Black Desert
26 Uma Vingança Egoísta
— "Grraaaah!"
Mesmo tentando gritar para aliviar aqueles sentimentos que se acumulavam dentro de mim descontroladamente, eu ainda sim não consegui diminuir meu desejo de fazer Gale pagar pelas coisas que ele disse e fez, tão cheio de atitude...! Ele parecia tão cheio de si para fazer esse seu mísero plano funcionar! Tão cheio de si pela certeza de que mataria esse Skrea que...-!!
De repente uma luz -uma ideia- passou pela minha cabeça! Uma ideia que contrariava completamente o que eu estava fazendo ali, mas que rapidamente me convenceu de fazê-la mesmo assim! Gale me viu como um obstáculo quando decidiu fazer as coisas do seu próprio modo, e por isso facilmente me descartou? Bem, eu não consigo concordar com ele, mas consigo mostrar à ele o que é ser realmente um obstáculo...!
Acontece que Gale está longe de ser a única pessoa nessa cidade que sabe manusear venenos -mesmo que ele faça isso muito mais por prazer e hobby, ao contrário de várias outras pessoas que eu conheço. E como parte desse grupo de pessoas, até eu também tenho minha cota de noção (mesmo que não seja quanto à produzi-los)!
A única questão é... se eu pelo menos soubesse o que ele realmente usou nesse Skrea, eu até poderia tentar bolar algum tipo de antídoto para arruinar seus planos de matar ele e outros futuros Skreas... Mas já que não tenho esse tipo de informação comigo, nem como identificar nada sem ver o reagente da solução, e muito menos o tempo para tentar fazer qualquer uma dessas coisas, eu vou ter que apelar para uma das últimas cartas na minha manga mesmo.
Não que por isso eu vá deixar de agradecer Ebraín (independente de utilizar ou não seus conhecimentos de alquimia), já que por ele ter me ensinado tanto sobre venenos, é que agora eu sei exatamente como lidar com eles -da forma que eu preferir.
Se para você Gale, a morte desse Skrea vale tanto assim, então farei questão de te dar exatamente a última coisa que você poderia querer! Porque sabe como é, mesmo que eu também não goste de Skreas, não vou concordar com você dessa vez.
"Repetindo palavras ditas hoje... "Você não vai escapar completamente ileso", Gale!"
Puxando a alça retrátil do meu bastão que estivera até agora na minha mão, eu a contornei mais uma vez ao redor do meu corpo prendendo-o novamente nas minhas costas. Essa arma é realmente muito prática para mim. Não importa o quanto outras armas possam ser mais destrutivas do que apenas esse bastão, ele tem a funcionalidade que eu preciso no dia a dia para lidar com várias situações. E como estamos juntos à vários anos já, eu posso até dizer que ele já se tornou o meu bastão de estimação. Não consigo me imaginar mais usando outro tipo de arma.
Após isso, eu olhei ao redor com cuidado, cautelosamente prestando atenção em todos os barulhos e até no silêncio ao meu redor para ter a certeza de que estava sozinho ali, e com tempo de sobra para agir -porque eu ia precisar. Eu já tinha uma confirmação muito fraca de que estava seguro, graças à calma e as palavras de Gale quando ele me ajudou a subir pela grade -as palavras de que não haviam mais Skreas atrás de nós-, sem falar no fato de que nenhum outro Skrea apareceu aqui ainda, mesmo tendo dado tempo suficiente para qualquer outro que pudesse estar na nossa cola ainda, surgir das sombras que nem esse cara surgiu, e me atacar.
Mas eu realmente não ia também depositar toda a minha segurança nesses únicos fatos, e por essa razão eu tentei continuar a manter meus sentidos em alerta total.
Tendo finalmente certeza de que o silêncio constante não era um mero precursor de um mal sinal, eu finalmente então me ajoelhei no chão ao lado do corpo daquele Skrea. Nunca lidei com um Skrea antes, mas não era como se eu precisasse saber o que estava fazendo... eu só precisava me permitir sentir, e o resto viria naturalmente...
"Assim como sempre fiz."
