Black Desert
13 Interrogatório
Finalmente dando as costas para Sal e Ebraín, eu me senti aliviado em ver que o homem havia me esperado para sairmos juntos... não sei se ele já estava prevendo que eu precisava pará-lo para falar a sós, mas seja por qual tenha sido a razão, eu apenas balancei minha cabeça para ele indicando para seguirmos de vez para fora. Nenhumas das poucas garotas que ainda estavam lá dentro se importaram muito em também se despedirem de mim, ao que no instante que eu estava partindo todos voltaram a se concentrar nas outras coisas que estavam fazendo... Realmente eu ganhava atenção fácil ali dentro, mas não queria dizer que eu era algum tipo de celebridade para também ter todos sempre em cima de mim... e ter essa certeza até que me fazia feliz.
Eu deixei o homem andar na minha frente para não perdê-lo de vista enquanto eu dava um pouco mais de atenção ao meu manto que estava embolado ao redor do meu corpo graças a Ebraín, quando ele o puxou... Eu tentei ajeitá-lo puxando uma parte dele para cobrir a minha cabeça sem tapar meu rosto, e assim que consegui, já me vi do lado de fora da clínica podendo fechar a porta e subir as escadas. Quando finalmente voltei a pisar na rua feita de pedra, eu pude então ver aquele homem ali parado, continuando a me esperar por consideração.
Sem perder tempo, eu o encarei indicando que precisava que ele ficasse mais um pouco antes de partirmos em caminho separados... mas para minha surpresa, quem disse as primeiras palavras não fui eu, mas sim ele.
— "Acho que não tenho como agradecer o suficiente pelo que você fez por mim... Mas preciso que saiba, que se o mínimo que eu posso fazer por vocês for jamais contar à ninguém sobre esse lugar, então é exatamente isso que eu vou fazer. Por isso não precisa se preocupar, eu vou guardar esse segredo comigo."
Ouvindo aquilo, eu fiz uma cara de surpresa. Não era exatamente aquele o assunto que eu queria tratar agora, mas eu fiquei realmente intrigado em ouvir as intenções do que ele queria me dizer até o fim.
O homem vendo que ganhou minha atenção facilmente sem precisar das minhas palavras, tomou fôlego e voltou a falar com a expressão mais séria que ele conseguia fazer sem que a fraqueza ou a dor ainda restante o atrapalhasse.
— "... Eu sabia que vocês ficariam com receio quando eu falasse da BlackHole... Não é nenhum segredo por aqui para quem conhece os trabalhos de vocês, o problema que vocês andaram tendo. Eu e minha família vivemos nos distritos e até lá já chegou a tempos os boatos de que as Feiticeiras se esconderam pela cidade para fugir de algumas gangues, e que a BlackHole era uma delas. Por isso sei que para o bem de vocês eu não devo falar para ninguém sobre esse lugar... e pretendo manter essa minha palavra até o fim. Afinal, vocês ajudam quem precisa, diferente daquelas malditas gangues não dão a mínima para nós como se apenas estivéssemos no caminho deles. É sempre assim, desde à alguns anos atrás quando a vida da minha filha também foi salva pelo tratamento que vocês Feiticeiros deram à ela enquanto ainda era um bebê...! Só para que logo em seguida vocês sumissem pela cidade sem aviso, e sem ninguém mais conseguindo saber dizer aonde estavam. Até achei que não existissem mais por culpa daquelas gangues... Mas quando você me trouxe aqui eu realmente não pude acreditar...! Pensei até mesmo estar delirando, mas agora tenho certeza de que não estou, e se continuam atuando mesmo dessa forma, sei então que pelo bem de muitas pessoas como eu e minha filha, o que vi precisa continuar à ser um segredo, exatamente como também prometi à Senhora Sal."
Ouvindo aquelas palavras que pareciam tão repetidamente misturar nostalgia, sinceridade, convicção e frustração, eu lentamente parei de prestar atenção em suas insistentes alegações, notando que na verdade eu não estava me importando com o que o homem tinha mais à falar sobre esse assunto, especialmente agora que ele acabou me adiantado o que eu precisava conseguir dele -a garantia de que ele manteria segredo-, me livrando da responsabilidade que Sal me deu e liberando o caminho para outros assuntos mais atraentes surgirem.
Claro, não vou mentir que uma parte de mim estava se sentindo muito tranquilizada, já que eu teria que tomar alguma atitude que eu nunca havia tomado antes caso esse homem apenas chegasse e dissesse "tenho que contar para todos!"... mas no instante em que ele disse "não contarei", eu já me sentia satisfeito o suficiente para encerrar o assunto por aí. Talvez até porque descobrir quem estava do mesmo lado da clínica importasse mais aos ouvidos de Sal do que os meus... eu não fazia parte do grupo então não precisava ouvir garantias encima de garantias, ao invés dela que precisava ter acima de tudo sempre a certeza de que seu grupo estaria seguro por mais uma noite...
