Bittersweet.
23 23. Olhe para si, Sonic. O que vê?
Notas iniciais
Seu mundo parecia desabar enquanto ouvia as palavras saírem dos lábios da morcega.
Não podia ser verdade, podia?
Seus olhos se arregalaram, sua boca se abriu em uma demonstração de puro choque, enquanto as palavras ecoavam repetidamente em sua mente.
‘Como? Quando? Por quê?’ Eram as perguntas que sua mente conseguia fazer, embora ele claramente não conseguia expressar qualquer palavra de forma oral, chocado como estava.
Ouviu o suspiro da morcega, enquanto ela mantinha um olhar atento sobre sua figura paralisada. Ele não conseguia forçar as palavras saírem de seus lábios, seu choque e medo o deixava em um estado de paralisia humilhante que ele não sabia nem como perguntar.
— Eu estaria mentindo se disse que sei a razão por trás disso. — Disse calmamente, enquanto mantinha o olhar sobre o ouriço, que levantou a cabeça para a encarar de volta, embora fosse claro que ele ainda não conseguia formar palavras coerentes para a questionar. — Não é um ou outro fator que pode resultar em aborto espontâneo, ouriço. Até a data de hoje, a ciência não sabe explicar o pode ou não pode causar isso, embora no seu caso a resposta não seja tão difícil.
— M-meu caso? — Custou-lhe a encontrar as palavras, embora para ele sua voz soasse patética e confusa, via nessa simples e curta pergunta, um progresso de seu estado de confusão.
— Olhe para si mesmo, Sonic. O que vê? — Ergueu a mão em sua direção, o dedo indicador esticado como se estivesse apontado para seu peito.
Ele fez o que ela pediu, foi quando o peso de suas palavras caiu sobre si. Ele era externamente um ouriço macho, visivelmente a ideia de que ele poderia conceber era algo absurdo se o olhasse.
Foi então que aos poucos, o quebra cabeça começava a fazer sentido.
— Ouriço, seu caso não é tão simples quanto ser um mobian hermafrodita, na verdade, isso não deveria acontecer. Mas aqui está, a prova de que nada é impossível... — Começou pensativa, enquanto olhava para ele de forma curiosa e ao mesmo tempo admirada. — Hermafroditas verdadeiros, com a capacidade de reprodução são em geral com corpo externo feminino, por razões óbvias. Em todos os meus anos de trabalho, só encontrei um masculino...
Os olhos verdes se animaram repentinamente, uma chama de esperança de que ele não fosse tão diferente quanto se sentia brilhava e aquecia seu peito. Talvez houvesse uma chance.
— O que aconteceu com ele? — Perguntou com ansiedade, queria saber se teria alguma chance de não perder seu filho, que estava desesperado por alguma resposta positiva.
— Sonic... — Seu tom de voz para um mais baixo, cauteloso. — Infelizmente a ajuda veio tarde para ele... Por razões obvias ele escondeu sua gravidez e não procurou ajuda a tempo... Ele foi abandonado na rua pelo parceiro e família, ninguém estava disposto a ajudar um hermafrodita grávido... Quando eu o encontrei... Já estava com a gravidez avançada, machucado e subnutrido, sobre os ferimentos eu poderia culpar os garotos se que se acham superiores, delinquentes de família rica que acham que pode tudo. — A viu fechar as mãos em punhos, seu rosto mudando para uma expressão escura e raivosa.
Não se recordava de ver alguém tão chateada quanto ela, a forma como sua postura havia mudado para uma tensa e furiosa, fazia com que ele sentisse medo e não queria saber o porquê.
— Quando o encontrei, ele estava com sintomas de parto prematuro, me admiro que tenha conseguido por tanto tempo manter a gravidez, apesar de tudo o que estava acontecendo, seus hormônios, sua saúde... Eu consegui o levar para o hospital, tinha as credenciais necessárias para o levar para o centro clinico mobian que estava mais próximo de onde o encontrei. — Baixou a cabeça, ao mesmo tempo em que ela parecia com raiva, sua expressão mudou para uma de tristeza.