Eu então coloquei uma mão sobre o peito dele, que quase imperceptivelmente se retraía e se expandia com sua respiração fraca mas ainda presente. Dava para sentir também um calor vindo daquele corpo, que mesmo no meio daquele ar frio parecia não perder sua temperatura -diferente até mesmo do meu próprio corpo que já estava gelado a muito tempo, exposto à fraca brisa da noite. Até hoje acho incrível como eles têm um calor corporal desse nível... Mesmo que eles tenham tantas características de répteis, eles estão muito longe de terem algo que se diga como sendo "sangue frio".
"...É como se ele não fosse diferente de qualquer outro humano, mesmo que tudo continue me dizendo o contrário."
Minha mão então começou a deslizar pelo peito dele -sem mais adiar- movendo-se sem padrão algum sobre ele, ao que eu tentava encontrar uma coisa em especial -que apenas meus olhos sozinhos não eram capazes de encontrar. Eu estava usando minha mão como uma sonda, usando esse contato para aumentar muito mais minha capacidade de perceber tudo que estava acontecendo no corpo dele, a pulsação em suas veias, a densidade de tudo que circulava dentro dele... Tudo isso usando meu próprio corpo como um canalizador dos meus sentidos.
O que eu já fazia à distância com meu dom, mal se comparava com o que eu conseguia fazer -extremamente próximo à pessoa assim-, próximo o suficiente para que todos os meus sentidos se unissem em uma única forma muito clara e definida, fazendo com que até mesmo a mais fraca nuance se tornasse perceptível aos meus sentidos e ao meu controle.
E fazendo isso, eu então me tornava capaz até mesmo de dizer e diferenciar o que estava circulando dentro da corrente sanguínea daquele Skrea, mesmo que isso soasse quase impossível de se distinguir. Isso, só por encostar nele e me concentrar o suficiente.
"...-Achei!"
Finalmente minha mão parou ao que abri meus olhos em reação. Com certeza estava ali a maior concentração, próxima à lateral esquerda do seu peito, e também perigosamente próxima ao seu coração (ao menos acho que o coração deles fica aqui)! Era fácil distinguir aquele veneno misturado ao sangue dentro dele, porque diferente dos venenos normais que são bem suaves, esse definitivamente não era nada discreto. Sua sensação se similava à da leveza de uma bebida destilada, também parecia dispersa -como areia sendo levada pelo vento-, e muito mais abrasiva do que a maioria dos líquidos que eu conhecia, incluindo o próprio sangue. Uma sensação dessas só se conseguia sentir em venenos, se fossem cuidadosamente confeccionados... E não só isso, mas a quantidade que estava dentro dele não parecia realmente ser muita, mesmo já estando provavelmente dispersa pela corrente sanguínea. E isso realmente é preocupante... se só aquilo já está sozinho imobilizando completamente um Skrea sem que seu sistema imunológico conseguisse reagir, então...
"Realmente a potência desse veneno é tremenda. Não estou gostando nada disso, e preciso realmente descobrir como que Gale o produziu, ou onde o comprou... Se ele tiver como ter um estoque ilimitado disso, ou se outra pessoa além dele tiver acesso à isso, então não vou querer nem pensar nas consequências..."
Sem perder muito mais meu foco, eu comecei a concentrar a substância dentro dele -que já estava toda espalhada pelo seu corpo-, acumulando-a naquele único ponto, usando meu dom para recolher qualquer outra concentração que eu estivesse detectando do veneno, agora que eu finalmente sabia como ele era. E então finalmente trazendo-o todo exatamente para o ponto aonde minha mão estava repousada, como se ela fosse na verdade um ímã.
Enquanto fazia isso, com minha outra mão -sem olhar- eu alcancei a comprida adaga na cintura do Skrea, tirando-a da sua bainha. Com aquela adaga, -sem perder nenhum segundo- eu a enfiei no corpo dele, perfurando com cuidado exatamente o lugar que minha mão estava parada -o suficiente para fazer uma sangria. E devo dizer que não consigo sentir o menor arrependimento por fazer esse tipo de coisa em um Skrea, mesmo que ele esteja totalmente indefeso. Não é como se Skreas também tivessem qualquer código de honra quando lidam conosco, humanos. Eles apenas fazem aquilo que desejam fazer, e azar o nosso se o processo inteiro for desagradável.
Finalmente vendo que o ferimento começou a sangrar com vontade, eu devolvi satisfeito a adaga ao seu lugar -quase que sem a noção de que eu estava era realmente armando (sem a menor necessidade) mais uma vez aquele cara.
