Bittersweet.
33 33. Aceite, Blueboy.
Notas iniciais
Ao mesmo tempo em que se sentia feliz, um toque de pânico começava a se alastrar por suas entranhas, retorcendo seu estomago e o fazendo se sentir novamente enjoado.
Aos poucos a realidade da notícia se acomodava em sua mente e o brilho de felicidade de poucos minutos atrás abriu espaço para uma expressão genuína de choque.
— O... que...? — As palavras se demoravam a sair de seus lábios, como se estivessem presas em sua garganta, incapazes de serem pronunciadas sem grande esforço.
Seus olhos verdes se ampliaram tanto que pareciam que iriam saltar de seu rosto e uma de suas mãos foram possessivamente para seu ventre onde havia um porém minúsculo volume, somente sendo percebido com olhares próximos e com o toque dos dedos. Agora que a notícia estava ganhando peso em sua mente, parecia que de um momento para o outro ela fosse se expandir em razão alguma e rapidamente, esse pensamento insano fez com que ele fechasse os olhos com força.
— Sim, ouriço — a voz da Mary soou firme em algum lugar próximo que ele não podia ver, mas ela não estava mais ao seu lado. — é o que você está pensando. — Ela concluiu com uma voz mais suave, cautelosa e até mesmo tranquilizadora.
Porém apesar da tentativa da morcega, parecia que seu mundo havia se retorcido novamente, não sabia se ficava feliz, desacreditava ou se entrava em pânico. Talvez os três juntos. Era como se outra imensa bomba tivesse sido jogada encima de si, como se o destino estivesse sendo traiçoeiro ao mesmo tempo que generoso, lhe mandando não um, mas dois presentes.
E ao pensar nessa ideia, ele não podia deixar de sentir medo. E se não conseguisse cuidar deles? E se não conseguisse ser uma boa mãe? Eram tantas perguntas em sua cabeça, torturando-o de diversas e cruéis formas possíveis, porém a única pergunta que consegui forçar seus lábios a pronunciarem fosse talvez a mais estupida e idiota possível:
— Como? — Seus olhos se abriram desesperados, um brilho de medo cintilava os olhos verdes que pareciam mais que torturados, procurava a morcega, como se ela pudesse lhe responder todas as dúvidas que preenchiam sua mente.
— Honestamente, Sonic? — Ela perguntou retoricamente, soltando um suspiro tenso. — Eu sinceramente não faço a menor ideia da razão, talvez fosse algo genético, talvez fosse algo relacionado a ouriços, eu não consigo afirmar. — Ela parecia estar desabafando e não respondendo uma dúvida. — A verdade é que seu caso é muito mais delicado do que eu podia prever, me surpreendo de que ainda esteja tudo bem consigo depois de seu ataque nervoso, dado o fato de que agora, nesse estado você está mais sensível e muito mais delicado que antes — ela tomou uma respiração profunda enquanto o encarava de forma intensa — a chance de hermafroditismo no meio mobian é de 0,25%, para simplificar, para cada 400 mobian, um nasce hermafrodita. Como eu sei? Tive que pesquisar muito. Alguns dados eram incertos. Não faz ideia do tempo que levei...
Ela se sentou novamente ao seu lado, sua mão esquerda tocou por cima da mão protetora em seu ventre, seus olhos castanhos eram cautelosos, como se estivesse concentrada em algo que ele não sabia.
Depois de um tempo assim, ela continuou com calma, quase como se tivesse decorado as palavras que iriam dizer.
— A chance de nascer um hermafrodita como você... — Ela prosseguiu com calma. — É de apenas 0,0625%, Sonic. A cada 1.600 mobians, um nasce sendo um verdadeiro mesmo com corpo externo masculino, a chance de alguém como você, ouriço, é muito rara e difícil, como eu disse alguns dados eram incertos, não eram todos que conseguiam descobrir o que eram ou se sabiam se escondiam, a sociedade não era gentil com eles, nem mesmo entre nós, mobians. — Apertou a mão dele que segurava, quando o sentiu estremecer.
— Admiro sua forma de confortar alguém. — Ouviu a voz vindo a porta, Rouge estava confortavelmente escorada no batente, seus braços cruzados despreocupadamente enquanto um sorriso irônico brincava em seus lábios pintados de batom. — É realmente muito calmante. — Completou sarcasticamente enquanto saia de sua postura na porta e andava até a dupla, seus quadris balançando sensualmente.
— Rouge. — Mary cumprimentou casualmente, ignorando o sarcasmo da morcega, sua postura não mudando nenhum centímetro, como se não estivesse interessada na presença da morcega.
