Black Roses
7 Lusco fusco
Sem pensar muito, me joguei em seu pescoço. Me choquei contra ele com tamanha violência que pensei que iríamos cair, mas ele apenas deu um passo para trás, a fim de reestabelecer o equilíbrio. Ele envolveu os braços em minha cintura, fazendo meus pés deixarem o chão enquanto ele me girava pelo imenso quarto.
— Espero que tenha aproveitado seu tempo longe de mim... — desejou, abrindo ainda mais o sorriso, deixando suas covinhas evidentes. — Porque não pretendo te devolver tão cedo.
— Ah, não! — exclamei, fazendo bico. — Pensei que essas férias não teria que aguentar sua torturante presença.
Ele soltou uma gargalhada alta e me colocou no chão.
— Senti sua falta.
— Não imagina como eu senti a sua.
**
O sopro quente do vento de verão brincava com as rosas e se chocava com o meu rosto, trazendo o doce aroma das flores. Peter estava recostado na minha árvore preferida, brincando com uma mecha dos meus cabelos esparramados pela grama. Sua expressão era pensativa. Os olhos cor de turquesa estavam sombrios, fitando o horizonte.
Contei-lhe sobre a situação que havia passado com Edgar. Ele não me respondeu, não verbalmente, mas não havia problema nisso. Éramos tão conectados que não precisávamos manter sempre o diálogo interminável para a conversa não morrer. Tínhamos nosso próprio ritmo, respondíamos no tempo que achávamos que era certo.
— Não imagina como quis que você estivesse por perto naquele momento. — falei, após quase 10 minutos de silêncio. — Queria ter tomado a atitude certa... Ou melhor, alguma atitude...
— E quem disse que não tomou? Não fazer nada já é uma atitude. Você deu tempo ao seu irmão. Fez o certo, Lizzie.
— Você não teria feito isso.
— Ah, é? — Ele indagou, surpreso, agora direcionando seu olhar a mim. — E o que eu teria feito?
— Você descobriria o problema e o resolveria. — respondi, convicta — Você sempre faz a coisa certa.
— Isso não é verdade.
— É, sim, e você sabe. Olhe pra mim! Você entrou na minha vida há três anos e hoje eu não faço a menor ideia de como me virava sem você.
Ele sorriu tristemente, agora encarando a mecha de cabelo com que brincava.
— Talvez você devesse se esforçar pra lembrar. Quero que esteja pronta e forte para encarar as situações quando eu for embora.
As palavras dele, ditas em uma voz baixa e tranquila, me atingiram bruscamente. A parte do "for embora" ficou ecoando em minha cabeça como uma música alta e confusa e eu comecei a hiperventilar. Levantei de seu colo em um movimento abrupto, virando-me para ele.
— "For embora"? — repeti, apertando os olhos, tonta.
— É natural que a vida se bifurque e traga caminhos diferentes...
— Você está se esquivando.
— ... Inclusive para nós dois.
— Isso é ridículo... — murmurei, ofegante.
— Lizzie, entenda. Você sabe que não serei jardineiro aqui pelo resto da vida. Cada dia que passa aproxima a minha partida e você precisa estar pronta.
— V-Você quer...- sussurrei para que minha voz não tremesse mais- ir pra longe de mim?
— É claro que não. — Ao dizer isso, seus dedos acariciaram meu rosto de forma gentil — Mas não parece ser algo que eu possa evitar. Quero que consiga ser feliz. Me promete?
— Por que está fazendo isso comigo? — balbuciei, afastando-me — E-eu não quero mais falar sobre isso. Não consigo...
— Quero que aceite isso:
Ele retirou uma pequena caixa preta do bolso e estendeu-a para mim. Balancei a cabeça, recusando-me a abrir e revelar seu conteúdo. Aceitar o presente seria compactuar com sua despedida e não queria dar nenhuma brecha que desse a entender que eu ficaria bem com isso. Além disso, minhas mãos estavam trêmulas demais para equilibrar a delicada caixa.
Depois de alguns segundos de espera ele mesmo a abriu:
— Para que você se lembre de mim quando eu me for.
Uma corrente prateada fina suportava o peso do delicado pingente solitário, feito de resina e, eternizada nela, uma minúscula rosa vermelha, que pelo tamanho e cor eu reconhecia ter sido originada da roseira que ele cuidava, na primeira vez que nos vimos.
Irredutível, virei-me antes que ele visse meus olhos marejados, ignorando por completo meu presente de despedida. Me apressei a ficar de pé, decidida a abandoná-lo e fazer com que sentisse, pelo menos, um décimo da dor que eu sentia naquele momento. Já estava quase na metade do caminho para a porta de ébano que me devolveria para o interior da mansão quando uma de suas mãos envolveu meu pulso delicadamente, fazendo-me parar. De forma lenta, senti sua outra mão sobrepondo-se a minha com cautela, entrelaçando nossos dedos.
— Por favor, Elizabeth.
Sentir seu hálito quente no topo de minha cabeça, a voz melodiosa, seu corpo próximo do meu, por um momento, quase me permitiram ceder. Deixar minha cabeça cair em seu peito e esquecer o que ele havia dito, a dor que me causara há alguns minutos, a fim de voltarmos logo para nossa conexão silenciosa, sem conflitos.
Mas eu não estava disposta a isso. Não conseguiria acostumar-me com a ideia de perdê-lo, não quando sabia que essa não era a vontade de nenhum dos dois. Mesmo sendo uma batalha perdida, eu sabia que devia lutar, mostrar fúria, insatisfação, indignação. Esse não era o momento de renunciar.
Me soltei da doce prisão de Peter, que me deixou ir, sem resistência. Foi como se um pedaço de mim permanecesse atrelado a ele, minha melhor parte. Fazendo isso, corri, me apressando em entrar pela enorme porta, que guardava outras partes minhas, as mais infelizes e sombrias, partes que logo tomaram seu lugar de costume, impregnadas em mim.
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