Sonic sabia que o desfecho não poderia ser dos melhores, mas mesmo assim, a forma como ele presenciou toda a narrativa com curiosidade e surpresa, somava-se a sua surpresa por ver a morcega que tinha uma feição séria e até mesmo fria, demonstrar tantos sentimentos em um espaço tão curto de tempo. A observou se dirigir para a cadeira que sempre a via sentada, embora se corpo estivesse direcionado a ele assim como seu olhar penetrante.
— Todos os meus esforços tinham sido em vão, seu corpo não estava em condições de seguir com a gravidez. — Sua voz tomou um tom baixo e frio. — Eu assisti ambos morrerem, sem poder ajudar. Foi a primeira vez que falhei. Também foi o primeiro contato que eu tivesse com mobians hermafroditas. — Seu olhar cruzou com os verdes do ouriço, Sonic via a determinação naqueles olhos castanhos por trás das lentes dos óculos.
— Mas a culp— Tentou dizer, mas foi interrompido pela morcega, que tinha um tom tão gélido que fez suas palavras sumirem.
— Ah, ouriço, foi. Ele estava sangrando muito quanto o encontrei, se eu não tivesse me distraído, se eu tivesse sido mais rápida para conseguir socorro, eu teria salvo ambos. A falha foi totalmente minha... Meu descuido teve o custo duas vidas. — Ela baixou a cabeça, como se envergonhada de uma fraqueza que ele desconhecia qual. Ambas as suas mãos estavam apoiadas no joelho, os apertando com força, porém do seu ângulo de visão, Sonic não poderia ver muito.
— Desde aquele dia pesquisei mais, estudei mais, criei um novo banco de dados nos sistemas da G.U.N., pedi permissão do Comandante para que eu pudesse agir como uma espécie de assistente social e ajudasse toda e qualquer gravidez de mobians hermafrodita. — Seu olhar se erguei novamente, um pouco mais controlada, sua voz era neutra, embora Sonic pudesse deduzir que ela estava em um conflito interno. — Se eu lhe dissesse que ele concordou de imediato, estaria mentindo.
Ela se calou por alguns minutos, talvez perdida em pensamentos. Ele não sabia dizer.
— Sonic, eu não vou quebrar a minha promessa. — Ela o olhou de forma serena e tranquila. — Mas você tem que estar ciente de que a sua gravidez traz um risco maior do que seria com uma fêmea, seu corpo pode não se adaptar as mudanças da gestação, pode haver muitas outras complicações. É um risco muito grande, as chances de dar errado são altas. — Sua voz carregava uma espécie de suplica. — Não é só passar por 40 semanas, não é tão simples quanto parece carregar uma criança.
Olhos verdes se abaixaram, sua mão tocando distraidamente o pequeno volume que podia sentir em sua barriga.
Alguns minutos de silencio passaram, quando ele percebeu que deveria falar alguma coisa.
— Então... — Começou hesitante, sua voz mais calma, embora ele mesmo sentisse um leve medo, mas tão forte para que pudesse lhe incomodar. — Quais são os riscos...? — Perguntou, sua voz mais suave e tranquila, como se aceitasse sua condição e o risco que poderia correr.
— Cada gestação é diferente de uma para outra, não há como ter 100% de certeza, mas no seu caso eu posso ter cerca de 99%. — Respondeu no mesmo tom mais tranquilo. — O estrógeno ocupa metade do espaço que a testosterona, porém como seu corpo é mais masculino, creio que a porcentagem de estrógeno é relativamente menor, o que eu poderia corrigir com isso — pegou um dos fracos, contendo pílulas que ele desconhecia o que era — são pílulas de estrógeno, o que tornaria a possibilidade de aborto menor, mas tem um porém.
Ela se levantou e saiu do quarto sem mais explicações, Sonic confuso ficou encarando a direção para a qual ela tinha ido, sendo a porta de entrada do quarto. Seu braço não estava incomodando como no início, o que abriu espaço para que a seus pensamentos pudessem correr normalmente sem qualquer distração.
Sua mente vagou absorvendo toda e qualquer informação que ele recebeu. Como ele não conseguiria se imaginar estando no lugar do mobian sem nome que acabou perdendo a vida pela ignorância de seus próprios semelhantes, acariciava lentamente sua barriga enquanto imaginava várias situações que ele poderia presenciar, olhares feios, de nojo ou até mesmo de decepção.