— Blueboy... — Ela disse com a voz tão doce e calma que ela poderia ter, mesmo soando terrivelmente falso vindo dela. — Mary te contou, não é? — Ela sorriu, dessa vez descartando a expressão anterior e encarando-o com os olhos aqua cristalinos cheios de genuína preocupação.
— Você sabia! — Sonic acusou, seus olhos se estreitando para ela de forma perigosa, sua voz era rouca, levemente tremida enquanto ele se esforçava o possível para acalmar o choro que sentia que vinha novamente.
— Claro. — Ela cantarolou sorrindo, abaixando-se de frente para ele, levantando a cabeça enquanto suas mãos usavam o joelho de Sonic para apoiar. — Você precisava relaxar e descansar antes de qualquer coisa. Não tínhamos certeza de que poderia haver a possibilidade de gêmeos, então eu tinha que ficar de olho em você.
— Como se sente? — Mary perguntou calmamente, olhando para Sonic com os olhos analíticos.
— Eu... Não sei. — Suspirou fechando os olhos, Mary retirou sua mão que estava sobre a dele, dando espaço para o ouriço enquanto sua postura tornava-se tensa. Embora Sonic não tenha notado nada diferente, perdido em pensamentos como estava. — É tão... Assustador. — Admitiu com um suspiro. Olhou para baixo, se esquecendo que Rouge estava agachada em sua frente olhando para ele com uma expressão relaxada, como se estivesse esperando algo assim. — Se eu já estou assustado com um... Eu não sei como vou conseguir... — Se interrompeu, um soluço escapando por seus lábios enquanto tremia levemente. — É tão... Tão... — Não conseguiu completar, as lágrimas escorriam por seus olhos, desciam por suas bochechas e molhavam seu torso.
Rouge se ergueu com calma e passou os braços pela cabeça dele correndo os dedos pelo emaranhado de espinhos de sua cabeça, que apesar de ter sido pego de surpresa, relaxaram ao seu toque, desolado ele passou os braços pela cintura da morcega, abraçando-a desajeitado.
— Não precisa ter medo, Blueboy. — Rouge disse suavemente. — E tem a nós, estamos do seu lado. — Ela sorriu calmamente, embora ele não pudesse ver. — E coloca um sorriso no rosto, sweetie. Não vê o quão lindo é essa notícia? Assustadora sim, surpreendente também. É muito raro acontecer em gravidez natural. — Acariciou seus espinhos suavemente enquanto sentia Sonic se acalmar.
— De toda forma — começou Mary, do outro lado da cama sem se mover de seu lugar — teremos que cuidar muito bem dessa gravidez. Principalmente você, ouriço. Precisa de mais cuidado em sua rotina, mais descanso, pouco esforço. Tivemos sorte que sua crise não lhe trouxe muitos problemas. — A voz da morcega era séria, toda a postura suave havia abandonado seu semblante. — Os primeiros meses são os mais perigosos, não só para a saúde do embrião, mas para a da “mãe” também. — Ela advertiu, enquanto olhava para outro canto do quarto como se precisasse desviar a atenção para algo.
Sonic parecia visivelmente mais calmo e aos poucos se soltava de Rouge, olhava para a morcega com curiosidade e atenção.
— Mais precisamente com sua alimentação e sono. — Continuou a morcega com uma voz mais profissional.
Sonic deu um suspiro entediado.
— Mas por enquanto, vamos às compras. — Concluiu mudando de assunto. Conseguindo de Sonic um erguer de olhar.
— Não foi você que agora mesmo falou que eu tinha que repousar? — Perguntou olhando para ela com a feição incrédula.
— Sim, mas isso não impede você de fazer algumas coisas. — Respondeu calmamente. — Sem mencionar que terá que organizar as roupas e itens para a criança, ouriço. É mais válido já começar que apenas deixar para a última hora, acredite, isso só geraria muito estresse. — Advertiu de forma autoritária.
— Eu não tenho tanto dinheiro. — Sonic admitiu, olhando para ela de forma constrangida, enquanto olhava para suas mãos.
De todas as coisas que certamente não haviam passado por sua mente, fazer compras de itens de bebês era uma delas, talvez por toda a surpresa que teve ao longo da semana e pelo mal estar constante que sentia, era algo que não tinha passado antes por sua mente e agora que a questão veio à tona, ele se sentia como um idiota.
Bem, não era como se ele fosse obrigado a lembrar de tudo e ter noção de tudo, o ouriço se sentia ainda perdido, aceitar que era hermafrodita era uma coisa que ele conseguiu levemente aceitar, a gravidez também foi algo que ele não esperava, não tinha desejado, não queria de início, mas depois, depois foi como se ele sentisse que bem no fundo sempre desejou isso. Mas tinha problemas em seu caminho, ele vivia sozinho, tinha há pouco tido uma discussão feia com a única pessoa que ele podia chamar de família.
