Bittersweet.

53 47.4. Bode expiatório.


Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=d-pvII3fwaE Weee

O silvo do ar chamou atenção dos ouvidos mais sensíveis, apesar de não ter esmorecido em momento algum a intensidade com a qual ainda lutavam, enquanto uns tiravam uma pausa temporária para restabelecer suas energias, apesar de não terem nem mesmo uma fonte de água potável e límpida, tampouco algo para aplacar a dor dos estômagos protestantes.

Shadow também estava no seu limite, os dias sem qualquer alimento orgânico ou uma noite de sono decente estavam cobrando seu preço sobre o seu organismo geralmente tão resistente, compartilhar energia com um ouriço hiperativo não havia melhorado em nada, enquanto sua mente parecia cada vez confusa e embaralhada.

Pensar era doloroso, então usava todas as suas forças para investir em seu principal objetivo, ignorando até mesmo o grito de apelo de Amy Rose, não era sua preocupação afinal, não chegou a se aproximar dela o suficiente para que criassem um vínculo e, mesmo que ela fosse a principal responsável por ter se lembrado das memórias sobre a promessa, não sentia que devia algo a ela.

Amy mesmo havia se afastado depois de toda a confusão do Black Comet foi resolvida, correndo para longe dele como se fosse a matar, mas não a julgava, ele sabia do que ele era capaz e achava que a escolha dela era nada menos que sensata.

Algo que principalmente certo ouriço deveria ter feito, ao invés de ter ido atrás dele oferecendo sua bunda como um troféu sujo.

Balançou a cabeça para afastar seus pensamentos, estava se deixando distrair e isso era um erro fatal. Logo após toda essa confusão ele procuraria suas respostas, custe o que custar.

Seus músculos ardiam quando ela se esforçava para se afastar, não dando as costas para seus inimigos, mesmo que quisesse, era uma atitude sensata, apesar de ao mesmo tempo estúpida, desde que robôs não tinham a programação de trapaça em seus circuitos e Eggman tivesse contrariado todas as leis da Robótica com suas criações excêntricas.

Ela apressou seu passo, não conseguindo prever o pedaço de uma viga que estava em seu amigo e caindo com tudo, com outro grito assustado, tentou se levantar, mas o máximo que havia conseguido era ficar com seus joelhos e palma da mão lhe apoiando, suas costas completamente expostas para os inimigos.

Era seu fim, nada precisava ser dito.

Esperava que sua mente repassasse em seu último momento flashbacks do que havia sido sua vida, mas nada veio. Apenas pensamentos gritantes e desesperador de socorro, sua mente estava confusa e amedrontada.

Fechou seus olhos com força, esperando que a dor não fosse tanta e que a morte a encontrasse rápido o suficiente, que não agonizasse tanto.

E então, surpreendentemente, mãos fortes se enlaçaram em sua cintura, lhe tirando do chão e a levando pelo ar.

Era um aperto forte e macio, quente, podia até mesmo sentir o perfume adocicado e suave.

Só podia ser um sonho, sua imaginação lhe poupando da tortura da morte e do desespero paralisante de se estar morrendo, mas então, seus pés tocaram o chão, depois de uma sensação fresca de se estar voando.

Seus olhos se abriram e logo em seguida se arregalaram.

O grito de socorro de Amy não passou despercebido a certo ouriço cobalto, seus olhos esmeraldas olharam aos seus arredores agoniados, seu coração apertado por reconhecer tão rapidamente de onde vinha o grito. Olhou para o corvo, mas não era fácil decifrar o que sua expressão significava, poderia muito bem ser uma notícia ruim, quanto uma boa. Já o gato estava recostado na parede, ignorando a sujeira que certamente se impregnaria em seu terno juvenil.

— Ela está bem. — O jovem disse com desinteresse, mas sua frase carregava certeza absoluta, mesmo que seus olhos mal tenham se movido para olhar na direção em que a luta acontecia.

— Eu sou tão egoísta. — Sonic sussurrou baixo, consigo mesmo enquanto suspirava se encolhendo de sua posição ainda sentada, lágrimas insistiam em permanecer em seus olhos, ele olhou para os destroços ao redor, do que antes era uma casa.

