Black Hole - Interativa

17 Alex is the Guitar Hero


Notas iniciais
Não vou nem tentar explicar o atraso. Vocês sabem. Quem ainda não reservou o livro pode me mandar e-mail. E vocês sabem qual é também. Boa leitura, meus pimpolhos.

Annika fez alguns cálculos rápidos na cabeça. Ela sabia que HaNa estava caindo a uma velocidade alta demais. Mesmo que tentassem, não conseguiriam salvá-la segurando-a. No entanto, Annika sabia que havia uma chance. Afinal, eles estavam embaixo de uma árvore, e aquilo era impossível.

HaNa chegou a toda velocidade nas copas, mas assim que ela tocou as folhas, desacelerou. Ela simplesmente continuou a descer como se estivesse imersa em água, indo para o fundo aos poucos. O coque tinha se soltado e estava em forma de rabo de cavalo. A gravidade o puxava pra baixo, então deu para perceber que ela estava realmente flutuando para baixo. Ela passou por entre os galhos e segurou a mão de Stux enquanto esteve perto dele. Ela desceu na horizontal até chegar perto de Esfinge, que segurou a coreana por baixo dos ombros de forma que apenas suas pernas desceram até tocar o chão. Esfinge ajudou HaNa a ficar de pé.

– É – disse Kai, sorrindo. — Me parece uma boa alternativa. – Ele estendeu a mão para HaNa. – Senhorita, me dá a honra desta queda?

Annika apenas sorriu, e eles pularam juntos no céu, seguidos de perto por Lin, Stux e Alex. Logo atrás, Ally desceu nas costas de Gabbe. Eles planaram juntos em direção ao céu até a gravidade mudar. Então, eles desceram muito rápido até as copas das árvores, e flutuaram até a grama, ajudando uns aos outros a ficar de pé.

Já estabilizados, eles riram por terem conseguido se livrar da prisão que era a árvore de cabeça para baixo. Mas a alegria pela vitória durou pouco; eles não poderiam se dar ao luxo de comemorar por muito tempo. Finalmente, olharam para o caminho que se seguia na trilha. Mesmo à luz do dia, ele parecia escurecido pelas árvores à esquerda e pela parede infinitamente alta à direita.

– Vamos – disse Alex, mas não deu mais de dois passos sem ser confrontado.

– Tem certeza? – Perguntou HaNa. Não por implicância, já que realmente não era do seu feitio. Mas por um pouquinho de medo. Todos ali sabiam que, apesar do preparo físico, HaNa era a segunda mais frágil do grupo, emocionalmente falando. Só perdia para Mabel, que nem ali estava. Alex observou cada um dos rostinhos. Em quase todos eles havia ao menos uma gotinha de dúvida.

– Escutem – disse ele, pacientemente. – Se eu não conhecesse vocês, eu simplesmente diria para me seguirem, pois eu sou o líder. Mas conheço vocês o suficiente para saber que se importam com Mabel. Cada um de vocês. E ela está lá em algum lugar, é o único lugar onde pode estar. Só existe um caminho a seguir. Mabel e Kuni estarão lá, vivos ou mortos, feridos ou não. Mas seja qual for a condição deles, devemos ajuda-los. Foi pra isso que viemos.

– Você está certo – disse Kai. – E mesmo que preferíssemos não seguir em frente, não há outra opção. Não podemos voltar para casa, só podemos ficar aqui, nesse lugar assustador. Então, por todos os motivos possíveis, Alex, vamos seguir em frente. Com você. Por Kuni. Por Mabel.

– Então vamos – disse Alex, com um sorriso triste. Pois sabia que seus amigos estavam exaustos, e tudo o que queriam era que lhe dissessem que estavam em um pesadelo, e que logo acordariam em suas camas quentinhas.

~

Eles andaram até que a fome batesse. Então pararam, almoçaram e seguiram em frente. Caminharam em direção ao centro da espiral durante algumas horas. De certa forma, sentiram-se aliviados, pois o terreno era plano, ao contrário do que enfrentaram na escalada. Depois dessas algumas horas, começaram a notar uma interrupção na estrada, e ficaram cada vez mais intrigados conforme se aproximavam.

– O que é isso? – Perguntou Stux, finalmente, quando estavam a alguns metros.

– Parece um portão – disse Gabbe, e parecia estar certo. Estavam diante de um grande portão dourado. Ele era inteiro, e não dava para ver nada do outro lado. Cada uma das duas portas tinha vários desenhos entalhados, embora estivessem cobertos por vinhas que pareciam prendê-las firmemente. – Mas o que um portão desses está fazendo no meio da floresta?

