fortemente em suas mãos. Encarou o corredor, concentrando-se no próprio controle novamente. Há muito não se sentia tão fora de si mesma e do que tanto lutou para reconstruir após Greyback. Ela não era essa Hermione, que se escondia como uma garotinha quando as coisas ficavam difíceis, embora às vezes sua mente a levasse a tanto, porque não conseguia manter-se em alerta o tempo todo. Não fugia, não gostava de fugir ou desempenhar o papel da garota que repetidamente precisava ser trazida de volta à realidade, às suas vontades, a quem costumava ser.
Por isso, após acalmar seu coração, levou a mão à maçaneta e a virou, lentamente. Parecia testar os passos, mas encontrava-se mais decidida do que em qualquer outro momento onde a mesmíssima situação os envolvia e os levava aquele mar desconhecido de sensações. Draco ainda estava no mesmo lugar, o copo vazio em suas mãos e o semblante franzido, como se descrente ao vê-la de volta, de forma tão receosa. Hermione molhou os lábios e afastou-se da porta.
— Você estava com alguém? – Viu o semblante confuso, mas precisava saber, precisava expulsar a voz, o tom e as palavras de Astoria de sua mente. – Estava com alguém e, por isso, passou todos esses dias fora?
— No atual cenário, você é, provavelmente, a última a merecer saber sobre isso. – Ele meneou a cabeça, realmente incrédulo, e soltou um sorriso amargo ao levantar-se e servir-se mais um drinque. Continuou estacada à entrada, observando-o lentamente voltar-se a ela, parecendo pensar sobre. Hermione desviou o olhar, o tom seco atingindo-a de forma certeira. – Se continuar aqui, hoje, vamos nos ofender de verdade.
Ele, provavelmente, tinha toda a razão, mas ainda assim não conseguia olhar o cenário que deixava para trás e fazer com que suas pernas se movessem. Notava o semblante magoado, além da máscara arrogantemente orgulhosa que não poderia deixar cair, pelo qual não gostaria de ser culpada. Ele havia pensado muito sobre eles, todo o prognóstico complicado que a envolvia, principalmente, Draco não dava um passo sem calculá-lo muito bem antes.
Abrira aquela porta ciente disso, mas também extremamente sensível à incerteza que pairava sobre suas cabeças naquele momento, devido às suas inseguranças pessoais, pois ela o freava, racionalizava e afastava – desde o início de tudo aquilo. Ela não sabia lidar com eles sendo um e a maior prova de que Draco era capaz estava no fato de mandá-la embora, afim de que evitassem dizer coisas das quais se arrependeriam, pois, apesar de tudo, conheciam exatamente como machucar um ao outro, como abrir a ferida que doía mais e que faria mais estragos.
— Não sei como cruzar essa linha. Não sei como fazer isso sem alimentar o receio de que, um dia, por algum motivo, você não esteja mais aqui por mim. – Respirou fundo, os olhos molhados e a voz embargada. – Eu sou egoísta assim.
— Hermione... – Draco iniciou, mas levantou uma mão, impedindo-o antes que conseguisse dizer tudo que vinha considerado sobre eles. Pela primeira vez, a palavra se concretizava no sentido não platônico e, por isso, ela precisava terminar.
— É mais simples quando somos apenas... Duas pessoas se apoiando reciprocamente devido a uma coincidência. – Ela deu de ombros, escondendo as mãos às costas, encostando-se à porta fechada, sem coragem suficiente para encará-lo. – Quando... Quando você diz coisas assim e se expressa de um jeito que, possivelmente, nos levará a outro patamar, eu... Não sei como reagir. Por que... É complicado imaginar que tudo pode desmoronar ou que nós dois não saibamos ser... Algo mais. Olhe onde estamos sem que realmente... Depois de todo esse tempo, não consigo e não quero imaginar minha vida sem você. E, ainda assim, não consigo deixar de pensar na sua vida amorosa.
Sentia a tensão percorrer todos os seus poros, suspendendo sua respiração, apertando seu peito, alimentada pelo silêncio que ambos mantinham sem se encarar. Ao terminar, sentiu que havia explicado seu ponto, tudo que se passara por ela durante aquele mês em que mal se falaram, pela mágoa dele, pelo egoísmo dela. Entretanto, ao ouvir o pequeno ruído do copo sendo colocado sobre a bancada, levantou os olhos para vê-lo aproximar-se, de forma hesitante, pois tinha um histórico muito consistente em afastá-lo.
— Nós vamos descobrir como ser algo mais, sem que precisemos deixar de ser qualquer outra coisa. Tudo bem? – Afirmou Draco, levando os dedos à sua mandíbula, os olhos acinzentados percorrendo todo seu rosto. – Não tenho intenção alguma de me afastar, Granger.
Ele era intimidante em postura, altura e sobrenome, embora conhecesse além. Somente sua voz em tom baixo, soando próxima, a fazia tremer por dentro. Suspeitava que a confiança que ouvira fazia parte do pacote, pois, por si própria, era apenas insegurança imatura. O perfume, tão conhecido e tão próximo, a fez retirar as mãos em punho das costas e levá-las ao peito, lentamente concordando, aproximando-se.
