Black Cat

1 O Gato negro


Notas iniciais
Bom... A idéia dessa fic me veio do nada quando encontrei a imagem da capa. Não sei que diabos me fez pensar que ela parecia a Anne de Because of my Blood e eu decidi escrever algo com ela.

Sério, minhas idéias geralmente vêm de músicas ou imagens totalmente aleatórias XD

Desculpem-me, espero que gostem da fic.

Era a primeira vez que caminhava por aquele lado da cidade e nunca vira um bairro tão sujo e mal-cuidado. Provavelmente outro demônio logo apareceria para irritá-la e tirar a paz do seu dia.

Lola já estava farta de ser perseguida quando menos esperava.

-Que cabelos bonitos. –ouviu e procurou a origem da voz infantil.

Tinha, sim, cabelos exóticos, de uma cor branco-prateada, lisos e que caíam por toda a extensão de suas costas; raramente alguém dizia que eram bonitos logo de cara. Pessoas mais sutis diziam que eles eram diferentes, para não falarem algo como bizarro.

Pessoas comuns não nasciam com cabelos daquela cor.

Nem mesmo albinos.

Lola sinceramente não sabia por ter nascido com eles assim, mas já passara da época em que se importava.

Nascera com cabelos brancos e olhos azuis, tão límpidos quanto o céu; além de sua aparência peculiar, suas feridas se curavam em questão de minutos. Sua mãe costumava compará-la com um anjo, mas a moça sabia que era idiotice pensar dessa forma.

-...?- notou uma menina no meio de um beco. –O que uma menininha como você faz por um lugar sujo e perigoso como esse?

-Eu estava procurando o gatinho. –a outra falou.

Era uma garota com, no máximo, seis anos de idade; seus cabelos eram longos, ondulados e de um tom castanho-claro. Sua pele era muito alva e seus traços não eram simplesmente delicados – ela parecia uma boneca de porcelana –, seus gestos também eram bem graciosos.

E tinha olhos absolutamente negros.

A moça estremeceu com a impressão que teve e meneou a cabeça, afastando os pensamentos ao se aproximar da menina e se agachar na altura dela, apoiando-se em seus joelhos.

-Onde está sua mãe? Ou seu pai?- perguntou, mas a menina não respondeu. –Alguém estava com você antes de você se perder?

-Ah, sim... –ela sorriu docemente e Lola sorriu por reflexo. –Eu tenho dois servos.

-Hm, sei. –concordou, imaginando se ela seria do tipo que se imagina como uma princesa, com cavaleiros e servos prontos para protegê-la. –E onde eles estão?

-... –ela encolheu os ombros, como se não soubesse.

-Certo... Meu nome é Lola Kincaid- apresentou-se, reiterando logo em seguida, arqueando uma sobrancelha. –E o seu?

-Anne Emilen. –a garota respondeu.

-Que nome lindo. –sorriu, olhando em volta. –Você disse que estava procurando por um gatinho, é? Ele é seu? Como ele é?

-Você vai me ajudar a procurar?- Anne indagou, empolgada.

-Claro.

-Ah, obrigada!- ela deu saltinhos, animada, e segurou na mão de Lola, que sorriu com sua reação. Nunca havia visto uma criança tão doce e graciosa. –Lola, não é? Eu gosto de você. Se meus servos aparecerem... Não vou deixar que toquem em você.

-... –fez uma careta divertida com a afirmação, então tornou a olhar em volta. –E então, como é seu gato?

-Preto. –ela falou. –Com olhos amarelos.

-Acho que devem haver vários desse por aí... –sussurrou para si mesma, concluindo que bastaria achar qualquer um e entregar para a menina. –Bom, vamos procurá-lo juntas, então.

-Quero colo- Anne estendeu os braços e Lola sorriu, dando um muxoxo divertido antes de pegá-la nos braços.

Não era pesada, na verdade, era mais leve do que imaginou quando a pegou.

Imaginou se ela estava se alimentando bem.

Caminhou por alguns becos, procurando pelo gato, e não achou nada. Chegou a um parque industrial e decidiu parar quando chegaram a uma grade. Um beco sem saída, que droga... Pensou, dando um suspiro entediado.

Então ouviu um miado.

Arqueou as sobrancelhas quando constatou que o maldito gato estava do outro lado, perto de uma retro-escavadeira em uma área de construção.

-É ele- Anne choramingou. –Pega pra mim, Lola.

-Certo... Fique aqui, bem quietinha, tá? Só saia quando eu falar. –instruiu, deixando a menina no chão antes de pular a grade facilmente.