— Achei que já tivesse tido essa conversa. — O gato retrucou com sua expressão perfeitamente vazia. — Proteger algo que sequer tem uma defesa própria deveria ser sua prioridade. Isso para mim é altruísta. Se não quisesse lidar com o fardo, matá-lo-ia. — Deu de ombros enquanto seus olhos azulados olharam para o campo de batalha, o sangue sendo substituído por metal retorcido, fiações destroçadas e óleo. Ele parecia não se afetar tão facilmente, olhando a cena com tédio, até que seus olhos captaram um vulto azul e castanho, seus olhos se arregalaram.

Não... Não poderia ser.

Não poderia ser possível, mas seu corpo pulsou com a verdade.

— Sebastian... — A voz dele soou rouca e baixa. — Cuide dele. Tenho algo a fazer.

— Mas, mi lorde... — O gato lhe deu um olhar gélido.

— Fique. Aqui. — Ele cuspiu as palavras com uma seriedade, tal autoridade que o corvo não podia contestar.

— Sim.

Ele foi para a luz, indo diretamente para a morcega que estava encurralada, mas que parecia se divertir com isso, como se estivesse descontado alguma espécie de raiva acumulada, até que ela piscou e olhou ao redor confusa, antes que pudesse formar as perguntas, um pequeno vulto estava do seu lado, garras expostas e um olho azulado olhando para ela com uma expressão completamente o oposto de outrora. Não carregava superioridade, tampouco parecia estar contra ela. Ambos naquele momento tinham uma cumplicidade forçada, logo mais dois se juntaram a eles, com um rosto novo de olhos dourados caramelo que estavam confusos e desconfiados.

— O que significava isso? — Rosnou para os três com os olhos dourados em fendas, desconfiança e confusão estampado neles.

— O Chamado do dever. — Foi sua única resposta, vinda do rato que estava terrivelmente sério.

A situação parecia ter adquirido um nível de seriedade que nenhum deles conseguia escapar. Estavam ligados por um fio invisível, corte um e todos pereceriam. Espio não sabia, mas seu destino já havia sido selado no momento em que nasceu preso a um dever que não sabia nem que existia, sua vida havia acabado de mudar.

Mas ninguém saberia dizer se era para melhor ou pior.

E nem tinha condições de perguntar.

Diante de si estavam um grupo aparentemente desorganizados de mobians, uma enorme morsa roxa claro estavam com uma espécie de canhão no braço direito enquanto um dispositivo estava em seu rosto, um pequeno ecrã verde semitransparente mostrando números e palavras em uma ordem que ela não sabia.

Ao lado deve tinha uma coelha caramelo com cabelos loiros brilhantes presos em um rabo de cavalo alto, seu braço esquerdo e metade inferior do corpo eram metálicas e ela tinha os olhos azuis mais claros que já tinha visto antes, a coelha se sorriu com educação, enquanto percebia seu olhar sobre ela, analisando-a curiosamente e mordendo a língua para não perguntar-lhe como conquistou as próteses. Ou se ela havia consentido com a aplicação.

Um coiote estava do seu lado, de uma pelugem bege mais escura que a coelha, uma franja loira em sua testa que ela supôs tratar-se de uma peruca, estava estranhamente fardado com vestes finas e bem caras que só imaginava que guardas da realeza usavam ou talvez ele fosse um e ela desconhecia.

Ao lado estava um gato castanho escuro com orelhas pretas, com olhos castanhos claros e uma postura animada, ele se remexia desconfortável, olhando para todos os lugares possíveis, parecia prestes a ter um ataque de ansiedade.

Uma loba com pelagem roxa acinzentada estava um pouco distante, seus cabelos eram pretos com uma mecha branca, formando uma trança por suas costas, ela parecia ser o membro mais velho do grupo, com uma evidente cicatriz abaixo do olho direito, ela tinha o olhar azulado sério e concentrado enquanto percebia que estava sendo observada por ela, seus olhos se alternando para todos os lugares, não por ansiedade, mas por autodefesa.

Quase escondido pela loba, havia um lobo laranja de olhos dourados, ele parecia ser uma recente aquisição, desde que seus olhos pareciam assustados e parecia querer estar em outro lugar, ele apertava o ombro da loba, como se estivesse terrivelmente com medo.

