Black And White

3 Capítulo 3 - Liberte-se Destas Trevas


Capítulo 3 – Liberte-se Destas Trevas

Eu acordo, mais um dia preso neste escuro. A cada dia parece mais que nunca sairei daqui, que nunca irei rever minha irmã. Eu encolho-me no canto, onde já me encontrava, fecho meus olhos como se fizesse diferença, a escuridão é a mesma. Lagrimas estão a escorrer de meus olhos já cansados de tantas sombras, estou em desespero, com saudades, com ódio, com tristeza.

Como se já não bastasse a dor em minhas mãos, eu aperto meus braços tão fortemente que acabo por me cortar com minhas próprias unhas, não consigo me acalmar, não quero mais ficar aqui, não agüento mais ficar um dia se quer aqui... Liberto gritos de desespero enquanto as feridas em meus braços se aprofundam e ficam quase tão marcantes quanto a dor em meu coração, mas gritar não adianta, não irei sair daqui com gritos, mesmo assim não me controlo. E as lagrimas não param, ao contrario, elas caem mais e mais a cada grito de desespero e ódio que dou. Talvez eu esteja querendo que alguém lá fora me escute e venha a meu salvamento. Sim, talvez alguém me escute! Levanto-me em um momento repentino de esperança, mas o que estou pensando? Não me lembro nem há quanto tempo estou aqui e ninguém apareceu para me ver até agora, além daquela desprezível presença de Orfus que sinto claramente de tempos em tempos, não existe a mínima chance de me encontrarem. Estou esquecido, não há esperança no coração dos esquecidos, eu li isto em algum lugar ao qual não me lembro. Sendo assim não posso me dar a luxo de criar esperança.

Aos poucos vou voltando à sanidade, não posso alimentar esperança, mas também não posso desistir até de minha própria vida não importa o quão amaldiçoada ela seja.

Meu pranto cessa ao sentir uma presença se aproximando. Orfus? És tu novamente? Retornaras para me atormentar? Mostra tua cara, covarde! Não te escondas neste escuro! Então ouço uma voz trêmula e velha...

— Meu filho ainda estás a lamentar-te?

Esta voz me é familiar, mas não posso reconhecê-la por completo. Não é Orfus e muito menos minha irmã, paro por um instante a tentar relembrar-me quem era que falava.

— Vaenê...

Sabia que eu o conhecia, ele sabe de meu nome.

— Quem és tu? Não posso reconhecer tua voz e muito menos tua face, já que nada vejo mergulhado nesta treva.

Aquela presença é cheia de ternura e bondade, tal bondade que sinto crescer a cada movimento e palavra que faço e digo. Porém ainda não sou capaz de lembrar-me.

Ele se aproxima e eu fico cauteloso, já tinha me esquecido como é sentir uma pessoa tão perto de mim, sinto sua enrugada mão em meu ombro, estava tremulo assim como sua voz.

— Vaenê, acalme-se meu filho. Pude escutar teus gritos de dor... Mas eu não deveria de ter vindo.

Do que ele fala? Conseguiras escutar mim? Mas como? E por que só agora? Estou confuso, minha mente gira como se eu estivesse no meio de um violento furacão de dúvidas. Mas não consigo falar, não consigo respondê-lo, só penso em uma pergunta...

— Por que nada vejo?

— Tu és cego, Vaenê.

Disto eu sei, sempre soube... Desde que estou neste lugar, nada posso enxergar, nem mesmo na presença da luz. Tudo pra mim é uma treva infinita que me suga para seu interior fazendo aprofundar-me cada vez mais. Minha pergunta não era sobre isso.

— Tire-me daqui – Eu disse com as mãos aos ombros daquele homem – Tire-me daqui, liberte-me destas dúvidas, explica-me o que aconteceu! Explique-me!

E sem querer me entrego em ira e sofrimento novamente, as lágrimas descem meu rosto mais uma vez e eu afasto-me dele e me encosto-se a uma parede.

— Quem és tu? Por que não me ajudas?

— Tu deves continuar aqui Vaenê. Não cabe a mim deixa-lo sair, não cabe nem a ti poder sair.

Vem-me idéias obscuras em mente e sem pensar direito avanço contra ele, não pude enxergar o caminho, então tropeço em uma das pedras do chão e caio, não faço questão de levantar-me.

— Orfus te mandou aqui para atormentar-me não foi? Ele não teve coragem de voltar e ver meu sofrimento então mandou a ti. Não foi?

Eu estava fora de mim novamente, eu sentia a bondade daquele homem, mas não queria aceitar, eu precisava descontar meu ódio em alguém, as pobres paredes não agüentavam mais escutar meus prantos e resistir meus socos.

— Tu o farás, Vaenê. Tu o farás e não poderás lutar contra isso.

Essas palavras, foram as mesmas de Orfus naquele belo dia nos campos. Este homem está do lado dele, ele está contra mim! Essa bondade que eu sinto emanando dele, não é nada mais do que uma mentira como tudo o que ele fala, como tudo o que eu sei. Nada passa de uma mentira!

Levanto-me bruscamente e ponho minhas mãos no pescoço dele, começo a apertá-lo sem piedade, a minha raiva por Orfus era a mesma por ele, pois ele estava do lado de quem me atirou neste escuro.

— Sacerdote. Por que também traíste a mim? Por que ajudas Orfus? Por que me mantém preso aqui? O que tens em mente, Sacerdote?

— Tu lembraste de mim, Vaenê. – A voz dele se evanecia comigo segurando-lhe o pescoço. – Isso não é bom meu filho. Não deves lembrar-te de teu passado... Pelo bem de Carinia.

Carinia! Minha irmã. Ela não pode saber que faço isso, eu já estou nas trevas que ela tanto teme, se me tornar um monstro do escuro matando este homem, ela nunca me aceitará como irmão novamente. Estes pensamentos me enfraquecem, e eu solto o Sacerdote permanecendo de joelhos. Posso ouvir seus passos se afastando... Espere! Ele afasta-se para longe, ele esquecera a passagem aberta. É minha chance de sair daqui!

Aos poucos eu ando, segurando-me em móveis e escorando-me nas paredes, acabo por encontrar uma porta. Estava aberta e eu podia passar, finamente sairia desta treva. Sinto a luz tocar minhas costas, esta luz me queima, no corredor a frente havia mais sombras para me proteger, então eu corro, mesmo sem enxergar nada eu corro, caio inúmeras vezes, mas não paro. A luz me persegue, e me alcança, é intensa e me machuca. Eu desacordo, novamente desacordo e caio na escuridão maior do que eu via enquanto consciente.

“Por muito tempo forçado nas sombras acabas se tornando elas e o dia serás teu oposto.”

Notas finais
review?
.-.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.