Black Roses
5 Valsa das Flores
Notas iniciais
Semanas já haviam se passado desde minha chegada na casa dos Black e tudo parecia... Paradoxalmente feliz.
Quando estava do lado de dentro da casa era como antes: a mesma solidão e tristeza de anos anteriores me assombrava, mas diferente dos outros anos, isso durava pouco, apenas o necessário para eu me trocar e ir para o meu jardim secreto.
A chegada de Peter transformara o lado de dentro na enorme mansão numa enorme caixa onde eu guardava minhas angústias, sabendo que da porta composta pela escura madeira de ébano pra fora, eu não as teria mais e voltaria para buscá-las quando tivesse que entrar lá novamente.
Todos os dias eu acordava cedo, me trocava e me alimentava o mais rápido que podia e ia até o jardim, ajudar Peter.
Era uma manhã ensolarada quando Edgar inesperadamente sentou-se na mesa comigo para tomar café.
— O que faz aqui? — balbuciei com a boca cheia, mastigando mais comida do que era capaz de engolir.
Definitivamente, essa não era uma atitude normal.
Era um pacto não formalizado, mas ambos tínhamos consciência dele: eu e meu irmão, quando sentenciados a conviver na mesma casa, fazíamos o possível para não nos encontrarmos. A casa era grande o suficiente para passarmos dias sem nos vermos, e isso incluía as refeições: Edgar sempre comia mais tarde e eu já sabia a hora que ele saía da mesa para eu poder me organizar. Isso facilitara meus recentes encontros com Peter e o desconhecimento completo de meu irmão sobre eles já que Edgar buscava evitar ao máximo frequentar lugares onde eu estaria.
— Vim ver como está.
— Ok. Não funcionou. Agora a verdade.
— Vou viajar para encontrar Erick. Volto em duas semanas.
— Vou sentir saudade. — murmurei, o tom de sarcasmo evidente em minha voz.
— Não mais do que eu, minha querida. — ele respondeu, em igual ironia, o rosto impecável levemente retorcido pelo desprezo. — E, Elizabeth, esqueça os maus hábitos da selva de onde te tiramos e se alimente como uma pessoa civilizada, por favor.
Não pude evitar e dei uma risadinha, com dificuldade para engolir os grandes bolos de comida que havia enfiado na boca.
**
— Está diferente hoje. — Peter constatou, tirando os olhos da roseira que podava para me encarar, com ar de preocupação.
O serviço de ajudante de jardinagem de Peter vinha me ocupando bastante tempo, o que era bom, já que me distraía completamente. Claro que havia problemas como controlar as batidas aceleradas do meu coração quando ele se aproximava de mim, ou a respiração irregular quando me olhava nos olhos tentando explicar algo novo, mas o constrangimento com certeza valia a paz que eu sentia ao seu lado. Francamente, era um preço bem baixo, levando em conta o que eu estava recebendo em troca.
— Diferente como?
— Parece triste... Espere, esse não. — disse, colocando a mão sobre a minha para impedir que eu cortasse um galho e a guiando mais acima — Esse é melhor. Assim ela crescerá com mais força. — Mas me diga, está acontecendo alguma coisa?
Meu coração começou a disparar com aquele toque, desviei o rosto antes que ele percebesse que eu havia ficado corada e prossegui com o assunto.
— Bom, Edgar vai viajar hoje. Vai encontrar com Er... Meu pai.
— E você fica triste por não ir também?
— Não exatamente. — Respondi, refutando a sua afirmação. — Só me sinto um pouco... Confusa. Não sou muito próxima deles, mas não entendo por que nunca vou junto, em nada, quer dizer, nós dois somos filhos...
— Nunca fizeram nada juntos, então? — Peter inferiu, com a mão apoiando o queixo.- viagens, passeios, bailes... Nada relacionado a atividades em família?
Balancei a cabeça, confirmando sua teoria.