Não era a primeira vez que colava seu corpo ao dele, que explorava a pele quente do pescoço alvo, que selava seus lábios. No entanto, parecia ser a primeira em que estava realmente consciente do próximo passo, do que queria, do que não queria abrir mão. Desde Greyback, não se sentia tão inquieta, embora não fosse correto ou sequer justo comparar o que vinha sentindo a respeito da incerteza que pairava sobre Draco e ela com toda a onda de sentimentos questionáveis trazidos pelo maldito lobisomem. De qualquer forma, quatro anos depois de tudo, não queria que tudo sobre o homem à sua frente se desfizesse em lembranças incertas e sensações amargas. Ele não era amargor, pelo contrário.
And now I see
That you do for the wounded
What they couldn't seem to
You set them free
Like a butterfly kissing a child
With an eye for the minor key
Stratford-upon-Avon
Meses Antes
A tempestade rugia do lado de fora como que em reflexo às últimas horas. Visitar Greyback, antes, lhe parecera essencial para seguir em frente. No entanto, todo o desgaste mental e, consequentemente, físico que perpassava por seu corpo após vê-lo, completamente alheio ao que fizera a ela era imensurável.
Fechou os olhos, sentindo a água do chuveiro quente molhá-la por completo, anestesiando seu corpo. Em outro momento se sentiria completamente relaxada, mas não naquele dia. Achava que estaria em vantagem, que tê-lo preso, ainda que não pelo que lhe fizera, era algo que poderia jogar-lhe na cara, mas o lobisomem tinha mais e melhores formas de machucá-la. Essa era sua natureza, afinal de contas.
Ele era indiferente e irônico sobre o que fizera a ela. Nenhum pingo de vergonha ou arrependimento alcançara aqueles olhos de animal enquanto zombava dela e de sua fraqueza momentânea. Fenrir Greyback era somente cínico sobre a conquista forçada que tivera sobre Hermione Granger. Ele era infinitamente vitorioso, ainda que ninguém além deles soubesse o que realmente acontecera naquele maldito e fétido beco.
Não importava realmente que outros tivessem consciência, percebera tarde demais, o lobo parecia conhecê-la suficientemente bem para que a vitória, externada pelo domínio forçado de seu corpo, pairasse sobre ela como um fantasma, sempre presente no canto escuro do cômodo, desconfortável, influenciando suas ações e reações sobre cada mínima coisa. Ele parecia saber o poder que tinha sobre ela, mesmo à distância, e isso a atormentava, pois expunha ainda mais a fraqueza que, primeiramente, a levara a ser subjugada.
Sentiu a ânsia de vomitar percorrer seu corpo e chegar à sua garganta com força, obrigando-a a levantar-se rapidamente e correr até o vaso. Debruçou-se quase sem forças e colocou todo o almoço para fora, não impedindo que as lágrimas voltassem a seus olhos com a força já conhecida. Greyback a tornava aquela mulher fraca e sem controle de suas ações. Indiretamente, ele era o dono dessas ações e quase podia ouvir a maldita risada ecoar pelo ambiente.
Esforçou-se para limpar qualquer vestígio do vômito ao voltar para o banho, esfregando-se com força, limpando as unhas que fincara na pele suja e grossa do lobisomem, passando camadas e camadas de sabão, inconsciente e chorosamente tentando livrar-se do cheiro característico que ele mencionara. Hermione não queria o cheiro que a ligava a ele, não queria que o homem/lobo que a estuprara a reconhecesse somente pelo cheiro, um aspecto tão íntimo, tão invasivo. Não queria mais ser invadida – nem dessa forma, nem de qualquer outra.
Percebeu não mais esfregar-se, não soube quanto tempo depois, somente tremendo embaixo d’água, não pelo frio. O choro fizera com que sua garganta doesse e não tinha mais forças para sustentar-se. Soltou no chão a bucha que apertava com todas as forças e tentou respirar fundo. Seu corpo doía como o inferno, mas a sensação de impotência, de não poder se defender do lobisomem que já estava preso, mas o qual ainda lhe causava tantas feridas, parecia esmagar sua mente.
— Hermione.
A voz de Draco soou do outro lado e as batidas fortes na porta fizeram com que estremecesse. Fechou os olhos, apoiando-se na parede e respirou fundo, esperando que ele desistisse e a deixasse sozinha. Não queria que visse nela o resultado de sua visita, pois repetira diversas vezes que assim seria, caso ela resolvesse encontrar o homem que, primeiramente, a tornara aquela imensidão de humilhações.
Levou as mãos ao rosto, livrando-o superficialmente da água, e xingou-se mentalmente ao ouvi-lo chamando-a novamente. Ele tinha certeza sobre seu estado. Não havia chegado à casa de campo muito melhor após aparatarem do ponto de apoio no rochedo do Mar do Norte. Então, forçou-se a enxugar-se e enrolar-se num roupão felpudo antes de abrir a porta e passar por ele, sem coragem de encará-lo, encaminhando-se diretamente à cama.
Sob o cobertor felpudo, encarava a janela fechada constantemente. Não sentia mais o cheiro de seu próprio perfume, mas do sabão genérico que havia naquele banheiro. Era o mesmo quarto em que ficara após ser encontrada por Draco, provavelmente o loiro mandara reabastecê-lo após convencê-la a acompanhá-lo naqueles que seriam os últimos dias de Astoria. Não se importava, pois, no momento, só queria não possuir o cheiro que a ligava ao lobisomem.