Sentiu seus olhos se encherem de frescas lágrimas quando a imagem mental de todos os olhares fazia com se encolhesse de medo e até mesmo de tristeza.
Ele não poderia colocar em jogo uma pequena vida inocente só porque não era bem aceito socialmente. Não poderia negar a chance de vida para um ser que já amava tão fortemente, para um pequeno que daria a vida para que ele pudesse nascer.
Naquele momento ele sentiu que conseguia se identificar com o mobian sem nome, nem descrição. Ele tinha uma pequena noção dos pensamentos dele, do amor que possivelmente ele estaria sentido por algo que crescia dentro de si. E ele sabia que, mesmo que o caminho que escolheu tivesse muitos baixos, ele não se arrependeria, porque estaria lutando por aquilo que ele poderia chamar de família, mesmo que incomum ou até mesmo incompleta... Ele não se negaria mais a algo que inconsciente e tão fortemente desejava, mas negava por orgulho ou até mesmo medo.
Suspirou com o pensamento de não se sentir mais sozinho, a mão ainda repousada em sua barriga, como se para se assegurar do que estava acontecendo. Ainda parecia tão surreal que ele encontrava dificuldades para descrever o quanto se sentia admirado e ainda surpreso.
Ouviu o retorno da morcega, tão quieta quando saiu, ela voltou. Carregava uma caixa nas mãos, seu olhar estava tão neutro quanto possível, tanto que ele se incomodou com a falta de diálogo dela, entretanto, algo na sua postura fez com que ele se sentisse tenso, por alguma razão que ele desconhecia a origem.
Ela depositou a caixa na mesa, com cautela, enquanto a abria lentamente.
Não estava prestando tanta atenção na morcega quanto devia em uma situação como aquela, porém sabia que ela não era nenhuma espécie de inimiga ou má pessoa.
Ou assim ele esperava.
Ela se virou para ele com cautela, uma das mãos estava com uma tira de silicone semitransparente de uma cor amarelada, na outra equilibrava um pacote de algodão em um vidro de álcool em gel.
Olhou para aquilo com os olhos franzidos em desconfiança, algo nele dizia que o que aconteceria a seguir não seria tão agradável para ele.
— Não me olhe dessa forma ouriço. — Advertiu a morcega com um olhar plano, apesar de sua postura ser levemente tensa. — Não posso passar nenhum medicamente sem nenhum tipo de exame antes. Não vou correr riscos, além de ser exame obrigatório agora que você vai começar seu pré-natal.
— O quê? — Piscou, olhando para a morcega com curiosidade, ela por sua vez depositou os itens na cômoda enquanto voltava para onde estava a caixa de antes, procurando algo nela.
— Ah, você não sabe muito, certo? — Perguntou compreensiva, não precisava ouvir a resposta dele para saber. — Bem, é assim que chamamos o acompanhamento da gravidez, o que remete a uma série de exames e consultas frequentes para acompanhar o desenvolvimento da gravidez, para evitar qualquer tipo de problema para a gestante e a criança.
— Ah... — Murmurou.
— E não só isso, como a prevenção ou o diagnóstico de doenças genéticas, como Síndrome de Down ou deficiências. — Virou de frente para ele, seu rosto possuía um sorriso mínimo. — Então, vamos começar?
— Mas e sobre o a-abor-to? — Gaguejou levemente, seus olhos suplicantes por uma resposta.
— Não posso fazer nada até que sejam efetuados exames, qualquer tipo de medicação só pode ser prescrita mediante a necessidade deles, ouriço. — Explicou chegando perto dele novamente. — Porém eu estava em falta deles, bem, meu trabalho é acompanhar vocês, hermafroditas, em suas gestações.
Colocou uma cartela de agulhas na cômoda, junto com uma seringa estranha em uma embalagem, ele nunca viu uma como aquela no laboratório de Tails, mas não falou nada sobre isso.
Voltou novamente para a caixa, pegando uma outra cartela que ele desconhecia sobre o que tinha.
— Mas, não posso garantir que não precisa se preocupar, porque não posso dizer que está tudo bem. — Disse calmamente. — O sangramento não era abundante, eu poderia chamar de “susto”, acontece com mais frequência do que você poderia imaginar, é difícil distinguir um início de aborto do sangue que sai quando a placenta está se acomodando a parede uterina, porém, para um mobian cujo período menstrual não é visível, um sangramento em uma gravidez como a sua, é no mínimo preocupante.
