Black Angel
2 Monique
Notas iniciais
Lá estava ela com seus cabelos dourados, a pele levemente bronzeada, os lábios rosados e os olhos de um tom de cinza que nunca vi em mais ninguém. Vê-la era encarar um cadáver em seu caixão, prestes a ser posto a sete palmos do chão.
–Ah, Alfred, não vai acreditar no que aconteceu! – Exclamou – Sabe o Vitor? – Confirmei com um aceno de cabeça – Me pediu em namoro! – E desatou a rir.
Arregalei os olhos, incapaz de acreditar.
– Quê?
– Falei que não ia acreditar! Pois é, ele me pediu em namoro!
Pigarreei em uma tentativa bem sucedida de recuperar a voz.
– E... Você aceitou?
– Por acaso tem algum probleminha? Ora, claro que não! Estamos juntos, não estamos, cabeção?
Olhei-a com um sorriso no rosto. Você é tão falso, Alfred!
– Ah... Vai que já enjoou de mim, uh?
– Você está estranho...
– Eu sou estranho. – Retruquei, desviando de seus olhares.
– Aceita um misto quente? Estou com vontade. – Deu de ombros.
– Vamos lá. – Sorri – Também estou com fome.
No fundo, me sentia culpado por estar enganando Monique. A loira gostava de mim, isso era obvio. O que eu poderia fazer? Também a amava, mas... Eu não podia. Se eu continuasse, ele poderia... Ele. Sentado no ponto de táxi, me olhando por cima do jornal com seu olhar de cruel diversão. Droga.
– Por aqui! – Ela cambaleou levemente quando a empurrei na outra direção, agarrado firmemente a sua mão.
– Mas o que raios há contigo? A lanchonete fica para aquele lado.
– Conheço uma melhor! – Ela resmungou algo, mas ignorei. Eu só precisava afasta-los o máximo possível.
– Seu chato!
Nós sentamos distantes da janela, logo uma música tocava. Garota de Ipanema. Ela atendeu, falando um "alô" seco antes mesmo do aparelho chegar à orelha.
– Sim, eu tenho certeza. Não... Não. Não, Vitor. Droga, eu já disse que... Alô? – Verificou o visor, frustrada.
Vitor era um idiota mimado que no fim não era nada. O odiei desde que nos conhecemos, quando chegou ao colégio em que estudávamos tentando ganhar vantagem de todos. Depois, quando Monique chegou, começou a se engraçar para ela – apesar de que a loira não parecia notar –, mesmo depois de começarmos a namorar. Há alguns meses eu me irritaria, iria tirar satisfações. Agora, apenas rezava em silencio para que um milagre ocorresse e ela me abandonasse para ir com Vitor.
– Ele é um chato. – Rolou os olhos – Mas, afinal, por que está assim? Você sempre começava a reclamar quando ele se aproximava de mim, e agora, quando ele me pede em namoro... Você simplesmente não faz nada. – Foi diminuindo o tom.
Não respondi. O garçom chegou com os sanduiches. O silencio era terrível, como se não fosse apenas uma mesa que nos separasse.
– Então... – Tentei um assunto – O misto está ótimo, né?
– Sim. – Murmurou.
– Reparou na voz de pato que ele tem no telefone?
– Você ganhou. – Riu, eu retribui com um sorriso.
Seria difícil abandona-la, muito difícil, mas era preciso. Não poderia corrompê-la, não poderia arriscar sua vida por um mero capricho. Eu tinha que salvar Monique, mesmo que a fizesse sofrer para isso.
–Isso é um assalto! Coloquem tudo que há de valor na mesa e as mãos na cabeça! – Gritou uma voz masculina. Sobressaltei-me, dando um pulo na cadeira. Rangi os dentes, o dia estava pior do que eu planejara.
–Alfred... – Sussurrou Monique, chamando minha atenção.
–Faça o que eles mandarem e ficará tudo bem, ok? – Ela fez que sim com a cabeça, angustiada.
Um homem chegou até nós, não olhei muito, mas pude ver pelo canto do olho que estava vestindo roupas negras e que segurava uma pistola. Eu encarava Monique, que mantinha os olhos fechados com força e se apertava nossas mãos entrelaçadas. Uma prece baixinha saia de seus lábios rosados, rápida e tremula. O homem recolheu o dinheiro, o relógio e o celular e partiu para outra mesa sem uma palavra.
– Sinto tanto medo, Alfred... – Murmurou.
– Está tudo bem. Está tudo bem. – Repeti, tentando acalma-la em vão. Monique não podia estar passando por isso, não agora que teria que ser firme. Não, não de novo.
–Policia! Mãos ao alto, larguem as armas!
–Abaixe-se. – Orientei.
Ficamos por debaixo da mesa, segurei sua mão.
Tiros, gritos e vidros sendo quebrados eram nossa trilha sonora. Corpos caiam sem vida em um momento ou outro, ela me abraçava com força.
– As memórias... Elas... – Murmurava baixinho, mais para si. E então o puxão, o desespero.
– Atirem e ela morre!
Os olhos cinzentos se arregalaram, a face rosada aterrorizou-se, uma arma foi apontada para sua cabeça.
–Parem! – Gritou alguém que acreditei ser um policial. Silencio.
–Solte-a. Veja, abaixamos as armas.
–Coloquem no chão.
–Alfred...
–Quieta!
–As armas estão no chão. – O policial está inquieto – Solte-a.
–Sai da porta.
Ouvi passos em direção ao outro lado do balcão e, quando o som cessou, o vi correr em direção à rua. Não fiquei onde estava e fui atrás dele e dos policiais, sem pensar direito no perigo.
Ela precisava correr para não ser arrastada, eles não estavam muito longe. Fui o mais rápido que podia, mas então parei. Aquele sentimento frio e inquietante, o arrepio de mau-presságio... E o som do tiro ecoando pelas ruas, seu corpo inerte jogado sem dó na calçada.
Grite alguns metros atrás, então corri quase me arrastando para ter a visão das manchas escarlates em seus cabelos de ouro, dos olhos fechados, dos lábios rosados entreabertos.
– Monique! Monique, droga, não morra! Pelos céus, não morra! – Eu gritava em vão, desesperado. Ela não se moveu um centímetro como de esperado e tal ato apenas resultou em dois policiais, que me arrastaram para longe.
E, num choque, os olhos violeta me vieram em mente. Era tarde demais.
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