Percebeu que Draco sentou-se ao sentir o colchão abaixar do outro lado. Provavelmente alimentava aquele olhar condescendente que dizia “eu avisei que seria assim” e “você deveria ter me ouvido, como sempre”. Dessa vez, não tinha cabeça para confrontá-lo, sequer queria, pensou ao senti-lo ajeitar seu cabelo molhado e despenteado atrás da orelha. Nunca pensara que os dedos dele pudessem ser tão suaves, fechou os olhos quando percebeu que ele estendera o carinho por muitos minutos, percorrendo-os pelo pescoço, nuca e ombros, onde podia alcançar, tentando acalmá-la.
— Eu vou ficar bem. – Murmurou, ouvindo a voz rouca e estranha aos ouvidos que produzia.
— Eu sei.
Então, o sentiu lentamente passar os braços por sua cintura, sobre o edredom e sobre o roupão, apoiando a cabeça na sua. Sentiu os olhos lacrimejarem pelo abraço que conhecia todos os seus limites naquele momento, grata por ele não desistir, mesmo consciente de que ela estava errada e que só abriria feridas em si mesma com aquela ida a Azkaban. Por isso, acomodou-se mais contra o corpo dele, distante em pele, mas presente em todo o resto, satisfeita pelo perfume esperado que invadia todo o espaço ao redor, expulsando de sua mente as palavras de Greyback sobre seu próprio cheiro.
You found me dressed in black
Hiding way up at the back
Life had broken my heart into pieces
You took my hand in yours
You started breaking down my walls
And you covered my heart in kisses
Parte VI
Levou as mãos aos fios, sentindo-os lentamente entre seus dedos, fechando os olhos quando a respiração quente alcançou seu pescoço, pouco depois da boca molhada, cuidadosa, analítica percorrer a extensão de pele nua de seu colo. Seus corpos completamente colados não ajudavam a deixá-la menos consciente sobre isso, embora realmente não quisesse enquanto o único perfume e o único peso que tinha sobre seu corpo era o dele.
Subiu as pernas sem pressa, sua saia seguindo o movimento em direção à cintura, sincronizando suas intimidades e as vontades. Percebeu a boca mais urgente, marcando-a em um ponto próximo à clavícula, que a fez engolir em seco, mas sorrir, assim que ele a pressionou contra o colchão e buscou seus lábios com lascívia. A língua de ambos em sincronismo explorando o território conhecido que gostavam fez que com que estremecesse, seus dedos puxando a camisa social que ele ainda mantinha dentro da calça e abrindo os botões.
Ansiosa, praticamente sentou-se na cama macia, ajudando-o a desfazer-se da peça e a abrir o cinto tão negro quanto a calça jeans trouxa que ele, surpreendentemente, passara a usar e que sempre a excitava. Então, quando finalmente terminara de abrir o zíper, ele levou as mãos às suas, levando-a a encará-lo com uma sobrancelha levantada. Draco mantinha feições leves e olhos maliciosos, como se estivesse se deliciando com uma piada que só ele poderia entender. Era de seu feitio tentar manter seus pensamentos para si, tudo que podia fazer após ceder tudo a ela.
— O que foi?
— Gosto de vê-la assim.
Mesmo com as feições calmas, ele tinha os olhos escuros e a voz grave de quem apenas segundos antes estimulava-os a chegarem naquele ponto que sabiam não ter mais volta. Encarou a si mesma, vestida somente em uma saia formal com diversos botões laterais, meia calça e sutiã negro, as pernas abertas para ele sem qualquer pudor, a respiração incontida.
— Ansiosa por você? – Seus olhos se encontraram novamente e não pôde deixar de abrir o pequeno sorriso malicioso, que vinha adquirindo. Os lábios dele mordiscaram os seus e deram continuidade ao beijo rápido, sem se afastar.
— Este é um dos fatores.
Sabia que Draco se referia àquela facilidade de proceder entre eles, por isso meramente sorriu, puxando-o para um novo beijo e voltando a se deitar. Não era a primeira vez desde que tudo acontecera, mas nunca fora tão simples se sentir desinibida daquela forma. Tudo nele era diferente do que Greyback fora naquela noite, desde os toques, às sensações e ao cheiro com o qual nunca se acostumava.
Ele não a lembrava tempos escuros, embora Hermione, vez em quando, precisasse lembrar a si mesma de que não estava neles. Draco sempre sabia e, nesses momentos, que inevitavelmente vinham sem que pudesse prever, ele era calmo e compreensivo, pois era o único capaz de lhe mostrar o caminho de volta à sanidade, aquele que sabia do que precisava e como, quais movimentos fazer, quando avançar, quando recuar.
No início, quando ainda tentavam decifrar como caminhar pela espiral de sentimentos confusos em que se encontravam, eles eram puro teste. Causa e conseqüência, de acordo com suas reações. Ele os guiava, de acordo com o modo a roda girava em determinado dia. E continuava a girar, principalmente, porque não queria mais ser a pessoa que perdia dia-a-dia a batalha para Fenrir Greyback. Acima de tudo, Hermione não gostava de perder.