— Bom, se fosse um baile não faria diferença nenhuma. — murmurei, rindo forçosamente. — nunca fui em um nem sem eles e, de qualquer forma, não sei dançar...
Peter agora me encarava, lançando-me um olhar surpreso, completamente disperso da roseira em que trabalhava.
— Não sabe dançar?
Balancei a cabeça novamente, em resposta.
A expressão do garoto iluminou-se e um largo sorriso tomou lugar em seus lábios. O admirei, confusa com sua reação.
— Venha. As roseiras podem esperar. — Quando percebi ele já havia depositado os materiais no chão e indicava para que eu o seguisse. — Temos muito o que fazer.
Após alguns minutos, chegamos a uma área do jardim da qual eu não tinha conhecimento: um amplo gramado cercado por plantas que ultrapassavam nossa altura. As grandes roseiras assemelhavam-se a espectadoras silenciosas do espetáculo que aconteceria no centro do gramado.
— Parece um salão de festa. — Ri comigo mesma, maravilhada com o espetáculo natural, quando notei sua intenção. — Não... Você não vai...
— Te ensinar a dançar? — Ele deu um sorriso brincalhão e assentiu com a cabeça. — Me parece razoável dar algumas aulas em troca do ótimo serviço que minha ajudante tem prestado.
Quando me dei conta, sua mão já envolvera meu pulso firmemente e me trouxera para o meio do gramado, nossos corpos um de frente para o outro, bastante próximos.
— Peter.
— Sim?
— Não vai funcionar. Não tem música e eu sou um desas...
— Não precisa de música.
Logo após dizer isso, senti meu corpo sendo erguido do chão com facilidade, com Peter colocando meus pés sobre os dele. Ele manteve o braço que me erguera envolvendo minha cintura, enquanto a outra mão buscava a minha, entrelaçando delicadamente nossos dedos.
Sentir seu cheiro tão próximo, meu corpo contra o dele, seus olhos procurando os meus fizeram meu coração bater duas, três vezes mais rápido que o normal, meu peito doía pelo seu atrito com as costelas, nesse momento, desejei ardentemente que Peter fosse surdo.
— Só precisa me deixar te conduzir.
Começamos a nos mover.
Peter estava certo. Não precisava de música.
Quando me dei conta, já estávamos marcando o gramado com nossos rodopios, Peter me conduzindo elegantemente por entre as rosas, como se exibisse a elas sua parceira de dança. Não foi difícil me soltar em seus braços e deixar que ele me guiasse por completo, até o momento quase imperceptível em que seu braço pressionou minha cintura e me ergueu novamente, dessa vez devolvendo meus pés para o chão.
— Você está pronta. — sussurrou, com um sorriso gentil.
Meus passos seguiram nossa dança silenciosa com facilidade, contudo, os braços protetores de meu acompanhante estavam a postos, prontos para me recuperar a qualquer deslize. Corei quando veio a minha mente que errar o passo não seria tão ruim assim...
Com muita sutileza, Peter cessou os movimentos e afastou-se. Desejei que ele não tivesse reparado na alteração de minha fisionomia quando nos distanciamos.
Não havia mais distância aceitável para Peter Bates. A proximidade só me fazia desejá-lo junto a mim, cada vez mais e mais. Um retrocesso, um afastamento qualquer já me fazia sofrer, gradualmente, pelos centímetros, metros, quilômetros que nos separavam.
O silêncio durou por alguns segundos, o sorriso branco como marfim contrastado em sua pele levemente bronzeada. Nossos olhos conectados. Minhas pernas levemente trêmulas me indicaram que o melhor a se fazer era esperar que ele dissesse algo.
— Como eu imaginei. É um caso especial... — Disse, sacudindo a cabeça em tom de piada. — Ainda há muito o que desenvolver, caso a aluna ainda esteja disposta a continuar, é claro.
"Sempre" pensei, mas apenas assenti com a cabeça, sorrindo.
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