Lentamente, as estações passavam de forma gentil com a bela deusa que a todos encantava. Entretanto, a despeito de todos os dotes que lhe eram oferecidos em troca de promessas de uma vida feliz, Persephone sabia não poder desvincular-se do amor que nutria secretamente pelo sombrio deus das profundezas. Aquela tarde, em especial, carregava consigo as leves brisas primaveris, e pairava na atmosfera o doce perfume das flores — que ainda assim, não comparavam-se com o inebriante aroma que os cachos escarlates da deusa disseminavam contra o vento. Estavam, então, belas ninfas entoando melodias, juntamente com Persephone, a colher flores em um dos inúmeros bosques. Divertiam-se todas, refletindo sorrisos perdidos por entre os raios solares que ultrapassavam a copa das árvores esmeraldas. Despreocupadamente, a deusa afastou-se das belas criaturas, indo para um local mais silencioso do bosque, na beira de um pequeno lago. Faziam-lhe companhia a fauna, por detrás das árvores. Os pássaros entoavam cantigas para o vento e voavam em torno da deusa, porém, pouco a pouco, afastavam-se. Apesar da solidão repentina, Persephone não sentia-se sozinha. Sabia o que — ou melhor, quem — estava por vir, através das sombras que permeavam a luz diurna. Sorriu, enquanto sentia o vento acariciar-lhe as têmporas, e observava as nuvens encobrindo o céu anil. Seus cabelos escarlates agitavam-se enquanto sentia o toque dos lábios de seu sombrio amado, e seus dedos enlaçavam-se aos de Hades, em um gélido encontro. Seus olhos, de encontro ao misterioso olhar do deus, perdiam-se em um turbilhão de sentimentos, pelos quais Persephone não tinha domínios.
"Isto é... um sonho, meu querido?"
"Não, minha amada. Esta é a realidade. Você virá comigo?"
Os encantadores olhos de Hades, que comparavam-se a pérolas negras, suplicavam por um sim, o tão esperado e desejado. Não eram necessárias mais palavras; o sorriso da deusa entregava-lhe completamente.
"Persephone! O que..?"
A voz emanava de uma das ninfas — Leucipe. Atrás da mesma, outras duas olhavam, surpresas com a situação, descrentes em seus olhos. Uma branda chuva trazia consigo ventos gélidos, e assim tornava o coração da bela jovem.
"Você fará isto mesmo? É de seu desejo ser a Hera do Tártaro?"
Persephone fitou os olhos de Hades. Não havia repreensão em seu olhar, apenas a sinceridade de seu sentimento tão longamente nutrido pela jovem. A neblina passava a cobrir o bosque, deixando as silhuetas das ninfas distantes cada vez mais turvas.
"Desculpem-me... meu lugar não é aqui."
E, assim que a leve névoa dissipava-se, as ninfas perceberam que não haveria como impedir um amor tão sincero, bem como que a presença dos dois amantes já não se fazia mais ali.
-x-
A fúria de Zeus aplacara todos os deuses, quando ouvira da voz da inconsolável mãe Deméter que sua tão amada filha havia sido levada às profundezas do Tártaro. As terras estavam secando, as flores caíam ao chão, sem vida, e os céus permaneciam em tons nebulosos, tal qual a melancolia da deusa das colheitas, por ter tido sua filha arrancada de seus braços. O senhor do Olimpo pensava consigo mesmo, — quem Hades acreditava ser para tomar a bela jovem em braços? Poderia ele, seu irmão, amá-la verdadeiramente? — mas ainda a ira dominava seus pensamentos. Piedoso da tristeza de Deméter, e desejando trazer sua filha de volta ao reino dos deuses, Zeus aconselhou-a partir ao submundo, acompanhada de Hermes, e assim a deusa das colheitas o fez.
A flora em torno da caverna que abrigava o portal ao Tártaro crescia bela, diferentemente do resto de Athenas, onde já não florescia nada em terra. Os dois deuses adentraram a gruta, sabendo não poder atravessar até o outro lado. Deméter entoou uma elegia aos espíritos que permeavam aquele lugar sombrio, perdidos, e estes carregaram consigo a melodia até os interiores do submundo.
"Eu esperava que viessem, para tomar minha amada de meus braços... Já era em tempo."
Atravessando as sombras, com Persephone ao seu lado, Hades revelou-se à Deméter e Hermes. A jovem parecia ainda mais encantadora quando com seu amado; seu longo vestido escarlate, tão vívido quanto seus longos cabelos, a proferia uma sensualidade que jamais obtivera em toda a Grécia.
"Persephone, por favor... venha comigo, minha filha."
"Eu não posso, mãe. Aqui, ao lado de meu amado, é meu lugar. E além do mais..."
Sua argumentação fora objetivada por Hermes, sabendo que havia um impasse que mãe e filha não resolveriam sozinhas.
"Todos esperamos por você, não se torne a Hera Infernal. As terras estão morrendo com o sofrimento de sua mãe."
"Hermes, perdoe-me, mas eu pertenço a este universo."
"Não abandone sua progenitora, Persephone. Volte de tempos em tempos, para que toda a Grécia não sofra com seu egoísmo."
O olhar acalentador de Hades cruzou com os da jovem, e o mesmo envolveu-a em um abraço.
"Não se preocupe, minha pequena Core. Você pode ir quando quiser."
"Eu tornarei aos braços teus, meu querido. Quando a primeira brisa levar consigo as folhas das árvores, levará-me também para teus lábios."
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