— Também gosto de estar assim. – Murmurou ao senti-lo calmamente desfazer os botões que prendiam sua saia na lateral de sua perna esquerda, não deixando de encará-la nem mesmo quando o tecido soltou-se completamente de seu corpo, jogando-a ao chão sem cuidado. Era um empecilho.
— O outro fator é que Scorpius não me deixa tê-la assim com a frequência que gostaria. – Hermione riu, percebendo o garoto mimado que vinha no pacote de um Draco já adulto, o qual insistia para que ficasse “uma só noite” e fazia questão de dormir completamente entrelaçado a ela, mesmo que no outro dia estivessem cada um ao seu lado, à sua própria maneira estranha de dormir. – Eu falo sério, Granger.
Segurou o rosto dele, a intimidade praticamente vibrando na proximidade de seus lábios e na estabilidade do olhar acinzentado, o suspiro alcançando-a antes que pudesse conter. Sentia-se grata por tê-lo, naquele momento e em todos os outros, pois por algum tempo não sabia como seguir em frente, as lembranças e a culpa tomando conta de tudo que poderia ser. Agora, não se via mais a vítima do asco e da crueldade gratuita do lobisomem. Ele a avisara de sua queda e a segurara antes que pudesse sucumbir a ela.
— Eu amo você.
O viu fechar os olhos e selar seus lábios sem pressa, uma onda de calafrios a percorrendo no momento em que suas mãos se entrelaçaram acima de suas cabeças. Estava rendida há muito, da maneira certa, com a pessoa certa, seu cérebro adentrando a paradoxal imersão em que sempre a deixava apenas com a boca em seus seios, então em sua barriga e mais embaixo, após tirar a meia-calça sem pressa. Sua respiração oscilou e a garganta se fechou enquanto a língua trabalhava pacientemente.
— Case-se comigo.
A voz rouca faria com que se sentasse alarmada, se ele não estivesse acima de seu corpo, habitando todos os seus poros suados e causando aquela sensação entorpecente, que a deixava egoisticamente imersa em si mesma. Notou que, provavelmente, já a observava há algum tempo, tão corado e ofegante quanto ela, os cabelos desalinhados da forma como mais gostava de admirar, pois a remetia a todas as manhãs de fim de semana em que simplesmente se recusava a sair da cama até que Scorpius acordasse e os obrigasse.
Ainda pasma, murmurou um aceite quase inaudível, embora seus olhos gritassem certamente brilhantes na direção dos dele. Então, como se quisesse tirá-la da espécie de choque em que estava, as posições mudaram e encontrava-se sentada sobre ele, os joelhos ao redor de sua cintura como na primeira vez, quando Hermione precisava retomar sua confiança em si mesma e nele para percorrer aquele território.
Percebeu suas unhas cravando os ombros masculinos quando os dedos dele percorrerem seu pescoço com lentidão, descendo pelo colo, até o vale de seus seios, a magia a magia fluindo sem varinha e desnudando-a do sutiã negro que ainda usava. O sexo não era sempre tão profundo, cheio de olhares e toques mais significantes, mas não conseguia sair da bolha quente que os prendia naquela excitação silenciosa.
Eles faziam aquilo funcionar da melhor forma possível. Ao gemer sentindo os lábios dele percorrendo toda extensão de pele que pudesse alcançar, respirando fundo o aroma que emanava de sua nuca, seus cabelos puxados com o cuidado que ela precisava. Ao ser abraçada quando sonhava com a violência de Greyback em comparação com os toques que se deliciava sentindo momentos antes, fazendo o incômodo e a culpa, retornados às vezes sem pedido ou aviso, se afastarem novamente.
Seus olhos se fecharam novamente, sentindo-o sob si, contra si e em si, os lábios juntos sem contenção. Nunca se acreditara pronta para aquele tipo de sexo depois de Greyback, mas lá estava ela, honestamente desarmada ao homem que a erguera para a vida novamente. Não esperava que pudessem, mas funcionavam e há tempo suficiente para não haver hesitação ali, depois de quebradas as barreiras que antes continham tudo que poderiam ser.
I thought life passed me by
Missed my tears, ignored my cries
Ministério da Magia Britânico
Tempos antes
— Srta. Granger. – Uma voz educada informou após bater na porta. – Está tudo pronto, podemos começar quando quiser.
Teve de limpar as mãos suadas na saia do vestido formal enquanto engolia em seco, o incômodo a alcançando em todos os poros. Ajeitou os cachos perfeitamente caídos por suas costas novamente, a roupa em seu corpo, as folhas amareladas e timbradas que continham tudo que queria dizer... E parou. Não ia fraquejar, precisava colocar a determinação à frente, lembrava a si mesma a todo o instante.
— Hermione. – Não o ouviu entrar, de costas para a porta como estava, e não se virou quando sentiu as mãos em seus braços frios. Draco aproximou-se calmamente, beijou seus cabelos e aspirou seu perfume, como gostava de fazer comumente. Fechou os olhos, grata por ele estar ali. Ainda que não concordasse de todo, ele respeitava sua decisão, sabia que precisava disso. – Vai ficar tudo bem.
