Black Moon
1 Capítulo Um
Cheguei à minha casa atordoada, com dor de cabeça, cansada. Caminhei até a cozinha, abri a geladeira e beberiquei um pouco de leite direto da caixa. Havia louça para lavar, roupa e tinha que arrumar a casa, uma bagunça. John não demoraria a chegar e eu não havia feito nada. Peguei a caixa de pizza velha que ele havia deixado na sala, da noite anterior, eu acho, coloquei as roupas na maquina, tentei lavar a louça, mas o barulho da água nos pratos não me dava boas lembranças. A casa já estava pouco mais arrumada, nada demais, ainda tinha muita coisa para fazer. Peguei alguns bifes e fiz um macarrão instantâneo, sentei-me a mesa, esperando John entrar pela porta reluzente novamente e me dizer como foi seu dia e como prendeu sei lá eu quantos criminosos. Eu ficava feliz de ter ele comigo, apesar de não ser realmente meu pai, me criou.
Nunca comentei com ninguém como foi, mas sempre me recordo agora aqui sentada, recordando novamente. Naquela noite, era meu aniversário, mamãe havia feito um bolo bem grande para mim. Estávamos a sós, eu ela e o papai, as luzes se apagaram no momento de soprar as velinhas. Sei que pareço uma menina de cinco anos contando dessa maneira, mas é dessa maneira que contei para John, pela primeira vez. Não sei se ele acreditou ou pensou que eu estava delirando, mas me acolheu. Tirando–me do orfanato. Lembro-me exatamente como foi aquele dia. Há doze anos.
Morávamos em Virginia, era dia 15 de setembro de 1991, eu fazia sete anos, era meu ultimo aniversário em Virginia, pretendíamos mudar para a Mercy Falls, no mês seguinte. Estava um dia limpo, podíamos ver as estrelas no céu, mas a lua era impossível de se ver, ela estava escondida como ficava todos os dias 15 de setembro, era lua nova. A lua que não aparecia, para mim nesse dia. A temperatura não passava dos 16 graus naquela noite, eu estava com meu vestido azul, com estrelas no final dele. Por volta das 20h30 ou 21h00, ficamos reunidos na sala mamãe já havia buscado o bolo, um bolo com vários pedaços de chocolate por cima, com as bordas de merengue rosa. Ela mesma tinha feito, minha mãe era confeiteira, ela fazia todos os tipos de doces e salgados.
Quando eu tinha que soprar as velinhas era o melhor momento, meus pais me abraçavam, sorrindo, tão alegres quanto eu. Assoprei as velinhas, e meus pais não me abraçaram, eu achei estranho então saltei do banquinho e liguei as luzes, meu pai estava atirado na escada, com as duas pernas quebradas, e minha mãe ao lado de um homem, com os cabelos negros desajeitados, pele branca muito branca, seus olhos azuis queimavam em fúria e raiva, ele olhou para mim. Em seus braços, marcas de mordidas de algum animal, algo como um cachorro ou um lobo. O estranho olhou minha mãe no chão, e então caminhou calmamente até mim, desviei o olhar tentando encontrar com o de minha mãe, ela estendia a mão para mim, e murmurava algo como “corra Alice, corra rápido”.
Eu deveria fazer isso, fugir, mas ele não parecia querer me machucar e eu estava imobilizada, aqueles olhos de fúria e raiva, se tornaram olhos de remorsos, e rapidamente foram clareando-se, de um azul escuro a um azul anil tão tristes e profundos que eu sentia que podia ver sua alma. Ele colocou as pontas dos dedos nas têmporas e ajoelhou-se a minha frente. A expressão dele era desolada, como se tivesse cometido o maior erro de sua vida. Ele não era humano, mas não me assustava, a pouco ele tinha tirado a vida de meus pais, porém eu não estava triste, eu deveria, soa horrível isso, mas eu estava intrigada naquela pessoa, ele era a única coisa em meus pensamentos naquele momento, o mundo estava girando entorno dele de seus olhos profundos e seu semblante triste.
- Desculpe... – ele murmurou sua voz triste. – Eu nunca perdi o controle, não sei se você esta me entendendo ou não, mas desculpe, eu ficaria satisfeito se você pegasse o telefone e ligasse para o numero que irei te dizer. – ele ainda permanecia de olhos fechados, e também não parecia respirar. O que ele queria de mim? Logo aquele dia, que eu completava sete anos ele resolve aparecer e matar meus pais? Ele queria que eu telefonasse para alguém, nesse momento? Ele se arrependia? Ele é maluco? Ele continuava a poucos metros de mim, sem respirar com os olhos fechados, parecia desgostoso de si mesmo, estava se remoendo por dentro, como se tivesse feito a coisa mais errada do mundo. Sim e é para mim era a coisa mais errada, eu não acreditava, meus pais estavam mortos, por aquele ser, ele era lindo. Mas ele era mau. Ele, ele pediu desculpas? Como poderia desculpar ele? Minha cabeça era muito limitada para responder todas as perguntas.
- Eu não vou fazer nada que você mandar. – lembro-me de ter respondido algo assim. – Não irei fazer nada para você, mas, por favor, me diria seu nome? – pedi
- Por quê? – perguntou ele com aquela voz de remorso. – Allen, Allen Walker.
-Allen, eu te odeio. – eu me lembro de ter quase chorado, ele assentiu com a cabeça, tocando meus ombros, fechou meus olhos com a mão senti o chão tremer embaixo de nós, o que tocava meu ombro agora, não era uma mão e sim uma pata, assim que tentei abrir os olhos ele já havia sumido. Apesar de ter apenas sete anos, eu fiquei fria naquele momento, além de fria de sentimento, fria, minha pele estava gelada, e mais branca que o normal.