Olhou então para seu salvador, ou melhor, salvadora. A esquila estava trajada com shorts e top esportivos azuis, um cinto estava em sua cintura com um aparelho que parecia um rádio comunicador, mas de coloração metalizada, ela lhe sorriu com olhos azuis brilhantes e brincalhões.

— Acho que estamos quites. — Ela brincou, enquanto a soltava, seus pés trêmulos cambalearam para frente, ainda instáveis.

— Isso... Como... — Ela estava sem fôlego, a experiência havia sido quase traumatizante, mas o resgate tinha um teor de aventura que a deixou sem fôlego.

— Temos nossos truques. — Ela brincou, apontando para o dispositivo que estava preso ao seu braço enquanto estava recolhendo a corda recém usada.

— Obrigada! — Amy disse sinceramente, seus joelhos cederam, não suportando mais. A esquila fez menção de dar um passo à frente, mas a ouriça estendeu a mão, em um sinal para que passasse. — Eu estou bem, só cansada. — Explicou, sua voz refletia o cansaço em suas palavras.

A esquila lhe olhou preocupada por um momento, antes de falar em um tom levemente compreensível.

— Não tem muita experiência com batalhas, sim? — Ela perguntou compreensiva. O rosto de Amy ardeu em constrangimento.

— Eu era mais sequestrada. — Admitiu, olhando para o piso cimentado do prédio em que pousaram. — Não tive experiência de luta, mesmo tendo vontade. — Não sabia por que sentia necessidade de se explicar, mas as palavras saíam com tanta facilidade que simplesmente deixou que viessem.

— Se não é uma lutadora, por que está aqui? — A voz da esquila não traía repulsa ou zombaria, apenas estava curiosa, afinal seu histórico não era muito compreensível.

— Eu quero lutar. Tornar-me forte e poder me defender sem precisar ser salva. — Disse em um jato de palavras, não tinha o tom animado e sonhador que geralmente usava ao proferir tais palavras, parecia seriamente firme. — Há algum tempo eu queria impressionar alguém, mas agora — tomou fôlego, seu coração deu uma batida dolorosa — quero ser forte por mim mesma. Defender e ajudar os fracos, porque um dia fui uma.

Sally olhou para ela surpresa, o jorro de verdade deixando-a sem palavras.

— Eu já tive uma fase assim. — Admitiu a esquila, olhando para o céu. Com nostalgia. — Eu me refugiava em uma ilha bem ao sul de South Island, meu pai estava sob ataque, a guerra ainda não tinha terminado, embora estivesse em um nível menor, mas ainda assim tive que me esconder, meu irmão e minha mãe se separaram de nós. Meu pai ficou para defender nossa casa, eu cresci junto de minha babá.

“Havia um garoto que morava perto, brincávamos muito no verão, eu era criança, mas gostava dele e queria de alguma forma impressioná-lo. Mas antes que eu pudesse fazer alguma coisa, a guerra de que fugíamos chegou nessa ilha, na verdade não era uma guerra, mas um macho overlander. Eu e minha babá nos escondemos no porão da nossa casa, tínhamos alguns suprimentos para durar alguns dias, nosso rádio ainda operava.”

Amy levantou a cabeça para ela, seu rosto demonstrava compreensão e admiração.

— Rosie e eu dividíamos tudo o que tínhamos por um mês, sem nem mesmo sair para a luz do sol, quando saímos vimos a destruição. Casas destruídas, onde meu único amigo morava, só restou cinzas. — A história emocionou Amy, assim como ela percebeu que a esquila tinha seus olhos úmidos. — Eu era uma criança, não podia lutar contra toda essa opressão, mas me arrependo de tê-lo deixado sozinho. — Ela deu um sorriso trêmulo.

Amy se levantou decidida, mesmo que seus músculos estivessem queimando e sua perna doendo, virou para a esquila e, com sua costumeira rapidez e imprevisibilidade, abraçou-a. Tão forte quando ela conseguia, mas lembrando-se de não exagerar no ato, pois sabia que poderia involuntariamente machucá-la.

O abraço durou apenas um curto período, mas carregava inúmeros significados.