– Isso parece um grande enigma – disse Esfinge. – Mas depois de contemplar uma floresta em espiral e paredes que parecem ter sido fatiadas, descer em uma cachoeira de terra e ficar de cabeça para baixo em uma árvore, esse portão é a coisa menos estranha do dia.

– Então... – Pensou Gabbe. – Nosso caminho termina aqui? Não tem como prosseguir?

– Impossível – disse Alex, completamente convencido do que estava dizendo. – Mesmo em um lugar onde o impossível acontece... Aqueles homens azuis só podem ter passado por aqui. Então deve haver um jeito de passarmos.

Assim que Alex parou de falar, um assobio suave como o de uma flauta soou durante longos segundos. Perto do portão, cinco coisas brotaram do chão. Aos poucos, o grupo notou que se tratavam de flores. Elas tinham caules grossos, com dois dedos de diâmetro e cheios de espinhos. Cada uma delas tinha uma cor, mas todas eram de uma espécie não identificada e se dispunham em linha na frente do portão, à altura da fechadura.

– Gente – disse Lin, que olhava com atenção para o portão. — Parece ter algo escrito nas portas...

– Mal consigo ver as portas com esse monte de galhos, Lin – debochou Ally.

– Acho que também estou vendo – disse Annika, apertando os olhos. — Acho que é...

– S.I.Y.C. — Decifrou Esfinge. — Mas o que isso significa?

– O lema da Aurum é uma sigla, F.I.Y.C. Fight If You Can, Lute se Puder. Mas com s? Talvez outro verbo. Repararam nas notas musicais?

– Notas musicais? Onde? — Perguntou Kai. — Ah, sim. Entalhados na porta, por todo lugar. Agora estou vendo.

– Exatamente – disse Lin. — Nesse caso, o verbo só pode ser Sing. Sing If You Can. Cante se Puder. Me ajudem.

Tirando essa conclusão, Lin começou a bater o pé no chão, alternando as palmas. Duas vezes o pé, uma palma, uma pausa. Em ritmo. O ritmo de We Will Rock You. Ela começou a cantar. Cantou a primeira parte acompanhada pelo ritmo dos companheiros até que chegou o refrão, quando eles cantaram juntos. As cinco flores começaram a se mover para cima e para baixo, se enterrando na terra e desabrochando como se fossem indicadores de ondas sonoras. As vinhas que cobriam a porta se retorceram para dentro. Toda a borda ficou livre delas, mas a partir de certo ponto, as vinhas e as flores pararam de se mexer. Mais da metade delas ainda cobria a porta.

– Acho que se cansaram dessa música – disse Gabbe, quando eles desistiram. Dois segundos depois de ter dito isso, outro objeto brotou do chão, na frente das flores. Era feito de madeira.

– Um violino! — Gritou Ally, e correu feliz até ele. Ela o pegou e o afinou, e enquanto os outros a observavam apreensivos. Finalmente, ela olhou para eles, e percebeu que esperavam por alguma coisa. — O que foi?

– Ué, você não vai tocar? — Perguntou HaNa, que sabia que a amiga tocava violino.

– Não vou destrancar esse portão sozinha. Eu quero ajuda. Você mesmo, Gabbe.

– Tem certeza disso?

– Tenho. All Of Me, John Legend.

– Por que só cantamos velharias? — Perguntou Stux. — Poderíamos tocar alguma musica do Blareen ou...

– Querido, você é o único daqui que gosta dessas bandas de rock atual – disse HaNa, docemente. — Vamos, casal 20, hora do show.

Ally começou a tocar a introdução. A melodia era tão doce que fez, por alguns segundos, com que o grupo se esquecesse da tormenta pela qual passavam. Gabbe cantou a parte que lhe cabia, acompanhado pelo violino da namorada, o que fez um bom espetáculo. As vinhas se remexeram e se retorceram, e as flores se moviam para cima e para baixo. Abrindo e fechando suas pétalas, com tanta sicronia que pareciam ter sido programadas. Quando eles terminaram o dueto, as vinhas tinham se recolhido mais um terço. Faltava apenas um terço de vinhas para serem retiradas. Ally deixou os ombros caírem. Esperava conseguir retirar todas as vinhas.

– Mais uma música deve bastar – disse Gabbe, com paciência. Delicadamente, ele puxou a namorada pelo braço, para se juntar aos outros. Enquanto eles andavam, mais uma coisa brotou da terra. Dessa vez, era uma guitarra.

– Uau – disse Stux. — Vamos brincar de Guitar Hero? Eu estou meio enferrujado, não jogo desde criança, mas acho que posso...

– Não – disse Alex, com firmeza. Ele tirou a mochila e a jogou no chão. — Eu faço isso. — Stux o observou enquanto ele andava até a guitarra.

– Ah... Alex... Você joga Guitar Hero?