Logo após ele ter sumido, caminhei com calma, até o corpo de meus pais, o os coloquei lado a lado, limpando o sangue. Cobri-os com um lençol de seda. Por mais chocada e triste que eu estivesse, eu não chorava, eu não entedia, eu não chorava, ninguém iria acreditar em mim. Absolutamente ninguém. Vasculhei as gavetas da sala, e encontrei o telefone da policia. Sentei-me ao lado dos meus pais novamente, olhando para os corpos por baixo do lençol branco, tinha sido horrível aquilo, e não pude fazer absolutamente nada. Chamei a policia para vir ver o caso.
Em meia hora eles estavam aqui. A porta encontrava-se aberta, um deles caminhou até mim, ajoelhou-se ao meu lado, fitou-me calmamente, olhou para os corpos, olhou ao redor, voltou-se para mim. O olhar dele era de pena. Perguntou-me o que havia acontecido, eu expliquei que ele não acreditaria em mim, ele ainda insistia, então eu contei, não sei se ele achou engraçado, mas não acreditou em mim. Comunicou-se com alguém pelo rádio, disse que eu estava triste de mais, e havia inventado uma historia estranha sobre lobos e criaturas místicas, e logo um homem grande e barbudo veio me buscar. Falaram que o caso tinha sido dado como assassinato. Não iriam levar o caso adiante, disseram a todos que um assaltante veio aqui e matou meus pais, tentando roubar as coisas, e me poupou. A mais pura mentira, mas ninguém acreditaria em mim. Se eu contasse do homem, que aparentava uns 17 anos, um adolescente, matou meus pais.
O homem barbudo aparentava uns cinqüenta anos. Mandou-me para um orfanato. Daquele lugar eu passei os piores dias da minha vida. Passei vários apuros lá, as crianças mexiam comigo. Eu até tinha uma amiga, Madeline, Mel para os íntimos e para mim, ela era mais baixa que eu, os olhos de uma cor que eu nunca tinha visto, azuis, esverdeados dentro, lindos, ela era linda, os longos cabelos lisos pousavam sobre seus ombros, e o sorriso dela me acalmava, ela era vamos dizer que a cantora do orfanato, sua voz era perfeita, nós brincávamos juntas na pracinha, mas um dia ela teve que ir embora, foi adotada por uma família de músicos, fiquei feliz por ela, mas, eu estava novamente sozinha. Até que John me tirou de lá quatro longos anos depois. Ele se mudou para Mercy Falls, comprou roupas, sapatos e tudo que eu queria, me matriculou na escola local, e aqui passei os sete anos da minha vida.
Lembro-me perfeitamente do primeiro inverno aqui. Eu gostava de sentar a beira da porta e olhar para a floresta lá fora, desenhando as árvores, tirando fotos, imaginando o que havia lá dentro, querendo correr até lá, descobrir os mistérios daquela floresta, e porque todos a temiam
- Ei, John, o jantar esta pronto. – Chamei-o
- Ah claro, obrigado Alice. – Ele levantou-se e caminhou até a cozinha, deu uma boa cheirada na comida e desabou numa cadeira, colocou mais da metade do jantar em seu prato, e começou a comer. – Como foi seu dia querida?
- Cansativo. Não estou com fome, vou para cima, dormir um pouco. – Falei saindo da mesa.
- Boa noite. – ele murmurou olhando para o prato.
Cambaleei até o banheiro, escovei os dentes e o cabelo. Fui para o quarto colocando a camisola, joguei-me na cama, olhando para o teto em forma de pontudo, a chuva caia fraca, eu podia ver os pingos na janela. O sono não vinha, virei de um lado para o outro, nada, não adiantava. Achei que não iria dormir. Ouvi os passos lentos e pesarosos de John até o banheiro e a torneira ligar-se, depois ouvi novamente ele caminhar até o quarto e estender-se na cama. Os roncos altos começaram. Perguntava-me como eu dormia com aquilo? Meu sono era pesado de mais? Não tive tempo para pensar. Peguei no sono.
Eu estava andando pelo corredor da escola à noite, ouvia gritos vindos das salas de aula. Continuei caminhando pelo corredor escuro, tentando abrir as portas sem sucesso. Havia uma sala clara, andei até metade do caminho para chegar nela, senti um arrepio, aquele lugar não me dava uma boa sensação, não queria continuar, mas ouvi o grito de Jess e corri rápido cheguei nela, estava ajoelhada no chão, em um canto da sala, todas as mesas estavam viradas, ela estava morta de medo, tremia e tentava gaguejar alguma coisa incompreensível. Ao ver seu vulto na parede me ergui rapidamente, olhando fixamente para a boca que escorria sangue e para seus olhos negros, ele não parecia normal, ele não era normal... E de alguma maneira, eu sabia exatamente quem ele era.
Acordei com um pulo, fiquei olhando para o quarto esperando algo, algo que eu sabia que não iria vir, mas eu não podia deixar de esperar, esperar que aqueles olhos negros viessem e me devorassem também, tremi com esse pensamento. Tirei as cobertas de cima do meu corpo e coloquei os pés no chão, agitada olhei para os lados, para a janela, tudo parecia normal, o que não parecia normal era esse sonho bizarro. O que ele fazia aparecendo em meus sonhos depois de tantos anos era o que eu gostaria de saber.
Peguei sob a mesa de cabeceira um elástico e prendi meu cabelo em um coque alto e me atirei de volta na cama, tinha que tentar dormir, amanhã tinha que acordar cedo, não podia ficar assim, era meu último ano e eu precisava ir bem nas provas. Fiquei olhando para o escuro do meu quarto durante horas, até que consegui dormir.
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