Depois que sua cabeça esfriou, depois que sentiu todo o estresse e fúria escorrer pelo ralo enquanto relaxava com o banho, ele podia pensar no quão fora de si ele ficou, mas, ao ouvir as palavras cheias de ódio direcionadas para o seu filho, a forma como o garoto se dirigia para seu bebê, ele apenas não conseguiu controlar, uma fúria sem precedentes tinha tomado conta de si, era como se ele não tivesse mais controle de seus pensamentos, como se ele não tivesse mais vontade própria, era como se toda sua mente fosse controlada pela imensa vontade de defender seu filho, ou melhor, seus filhos.
Deu um suspiro exausto.
Continuava a olhar suas mãos enquanto flexionava os dedos distraidamente, perdido em seus próprios devaneios.
Como ele poderia ignorar o fato de, de uma forma ou de outra ele teria que dar tudo de si parar dar aos seus filhos tudo o que ele não teve quando era mais jovem, ele era feliz, não podia negar, tinha uma mãe atenciosa, um tio de considerado que tirava risadas do pequeno ouriço e, mesmo que por um tempo bastante curto, tinha uma amiga para que pudesse esquecer de que ele era um garoto solitário.
Mas, apesar de sua mãe ter sido extremamente amorosa, eles por vezes passavam dificuldades, ela era mãe solteira, já cansou de chegar em casa chorando correndo para os braços de sua mãe quando um ou outro garoto da ilha feriam lhe, não fisicamente, mas com ofensas que faziam o pobre coração do ouriço se quebrar. As palavras corroíam lhe o peito quando ouvir coisas como “seu pai te odiava, por isso te abandonou” ou pior ainda: “minha mãe disse que você foi encontrado no lixo.”
Se abraçou fortemente ao ter essas lembranças, não sabe porque foi logo as ter naquele momento, mas, ao pensar que talvez seus filhos sofressem com palavras cruéis, fez com que ele temesse por eles, mais do que isso, fez com que sentisse um imenso pânico tomar conta de si, era como tudo pudesse lhes ferir, quando deu por si, estava tremendo.
Braços quentes contornavam os seus próprios quando se sentiu ser envolvido em um abraço forte onde ele sentia claramente o cheiro de perfume feminino caro e forte. Franziu o nariz ao cheiro, porém não fez nada para a afastar, sentindo-se novamente precisando de um abraço forte.
Suspirou novamente, dessa vez mais calmo.
— Na verdade, Blueboy, tem sim. — Ouviu a voz presunçosa de Rouge soar, enquanto ela afrouxava seu abraço lentamente, não fazendo quaisquer questionamentos sobre o que poderia ter causado aquela reação de Sonic. Apenas deu-lhe um sorriso enquanto se afastava.
— Não, Rouge. Eu não ganho nada para salvar as pessoas, algumas coisas foram me dadas de presentes porque algumas pessoas se sentiram agradecidas e eu não podia negar. Mas dinheiro? Tenho quase nada, talvez alguns poucos anéis, mas não acho que isso possa pagar tudo... — Disse rapidamente, tentando fazer com que a morcega albina entendesse seu ponto, mas foi recebido com o mesmo sorriso presunçoso enquanto ela balançava a cabeça com alguma diversão nos olhos aqua.
— Hm, Blueboy? — Ela chamou-lhe a atenção, enquanto virava de costas e coloca sua mão direita entre seus seios, procurando algo, um pouco distante do quarto, pode-se ouvir um estalo, Sonic virou para aquela direção para ser Mary com a mão no rosto.
— Agente, agora não é o momento de arrumar o sutiã. — Mary repreendeu, enquanto balançava a cabeça em descrença.
— Achei! — Ela exclamou ignorando o comentário de Mary, virando para Sonic com um sorriso no rosto enquanto segurava um cartão preto e prata, onde podia-se ser fracamente o logo da G.U.N e de um banco.
Tanto Mary quanto Sonic olharam para a morcega de forma confusa, enquanto ela parecia sustentar uma expressão presunçosa.
— É de Shadow. — Ela deu de ombros. — Ele deixou comigo quando dividíamos o apartamento. — Explicou enquanto via Sonic estreitar os olhos. — Hey, não faça essa cara, Blueboy. Eu não toquei no ‘seu Shadow’. — Deu um sorriso zombeteiro enquanto o ouriço azul virou o rosto para outro lugar, baixando a cabeça tentando esconder a expressão constrangida.