As palavras se acomodavam em sua mente, lentamente, enquanto ele tentava se acomodar na cara, sentiu quanto ela pegou seu braço com cuidado, sabendo que tinha sido logo esse o que tinha machucado e puxou a manga lentamente com cuidado, dobrando o tecido até a metade do braço, franziu a testa.
— Eu tiro... — Disse baixo, desabotoando a camisa com cuidado e tirando um dos braços da manga, ficando meio vestido.
Ela assentiu agradecendo.
Pegou a tira de silicone que ele havia visto antes e amarrou-a pouco acima da dobra do seu cotovelo, apertando não muito. Abriu o pacote de algodão, pegando uma bola cheia molhando a com o álcool, esfregou na parte interna do braço, mantendo-o por hora.
Abriu o pacote da seringa estranha, logo pegando uma das agulhas e a inseriu naquela seringa, abrindo outro pacote, depois de analisa algo nele, e encaixou na seringa.
— Bem, ouriço, creio que será um pouco desconfortável. — Tirou o algodão, inserindo a seringa depois de dedilhar com a ponta do dedo onde seria o melhor lugar.
Sonic trincou os dedos, puxando o ar por eles.
Ela repetiu a tiragem, porém sem tirar a seringa, só trocando os pequenos potes que tinham cores e escritas diferentes. Sentiu-se aliviado quando terminou, o algodão pressionado em seu braço dava uma sensação de ardor, mas era ignorável até pelo furo ter sido pequeno.
A assistiu pelo olhos descartar a seringa e a agulha, jogando-as no lixo, pegou os pequenos ‘potes’ que tinha seu sangue e os guardou em um saco que tinha na caixa.
— Não posso te receitar reposição de progesterona por enquanto até saber a quantidade ideal, creio que a sua taxa de estrógeno também é baixa, bem, saberemos o que fazer depois ter os exames em mãos. — Olhou para a escrivaninha, como se lembrasse de algo. — Mas posso te receitar ácido fólico, na verdade é o que você deveria estar já tomando. Bem, quer algo para comer?
— Que? — Piscou surpreso enquanto tirava o olhar distraído do teto para encarar a morcega. — Não... Não sinto fome.
— Entendo. — Sorriu. — Bem, deixarei você descansando por hora, se quiser algo ou mudar de ideia sobre comer algo, me chame.
— Sim...
Fechou os olhos, sua cabeça estava cheia de tantos pensamentos, sentia uma leve fraqueza que ele ignorou. Sentia que era certo seguir os conselhos da morcega, que ela não fazia isso por maldade, mesmo assim, para ele ainda era estranho tanto tempo parado, a vontade de sair daquele lugar era enorme, mas, ele não podia ser egoísta mais, ele agora seria pai, ou melhor, mãe. Não podia colocar suas vontades em primeiro lugar, não mais, tinha algo mais precioso para velar e isso fazia todos os seus pensamentos mudarem.
A morcega foi para a escrivaninha em que estava antes, pegando seu computador pela mão e fechando a porta atrás de si. O corredor não era longo, suspirou, teria problemas, muitos deles e já estava se sobrecarregando outra vez.
Foi para a sala, onde sabia que poderia encontrar Nyazu, talvez a raposa já estivesse com fome, mas, parou em meio caminho ao ouvir a porta.
— Quem é? — Ouviu a voz de Nyazu soar, meio hesitante, talvez com receio. Piscou. Ouviu o movimento de suas mãos quando tocou a maçaneta.
— Sou Rouge the Bat, Sarah me passou o recado de que queriam falar comigo. Você é Mary? — Ouviu a voz levemente sensual da porta, mesmo abafada pela madeira, então essa era de fato a Rouge? Andou calmamente para que os ouvidos sensíveis não a notassem.
As duas se encaram por um tempo, Rouge já impaciente repetiu a pergunta.
— Você é a Mary? — Perguntou com um tom cansado e impaciente.
Antes que Nyazu pudesse responder, Mary se adiantou, confortavelmente escorada na parede com seu computador na mão.
— Não, Mary sou eu.
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