Outra peculiaridade era que era mais atlética do que a maioria; podia escalar coisas facilmente ou aprender a maioria das lutas apenas com teorias.

Quando aproximou-se do gato e o pegou, sentiu uma presença estranha.

Um demônio. Constatou, apertando o felino contra o peito antes de saltar e se desviar de um ataque, esquivando por pouco. Ergueu os olhos e notou a enorme besta rugir para ela, no que o gato chiou e tentou arranhá-la. Droga, fique quieto.

Lembrou-se de Anne.

Quis falar para ela fugir, mas talvez o demônio a notasse e acabasse indo para o rumo dela. Esperou que o medo da menina fosse o suficiente para que ela acabasse correndo para outro lado, chorando ou algo do tipo.

Correu, no que o demônio a seguiu.

Precisava de alguma arma para se defender; com as mãos nuas não tinha chance alguma.

Achou uma barra de ferro enferrujada em uma marquise velha e, puxou-a com a mão enquanto chutava a base da mesma com o calcanhar, partindo o metal. Certo, se o demônio não morresse com o ferimento, morreria de tétano.

Ele a alcançou e a moça se esquivou de outro ataque, devolvendo um chute giratório logo em seguida.

O demônio cambaleou para trás e Lola aproveitou o momento de distração para enfiar a barra metálica no peito dele. Usou muita força e a ferrugem feriu suas mãos no ato, mas conseguiu atravessá-lo.

A besta rugiu, mas não pareceu se abater.

Estremeceu, sem saber como faria para acabar com ela se aquilo não o fez. Então o viu recuar e, se não se enganava, parecia esta com medo.

Observou o demônio fugir até sumir de suas vistas.

Então notou que Anne vinha correndo em sua direção, o que a fez pensar como ela havia feito para pular a cerca. Ah, ela deve ter só rodeado... Cogitou, dando de ombros, exausta.

-Lola!- exclamou, aproximando-se.

-Não devia ter vindo, era perigoso. –censurou-a e a menina franziu o cenho, fazendo um bico infantil em uma tentativa de parecer emburrada. –Aqui... É o seu gato?

-É, sim. –a menina sorriu docemente, aceitando o felino em seus braços.

-Cuidado para ele não te arranhar. –avisou, sentindo o alívio em suas mãos e em seus ombros, já que o animal parara de arranhá-la. As feridas começaram a se curar instantaneamente e ela não se preocupou que a menina visse. –Ah, olha, é uma gata.

Se ela visse, acreditaria que faz parte de um mundo de fantasia, onde pessoas se curam e tem cabelos branco-prateados como anjos.

E ninguém acreditaria nela.

-Que bom...! Assim posso dar o nome dela de Lola!- a menina comentou, empolgada, e Lola revirou os olhos, fazendo uma careta divertida.

Não era como se ficasse grata por colocarem seu nome em uma gata.

Mas ao menos não era uma mula.

-Vamos procurar seus servos, então. –falou, tornando a pegar a menina no colo sem que essa pedisse. –Não posso simplesmente ir embora e deixar você sozinha... É perigoso.

-Claro, claro. –Anne sorriu, abraçada ao felino.

Saíram do parque industrial e, depois de muito caminhar, chegaram a uma praça com poucas árvores e com uma vegetação arbustiva muito feia. Havia uma barraca vendendo sorvete e Lola perguntou se a menina queria um, no que esta aceitou imediatamente.

-Aqui- e entregou uma casquinha de morango para ela enquanto pegava uma de baunilha para si. Era meio que alérgica a qualquer coisa de morando.

-Pode provar, Lola II- Anne falou e deixou a gata provar do sorvete, surpreendendo um pouco a moça.

-Ah...! Não faça isso- falou. –Se a gata lamber o sorvete, você não vai poder tomá-lo depois...!

-Está tudo bem, não quero tomar sorvete mesmo. –a menina deu de ombros, tornando a agachar e estender a casquinha para o felino, que saboreou do mesmo. Então por que pediu? Lola conteve a vontade de revirar os olhos e retrucar, mas deu um muxoxo e fitou a menina. Que menina pura... Mas... Tenho certeza de que o demônio fugiu com medo de algo. Não pode ser... Ela, pode...?

-...?- arqueou uma sobrancelha, vendo a menina pegar o gato nos braços e se levantar.

-Meus servos chegaram. –avisou.

-Hm? Como você sabe?- perguntou, olhando em volta à procura de dois homens que poderiam ser primos ou irmãos dela brincando que eram servos da princesinha mimada, mas não achou nada.