Teria ele tido um momento de ciúmes? Ou talvez fosse os hormônios mexendo com sua cabeça? Seja o que for, ele não gostou nenhum pouco dessa sensação. Balançou a cabeça fracamente tentando esquecer o pensamento. Ele não tinha o direito de sentir ciúmes, não tinha o direito de sentir que Shadow lhe pertencia, eles apenas se ajudavam, certo? Mas, porque no fundo ele queria tanto que Shadow lhe pertencesse?
Antes que ele pudesse se aprofundar mais nesses pensamentos, a voz de Rouge voltou a soar e ele a agradeceu mentalmente por isso.
— Não é nenhuma novidade que Shadow é o Ultimate Lifeform. — Ela revirou os olhos. — Ele insiste que não precisa de nada, ele não come, pouco precisa dormir e não adoece. — Disse fazendo uma careta. — Ele recusou o plano de saúde, mas de qualquer forma ele é pago pelas missões. Mesmo ele dizendo que não precisa de pagamento, já que ele faz isso pela promessa, mas mesmo assim o Comandante pode parecer um velho ranzinza, mas não é injusto. — Ela disse, mesmo parecendo incrédula pelo que saiu de sua boca.
De um canto pode ouvir a risada baixa de Mary, se divertindo com o que Rouge disse.
— Então como Shadow não tinha escolha, ele me deu o cartão. — Ela disse concluindo. — Talvez por que ele sentia que deveria me pagar por dividir o apartamento? — Ela se perguntou. — Sério, eu não consigo entender! — Ela resmungou. — Mas mesmo que ele tivesse me dado, eu não usei nenhuma vez. — Ela disse, mesmo recebendo olhares incrédulos em sua direção. — O que é?
— Rouge, você não gastando algo dado em joias é nova para mim, desculpe. — Sonic riu, olhando para ela divertidamente.
Ela revirou os olhos, enquanto se abanava com o cartão.
— Estou falando, sério! — Ela protestou, inflando as bochechas de forma infantil. — A G.U.N paga muito bem, praticamente tenho uma vida confortável, nem preciso disso. — Jogou o cartão para Sonic, que o pegou em reflexo.
— O que? — Ele perguntou surpreso.
— Ele te pertence por direito. — Ela sorriu. — Shadow não vai dar por falta. — Deu de ombros. — Já que ele me deu isso, eu posso fazer o que quiser, incluindo entregar para quem realmente pertence.
Sonic ainda parecia confuso, foi quanto Rouge bufou revirando os olhos.
— Sério, Sonic? — Ela disse como se estivesse explicando algo simples para uma criança. — É o cartão do pai dos seus filhos, preciso dizer mais que isso? — Ela colocou a mão na cintura. — Você é dono disso por direito, é seu, você usar para algo mais importante, como para seus filhos, não é ótimo? — Ela sorriu.
— Eu não posso aceitar... Não é meu... — Ele estendeu a mão com o cartão para a morcega, olhando para o outro lado. Sua expressão era levemente triste. — Não é meu por direito... Eu só cometi um deslize... — Ele murmurou baixo, sua expressão entre triste e desolada.
— Sonic the Hedgehog! — Rouge olhou para com repreensão, as mãos na cintura e o olhar feroz. — Esse cartão é seu e ponto final! — Ela disse tirando uma careta do ouriço. — Pense nos seus filhos! Eles vão precisar muito, considere como um presente de Shadow sem ele ter noção que o deu. — Deu um sorriso para o ouriço que ergueu o olhar. — Sério, Sonic. Não seja teimoso, aceite isso e vamos logo às compras, porque se ficarmos mais tempo aqui, não vai ter nenhuma loja aberta! — Ela exclamou com falsa animação, enquanto Sonic ainda protestava.
Mary tinha apenas saído do quarto e dado privacidade para os dois, descendo as escadas e se sentando ao lado de Nyazu que estava recostada no sofá distraidamente.
Pouco tempo depois, podia-se ver um Sonic sendo praticamente sendo arrastado por uma Rouge séria. O ouriço trajava seus costumeiros tênis e luvas brancas, tendo em adição um moletom azul marinho que era grande o bastante para alcançar metade de suas coxas, era bastante folgado, de modo com que o pequeno volume não fosse facilmente notado de forma alguma.
As duas mobians que estavam sentadas se levantaram de pronto, mesmo que Nyazu parecesse distraída com algo, Mary estava séria e Rouge parecia genuinamente animada.
Então o quarteto saiu da casa, usando o carro de Mary como locomoção.
Só não faziam ideia do quanto estresse isso poderia acarretar.
Ou talvez, alguém em particular soubesse.
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