Sorriu minimamente, voltando-se ao homem pouco mais alto e ajeitando distraidamente a lapela do costumeiro terno escuro que usava. Os olhos dele mostravam-se mais acinzentados do que o normal e, ainda que não fosse tão cristalina, podia ver aquele traço de preocupação que ele se recusava a externar. Selou seus lábios levemente e alcançou as mãos dele, entrelaçando seus dedos. Eles eram uma miríade de gestos costumeiros e particulares.
— Obrigada. – Murmurou.
— Vou estar na primeira fileira.
Ele informou, surpreendendo-a. Anos antes decidiram que não fariam qualquer anúncio sobre o relacionamento deles na imprensa, apesar de não escondê-lo. Não queriam alvoroço ou especulações em torno do que era só deles e não deviam qualquer tipo de explicação a ninguém. O fato de morarem em Moscou e Hermione não ir ao Reino Unido com frequência tornara tudo enormemente mais fácil. Draco estar ali chamaria a atenção para eles, mas isso não o importava nem minimamente, dizia a decisão dele, pois o que faria estava acima das prioridades que haviam elencado juntos.
— Eu subirei em um minuto.
— Faça no seu tempo.
O observou fechar a porta calmamente após beijar sua testa. Respirou fundo, mordeu a parta interna das bochechas e encarou a pasta fechada novamente. O símbolo do Ministério reluzia e não se importou de que estivessem tirando proveito para renovar sua imagem perante a comunidade bruxa. Aquilo era sobre ela e muitas outras. Com esse pensamento, agarrou as folhas, ajeitou a postura e se dirigiu à saída, aparentando calma enquanto seu coração retumbava contra seu peito.
Flashes e perguntas a inundaram assim que esteve às vistas dos repórteres bruxos, arranjados no átrio do Ministério da Magia, a fim de tornar o anúncio relevante, como Harry insistira que deveria e arranjara. Concentrou-se em seus passos e subiu os quatro degraus da plataforma de mármore escuro colocada ali, a qual contrastava gritantemente com suas roupas brancas. Ajeitou a pasta no púlpito disposto ao centro, apoiou as mãos em suas laterais, descontando todo seu nervosismo ali até que os nós de seus dedos ficassem brancos, e levantou os olhos.
As luzes a cegavam e podia sentir a expectativa irradiar pelas pessoas, que logo fizeram silêncio ao perceber que não responderia a qualquer pergunta. Sentia que todo o Ministério da Magia havia parado para ouvi-la e era tudo de que precisava. Se eles estavam interessados, o resto do mundo bruxo também estaria. Seus olhos encontraram Harry, Ron e Ginny, à postos próximos à plataforma, expressões ansiosas e preocupadas estampando-os, e logo depois Draco, sentado onde dissera que estaria. Ele não parecia ansioso, somente preocupado, ao levantar uma sobrancelha quase que imperceptivelmente. Era hora de começar:
Anos atrás, como vocês devem saber, eu ocupava uma posição no Ministério da Magia Britânico. Como muitas de vocês aqui hoje, eu trabalhava das nove as seis, oficialmente, mas sempre fazia horas extras. Não era um problema, eu trabalhava com o que sempre sonhei, desde Hogwarts, e não me importava de acumular trabalho para que as coisas que almejava acontecessem. Até que se tornou um.
Uma noite, quando voltava para casa, eu fui atacada. Houve um embate e o cenário mudou: eu perdi a varinha, ele enxergou o momento perfeito para subjugar-me da pior maneira que pode acontecer a uma mulher. Em um beco escuro e fétido de Londres, ele dominou e me estuprou. Eu nunca soube seus motivos, mas sempre divaguei sobre.
Inicialmente, achei que se tratava se uma vingança pelo meu posicionamento na Guerra e pelo lado em que estava ter se saído perdedor. Então, cheguei à conclusão, eu mesma, após muito lidar com as lembranças sobre aquela noite, de que essa não era a única e exclusiva razão para que ele me estuprasse, pois... Sempre buscamos as razões, independente de elas existirem ou não.
Eu, finalmente, realizei que, um Comensal da Morte remanescente no pós-guerra e foragido à época, não faria isso a um bruxo, outro homem de quem estivesse buscando se vingar. Ele não feriria a masculinidade de um igual, ainda que fosse um homem incomum e mais forte. Ele não zombaria e riria desse homem, como zombou e riu de mim, como bruxa e como mulher, enquanto o pedia para parar. Fenrir Greyback não buscaria esse tipo de vingança de um homem, que estivesse subjugado a ele, mas o atacaria e destroçaria sua jugular. Não. Ainda que este homem se encontrasse no mesmo estado de vulnerabilidade em que eu estava naquela noite, ele não o estupraria. Ele o fez comigo, porque era uma mulher, naquela situação mais frágil.
Por muito tempo, eu atribuí aquela noite, o estupro, ao instinto do lobisomem. Eu imaginei que Greyback tivesse feito àquilo a mim devido aos seus genes incomuns, ao descontrole por estar perto de uma “fêmea”. Apesar de odiá-lo, como nunca odiei ninguém em toda a minha vida, eu não atribuía o que ele me fez ao homem. Talvez minha visão a respeito daquela noite tenha ficado deturpada, talvez o estresse pós-traumático tivesse cuidado para que eu tentasse, inconscientemente, justificar o que aconteceu ao fato dele ser um homem incomum e eu ser a mulher à disposição no momento, como se ser uma fosse andar com um selo sobre a cabeça que diz “irresistível demais para que eu me controle”.