-Eu só sei. –e apontou para uma sombra em um beco.

Havia, de fato, alguém lá e Lola estremeceu com a presença que vinha. Transparecia austeridade e ela temeu se aproximar; a menina, no entanto, correu até eles antes que pudesse impedi-la.

-Anne, cuidado...!- exclamou, dando um passo, mas hesitando em dar os seguintes a este.

-Está tudo bem. –a menina virou-se para ela e sorriu docemente. –Eu te disse que eram os meus servos. Obrigada por me ajudar a pegar a gatinha, Lola.

-...

-Eu gosto de você- Anne falou, palavra por palavra, sentindo o som da frase. –Quem sabe um dia a gente se encontre e podemos brincar juntas. Seu colo é muito confortável, sabe.

-Certo... Também gostei de te conhecer, Anne... –acenou, sem jeito, e decidiu que seria melhor assim.

Fitou a menina estender os braços para uma das sombras e ela a pegou no colo.

Desconfiada, mas ainda assim aliviada, Lola concluiu que deveriam ser primos ou irmãos dela antes de partir. Não se lembrava do que viera fazer naquele bairro e, franziu o cenho, foi um perigo vão.

Foi sorte o demônio ter fugido.

Perguntou-se o motivo disso durante dias, até concluir que não havia uma solução plausível ou que estivesse, simplesmente, ao seu alcance. Então deixou esse acontecimento isolar-se em suas memórias.

E logo Anne se tornou uma memória bem vaga.

*****

Anne Emilen aconchegou-se nos braços de Aurus e fechou os olhos, abraçada ao felino. O mesmo usava um traje branco, com um sobretudo da mesma cor por cima, com detalhes negros e prateados; não pareceu muito contente em saber que a menina tinha mais uma companhia para ficar em seu colo.

-Era uma mestiça. –o outro homem, Vergil, retrucou.

Usava um sobretudo azul-gélido sobre seu colete escuro e sua calça, cruzando os braços, entediado. A idéia de capturar uma mestiça apenas para ter o que fazer era tentadora, mesmo porque Anne já fora a culpada por se desviarem do plano principal.

-Vá atrás dela, ora. –Aurus franziu o cenho, dando de ombros.

-Não- Anne sibilou, despertando subitamente nos braços do demônio. –Lola é minha nova amiga. Não se atrevam a tocar nela.

-... –Vergil cerrou os punhos, irritado por receber ordens de uma pirralha.

Mas era obrigado a isso, mesmo porque não havia como se livrar dela. A infeliz simplesmente não morria, não importando quantas vezes a decapitasse, a esquartejasse e a queimasse.

-Eu falei que não deixaria que vocês a tocasse e vou manter minha promessa. –a menina afinou os olhos, satisfeita, enquanto acariciava a gata em seu colo. –Ela foi tão gentil... Acho que, um dia, vou transformá-la em minha boneca... Daí ela será só minha e será boazinha apenas comigo.

-Tsc- ouviu o estalar de língua do mestiço, sonorizando sua reprovação, mas ela decidiu que iria ignorá-lo.

-Está com ciúmes, Vergil? Não se preocupe, você é o meu mestiço favorito ainda. –Anne sorriu, no que ele revirou os olhos com o infame comentário. E, repentinamente, ela ficou séria. –Agora chega de enrolar. Já conheci o suficiente do mundo humano.

-Foi você quem enrolou o tempo todo e acabou se perdendo- Aurus franziu o cenho.

-Não interessa. –a menina-demônio fechou a cara e a gata negra estremeceu com seu toque, soltando um miado em protesto antes de se transformar em pedra e se desintegrar em milhares de pedaços. –Oh... Olha o que vocês fizeram com a Lola II...

-Vamos embora logo. –Vergil retrucou, impaciente.

-Não me dê ordens. –Anne retrucou, então limpou seu vestido dos restos da gata e aninhou-se nos braços de Aurus. –Agora podemos ir.

-... –os dois reviraram os olhos, mas limitaram-se a obedecer.

Anne sorriu, contente com o dia divertido que tivera, e fechou os olhos, permitindo-se cochilar nos braços do seu suposto servo. Adormeceu pensando na mestiça Lola e na gatinha negra, lembrando-se que teria sido melhor se tivesse transformado ambas em bonecas quando teve chance.

Agora nenhuma estava mais ali para isso.

Que pena... Pensou.

Notas finais
Adoro o jeitinho mimado da Anne, quero ela pra mim XD

Reviews? *mostra a Anne para o pessoal*
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!