— Esse é Rotor, nosso gênio inventor. — Ela sorriu ao aponta-lo, ele retribuiu o gesto com um envergonhado. — Essa é Bunnie, nossa lutadora ciborgue. — Apontou para a coelha de collant rosa claro e próteses mecânicas, Bunnie lhe sorriu e levantou o polegar, lhe piscando.

Amy sorriu para ela retribuindo o gesto, parecia ser uma boa pessoa, com uma aura energética.

— Antoine, nosso corajoso espadachim. — Ela apontou para o coiote revirando os olhos, como se estivesse internamente se divertindo.

— Enchanté, mademoiselle. — Ele colocou a mão no peito, se curvando na frente dela, levantando a cabeça e lhe sorrindo educadamente.

Ela piscou ligeiramente lisonjeada e não esperando um tratamento assim, principalmente quando ainda não o conhecia.

Sally parecia ter revirado os olhos ao ver a reação cortês dele, como se fosse algo desnecessariamente usual.

— Lupe, nossa guerreira estrategista. — Apontou para a loba negra com um ar maduro e sério. Ela apenas assentiu quando seu nome foi citado. — E nossa mais recente aquisição, Rookie e Dortmund. — Apontou para o lobo encolhido atrás de Lupe e o gato ao lado da dupla de lobos. Rookie espiou por detrás de Lupe, dando-lhe um mínimo sorriso temeroso e Dortmund lhe ofereceu um sorriso nervoso.

— Prazer em conhecê-los. — Ela acenou no final da apresentação.

— E essa é Amy Rose, quem eu falei que resgatou minha bolsa e deu um jeito no ladrãozinho. — Ela deu um meio sorriso significativo, eles pareciam saber sobre ela, até mesmo possivelmente motivo de assunto entre o grupo.

— Ocê num é a namoradinha do ouriço bonitão? — Perguntou Bunnie e tão logo as palavras saíram de sua boca, Amy já parecia não ter achado mais a coelha legal. — Vi ocê nu jornal. — Ela tinha um forte e evidente sotaque do sul, como quem trabalhava no campo.

— Amiga — Amy corrigiu rapidamente, seu peito apertando por ter suportando a mentira por tanto tempo, mas aliviada por finalmente usar o adjetivo certo, finalmente — não sou namorada dele.

— Ocês terminaram? — A coelha perguntou com uma expressão compreensiva, a voz saindo terna.

— Bunnie! Que piensas que estàs haciendo? — Lupe repreendeu com seu sotaque espanhol forte, olhando para a coelha com olhos azuis sérios e duros.

— Não, não! — Amy sorriu quando a ideia repentina preencheu sua mente, sorriu para eles enquanto falava tranquilamente. — Na verdade é uma brincadeira entre a gente, sabe? A gente se diverte com isso, mas nós somos quase irmãos. — Ela disse tranquilamente, surpresa interiormente por sua capacidade rápida de bolar desculpas, saiu tão calma que ela acabou ficando admirada com a falsa sinceridade que saiu por seus lábios.

Felizmente, o assunto morreu ali e ninguém mais voltou a perguntar.

— Você é bem rápida! — Amy elogiou, enquanto olhava para Sally, o elogio sincero, embora ainda carregasse o pretexto de não deixar que o ‘assunto Sonic’ voltasse.

— Não, que isso! — Ela olhou para cima enquanto coçava a cabeça, parecia estar constrangida com o elogio. — Na verdade foi graças ao dispositivo do Rotor que consegui chegar até você a tempo, seus amigos estavam longe demais para poder ajudar, eu... Senti que tinha que fazer alguma coisa. — Pelo tom de voz parecia que estava lutando com as palavras para admitir algo que parecia vergonhoso, como uma fraqueza irritante. Ela deu um sorriso tremulo.

— Isso foi muito altruísta de sua parte, eu apenas salvei sua bolsa... — Amy olhou para baixo, constrangida também. — E você salvou minha vida...

— Na verdade... — Sally começou lentamente. — Na minha bolsa tem documentos importantes... Eu estava indo ter uma reunião com minha sócia e o novo comandante da GUN sobre a Fundação Knothole, já que não é uma organização totalmente autorizada pelo governo e independente, estávamos indo debater se iríamos oficializar ou uma negociação favorável...