No entanto, todos esse anos depois, percebo que não é preciso ser um homem incomum para fazer o que ele fez a mim. Não é preciso ter genes de lobisomem ou estar do outro lado de uma Guerra. Basta ser homem, basta haver uma mulher vulnerável, basta a perpetuação do suposto direito a reclamar nossos corpos, independente ou não de consentimento, e a vontade de provar-se mais forte e viril. Estes elementos nos levam a episódios como o que me aconteceu. Levam uma mulher ao silêncio, por anos e anos remoendo os motivos de um homem ter feito o que fez a ela, afinal... Nos é imputada a provocação, devemos ter feito algo de muito sério para que nos estuprassem.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Mas eu lhes digo, senhoras, vocês não fizeram nada.
Vocês não provocaram e não justificaram o fato de alguém ter se aproveitado de suas fragilidades para invadir seus corpos e suas almas. Nada do que tenham feito, pode levar um homem a estuprá-las. E eu... Eu demorei tempo demais pensando sobre o que fiz. Passei anos me culpando pelo que aconteceu, me martirizando por sair tarde do trabalho, estar distraída, cansada, buscando um motivo para Greyback, me sentindo suja ao encarar meu próprio corpo. Eu alimentei o asco sobre mim, devido a algo que sequer tinha culpa. Eu era a vítima. Ainda sou, aliás. Há dias em que volto a esse estado em que ele me colocou, em que me sinto a um passo do precipício de sensações ruins que vivi logo após o aconteceu. São os dias piores
Greyback, este homem ao qual nunca permiti nada, tem esse poder sobre mim e sinto que sempre terá, como se subjugasse continuamente meu corpo, pois ele assim reivindicou. Por isso, decidi vir aqui hoje. Essa não é uma minha realidade, não é um caso isolado, pelo contrário. Várias e várias mulheres passam exatamente por esse tipo de situação todos os dias. O nojo, a vergonha, a culpa. Tudo isso as leva a se calar, internalizar e lidar com isso, pois nos é ensinado que são os encargos de ser mulher. Exceto que não são e isso tem que acabar.
Não há mais espaço na sociedade para que coisas como essa continuem acontecendo e sendo negligenciadas pelas aparências, pela adequação social, pela predominância masculina supostamente normal e esperada. Eu demorei quase oito anos a ter coragem o suficiente para verbalizar algo que eu não fiz, que eu não causei, por medo ser julgada, pelo receio de ter dedos apontados para mim quando deveriam estar em direção ao verdadeiro culpado. O silêncio não é normal e não é mais aceitável, não prezem por ele para manter as aparências, pois foi exatamente dessa forma que chegamos aqui hoje.
Obrigado.
Life had broken my heart, my spirit
And then you crossed my path
Parte VII
Rio Ruza
O percebia vagamente se movimentando pelo quarto, provavelmente tentando fazer o mínimo de barulho possível. Sentiu o perfume adentrar todo o cômodo assim que a porta se fechou e sorriu instantaneamente, embora seus olhos pesados houvessem simplesmente se recusado a se abrir. Ainda era madrugada, se Draco houvesse chegado no horário em que prometera, portanto achava aceitável que estivesse completamente sonolenta.
Assim, somente se remexeu pela cama, ouviu-o ir ao banheiro e voltar, cochilando nesse meio tempo, até senti-lo acomodar-se ao seu lado. Seu corpo foi rapidamente puxado pelo dele. Sem imprimir qualquer resistência, sentiu o rosto afundado em seus cabelos e a boca percorrendo de seu pescoço à nuca calmamente, como ele sempre fazia quando passava alguns dias longes a trabalho – acostumando-os a sensação um do outro novamente após esta tanto fazer falta.
— Há algo que precisa ver. – Ela somente gemeu em protesto, sentindo-o rir levemente contra si e entrelaçar as os dedos sobre seu ventre, acomodando-se ao constatar que não levantaria de madrugada para verificar qualquer coisa que não fosse urgente. Scorpius não estava tendo pesadelos, Draco estava bem ao seu lado, o mundo não corria perigo, podia meramente aproveitar a madrugada de sono. — Bem, você está em seu estado mais normal, considerando a situação.
Hermione mergulhou em seu sono novamente, sem qualquer empecilho e ainda mais confortável do que antes, ciente de que ele estava ao seu lado e, provavelmente, não sairia, pois a manhã seguinte era domingo. Ele esperaria Scorpius e, felizmente, Scorpius costumava acordar tarde, no que Draco dizia ter puxado a ela. Enchia-se daquele inevitável sentimento materno sempre que o homem os comparava, pois amava aquela criança como se fosse sua. Não era mais um bebê e conhecia a história sobre sua mãe biológica, mas curava seus machucados, o abraçava até que ele conseguisse dormir no escuro em seu novo quarto e respondia pacientemente suas perguntas sobre magia. Ele seria um grifinório, o próprio pai havia se conformado, apesar do nome, da tradição, da expectativa, pois também era dela.