Ajeitando então meu corpo e me inclinando um pouco mais sobre o Skrea, eu pude finalmente posicionar minha outra mão sobre o ferimento, tentando forçar à sair apenas o que já estava contaminado pelo veneno enquanto mantinha o sangue puro ainda dentro do corpo para ele não acabar morrendo de hemorragia... (Essa realmente seria uma chance muito fácil de se eliminar um Skrea, mas eu realmente tenho que ficar me lembrando de que meu objetivo no momento é o oposto.)
Eu estava limpando o corpo dele -das toxinas- com meus poderes. (E sim, eu sei que o custo disso estava sendo ele ter uma grande perda de sangue! Mas não posso ser criticado por isso, afinal era uma pequena consequência para a vida dele se salva... Ser salva do meu jeito, e dentro da minha competência.)
De certa forma eu estou me sentindo errado com isso, e bastante incomodado por estar poupando a vida de um Skrea, afinal essa raça não poupou a vida "dela" quando a mataram na minha frente, então eu não devo nada à qualquer um deles...! Mas realmente estou disposto à fazer qualquer coisa no momento para me vingar do que Gale fez comigo -até mesmo isso! Se ele quer brincar de ser egoísta, então eu também vou brincar -usando essa "vingança egoísta" para devolver sem aviso esse enorme problema de volta para ele! E só por isso, faço questão que esse Skrea sobreviva!
"Talvez eu me arrependa disso no futuro, talvez salvar esse Skrea me ponha em perigo assim que ele acordar, talvez ponha muito mais gente também em perigo depois que ele acordar... Mas no momento também não estou nem aí, se isso for ensinar uma lição à Gale sobre subestimar a minha existência! E até mesmo sobre mexer também com aquilo que não deveria!" (Quem sabe com sorte, ele aprenda alguma lição com isso e pare de tentar complicar a vida de todos...)
Voltando a mover minha outra mão que repousava sobre o Skrea, eu distraidamente voltei a procurar mais pontos contaminados em seu corpo para ter certeza de que não restaria mais nada dentro dele. Se restasse, o corpo dele poderia voltar a ficar intoxicado antes mesmo que Gale e ele cruzem caminhos novamente, e eu não vou arriscar isso. Com essa mentalidade, eu entrei em um longo e demorado processo de filtragem, e aquele trabalho contínuo continuou durando por mais de uma meia hora sobre o forte cheiro do sangue contaminado que se formava em uma grande poça -sobre aquele corpo imóvel porém ainda vivo-, sob o frio que eu lutei para que não me distraísse, e o silêncio que eu lutei para continuar ouvindo atentamente no meio da escuridão daquele beco e da fraca luz da lua que preenchia com dificuldade as entranhas daquela cidade, sendo refletida pelas superfícies dos prédios como se ela toda fosse um gigantesco espelho.
Aquele momento sombrio e solitário aonde parecia que eu era a última pessoa que restara nesse mundo... aquele momento aonde o frio, aonde o silêncio e aonde a escuridão reinavam, foi ele o acólito de uma das minhas maiores e injustificáveis (em minha consciência) ações feitas até hoje, depois de tantos anos de cautela para sobreviver às margens de todos os problemas que testemunhei acontecerem nesse lugar, tentando jamais me envolver tão a fundo e interferir de forma tão irreversível.
Eu estava bem ali, traindo meus próprios ideais que por si só já não eram muito íntegros...
E bem lá no fundo, acho que eu sabia o quanto estava errado fazer aquilo que eu estava fazendo, e o quanto eu estava trazendo de volta algo muito perigoso -que devia apenas ser entregue à morte. Só não queria realmente ceder e admitir para mim mesmo que eu tinha que parar com aquilo antes que funcionasse. Porque como um humano, eu fui feito para sentir coisas como esse rancor, essa vingança... e como um humano, eu fui feito para cometer falhas e tomar decisões erradas, sem merecer ser condenado por isso.
"... E então, conseguir no futuro tirar a maior lição possível desses erros. Porque é assim que Grivah quis que fossemos... E é assim a forma que outras pessoas também resmungam, no momento em que mais precisam justificar seus próprios erros. Assim como eu agora também preciso, até finalmente terminar isso aqui."
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