Porém apenas após um curto silêncio entre nós dois por razões totalmente diferentes, foi que finalmente percebi que aquela era a chance de eu mudar o assunto para onde eu queria, e não perdendo mais tempo eu fiz exatamente isso!
— "Eu acredito que você fará isso. Mas preciso saber sobre outra coisa agora..."
— "Sim?"
— "Você não falou sobre isso lá dentro... O que afinal aconteceu para você ser ferido...? E o que a Blackhole estava querendo fazer nas Avenidas?"
— "!!..."
Mudando totalmente seu jeito para um de assustado, e confirmando com sua reação o meu blefe: a minha pequena suspeita sobre aquilo ter realmente acontecido nas Avenidas, o homem que até então esbanjava firmeza recuou seu olhar de modo preocupado e surpreso, tomando algum instante antes de voltar a falar qualquer outra coisa... ele parecia estar selecionando cada pensamento seu em silêncio, procurando guardar até o último instante suas palavras sobre aquilo, ao que algo obviamente não estava certo... Até mesmo pude sentir como uma distante sensação que me abordava, a sua pressão sanguínea aumentando graças à adrenalina causada pelo pânico lentamente começando a se instaurar dentro dele.
"Então realmente tem algo de errado aí, como eu suspeitei."
— "... B-bem... eles agiram como se todo o serviço fosse secreto... Nem mesmo para nós eles contaram mais do que o necessário, então eu realmente não s-..."
— "Eu sei que você sabe de algo e não quer me dizer... Do que se tratou esse serviço?"
— "... Eu... eu não posso falar sobre isso...! ...Eles falharam, é isso que importa...! ... Se eu falar mais do que isso, posso acabar me metendo em problemas...!"
— "Não é do meu interesse saber apenas se eles falharam ou não... Eu conheço a Blackhole, e ela falha muito nas coisas que tenta fazer, mas isso não muda o fato de que fizeram algo que não deveria, não é...?! Só pelo seu ferimento já está óbvio que precisaram de armas para fazer o que queriam, e isso já entrega que eles fizeram besteira. Nenhum humano anda armado na Citadela, a não ser que queira começar uma nova guerra, e eles são idiotas o suficiente para até mesmo tentarem isso! Só que eu não quero ficar adivinhando, eu quero que você me confirme logo...! Então se você realmente quer falar de gratidão por ter sido salvo, apenas abra o jogo comigo e ficaremos quites!"
O homem me olhou extremamente frustrado com a forma enérgica e impaciente com que eu o coloquei contra a parede. Eu havia pego no ponto fraco dele -aquele sentimento de querer retribuir a ajuda-, mas ele também estava com medo de tocar naquele assunto em específico, e por isso, furtivamente seus olhos começaram a rolar para várias direções evitando me encarar enquanto lutava entre todos os seus sentimentos conflitantes em silêncio, as vezes ansiosamente soltando grunhidos...
Eu não era a pessoa mais doce ou paciente do mundo quando queria algo, especialmente quando sabia que estava tão perto de consegui-lo... Para mim, se o assunto valia muito a pena ser descoberto, então eu iria descobrir não importava a forma que fosse.
Mas por sorte não precisei me esforçar mais do que aquilo. Finalmente apoiando e esfregando seu rosto em suas mãos enquanto soltava um alto suspiro, o homem decidiu me abrir todo o jogo que não abriu mais cedo baseado em suas próprias razões...
— "... É verdade, estávamos todos armados... mas eles realmente não falaram muito sobre do que se tratava tudo, apenas nos deram alguns revolveres e nos colocaram em alguns becos na Avenida próxima ao centro militar dos Skreas. Disseram para apenas esperarmos suas ordens e atirar no alvo que ia passar por aquela rua... Mesmo que parecesse óbvio de quem se tratavam os alvos, nós nos recusamos a acreditar e então apenas esperamos o momento até realmente acontecer... e... foi tudo muito rápido...! Assim que eles surgiram cruzando a rua, eu fugi de volta pelo mesmo beco, sendo atingido por alguma coisa no peito enquanto corria em meio à bagunça que se formou. Para falar a verdade, não sei se fui acertado por eles ou por um dos membros da gangue, apenas por ter tentado fugir... mas de alguma forma, pude escapar e chegar até o pátio da biblioteca, mesmo que ferido... e depois você me encontrou..."
— "E em quem afinal vocês atiraram?"
— "... Não atiramos... Quero dizer, não deu para atirar... Eles chegaram a serem atingidos por algo e eu não sei o que era, mas quando eu e os outros vimos para quem era aquela emboscada, nós todos largamos as armas e corremos, tentamos fugir no mesmo segundo já que sabíamos que morreríamos se apenas continuássemos ali. Quando comecei a correr, eu não olhei mais para trás para saber o que estava acontecendo, mas sei que não ouvi nenhum som de disparo também."