Quando acordou na manhã seguinte, sua certeza sobre Draco se dissipou assim que vira o bilhete colado no abajur ao seu lado. Ele saíra mais cedo que o esperado para supervisionar a reforma da casa para a qual se mudariam dali a algumas semanas. O loiro deixara Úlitsa Kosygina no instante em que um casamento iminente se tornara oficial e não houve motivos para deixarem sua casa próxima ao rio até o momento. Agora, precisavam de mais espaço e, a julgar pelas exigências de seu marido em relação à casa, mais luxo.
Um tanto frustrada, suspirou jogando as pernas para fora da cama e imediatamente buscando um suéter quente, o inverno iminente se mostrando lá fora em céu nublado, chão nevado e árvores completamente desfolhadas, notou ao abrir as cortinas e praticamente cerrar os olhos novamente. Pelo vidro da janela, percebeu o caos em seu cabelo e o rosto inchado, resolvendo dar um jeito nisso no banheiro. No caminho, no entanto, seus olhos pararam sobre o jornal meio amassado, próximo as roupas que Draco deixara displicentemente jogadas sobre uma das poltronas que rodeavam a escrivaninha circular de madeira.
Há muito não achava necessário ler qualquer coisa que viesse dali, embora os últimos meses houvessem se mostrado turbulentos no Reino Unido após a declaração que fizera ao povo bruxo. Tivera sua vida revirada novamente, à procura de algo comprometedor que houvesse feito em Moscou. Nada que pudesse desqualificá-la como vítima foi encontrado e isso a impelira a conceder algumas entrevistas de bom grado, para reforçar sua intenção de incentivar denúncias de abuso sexual, não somente contra Greyback. Ele não responderia pelo que fez a ela, passado tanto tempo, sem qualquer prova que não fosse sua palavra e a de Draco, mas ficaria satisfeita em ajudar outras mulheres em situações essencialmente semelhantes.
Semanas depois, a estafa física e emocional a tomara, pois não era simples lidar com fatos crus subordinados à burocracia da lei, em detrimento das experiências pessoais de cada pessoa. Draco percebera que ela precisava de uma pausa, embora negasse, pois queria manter-se de pé pelas demais naquele momento, e fora convencida a voltar de vez a Moscou, pois antes se encontrava numa ponte complicada entre as duas cidades. Meses depois, lá estava novamente o jornal que tanto abominara e para o qual se recusara a dar entrevistas. Não imaginou o motivo de Draco ter optado justamente por ele, no entanto, até abri-lo de vez.
Uma foto antiga de Greyback, acorrentado e numerado com a identificação de Azkaban, estampava a primeira página. Um retrato menor dela durante a declaração mais importante de sua vida, no canto da página, os relacionava. Nos últimos tempos, sabia que não se falava no lobisomem sem que seu nome também fosse mencionado. A manchete anunciava a morte súbita e repleta de questionamentos. Sentou-se instintivamente, as pernas bambas e a respiração trêmula, ele a levava àquele estado reivindicado mesmo estando morto.
Procurou a página referente à matéria, seus olhos percorrendo avidamente cada linha, mas evitando pairar sobre a imagem que o mostrava caído em um sua cela. Estavam tratando como assassinato, uma investigação interna fora aberta, o Ministério queria descobrir como a substância chegara até ele, considerando seus parâmetros de segurança, se havia chance de algo do tipo acontecer com outro prisioneiro, pois, apesar de tudo, precisavam garantir sua tutela e, enfim, se a morte guardava alguma relação com o que ela denunciara meses antes, afinal de contas ninguém se lembrava de Fenrir Greyback até então.
— Ei. – Virou-se para ver Draco fechar a porta atrás de si, dando-se conta que, em sua distração, sequer o ouvira abri-la. Ele percebeu o jornal em seu colo, a postura perdida e os ombros tensos. A avaliou lentamente, como sempre, e aproximou-se de forma calculada, deixando a varinha sobre a mesa ao depositar um beijo em seus cabelos fora de ordem. – O que acha disso?
Abaixou os olhos para o jornal, sua foto próxima da dele, realizando que nos últimos tempos sequer pensara sobre o assunto, ocupada com si mesma, sua família e o futuro. Colocara-se naquela posição vulnerável, ao fazer uma declaração pública sobre sua maior dor e vergonha, fora necessário, a si e a todas as outras. Se não o fizesse, quem poderia? Quem colocaria de lado todos os pontos negativos que certamente viriam? Precisara de algum tempo para estar pronta, depois de decidir que se exporia de tal forma, após revelar e aceitar que o processo de superação, de busca por si mesma, parecia nunca ter fim após um episódio como o que lhe acontecera.
Vira Draco retrair-se à ideia de se expor, de se levantar contra o que Greyback lhe fizera tantos anos antes, discordando a princípio devido ao provável caos, do qual vinha fugindo desde aquela noite, que invadiria sua vida e ameaçaria toda a paz forjada que construíra para si em Moscou. No entanto, estava cansada de esconder-se, como se fosse culpada, de lidar sozinha com o que não causara, e isso a convencera a buscar a publicidade. Queria driblar a própria consciência que se julgava covarde, encaminhar-se, sozinha, ao amortecimento da dor enfrentando-o de frente. Somente Hermione podia fazer isso por si mesma e, enquanto acontecia, poderia estender a mão a todas as outras.
— Não sei o que pensar ou... – Murmurou perdida. – Como reagir a respeito. É mesmo necessário que haja uma reação?
