Notas iniciais
Pra quem tava lendo minha outra fic, saiba que eu vou continuar, só que agora estou travada, e pra não ficar sem postar, decidi começar a postar essa duma veiz... Boa leitura

O corpo pequeno deitado sobre a cama, só parece estar adormecido. Acredite, não está. Eu já despertei.

Continuo deitada imaginando o que farei quando abrir os olhos: provavelmente me levantarei, irei até o quintal, colherei uma fruta, voltarei, farei o café, e passarei o dia todo plantando, colhendo, correndo, brincando e etc.

Finalmente, abro os olhos. Me dou conta de que não farei nada do que planejei. Não estou "em casa". Estou em um luxuoso apartamento em Seul.

Suspirei e me sentei na cama para amarrar os cabelos. Quando Jennifer disse que me daria esse apartamento, lembro-me que um dos mais ricos produtores musicais do país disse que esse era provavelmente um dos maiores da cidade, mesmo assim,me sinto sufocada, apertada, enfiada de qualquer jeito numa gavetinha muito, muito pequena. Quando se nasce e vive até os dezesseis anos numa fazenda em Minas Gerais, essa é a impressão inicial e final da maioria dos lugares em Seul: muito, muito pequeno.

Me levantei, e programei a cafeteira para fazer um dos mais simples trabalhos já conhecidos pela humanidade: preparar um cafezinho. Começo a comer um desses bolinhos que tanto comem por aqui... É esquisito mas o sabor é doce. Meu I phone 6 toca. Nem preciso olhar a foto na tela pra saber que é Jennifer me ligando.

—Alô, Jennifer.

—Você já está vindo?

—Pra empresa? Ainda é cedo!

—Claire, já são nove horas da manhã!

—Sério? Hum... Me desculpe.

—Me desculpe, o caramba! Hoje a Fancy Idol tem uma edição especial SNSD, preciso de você aqui, AGORA!

— Tá... Eu já estou indo.

Ela deixou escapar um resmungo irritado antes de desligar na minha cara. Fancy Idol é a revista dirigida pela Jennifer, que tem como principal foco moda e celebridades, e que tornou-se sua vida de cinco anos pra cá. É uma revista muito boa, e eu, sou a assistente da Jennifer.

Me vesti "apropriadamente", e, antes de sair de casa, dei uma última olhada numa fotografia tirada há 5 anos... Jennifer parecia tão feliz... Sinto falta dela como minha amiga. Já fazem 5 anos e ela continua deprimida, lógico, não admite, mas está. Continuo ao seu lado porque tenho medo do que aconteceria se ela abrisse a carta... e eu não estivesse lá com ela.

Suspirei ainda olhando pra foto e deixei escapar uma confissão:

—Ah, Zoe... quando você foi embora levou uma parte de todas nós... no caso da Jenny, o coração.

~~~

Assim que cheguei à rua, calcei meus patins. Sempre trabalho de patins, fica mais fácil me locomover naquele prédio onde fica Fancy Idol. Perto dali, há uma cafeteria onde trabalha Loyse.

—Oi, Loyse. Você preparou...

—O café da boneca? Claro que sim!

Loyse ainda me deixa preocupada com sua personalidade irreverente. Ela e Jenny nunca mais se falaram depois do... ocorrido. Apesar de que sempre achei que as duas se encontraram em algum momento. Longe de todas as outras. O que disseram uma pra outra também me preocupa.

—Seu rosto tá marcado. Aconteceu alguma coisa?- perguntou com ironia.

Passei a mão pela minha bochecha. Claro que Loyse sabia muito bem o que aconteceu... o que vivia acontecendo. Só olhei pra ela emburrada, peguei o café e fui embora. Sabia que Loyse não queria me deixar envergonhada, mas foi exatamente isso o que ela fez.

Cheguei ao prédio e subi com o elevador (ainda não aprendi a subir escadas com elevador, mas a descer já). No elevador encontrei Katarina. Depois que a vida de idol não deu certo, ela tornou-se uma renomada estilista e a principal acionista da Fancy Idol, mas diferente da Jennifer, ela não finge que tudo o que aconteceu a cinco anos não é nada. Katarina prefere dar espaço à sua dor. Pelo menos pra ela, funciona.

—Chegou atrasada hoje, hein?

—Você também. Mas o que Jenny dirá pra mim, certamente não dirá pra você.- Sorri pra ela.

Katarina era uma boa pessoa. Certamente não merecia o que passou quando Zoe... faleceu. Ela a amava muito, as duas confiavam uma na outra. Depois da Jenny, foi a que mais chorou no guardamento da Zoe. Um momento muito triste.

O elevador chegou e eu impulsionei meu corpo pra frente, deslizando com os patins sobre o chão, desviando das pessoas por quem passava, algumas reconhecendo, outras não. Finalmente, cheguei à sala da Jenny.

Ela conversava com alguém no telefone, o que não a impediu de olhar com raiva pra mim. Eu desviei de seu olhar e coloquei algumas pastas sobre sua mesa. Um arrepio percorreu meu corpo inteiro quando ela desligou o telefone.

—Ah, meu Deus, Claire. Eu acho que vou matar você!

—Eu sinto muito, Jenny- falei baixo já com medo de olhá-la nos olhos. Eu já sabia o que viria a seguir.

Jennifer me puxou pelo ombro para trás até que eu estivesse de frente pra ela. Em seguida, me arrastou para trás de uma estante de livros, pra onde ela sempre me levava quando queria me bater. Ali, ela me jogou no chão com força e começou o longo e constante ritual que se repetia quase todos os dias da minha vidinha patética. Dane-se. Não leva nem 5 minutos e ela já se recompôs e eu também. Como em todas as vezes que desconta sua raiva e frustração em mim, Jennifer não se atreve a olhar pra minha cara.

Fui até o toalete e passei uma grossa camada de base abaixo dos meus olhos e no canto esquerdo da minha boca. Jenny tinha essas "preferências" quando me batia.

Quando voltei pra sala da Jenny, notei que alguém tinha entrado na sala... Daehyun! Gosto muito dele, ele mantém Jenny tranquila e é um cara muito legal e simpático.

—O Kang disse que o B.A.P poderia fazer a próxima edição especial. Os meninos toparam?- Jenny perguntou.

—Claro, podemos fazer.

Daehyun sabe como fazê-la ficar de bom humor. É quase um dom! A chegada dele na sala da Jenny já salvou a minha pele algumas vezes... pena que hoje não foi uma delas.

Entro na sala e direciono um sorriso pros dois, ao que Daehyun corresponde, enquanto Jennifer desvia o olhar do meu rosto para sua mesa.

—Oi, Claire.

—Oi.

—Claire, preciso que você vá supervisionar a seção de fotos de Girl's Generation pra mim.

—Ok, eu estou indo.- me virei e saí.

As meninas de SNSD não precisavam de supervisão alguma, muito menos Ian, nosso fotógrafo. Eram todos profissionais experientes. O que Jenny realmente queria era ficar sozinha com Daehyun. Fiquei ali por uma hora ou duas, e logo saí. Tinha que passar na sala da Jennifer mais uma vez e ver se precisava de mim pra mais alguma coisa antes de sair pra almoçar.

—Por favor, só leia a carta, eu sei que quer fazer isso!

—Isso é o que você e a incompetente da Claire querem que eu faça!- disse Jennifer, respondendo a voz que eu já conhecia muito bem...

—Loyse, o que está fazendo aqui?- perguntei, com certo pavor ao notar que Daehyun ainda estava na sala, assistindo a esse show.

Loyse, com repulsa, desviou os olhos de Jennifer, direcionando-os pra mim:

—Você tem razão, Jennifer. Claire é uma incompetente. Continua a trabalhar pra você, apanhando como uma condenada a cinco anos, e ainda não foi capaz de te fazer abrir aquela maldita carta. Bastarda!

Baixei os olhos, envergonhada. Jenny foi até a porta, a abriu, e disse com ar cansado:

—Loyse, vá embora, por favor.

Loyse suspirou e saiu. Pela sua expressão, já sabia que ela ia chorar.

—Algum dia, Jennifer, você terá que ler.

—Se esse dia chegar, será o meu fim!

Jennifer fechou a porta com raiva. Eu já estava com medo do que ela faria.

—Daehyun, eu sinto muito que tenha visto tudo isso.- Jenny disse, profundamente envergonhada.

—Eu sei- ele disse, em seguida olhando pra mim -Eu também.

Em seguida passou reto por Jennifer e saiu da sala, deixando um clima pesado no ambiente.

Quando Jennifer virou-se para me olhar nos olhos, eu já sentia as lágrimas querendo descer.

—Acho que nem preciso dizer que está demitida, né Claire?

Dois segundos depois, eu já estava soluçando. Eu sabia que esse momento ia chegar, só que achei que seria só depois que ela não precisasse mais de mim, não por me odiar!

—Jenny, por favor...

—Não ouse me chamar de Jenny.- ela continuou dizendo, indiferente. -Pode pegar suas coisas agora mesmo e ir embora.

—Tá.- eu disse, limpando as lágrimas e tentando me recompor -Só não esqueça da reunião às 16:00hrs.

—Pode deixar.

Peguei minhas coisas e saí. Quando já estava do lado de fora do prédio, me virei para olhá-lo novamente. Acho que foi o único momento, em 5 anos, que percebi que não se tratava só de Jennifer. Tratava-se de mim! Eu amava aquele emprego! Eu amava Fancy Idol. E por mais que nunca os amasse mais do que a Black Roses, assim como tal, os havia perdido para sempre.

Fui procurar algum lugar pra almoçar. A cafeteria da Loyse estava sempre aberta, mas eu preferia ter que comer minhocas orientais do que ter que olhar na cara dela de novo. Se não fosse por ela, eu ainda teria um emprego. Ao pensar nisso, lembrei que em breve teria de encontrar um novo emprego, mas hoje, com a cara toda marcada de lágrimas e o rosto expressando pura depressão, sei lá, não é o momento mais oportuno.

Quando cheguei a um restaurante, pedi kimchi, uma comida que até hoje ainda não entendi direito do que é feita. Como disse, qualquer coisa é melhor do que olhar pra Loyse de novo. Comi sem pressa nem apetite. Uma vez, Zoe disse que qualquer coisa feita com paixão, era incrível. Na época, todas éramos apaixonadas pela música. Fico me perguntando até onde iríamos se ela não tivesse morrido.

Agora, eu não tenho mais paixão nenhuma. Não amo mais nada. Nem a mim mesma.

Ao chegar em casa, me deitei na cama, e recomecei a chorar.

Notas finais
Essa personagem é dramática assim mesmo. Se leu até aqui, ficarei muito feliz se deixar seu comentário. Até a próxima. Bjos