— Fundação Knothole? — Amy perguntou surpresa.

— Ah... Me desculpe... — Ela olhou para baixo por um momento, seus olhos arregalados encaravam seus pés, incrédulos, sua feição em ligeiro choque. Bunnie olhou curiosamente para a esquila por um momento.

— O que foi? Por que me pediu desculpas? — Amy perguntou alarmada, deu um passo em direção a esquila, um incerto e assustado passo, sua mão estendida em um movimento totalmente involuntário.

— Acabei falando demais, não é muito comum acontecer. — Deu um sorriso sem graça. Enquanto se afastava dela, seus olhos azuis olhando para longe, onde seu olhar cruzou com outro carmesim, o reconhecimento havia feito arrepios percorrerem seu corpo.

— Não precisa se desculpar. Não fez nada demais. — A voz confortadora de Amy havia feito com que a esquila desse um sorriso.

Mas em seu interior sentia-se extremamente surpresa, o sentimento novo de confiança que sentia pela ouriça rosa lhe veio tão de repente que sentira necessidade de compartilhar, sem nem mesmo ter-se um segundo pensamento, como se uma força misteriosa lhe impulsionasse a agradá-la ou, pelo menos demonstrar de forma mais direta a confiança que já depositava nela, apesar de apenas lhe ter visto uma única vez.

Custava-lhe a admitir que a memória daquele encontro ainda permanecia gravado em sua memória, sendo reproduzido variadas vezes quando involuntariamente permitia que sua mente vagasse.

Não entendia o que estava acontecendo consigo, seu corpo estava respondendo de forma inesperada, mais do que ela alguma vez esperava. Tentou reprimir a emoção antes que tomasse conta de sua mente e influenciasse negativamente suas escolhas e decisões, ela não poderia se dar ao luxo de agir por impulso ou sem antes ter analisado todos os pós e contras.

Não era só apenas sua vida que estava em suas mãos e o peso de todas as suas responsabilidades escorriam por suas costas como ácido, fazendo com que todos seus passos devessem ter alguma premeditação, não era nenhuma adolescente e tudo o que fazia carregava consequências amargas.

Tirou do cinto que rodeava sua cintura um aparelho que mais parecia um celular com tampa que escondia a tela e o teclado, amarelo. Seu olhar estava concentrado naquele momento, preferindo deixar o episódio de seu lapso para outro momento, não tinha tempo para se questionar e nem pensar muito a respeito sobre algo que estava além de seu entendimento e preferia lidar com seu pessoal em outro momento.

— Nicole? — Chamou com uma postura totalmente diferente da que Amy havia visto nas duas oportunidades, parecia outra pessoa totalmente concentrada, focada.

— Sim, Sally? — Uma voz que parecia feminina soou sem entonação, as palavras eram robóticas e de forma alguma parecia que a esquila estivesse conversando com alguma forma de vida humana.

— Faça uma busca sobre possíveis pontos fracos do robô. — Sally ordenou. Amy olhou assustada para a esquila, horrorizada. Isso não era modos de pedir alguém um favor! Era muito frio e sem nenhuma educação.

Com o display a mostra, uma imagem holográfica começou a se mostrar, era um lince feminina de pele bege com manchas pretas, cabelos negros e um vestido lilás sem mangas, o pequeno rosto da projeção holográfica se franziu por alguma razão.

— Não consigo. — Respondeu por fim depois de um breve momento. — Parece estar protegido por algum campo magnético ou uma bolha refletiva. Meus sensores não alcançam.

— Não há nenhuma forma? — Sally perguntou com a voz mais estressada, como se estivesse culpando algo pela falha da mulher holográfica.

— Lamento, Sally. — Algo na expressão da lince não parecia certo, como se ela fosse incapaz de compreender o significado da palavra a qual acabara de pronunciar. — A menos... — Ela hesitou por um tempo, embora seu tom não houvesse mudado. — Que derrubem a interferência ou eu esteja em contato direto com o robô, assim poderia fazer uma varredura ou até incapacita-lo.

— E teria efeito? Você ficaria muito vulnerável... — Sally falou preocupada.