— Não acho que seja. – Ele respirou fundo, ajoelhando-se à sua frente, cabelos loiros para trás, terno, gravata e sobrenome, alívio em olhos cinza, embora as mãos apoiadas nas pernas da castanha estivessem tensas. – Eu trouxe somente para lhe mostrar: acabou. Você não precisará mais viver com a sombra de Greyback pairando sobre cada ato, cada pensamento, cada decisão que tomar. Acabou, sem ressalvas agora.
Queria dizer que, ainda que o homem estivesse morto, ele às vezes requeria aquele estado de subjugação em que a colocava. Não acontecia mais com tanta frequência, concentrava-se no futuro, em sua nova vida, mas, às vezes, se deixava ir àquele precipício novamente. Porém, apesar de sempre estar ali, ele talvez não pudesse entender como aquilo funcionava para ela e o modo como fazia mal a si mesma, revisitando seu passado de vergonhas, para lembrar a si mesma que era a vítima, que Greyback estava preso, que várias outras mulheres o denunciaram também.
Desde que fizera a declaração, ela ganhava e o lobisomem perdia. Agora, novamente, exceto que era o fim iminente e ela teria que buscar a si mesma sem que o triunfo viesse sobre ele, pois se fora e só deixara as lembranças com que lidava diariamente. O triunfo, dali em diante, deveria ser por si, sobre os obstáculos que impunha a si, e para si.
— Acredita que a morte de Greyback está relacionada à minha denúncia, como a matéria diz? – Deixou o jornal sobre a escrivaninha. – Que alguém pode tê-lo envenenado em uma vingança pelo que me fez? Por ter saído impune?
— Sim. – Draco não hesitou. – As pessoas ainda a idolatram, veneram seu nome e seus feitos na Guerra. Percebeu isso durante todas aquelas semanas após a declaração e acabo de vir de lá. Ninguém se importa se Greyback foi assassinado ou cometeu suicídio, ele teve o que mereceu, definitivamente.
Refletiu brevemente sobre as palavras dele. As pessoas, aparentemente, acreditavam nela e isso bastava para que a paz viesse com mais facilidade. Culpa e vergonha a afligiram durante muito tempo, mas se dispuseram a ouvi-la, apesar disso, no momento em que esteve pronta para falar. A publicidade amortecera a dor, mas o que a curava todos os dias era Hermione e todos os fatores que a levaram a decidir pela obrigação da superação. Vinha uma nova fase, com novas questões, e seu gosto não era tão amargo quanto às outras que se passaram, em uma espécie de autoconhecimento e pequena anuência ao alívio.
— Parece concreto saber disso. – Apoiou os braços sobre os ombros do marido, juntando suas testas. – Como se amanhã fosse acordar completamente curada de todas as feridas que ele me causou.
— Estarei aqui amanhã, quando você perceber que acordou exatamente como hoje. – Ele a puxou para um abraço de verdade, as mãos rodeando a cintura com o cuidado que ele passara a ter. – Um dia após o outro, Hermione, e depois as feridas não estarão mais abertas.
You quelled my fears, you made me laugh
Then you covered my heart in kisses
Ministério da Magia Britânico
Dias Antes
Tinha a sensação de que nos próximos minutos completaria doze horas ininterruptas de trabalho, embora soubesse racionalmente que se tratava apenas do fato de ter que se concentrar em trabalho interno, antes de partir para o campo, como gostava. Nunca fora o tipo cauteloso, mas aprendera com seu treinamento que era necessário para que se pudessem alcançar resultados concretos naquele tipo de tarefa.
Retirou os olhos dos pergaminhos espalhados pela grande mesa de mogno que mandara instalar assim que passara a ocupar aquela sala, pois era como gostava de se organizar, e levantou-se em uma desculpa para alongar a coluna. Já não era mais o garoto impulsivo de antes, não sabia quanto disso poderia ser bom ou ruim. Com um aceno de varinha, um copo de hidromel foi cheio e logo encarava distraidamente pela janela de vidro o movimento do Ministério da Magia, metros abaixo de onde estava, todos completamente alheios à vigia, pois era permitido que os visse, mas não o contrário.
— Senhor, suas correspondências do dia. – Informou a voz feminina após permitir a entrada.
— Obrigado, Srta. Spavin.
Respirou fundo, terminando sua bebida e tratou de verificar rapidamente todos os envelopes e respectivos remetentes, até que seus olhos recaíram naquele, pardo e liso, que não carregava nenhuma informação. Provavelmente sua secretária achara aquilo estranho, mas não questionara, coisas assim poderiam acontecer a alguém com um cargo como o seu. Embora suspeitasse do que se tratava, realizou um feitiço de detecção para ter certeza de que não era nada que pudesse feri-lo. Deveria ser cauteloso. Ao abrir, encarou com resignação o único e bem escrito parágrafo escrito.
“Tudo ocorreu como o planejado, o guarda não relatou minha visita e apaguei a memória dos outros dois que me receberam. Espero nunca mais precisarmos trabalhar em conjunto.”
Especialmente para fazer algo desse tipo novamente, considerou desgostoso antes de jogar o bilhete na lareira. Um puxar de lábios amargo o alcançou enquanto observava o pedaço de pergaminho desfazer-se completamente pelo fogo, destruindo a única prova que poderia relacioná-los.
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