– Não – disse ele. Segurou o braço do instrumento e olhou para trás. — Eu toco guitarra. O garoto pegou o instrumento com cuidado, e passou a faixa pela cabeça. Uma pequena palheta brotou do chão, e ele a pegou. — Primeiro, vamos ver se está afinado. — Para verificar isso, Alex tocou o solo de Sweet Child O' Mine, do Guns N' Roses, o que já deixou todo mundo de queixo caído. — Parece que sim. Agora, quero ajuda. Lin?

– O que quer tocar, senhor? — Disse ela, indo para sua direita.

Bat Country, Avenged Sevenfold.

– Uma guitarra e uma voz não bastam pra Bat Country, Alex.

– Duas vozes, talvez? — Perguntou Esfinge, se posicionando à esquerda.

– Bom... — disse Stux. — Eu estou enferrujado no Guitar Hero, mas acho que lembro de como tocar bateria. Não que eu toque bateria, mas eu tive uma quando criança. E vivo batendo em mim mesmo no ritmo da música. — Assim que ele disse isso, uma bateria brotou do chão. — Uau.

– Então venha conosco, Stux. Quando quiser, Lin.

A música começava com dois versos falados, seguidos de um grito ensurdecedor que era acompanhado pelos instrumentos. HaNa, Gabbe, Ally, Annika e Kai acompanharam com a voz em algumas partes, e observaram enquanto as vinhas se recolhiam em direção à fechadura. No final da música, as últimas vinhas desapareceram. Eles comemoraram, e Kai foi abrir a porta, mas não teve sucesso.

– Ainda está trancada!

– As vinhas não acabaram, Kai? — Perguntou HaNa.

– Acabaram. Mas ela ainda está trancada. Quem sabe mais uma música.

– Ou um solo – calculou Alex. — Um refrão, talvez. Faça algum refrão, Lin.

A garota suspirou, pensando no que poderia cantar. Ela cantou o refrão de Chandelier, da Sia, e os portões automaticamente se abriram depois disso. Eles pegaram as coisas no chão e passaram rápido, com medo de que a porta se fechasse. Só depois comemoraram seu sucesso, e seguiram em frente.

~

O grupo continuou cantando pelo caminho, afinal, tinham passado por uma vitória musical. Eles caminharam com a alegria que era possível na situação em que se encontravam: andavam em uma floresta desconhecida, no meio de uma cordilheira perigosa, sem conhecer o paradeiro de Mabel, sem saber o que os esperava no final do caminho, tentando pensar em que desafios a jornada até o centro lhes proporcionaria.

Eles caminharam por aproximadamente uma hora, sem ter nenhum imprevisto. Pararam um pouco para comer e descansar nesse meio tempo. Tudo estava tranquilo, até eles começarem a ouvir barulhos estranhos. As folhas se mexiam, os galhos se quebravam, e eles começaram a vasculhar as árvores com os olhos em busca de algo suspeito. Desaceleram o passo até estarem parados no meio da floresta, girando e olhando para todos os lados.

– Aaaaah! — Gritou HaNa, quando as folhas mais próximas começaram a se abrir. Ela correu desesperadamente para trás de Stux, que mal pôde protegê-la quando um ameaçador patinho de incríveis 20 centímetros de altura saiu das árvores.

– Calma, querida. É só um pato.

– SÓ UM PATO? — Berrou ela, mas se surpreendeu quando sua voz saiu duplicada. Esfinge já estava escalando a árvore mais distante do bichinho. Aparentemente, ela também tinha medo de patos.

– É um bicho feroz e asqueroso! — Disse Esfinge, com a voz cheia de repulsa. — Olha só o tamanho dele! Quem tem medo de aranhas e lacraias nunca esteve de frente para um pato!

Àquela altura, HaNa já tinha dado seu jeito de subir nas costas de Stux, que tentava se equilibrar como podia.

– HaNa, ele não vai fazer nada com você!

– Se você me proteger, não mesmo!

– Eu devo merecer uma coisa dessas! — Disse Ally, que embora estivesse se esforçando muito para isso, não tinha como ser paciente com garotas que temem patos. Ela puxou uma flecha e colocou no arco. — Vamos acabar logo com isso.

– Não! — Gritou Annika. — Claro que não. Você não pode fazer isso!

– Por que não? — Perguntou Ally, confusa.

– Porque não sabemos se essa espécie foi catalogada! Ele pode ser uma espécie de pato ainda não descoberta, existente apenas aqui dentro do Black Hole. Se descobrirmos isso, a Aurum precisa...

Annika perdeu a voz quando uma estranha lâmina atravessou o pato, que caiu morto no chão.

Notas finais
Comente pelo pato. Coitado do pato.