— É um risco, não creio que ele tenha algum antivírus na maquinaria, ele não sabe sobre mim ou o que faço, mas se algo der errado parte de mim na central de Knothole irá reiniciar, tomei medidas de segurança, de alguma forma teríamos que tentar.

— Derrubar a interferência... — Sally murmurou pensativamente, seus olhos correndo pelo campo de batalha, para os mesmos olhos carmesins que antes lhe tinha causado arrepios.

Esses mesmos olhos perceberam logo que estavam sendo observados e seus olhares se cruzaram no mesmo instante, uma fala interrompida já esquecida. A urgência poderia ser sentida mesmo a distância enquanto o rosto se franzia.

Precisava de alguém com experiência e capacidade para armar um plano.

Alguém que lhe obedeceria sem qualquer questionamento em um momento de alto risco e odiava reconhecer que poderia tomar a liberdade de alguém devido ao poder do sangue.

Alguém que tinha como dever servir incondicionalmente sua família.

Mas que escolheu ser um traidor.

— Não vamos poder usar as forças da G.U.N nesse lugar — murmurou Mary pensativa.

— E qual o problema? — Perguntou o gato olhando impaciente para ela.

— Algum campo de força magnético atrapalha a comunicação, seria como mandar gado ao abate. Desperdício de força militar. — Ela explicar direta e curta, sem se importar muito em como suas palavras seriam absorvidas.

— E provavelmente não tem um plano? — Pressionou impaciente, seus olhos azuis acinzentados inquietos.

— Ainda não. Preciso pensar antes de tudo. — Fez uma careta. — Não ajuda muito que ainda sobrasse tantos robôs, o que ele tem? Uma fábrica siderúrgica? — Sua voz saiu alterada, estava irritada com essa situação, mas já tinha escapado de situações piores, mas era diferente.

Várias vidas dependiam de suas escolhas de decisões. Abraham não teria um plano de toda forma, mas dariam ordens óbvias. Precisava de alguém que seria um líder nato, alguém com uma visão muito mais apurada...

— Mestre, você tem um plano, está na ordem do que somos.

O rato deu um sorriso presunçoso em seu focinho cinza escurecido, ele parecia bem diferente da sua persona, como se estivesse nostálgico por estarem pedindo sua ajuda em um mm de crise.

“É claro! Ele é um dos originais da formação! É claro que ele sabe como reverter a situação ao nosso favor.”

— Não seja presunçoso, Splinter, estamos sem tempo. — Mary cruzou os braços no peito, seus olhos vermelhos mais acentuados, como sangue fresco.

— Primeiramente executora, precisamos de um bode expiatório. — Ele assumiu uma postura séria, os braços cruzados nas costas enquanto caminhava em linha reta, olhando-os nos olhos.

Mary conhecia aquela pose, aqueles gestos e aquela voz. Era comando, ordem. Exigia respeito. Era a pose que sempre usou com seus subordinados e agora estava sendo usada contra si novamente, não deixou que esse detalhe incomodasse seu ego, em um grau militar, Splinter era o veterano ali.

— Eu posso dar conta disso. — Mary assentiu para si mesma e para o rato que lhe olhava com cautela.

— Não sei muito bem, você sabe, você perdeu seu título, deserdou. Não sei se valeria a pena sacrificar sua vida aqui e agora. — Splinter balançou a cabeça, apesar da postura séria, seu tom paternal era muito evidente.

— Ela é uma traidora, desonrou-nos, sua vida é o mínimo que nos deve. — O gato azul petróleo grunhiu entredentes, com asco.

— Não vamos falar de traição aqui, Skye. — Mary olhou para o garoto e lhe deu um sorriso. — Vocês, os Ghosthive, eram os mais próximos e o que fizeram? Se esconderam e nos deixaram à própria sorte. Você perdeu tudo? Grande novidade. Também perdi. Ninguém me estendeu a mão. Quem são os traidores agora?

— Isso não vai levar a nada. Discutir agora só vai diminuir o foco, não sei porque estou aqui, mas se é para ficarmos brigando como crianças, fracassaremos. — Espio se manifestou depois de tanto silêncio vindo dele, seus olhos dourados sérios, os braços cruzados no peito e balançava a cabeça.

