Black Angel - Segunda Temporada
3 Não é impossível
Notas iniciais
O sol ainda não havia dado sinais quando entramos no apartamento de Dave, apenas alguns minutos depois da ligação. Logo que ele abriu a porta, tirei minha jaqueta grossa e Dick me imitou, jogando o casaco na poltrona.
— Está tudo bem? — Perguntei no meio do abraço
— Sim, eu acho.
— Cadê a Suzi?
— Tá dormindo, no quarto.
— Certo, então o que foi?
— Acho que tem alguém seguindo ela. Já faz uma semana.
— E você só me conta agora?
— Não soube o que fazer. Desculpa.
— Como você sabe que tem alguém seguindo ela? — Dick perguntou
— Eu vi ele pela janela do quarto dela, vi ele na entrada e na saída da festa que fomos hoje, no café, na lanchonete... O mesmo cara.
— Ele sabe que você já o viu?
— Acho que não.
— Ok, então amanhã eu o encontro. — Decidi
— Certo. Vou fazer café. — Dick caminhou para a cozinha
— Então... Como foi a festa? — Dave sentou no sofá, puxando assunto.
— Foi boa... Divertida.
— Sério? Mas vocês estavam dormindo a hora que liguei... — Um olhar. Foi o que bastou para Dave fechar a matraca.
— Como é o cara?
***
Gabriel Locken, trinta e dois anos, passagem na polícia por roubos pequenos quando adolescente. Depois do primeiro encontro com a versão menos amigável da Lis, na noite do primeiro dia do ano, deu um sumiço. Pelo menos, conseguiu encontrar o localizador que ela plantou nele e jogou-o numa das várias valas de Gotham. Foi difícil fazê-la me contar tudo isso, muito difícil. Lis tinha uma dificuldade imensa para me contar coisas, principalmente sobre a versão menos amigável dela.
Agora, quase uma semana depois desse encontro, ele ainda não havia aparecido. E isso a mantinha no telhado da casa dos Lane todas as noites. No celular da Suzi e do Dave já tinha um vírus criado por este que vos fala, só para poder rastrear o que me desse na telha.
E ela, aquela me colocava seguindo seus passos por onde quisesse, ainda me evitava de vez enquando. Quando uma mulher diz que está tudo bem, pode crer que não está.
***
O segundo assassinato aconteceu uma semana depois, antes mesmo que a SHIELD nos desse alguma informação sobre qualquer pista encontrada no corpo de Beatrice Gold. Num apartamento de classe alta, Nancy Lordello foi encontrada na piscina, com a pele enrugada, inchada e com os mesmos cortes, nos mesmos padrões, igualmente assombrosa. Cheguei ao apartamento com o uniforme de Policial Grayson, junto com a equipe de investigação.
Wallace e Lis chegaram algum tempo depois, carregando mais um agente com eles. Nada disseram para a minha equipe, apenas fizeram seu trabalho, sem olhar para ninguém, sem falar com ninguém. Wallace e Lis — que carregava um crachá com o nome Sarah Jones sobre o avental de legista — conversavam em volume baixo, o terceiro agente — era jovem, o rapaz — apenas tomava notas e tirava fotos. Depois de alguns minutos, decidiram levar o corpo, e levaram mesmo, sem comunicar minha equipe, que parecia estar avisada sobre o poder deles.
Quando a terceira morte igual aconteceu, dois dias depois, eu ainda não havia pregado o olho. Barbara e eu passamos noites reunindo pistas e investigando. Acontece que entre as três mulheres as informações cruzadas eram poucas: estudaram na mesma escola do ensino fundamental até o diploma de ensino médio. Não eram da mesma sala, apenas da mesma escola. Tinham idades próximas. A única coisa que realmente cruzavam aquelas mulheres era eu. Beatrice Gold foi minha parceira de laboratório aos dezesseis, Nancy Lordello fazia ginástica comigo — incluindo natação — aos quatorze, Adrianne Sant'Ana foi da minha turma apenas nas aulas de história, mas costumávamos nos encontrar depois da aula, uma namoradinha de um Dick Grayson de dezessete. Todas elas se envolveram comigo.
Bárbara contatou a SHIELD assim que cruzamos as informações. Tive de fazer uma lista com as garotas que eram mais próximas de mim para começar com as investigações. Uma semana depois da primeira morte e a única informação que tínhamos é que os corpos que ainda estavam na SHIELD foram próximos de mim, todos eles, de alguma forma.
***
Uma reunião foi marcada no início da tarde do dia sete de janeiro, na própria SHIELD. Esperei encontrar Dick, que eu não via há dias, longe daquela máscara que escondia seus olhos azuis dos meus olhos negros. Concordo que o nosso último encontro sem os uniformes não foi dos melhores, mas eu sentia falta dele, mesmo que omitisse isso nas ligações de cinco minutos, que eu custava a atender. Se era uma carga exagerada e orgulho ou ciúme, eu não sabia, mas já não queria mais sustentar.
De qualquer forma, quem apareceu na reunião foi Batgirl. Usando uma máscara que escondia apenas o que eu já sabia, uma vantagem minha sobre a morcega.
— O que vocês conseguiram? — Perguntou, sem rodeios. Se eu não soubesse que era Bárbara atrás daquela máscara, eu desconfiaria apenas pela acidez, que era igual tanto para Alicia, quanto para Black Angel.
— Sinto muito, Batgirl. Mas não foi muito. — Wallace coçou a cabeça, exausto. — É inexplicável. Nunca vi nada igual. Vão até os ossos, passam como uma linha reta pelos orgãos, sem desviar. O sangue completamente coagulado. E todas os cortes aconteceram no mesmo momento, pela mesma arma ou o que quer que seja. As marcas não batem com nenhuma arma que nós temos registros.
— É impossível.
— Não. Não é impossível. — Respondi
— Preciso trazer alguém aqui. Alguém que vai conseguir o que nenhum de nós pode.
— Quando? — Eathan perguntou. Agente novo, garoto empenhado que Maria designou para ficar na investigação, bem na minha cola, com ou sem a minha aprovação.
— Preciso de dois dias.
Eu não conseguia me lembrar da última vez que realmente dormi na minha casa. Uma semana dormindo de picado nos quartos da SHIELD ou no sofá do laboratório do Doutor Wallace. Então estar em casa era realmente muito bom. Cheguei por volta das onze da noite, todo o prédio adormecia quando destranquei minha porta e entrei. Um sorriso cansado escapou quando notei Dick dormindo no sofá. Ele se mexeu assim que fechei a porta atrás de mim.
— Desculpa. Não queria te acordar. — Sussurrei
— Eu só estava descansando.
— E por que não descansa na sua casa? — Não é isso o que você deve perguntar para alguém que dorme no seu sofá só para te ver.
— Eu precisava te ver. — Ele levantou, esticando os braços. Estava de moletom e camiseta e parecia exausto, mas lindo.
— Está me vendo agora. — Joguei o casaco sobre a poltrona. Ele suspirou.
— Você está mesmo brava pelo que aconteceu naquela festa? — E caminhou até mim, bem perto mesmo.
— Não. — Desviei os olhos.
— Então chega disso. — Decidiu e segurou meu rosto para me obrigar a olhá-lo. — Abaixa a guarda, Lis. — Pediu de um jeito sutil, mas firme.
Quando passei mais de um segundo sem responder, ele entendeu o meu recado, me envolveu com os braços e com um beijo doce. Estávamos queimando de saudade, mas queríamos apenas um lar para repousar.
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