— "...E para quem era a emboscada...?"
— "...P-Para uma patrulha de Skreas. Mas por favor, não diga para ninguém que eu te contei isso!"
Contra a minha vontade, meus olhos se abriram em um espanto apreensivo, mas estranhamente algo em mim já estava pressentindo que eu iria ouvir aquilo! Eu não queria acreditar que a Blackhole era tão idiota a ponto de atacar Skreas, mas eles fizeram, e aquilo era muito sério!! Muito mais do que eu queria que fosse!
... Só existem duas razões para um humano atacar um Skrea aqui dentro: Ou ele está fora de seu juízo... Ou ele quer começar uma nova revolta. E conhecendo a Blackhole como eu infelizmente tão bem conheço, acho que com eles é mais provável o 2º caso...
Assim que ouvi aquilo, eu não esperei para saber se o homem teria algo a mais para me dizer ou não (e duvido que tivesse), eu apenas enrolei meu manto para cobrir melhor meu rosto, pegando o meu bastão das minhas costas -que estava preso por uma alça retrátil de couro contornando meu corpo-, e disse para ele antes de dar-lhe as costas...
— "Obrigado por me contar tudo isso... Bom, você está bem para voltar sozinho para casa tomando a viela principal, não é? Eu preciso ir para um lugar agora e não posso realmente acompanhá-lo... -Ah! E não se preocupe, ninguém saberá por mim que você me contou essas coisas, ou que você esteve envolvido nisso tudo. Pode voltar para casa tranquilo, muito provavelmente também a BlackHole não irá te incomodar se você não cometer o erro de voltar a procurá-los."
— "O-ok... Obrigado mais uma vez-...!"
— "Tudo bem, apenas não cometa o erro novamente de confiar em uma gangue."
— "N-Não cometerei!"
Decidido em seu tom, porém um tanto atordoado com a velocidade em que eu dizia as coisas sem nem olhar para ele, o homem me respondeu sem ter tempo de acertar seus próprios pensamentos. Eu parti deixando-o para trás com nada mais do que um rápido aceno, e comecei a andar à cada passo mais rápido pela rua de volta aos becos que contornavam o Gargalo...! Eu não me importava em pisar à frente desse problema e me envolver com o que não devia, por isso eu iria tirar essa história inteira a limpo... O que ele disse só serviu para me deixar com várias novas dúvidas que ele não saberia responder, e eu não consigo apenas ignorar o que acabei de ouvir também, apenas fingindo assim como Sal ou Ebraín que vai acabar tudo bem... Talvez até não seja tão sério quanto eu imagine essa situação, afinal não vi até agora Skreas se mobilizando pelas ruas (diferente do que eles com certeza fariam ao menor sinal de perigo), e também tiros não foram ouvido por aquele homem... Talvez os Skreas tenham contido a Blackhole e nada vá acontecer como consequência disso... Talvez seja tudo um mal entendido de um homem que estava em pânico e no meio de uma confusão... Eu realmente não sei todas as respostas, mas eu quero muito elas, e eu sei exatamente quem é que as tem!
"No pior dos casos... pode surgir novamente uma revolta... No pior dos casos."
...Já fazem 4 anos desde que houve a última revolta interna aqui dentro, entre humanos e Skreas... Um grupo idealista de humanos conhecidos por "SevenRoses" se revoltou contra a tentativa de domínio religiosa e política dos Skreas, e com isso começou uma guerra interna dentro desses altos muros.
Em resposta aos humanos, os Skreas fecharam inteiramente a Citadela até que o último traço de revolta fosse eliminado por eles sem que pudessem escapar... Mas como consequência, isso também envolveu muitas pessoas inocentes junto... Provisões começaram a ficar escassas para a maioria, e todos fomos marginalizados pelo poderoso exército deles, não importando a nossa idade, ou o nosso real envolvimento... Com isso, a própria população entregou os rebeldes para que a revolta terminasse e a cidade voltasse a ser aberta. No fim, muitas pessoas precisaram ser enterradas e esquecidas depois daqueles dias, incluindo uma pessoa pela qual eu queria ter sido capaz de ter feito tudo, apenas para protegê-la do que acabou sendo inevitável.......
"... Eu não quero pensar que uma época como aquela volte a existir..."
Aquele dia deixou uma cicatriz muito grande em todos nós Humanos, e desde então, ninguém mais deseja que ocorra tudo aquilo novamente. Por isso não enfrentamos os Skreas. Com eles, nenhuma guerra é a melhor resposta, e nem a melhor solução.
... e por isso eu quero realmente acreditar que a Blackhole não fez o que parece que fez... eles não seriam tão idiotas a esse ponto... eu espero.
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