— Eu não quis nascer nessa família. Nenhum de nós escolheu. Somos quem somos. — Mary falou com um suspiro. — Quando for mais velho, Skye, talvez me entenda.

— Que seja.

Splinter pigarreou, enquanto olhava para Mary e depois apontou com a cabeça para um grupo que chegava perto deles, a formação familiar.

— Sally. — Ela cumprimentou, sem formalidades. Não tinha permissão de revelar quem era de fato, mas os quatro ali presentes sentiam.

— Nicole me informou que há um campo de força aqui impedindo-a de operar. Precisamos encontrar alguma brecha nele para conseguimos desativar as máquinas. — Sally falou baixo enquanto estava bem perto deles.

— Sim, eu notei. Estão bloqueando os sinais de comunicação. Não consegui contatar o quartel. Ômega também não. Não sei se Nicole consegue contatar alguém de fora.

— Posso ver se consigo alguma—

— Sally? — A voz robótica soou de seu dispositivo, a esquila fez um gesto com as mãos em sinal para que lhe deem licença.

Ela se afastou alguns passos, caminhando em direção a Ômega, começou a gesticular para o holograma translucido que aparecia.

— Tem algo estranho. — Mary começou de repente, pensativa.

— O que não está estranho aqui? — Skye revirou os olhos, a expressão se fechou.

— Quando Splinter falou de ‘bode expiatório’, me lembrei de algo... — A morcega começou a andar de um lado para o outro, como se estivesse ansiosa. Nervosa. — Eu não tinha prestado atenção antes, mas agora faz sentido. O garoto, Miles Prower. Ou o que era para ser ele. O avião estava perto demais para parecer que o garoto era inimigo de Eggman. Era um robô, E123 me afirmou isso. Mas por quê?

“Não tinha dado atenção. Mas agora faz todo sentido! Dr. Eggman não era idiota para atacar o Miles real, mas uma réplica cairia bem, lhe seria muito útil! É por isso que não está agindo no habitual, ele espera algo. Quer algo. O garoto era uma espécie de chave, um gatilho. Estudei parte da ligação dos dois, a raposa é tão importante para ele que chegaria a ficar louco se algo acontecesse...

Quando houve a discussão dos dois, algumas semanas antes. Eu pude ver, não é algo leviano, uma amizade rasa. Tudo o que Miles sente e pensa é importante para Sonic. Ele teve uma crise nervosa muito séria quando discutiam, eu presenciei seu estado. O garoto é uma das pessoas mais importantes para o ouriço.

Foi que eu percebi. Dr. Eggman sabia disso, ele conhece Sonic muito mais do que o ouriço pensa, conhece seus pontos fracos.”

— E o que ele ganha com isso? — Espio perguntou com preocupação, olhando para a morcega enquanto os outros dois olhavam em silêncio para ela, sem expressão.

— Ele quer quebrar o espirito de Sonic. Fazê-lo perder a cabeça. Ele quer o controle sobre ele, sem ele, Dr. Eggman não é nada. Ele quer Sonic do seu lado. Ele quer que ele se descontrole e baixe a guarda. Argh! Eu fui burra em não ter percebido essa droga!

— Nicole disse que o campo de força é feito por sons, duas frequências diferentes. De ambos os lados do campo, uma frequência que ela não consegue identificar. — Sally voltou com a testa franzida.

— Binaural. — Mary falou sem pestanejar.

— Conhece? — Sally a encarou desconfiada.

— Há três anos, tive uma missão de reconhecimento em Holoska. Havia um dispositivo que usava esse tipo de ondas para burlar o monitoramento da GUN. Era um laboratório clandestino. Estudamos o tipo de dispositivo e era muito potente. Podia até mesmo distorcer a percepção das imagens que o cérebro lê. Uh...

— Então estamos sob esse efeito? Uma espécie de distorção? — A esquila parecia admirava, mesmo contra sua vontade, encarando a morcega como se tivesse todas as respostas do universo.

— Temos que destruir essa coisa. Agora. — Mary pronunciou entredentes, ameaçadora.

— Nicole disse mais algo... — Sally olhou para todos do grupo, encarando um por um com uma intensidade cautelosa. — Ele não está sozinho.

Notas finais
me amem